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Full text of "Formação da comunidade científica no Brasil"

Um Espaco para 
A ClENCIA 

A Forma^ao da 
Comunidade Cienu'fka no Brasil 







UM ESPACO PARA A CIENCIA: A FORMACAO DA COMUNIDADE CIENTIFICA 

NO BRASIL 



Simon Schwartzman 

(Brasilia Ministerio de Ciencia e Tecnologia 2001) 
traducao de Sergio Bath e Oswaldo Biato 

Prefacio 

Prefacio a edicao inglesa 

Capitulo 1 - INTRODUCAO - UM ESPACO PARA A CIENCIA 

Sisifo 

desenvolvimento de uma comunidade cientifica 

A busca da ciencia 

Ciencia tecnologia e as profissoes 

Um sumario 

PRIMEIRA PARTE: OS FUNDAMENTOS 

Capitulo 2 - A HERANCA DO SECULO DEZOITO 
Os temas principals 
As novas universidades 
A Contra-Reforma 
A reforma de Pombal 
Estado a Igreja e a Educacao no Brasil 
Projetos para uma universidade brasileira 



Capftulo 3- A CIENCIA NO IMPERIO 

Ciencia colonial: os naturalistas 
Ciencia Imperial: o seculo dezenove 
A educacao superior 
Engenharia e Mineracao 
Medicina e Cirurgia 
A ciencia imperial em perspectiva 

Capftulo 4 - AUGE E DECLINIO DA CIENCIA APLICADA 
Da Velha Republica a revolucao de 30 
A "ilustracao brasileira" 

Da astronomia tradicional a matematica moderna 
Da medicina sanitaria a pesquisa biomedica 
A pesquisa geologica e o nacionalismo economico 
Sao Paulo assume a lideranca 

Capftulo 5 - A REVOLUCAO DE E AS PRIMEIRAS UNIVERSIDADES 
A "Educacao Nova" e a Igreja Catolica 
A procura de alternativas 
A Reforma Francisco Campos 

Um projeto liberal: a Universidade do Distrito Federal 
Um modelo a ser seguido: a Universidade do Brasil 
Uma nova elite para uma nova nacao: a Universidade de Sao Paulo 

Capftulo 6 - AS RAIZES DAS TRADICOES CIENTIFICAS 
Da agronomia a genetica 

Partindo de Manguinhos: os novos institutos de pesquisa biologica 
Qufmica: limites e possibilidades do modelo alemao 
Gleb Wataghin e a ffsica dos raios cosmicos 



esforc o de guerra 
Desenvolvimentos do pos-guerra 

SEGUNDA PARTE: CRESCIMENTO 

Capitulo 7 - A PROFISSIONALIZACAO DA CIENCIA 
Os Pioneiros 

Segunda Geracao: Inicios da Profissionalizacao 
Segunda Geracao: As Ciencias Exatas 
Cientistas Modernos: a Terceira Geracao 
Fontes de Apoio Financeiro 
A Fundacao Rockefeller no Brasil 
Centralizacao administrativa e a Pesquisa Cientifica 

Capitulo 8 - MODERNIZACAO DO POS-GUERRA 
Cientistas como parte da Intelligentsia 
Energia Nuclear e o Conselho Nacional de Pesquisas 
As novas universidades de elite 
Expansao da Educacao Superior 

Capitulo 9 - GRANDE SALTO A FRENTE 

Ciencia e Tecnologia para o Desenvolvimento Economico 

A reforma da educacao superior 5 

Os Novos Programas de Pos-Graduacao 7 

Instituicoes de Alta Tecnologia 

"Big Science" e Alta Tecnologia 



Capftulo 10 - EPILOGO 

Pujan^a e Decadencia 

Politica: do Governo Militar ao Civil 

Educafao Superior de massas 

Tecnologia e Economia 

Demonio 

Apendice - Lista de Entrevistas 

Referencias Bibliograficas 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

a formagao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



PREFACIO A NOVA EDICAO 

Sou muito grato ao M inisterio de Ciencia e Tecnologia pela publicacao desta 
nova versao de F ormagao da Comunidade Cientlfica no Brasil. A primeira edicao, de 
1979, foi feita pela Companhia Editora Nacional, entao sob intervencao do BNDES, 
com recursos da FINEP. Sem objetivo comercial, ela nunca chegou as livrarias, tendo 
sido distribufda, no entanto, para bibliotecas, autoridades, cientistas e estudiosos do 
assunto. No final dos anos 80 surgiu a possibilidade de preparar uma versao inglesa 
do texto, que foi publicada pela Pittsburgh University Press, nos Estados Unidos, em 
1991. Para essa edicao, o texto original foi rescrito e atualizado, e a estrutura original 
do livro foi profundamente alterada. A nova versao brasileira, que agora se publica, e 
uma re-traducao ao portugues da versao inglesa de 1991. Isto foi feito porque nao 
teria sentido voltar ao texto original de 1979, ja superado; e a preparacao de uma nova 
versao em portugues significaria um longo trabalho de pesquisa e rei nterpretacao das 
informacoes, o que terminaria por inviabilizar esta reedicao. Sou muito grato tambem 
a Sergio Bath e Oswaldo Biato pelo excel ente trabalho detraducao. 

Acredito que o principal merito deste livro talvez tenha sido o de ajudar a 
estabelecer a area de estudos sociais e historicos sobre a ciencia e a tecnologia no 
Brasil, campo que se expandiu e se transformou muito desde entao. M uitos dos temas 
e informacoes tratadas tern sido objeto de estudos mais detalhados e aprofundados, o 
que torna a tarefa de refazer a historia da ciencia brasileira algo muito mais diffcil do 
que foi a preparacao da primeira edicao deste trabalho. Enquanto esta nova visao 
historica da ciencia brasileira nao surge, este livro, agora mais acessfvel, podera 
continuar como fonte de pistas, indicacoes, ideias e temas sobre o tema da ciencia, da 
tecnologia e da educacao superior no pais. 

M uitas coisas ocorreram desde a primeira edicao deste livro mais de trinta 
anos atras. O campo de estudos sociais sobre a ciencia se alterou profundamente, a 
ciencia brasileira se transformou bastante, e minha propria maneira de ver a questao 
tambem se transformou. 

Eu poderia descrever minhas preocupacoes, ao iniciar este trabalho na decada 
de 70, como uma tomada de posicao entre dois polos do que se poderia chamar, hoje, 
de uma visao modernista, enlightened, do papel da ciencia na sociedade moderna. 
Uma destas visoes era representada, no Brasil dos anos 20 e 30, pelo matematico 



Prefacio a nova edicao - 2 

Amoroso Costa, que defendia a "Ciencia Pura", e, na tradicao sociologica, por Max 
Weber, que procurava distinguir com clareza a ciencia da polftica; por Robert K. 
M erton, autor das ideias seminais, nos anos 40, sobre os sistemas de valores que 
deveriam acompanhar a cultura da ciencia; e por Joseph Ben-David, que pesquisava o 
surgimento, desenvolvimento e transformacoes do "scientific role", do papel dos 
cientistas nas sociedades modemas. 

A outra posicao, dominante entre cientistas, militares e economistas 
brasileiros, talvez pudesse ser tracada a August Comte, e tinha como expoentes, nos 
anos 30, o cientista britanico J. D. Bernal e o frances Frederic J uliot-Curie, ambos 
influenciados pelo marxismo. Os dois campos compartiam a ideia de que as ciencias 
empfricas eram um componente central das sociedades modemas, e que era 
importante desenvolve-las ao maximo, para que os valores da objetividade e da razao, 
e os produtos tecnologicos derivados de suas aplicacoes, pudessem ser utilizados para 
o beneffcio de todos. Para os primeiros, a ciencia fazia parte de um movimento 
civilizatorio e cultural muito amplo, centrado nos valores da liberdade, 
individualidade, e racionalidade, que se justificava por si mesmo, pelos valores e 
"demonios" que levavam as pessoas a defende-los, independentemente de seus 
possfveis usos e implicacoes praticas. Mais do que isto, diria M erton. Quando os 
valores da "republica da ciencia" nao sao respeitados, quando a inteligencia e a 
racionalidade sao colocados a servico do poder, a logica da forca prevalece sobre a 
forca da logica e da inteligencia, os frutos do conhecimento se voltam contra seus 
cri adores, ea propria sobrevivencia da atividade cientffica setorna impossfvel. 

Entre os do segundo polo predominavam os cientistas naturais, os tecnologos e 
engenheiros, e nao os sociologos ou filosofos. Estes cientistas acreditavam que com 
seus metodos, suas tecnologias e sua eficiencia, estavam destinados a tirar o mundo 
do atraso e da ignorancia, e a instaurar o reino da razao, aonde os proprios cientistas, 
naturalmente, exerceriam o poder, para o beneffcio de todos. Enquanto que os 
primeiros buscavam identificar o lugar proprio da comunidade cientffica, seus valores, 
sua cultura, e suas instituicoes, os segundos se preocupavam em buscar e estabelecer 
os vfnculos entre a ciencia e o poder economico, polftico e militar. Enquanto os 
primeiros temiam o pacto faustiano entre a ciencia e o poder, os segundos nao 
queriam outra coisa. uso da tecnologia e de princfpios supostamente cientfficos para 
a organizacao da vida social e economica nos regimes autoritarios europeus no pre- 
guerra, tanto na Uniao Sovietica quanta na Alemanha, assustava os do primeiro 
grupo, e fascinava os do segundo. 

Pesquisando o tema da ciencia em tempos do regime polftico militar, que 
buscava levar a f rente um projeto autoritario de modernizacao e desenvolvimento, eu 
mefiliava com clareza ao primeiro grupo, defendendo a comunidade cientffica contra 



Prefacio a nova edicao - 3 

o uso instrumental da tecnologia, buscando inserir nossa escassa tradicao cientffica 
em nossa tambem escassa tradicao liberal e democratica. E provavel que este ato 
explfcito de subversao nao tenha sido percebido, talvez porque o que se discutia no 
Brasil, naqueles tempos como agora, nao era a oposicao entre dois projetos 
modernistas, o liberal e o autoritario, mas a oposicao entre o "tradicional" e o 
"moderno", fazendo com que as diferencas entre os distintos projetos modemizadores 
se confundissem - o que explica, alias, a facil convivencia entre a esquerda e a direita 
brasileiras, no apoio a projetos tecnologicos como a polftica de informatica e o 
programa nuclear, apesar dos alinhamentos opostos dos dois grupos na guerra fria. 

Nos anos 70 e 80, os estudos sociais da ciencia passaram por uma grande 
revolucao, que consistiu na "desconstrucao" das ideias modernistas, e culminou 
naquilo que ficou conhecido no final dos anos 90 como a "guerra das ciencias", as 
"science wars". Liberais ou autoritarios, os modernistas concordavam que o 
conhecimento cientffico era distinto do conhecimento comum, que havia uma 
demarcacao clara que separava o pensamento racional do pensamento irracional, os 
especialistas e iniciados dos leigos, que havia uma Razao, com R maiusculo, que 
podia ser identificada e conhecida, e que era o dever e o destino dos cientistas 
trabalhar para toma-la cada vez mais nftida e brilhante. De repente, sociologos e 
antropologos, muitos deles oriundos das ciencias naturais, comecam a observar os 
cientistas como quern observa os fndios em suas tribos, e chegam a conclusao de que 
nao existe, na verdade, tanta diferenca assim entre os dois mundos, o da ciencia e o do 
sentido comum 1 . Por tras da aparencia de logica e racional idade, que surge nas 
publicacoes cientfficas e dos produtos tecnologicos acabados, assim como nas 
declaracoes publicas dos cientistas, existe um mundo total mente humano de decisoes 
baseadas em interesses, ideias aproximadas e tentativas, disputas de poder, decisoes 
oportunistas sobre temas e prioridades, e o uso da retorica para conquistar aliados e 
derrotar os inimigos. Os conhecimentos cientfficos nao seriam diferentes de outros 
tipos de conhecimento, e as escolhas de temas e as praticas dos cientistas estariam tao 
influenciadas por variaveis sociologicas, culturais e polfticas como quaisquer outras 
praticas humanas 2 . Na ciencia, como na vida, vale tudo, "everything goes" como diria 
o filosofo Paul Feyerabend 3 . O "metodo cientffico" nao passaria de uma construcao 
ex-post, de existencia problem atica e duvidosa. 



^atoure Wool gar, 1979; Knorr-Cetina. 1991. 

2 Bloor, 1976. A influencia das ideias do "segundo Wittgenstein" foi muito grande 
neste entendimento. Veja a respeito Bloor, 1983. 

3 Feyerabend, 1975. 



Prefacio a nova edicao - 4 

Uma vez aberta a caixa de Pandora, tudo passava a ser possfvel. Para alguns, 
no extreme a ciencia nao seria senao um exerefcio de poder de homens ocidentais e 
brancos contra as mulheres orientals e negras, em diversas combinacoes. O 
racionalismo, e a ciencia que o acompanha, seriam simplesmente uma forma peculiar 
de ver a realidade, distinta, mas nao superior, e muitas vezes pior que outras formas, 
baseadas na intuicao, na religiao, nas experiencias sensoriais e espirituais de varios 
tipos, ou na visao feminina do mundo. Todos os confrontos de ideias e argumentos 
seriam, na realidade, conflitos de poder. Para os pafses em desenvolvimento, nao faria 
sentido tentar trazer e incorporar a tradicao cientffica oriental, com suas instituicoes e 
seus supostos. Cada um deveria buscar e desenvolver suas formas proprias de 
conhecer, interpretar e modificar a realidade, e lutar, politicamente, contra o 
predomfnio do paradigma cientffico ocidental. 

Colocada nestes termos, a nova sociologia da ciencia se transforma em um 
projeto intelectual anti-modernista, filiado a e nao muito distinto detodas as correntes 
de pensamento que, desde Galileu, resistiram ao avanco da ciencia moderna. Na 
America Latina, ainda que nao tanto no Brasil, surgem os que pretendem substituir a 
ciencia ocidental e seus prinefpios meritocraticos e tecnicos por uma outra ciencia de 
rafzes mais nativas, baseada quern sabe em prinefpios comunitarios, ou nas tradicoes 
misticas e espirituais das populacoes indigenas, ou empobrecidas. 4 

Estas visoes extremas e radicais derivadas da nova sociologia do 
conhecimento nao sao diffceis de refutar, e foram objeto de um ataque cerrado de 
cientistas que, mais uma vez, brandiam os argumentos da racionalidade e da logica 
contra o irracionalismo e o obscurantismo. 5 M as a forca da nova sociologia da ciencia 
nao esta nestes extremos, esim em colocar a nu aquilo que todos, de alguma forma, ja 
sabiamos - que a pratica da ciencia ediferente de sua ideologia e justificacao, e que, 
por isto, nao e possfvel continuar a defender, de forma ingenua e irrefletida, a 
superioridade do conhecimento cientffico, e as coisas que propoem os cientistas e 
tecnologos, sobre todas as demais. 

A verdade, diz Bruno Latour em um pequeno livro, e que "nunca fomos 
modemos", no sentido de que nunca acreditamos plenamente na existencia de um 
mundo do conhecimento cientffico e da tecnica desligado e desconectado do mundo 



4 Eu discuto esta perspectiva com algum detalhe em "O Espelho de Morse", em 
Schwartzman, 1997. 

5 Sokal e Bricmont, 1997. 



Prefacio a nova edicao - 5 

de came e osso das pessoas, dos animais e dos objetos da natureza. 6 Isto nao significa 
que todos os tipos de conhecimento se equivalem, e que o valor e a relevancia dos 
conhecimentos cientfficos e das tecnologias sejam simples expressoes de relacoes de 
poder. M as, justamente pel a sua forca e seu potencial, tanto para o bem quanta para o 
mal, e que nao podemos continuar a tratar a atividade cientffica como um campo 
idealizado da Razao e do Bem, sem entender, em mais profundidade, como a 
atividade cientffica se estrutura, se organiza, busca seus recursos, estabelece suas 
verdades e reordena os atores e objetos que dela participam, ou que sao por elas 
influenciados. 

O principal efeito da nova sociologia da ciencia - e nao so dela - foi abalar 
profundamente a crenca nas virtudes absolutas da ciencia e da tecnica, justamente em 
uma epoca em que a ciencia assume um papel cada vez mais significativo no 
reordenamento da economia mundial, e abre novas e insuspeitadas fronteiras no 
conhecimento dos fenomenos da vida e do meio ambiente. Temos mais ciencia do 
que nunca, nunca dependemos tanto dela como agora, e nunca tivemos tanta clareza 
sobreseus problemas, limites e tambem possibilidades. 

Na perspectiva de hoje, o confronto entre as duas visoes "modemas" a respeito 
da organizacao e o papel da ciencia nas sociedades contemporaneas parece 
ultrapassado. A preocupacao atual, muito mais pragmatica e concreta, ecomo melhor 
usar os recursos que a ciencia pode proporcionar, sem cair na seducao facil dos 
projetos modernistas, e sem colocar a atividade de pesquisa na camisa de forca do 
planejamento tecnocratico, ou da logica de curto prazo dos negocios de mercado. Em 
1993-94 tive a oportunidade de coordenar um trabalho de elaboracao de uma 
proposta de polftica cientffica para o Brasil, que, como o ocorre com trabalhos desta 
natureza, nao chegou a ser utilizado de forma mais explfcita pelos que o financiaram 
(o M inisterio de Ciencia e Tecnologia e o Banco M undial), mas nao deixou de gerar 
um conjunto significativo de estudos e analises, que creio terem proporcionado uma 
nova visao a respeito de onde estamos e para onde deveremos tratar de ir neste tema. 7 
Uma das contribuicoes mais i nteressantes para o estudo foi feita pelo Prof. Lewis 
Branscomb, da Universidade de Harvard, que apresentou um trabalho sobre as 
modificacoes recentes no sistema de ciencia e tecnologia nos Estados U nidos. 8 O que 
Branscomb mostra e que, na experiencia americana, as duas faces do projeto 



6 Latour, 1993. 

7 Schwartzman, Bertero, Krieger, eGalembeck. 1995, 3 volumes. 

8 Branscomb, 1995. 



Prefacio a nova edicao - 6 

modernists, o academico e liberal e o tecnocrata e autoritario, longe de se oporem, na 
realidade se complementavam, ja que eram os gigantescos i nvesti mentos publicos na 
pesquisa militar que abriam espaco e davam recursos para a ciencia academica que se 
desenvolvia sobretudo nas universidades. O fim da guerra fria, e a explosao das 
novas tecnologias voltadas para produtos de consumo de massa e para as 
comunicacoes em escala global, pareciam sinalizar o fim dos i nvesti mentos publicos 
na pesquisa militar. A consequencia foi forcar a pesquisa academica a estabelecer 
lacos muito mais fortes e tambem mais diffceis com um novo parceiro, o setor 
privado. As formas tradicionais de organizacao da atividade cientffica, em 
departamentos academicos estruturados em disciplinas cientfficas bem delimitadas, 
sistemas de merito baseados nas competencias intelectuais, e o compartilhamento dos 
conhecimentos cientfficos por todos que tivessem a necessaria competencia para 
entende-los, pareciam agora antiguidades destinadas a desaparecer. Havia agora novo 
"modo" de producao cientffica, muito mais pragmatico, interdisciplinar, ad hoc e 
contaminado por interesses comerciais e empresariais do que antes. 9 

O estudo de 1993/94 dizia que, 25 anos depois, o sistema brasileiro de ciencia 
e tecnologia ainda estava configurado nos termos do "modelo Geisel", estabelecido 
em meados dos anos 70, e ja em decadencia no infcio dos anos 80. Apesar de sua 
brevfssima duracao, foi um perfodo que deixou saudades entre muitos cientistas e 
pesquisadores, pela abundancia relativa de recursos, pela facilidade com que projetos 
eram aprovados, pelas inovacoes institucionais que ocorreram (como, por exemplo, a 
criacao da COPPE e da Universidade de Campinas) e pela crenca que parecia existir 
no papel da ciencia e da tecnologia como instrumento de desenvolvimento e 
modernizacao do pafs. A parti r dos anos 80, a comunidade cientifica se transformou 
em um grupo de pressao que se mobilizava para obter recursos para sua 
sobrevivencia, usando ainda a retorica de antes, mas com cada vez menos conviccao e 
capacidade de convencimento sobre sua importancia. Neste meio tempo, havia 
tambem mudado o mundo, e o proprio pafs. Era necessario pensar uma nova polftica 
de ciencia e tecnologia para um novo mundo global. Melhor do que parafrasear os 
resultados daquele estudo etranscrever alguns de seus trechos: 

O cenario internacional da ciencia e tecnologia mudou dramaticamente desde que o 
Brasil comecou sua caminhada para o desenvolvimento de C&T nos anos 60. As 
principals caracterfsti cas deste novo contexto internacional podem ser descritas como 
segue: 



9 Sobre o "modo II" de organizacao da atividade cientffica, veja Gibbons, 
Trow, Scott, Schwartzman, Nowotny, e Limoges, 1994. 



Prefacio a nova edicao - 7 



- A ciencia e tecnologia estao muito mais proximas da industria e dos mercados do que 
antes. As industrias precisam nao so de processos e produtos, mas tambem das 
qualificacoes necessarias para acompanhar as novas concepcoes e praticas de gestao, e 
para isso dependem de conhecimentos especial izados que nao sao e nem podem mais 
ser gerados internamente, em suas atividades cotidianas. A consequencia tern sido o 
aumento dos i nvesti mentos em P&D, a instalacao de laboratories especial izados e 
departamentos de pesquisa, e a busca de novas formas de relacionamento com as 
universidades. Ha uma preocupacao renovada com questoes de propriedade intelectual, 
que acompanha uma grande expansao de uma verdadeira industria do conhecimento, 
do comercio de marcas e patentes, da assistencia tecnica e das consultorias 
internacionais. 

- O ritmo da inovacao tecnologica e da competicao no mercado se aceleraram, 
exigindo das empresas capacidade permanente de mudar sua organizacao 
interna, absorver novas tecnologias e processos, e de gerar novos produtos. Isto 
tern provocado mudancas significativas na composicao da forca de trabalho 
industrial, uma maior enfase em trabalhadores altamente qualificados em todos 
os nfveis e uma drastica reducao de pessoal administrativo e nao-qualificado. 
As consequencias deste novo ritmo de progresso tecnico e da competicao no 
mercado incluem tambem a crescente internacionalizacao das industrias e 
mercados, e a redefinicao das linhas de producao, com especial izacao em 
alguns segmentos da cadeia produtiva ou em alguns nichos do mercado. Novas 
associates e fusoes, muito frequentemente, entre empresas de diferentes 
pafses sao tambem estimuladas pelo alto custo financeiro da P&D e o 
encurtamento do ciclo de vida dos novos produtos. 

- A ciencia esta se tornando mais global. A velocidade e o baixo custo dos 
fluxos internacionais de informacao colocam pesquisadores e centros de 
pesquisa em contato direto. A propagacao de produtos e processos 
tecnologicos por empresas internacionais dissemina padroes similares de 
consumo, de organizacao e de trabalho. E muito mais facil agora o acesso a 
comunidade cientffica internacional do que no passado. A mobilidade 
internacional de pesquisadores de talento tambem se tornou mais simples. M as 
ao mesmo tempo, a participacao efetiva na comunidade internacional depende 
de uma qualificacao adequada, na medida em que requer a utilizacao de 
instrumentos cientfficos padronizados, linguagem e padroes de comunicacao 
adequados, que, em sua ausencia, geram novas desigualdades e formas de 
concentracao de recursos e qualificacoes. 

A medida em que a relevancia economica e militar do conhecimento cientffico 
e tecnologico crescem, dizia o documento, intensifica-se a tendencia a limitar sua 
difusao atraves de legislacao sobre propriedade intelectual e de barreiras 
governamentais a difusao de tecnologias sensfveis e estrategicas. Esta tendencia, 
entretanto, e compensada pela intensa competicao internacional de empresas e 
governos para vender suas tecnologias, e pela inexistencia de fronteiras bem definidas 
entre conhecimento academico (e portanto livre) e o conhecimento privado (ou 
protegido). resultado e que o acervo basico da tecnologia moderna esta disponivel 
para os pafses que possuem suficiente massa critica em engenharia e ciencias basicas. 
Isso so nao se aplica a algumas poucas tecnologias militares, que ainda podem ser 
control adas pel as grandes potencias. 

Mais recentemente, prosseguia, o fim da guerra fria tern forcado as grandes 
potencias a promoverem o diffcil processo de reducao de seus aparatos militares, o 
que tern alterado a tradicional associacao entre P&D militar, tecnologia industrial e 
pesquisa academica basica. Parte destes recursos estao sendo redirecionados para 
pesquisa aplicada em areas como saude, meio-ambiente e energia, e novas 



Prefacio a nova edicao - 8 

associates entre governos, instituicoes de pesquisa e empresas privadas estao 
emergindo. A inovacao cientffica neste novo contexto predominantemente civil 
tendera a se orientar sobretudo pelo mercado e por demandas sociais de curto prazo, e 
nao mais pel as prioridades govemamentais. A inovacao cientffica devetambem se dar 
de forma mais incremental, estar mais intimamente associada a producao e servicos, e 
ser mais sensfvel a custos do que foi ate agora. O "modelo linear simples" utilizado 
ate recentemente para entender o desenvolvimento cientffico e a mudanca tecnologica 
estasendo abandonado. Este modelo pressupunha a existencia de um padrao pelo qual 
a pesquisa fundamental dava lugar a descobertas e a resultados experimentais da 
ciencia aplicada, possibilitando invencoes que fomeciam as bases da inovacao 
empresarial a parti r da qual novos produtos e processos eram criados e depois 
difundidos por Lmitacao e engenharia reversa. A visao atual e a de que a realidade e 
muito mais complexa: descobertas cientfficas ocorrem com frequencia no contexto da 
aplicacao; nao existe uma distincao precisa entre o trabalho basico e o aplicado; e o 
conhecimento tacito e os avancos incrementais sao mais importantes do que 
descobertas e inovacoes cientfficas isoladas. U ma conseq Ciencia desta transformacao e 
que o apoio para a pesquisa basica vem perdendo terreno, quando esta nao se associa 
a resultados e produtos previamente identificaveis. 

Ao mesmo temo, dizia ainda o documento, novos padroes de cooperacao 
cientffica internacional sao desenvolvidos, com o estabelecimento de programas 
multinacionais de grande escala, tais como o Projeto do Genoma Humano; de 
atividades de pesquisa globais nas areas de meteorologia, aquecimento global, 
astroffsica; e de projetos de cooperacao regional entre pafses. Enquanto que os 
programas tradicionais de "big science", como o Consorcio Europeu de Estudos 
Nucleares (CERN), se caracterizavam por grandes instalacoes cientfficas, os mais 
recentes tendem a assumir a forma de densas redes de cientistas e grupos de pesquisa. 
A alternativa para as comunidades cientfficas pequenas e ou de participar em alguns 
aspectos destes grandes programas, ou de se marginalizar progressivamente 

O documento assinalava tambem que, por causa de seus custos crescentes, 
relevancia economica e perigos potenciais, as atividades de ciencia e tecnologia tern 
sido acompanhadas pela sociedade de forma muito mais atenta do que no passado. 
Controversias publicas esmaecem as fronteiras entre a especial izacao tecnica e o 
conhecimento de domfnio publico, e uma variedade de novas disciplinas e atividades 
relacionadas a analise e avaliacao da ciencia emergiram, lidando com questoes como 
a previsao e a avaliacao tecnologica e as analises do impacto ambiental das inovacoes. 
As ciencias sociais adquiriram uma nova relevancia neste contexto, tanto para o 
estudo da economia da ciencia e tecnologia, quanta para a compreensao dos processos 
sociais de producao e transmissao de conhecimentos, para a interpretacao das 
controversias publicas, e para a analise de polfticas publicas na area deC&T. 



Prefacio a nova edicao - 9 

O resultado disto tudo, afirmavamos, era que as formas tradicionais de 
organizacao do ensino e pesquisa cientffica estao sob questionamento. Discute-se hoje 
se a divisao dos departamentos academicos e das instituicoes cientfficas segundo as 
diferentes disci pi inas e areas do conhecimento e a mais adequada e capaz de oferecer 
as condicoes apropriadas para a formacao e o desenvolvimento de pesquisa 
interdisciplinar. Ao mesmo tempo, nao existem alternativas Claras a organizacao do 
ensino segundo os moldes tradicionais, gerando novas fontes de tensao entre ensino e 
pesquisa. As agendas governamentais de apoio a ciencia estao em processo de 
revisao e transformacao. As relacoes entre universidades, os govemos e a industria 
estao profundamente alteradas pelos novos padroes de ensino tecnico, pesquisa 
cooperativa e financiamento, o que tern gerado novas oportunidades e tensoes. As 
carreiras cientfficas tradicionais sao percebidas como menos recompensadoras, 
prestigiadas e seguras do que no passado, ao passo que novos perfis profissionais 
em erg em. 

As perspectivas que se abriam para o Brasil, neste novo contexto, nao eram 
necessariamente pessimistas. O documento afirmava que apesar da grande defasagem 
entre a ciencia e tecnologia do Brasil e a dos pafses industrializados mais avancados, 
existe uma oportunidade de convergencia que nao deve ser desperdicada. O acesso a 
informacao no piano internacional e barato; a circulacao e mobilidade de cientistas e 
intensa; tecnologias de produtos e processos sao oferecidas em um mercado 
internacional altamente competitivo; e empresas multinacionais espalham suas 
sucursais e instalacoes de pesquisa por todo o mundo, dependendo das condicoes 
locais. O principal requisite para aproveitar esta oportunidade e compartilhar estes 
recursos de conhecimento e a capacidade social dos pafses, que e, essencialmente, 
uma questao de educacao e de capacitacao cientffica. Assim, embora a ciencia e 
tecnologia estejam se tornando cada vez mais internacionais, os requisites para 
participar de seus beneffcios continuam sendo de ordem local e nacional, e dependem 
de acoes deliberadas por parte dos govemos. 

A principal tese deste documento era que havia uma clara necessidade de sair 
do modelo anterior de desenvolvimento cientffico e tecnologico e partir para um 
equacionamento inteiramente novo e adequado as realidades presentes e futuras. 
Ciencia e tecnologia sao mais importantes do que nunca, se o Brasil pretende elevar o 
padrao de vida da populacao, consolidar uma economia moderna e participar com 
plenitude em um mundo cada vez mais globalizado. A economia precisa se 
modemizar e se ajustar a um ambiente internacional mente competitivo. A educacao 
precisa ser ampliada e aprimorada em todos os nfveis. A medida em que a economia 
crescer e novas tecnologias forem introduzidas, novos desafios irao emergir na 
producao e no uso de energia, no controle do meio ambiente, na saude publica e na 
administracao de grandes conglomerados urbanos. M udancas tambem vao ocorrer na 



Prefacio a nova edicao - 10 

composicao da forca de trabalho. U ma forte capacitacao nacional sera necessaria para 
que o pais possa participar, em condicoes de igualdade, das negociacoes 
internacionais que podem ter consequencias economicas e sociais importantes para o 
Brasil. U ma polftica liberal convencional em relacao ao desenvolvimento cientffico e 
tecnologico nao produzira capacitacao na escala e qualidade necessarias. N ao ha 
muito espaco mais para tecnologias artificialmente protegidas. Projetos tecnologicos 
de grande porte, altamente sofisticados e concentrados nao tern condicoes de gerar 
impactos de grande amplitude no sistema educacional e industrial. Tentativas de 
planejar e coordenar central izadamente todos os campos da ciencia e tecnologia 
correm o risco de expandir burocracias ineficientes e sufocar a iniciativa e 
criatividade. A nova polftica de C&T deve implementar tarefas aparentemente 
contraditorias: estimular a liberdade, iniciativa e criatividade do pesquisador, e ao 
mesmo tempo estabelecer um forte vfnculo entre o que eles fazem e as necessidades 
da economia, do sistema educacional e da sociedade como um todo. Deve tornar a 
ciencia e tecnologia brasileira verdadeiramente internacional, e ao mesmo tempo 
fortalecer a capacidade educacional e de C&T do pais. Para isto, o pesquisador 
individual, suas unidades de pesquisa ou laboratories, precisam ser libertos dos 
entraves burocraticos e estimulados a buscar as melhores oportunidades e altemativas 
no pafs e no exterior para usar e desenvolver suas competencias. Isto requer nao so 
um ambiente competitive que ofereca incentivos publicos e oportunidades privadas 
que premiem resultados e imponha custos crescentes a complacencia e 
improdutividade, como tambem o direcionamento de uma parte substancial dos 
recursos de P& D para alguns objetivos estrategicos bem selecionados. 

Cabe ao leitor avaliar se estamos realmente tomando em conta o que esta 
ocorrendo em todo o mundo, e se o redirecionamento das polfticas e as acoes 
governamentais nas areas de ciencia, tecnologia e educacao estao sendo feitas de 
acordo com as novas realidades. O Brasil entra no seculo XXI em situacao bastante 
melhor do que estava dez anos atras, quando se debatia ainda sob o impacto dos 
efeitos da "decada perdida" dos anos 80. Minha avaliacao pessoal e que existem 
muitas mudancas positivas, e que estamos saindo aos poucos do modelo elitista e 
isolacionista do passado. M as o caminho a percorrer elongo e incerto. 

Por isto, creio que o compromisso com os valores racionais e da modernidade, 
expressos na metafora de Max Weber sobre o demonio que se apossa de nossa 
vontade e nos forca ao usar ao maximo nossa lucidez, com a qual este livro termina, e 
ainda valido e atual. Nao e um modernismo arrogante, nem triunfante, nem ingenuo; 
mas nao deixa de ser esperancoso; e, no fundo, nao ha nada que possamos realmente 
colocar em seu lugar. 

Rio dej aneiro, marco de 2001. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

a formagao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



PREFACIO AEDICAO INGLESA 

Este livro tem como origem uma pesquisa realizada em meados da decada de 
1970 por uma das principals entidades financiadoras da ciencia e da tecnologia, a 
FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), com o objetivo de tracar um quadra 
amplo do infcio e do desenvolvimento das ciencias empfricas no Brasil. O trabalho foi 
executado em duas f rentes. Primeiro, foi feito um esforco para reunir e consolidar o 
maximo que fosse possfvel do material publicado sobre a historia da ciencia brasileira 
ate entao. Segundo, foram entrevistados cerca de setenta cientistas que 
desempenharam um papel importante nessa historia, do ponto de vista cientffico ou 
institucional: entrevistas longas e abertas. Os textos das entrevistas, com as gravacoes 
originais, estao disponfveis para consulta no CPDOC (Centra de Pesquisa e 
Documentacao em Historia Contemporanea do Brasil), na Fundacao Getulio Vargas, 
no Rio dej aneiro. 1 

A primeira versao deste livro, publicada em portugues em 1979, foi 
provavelmente a primeira tentativa de ver de forma abrangente o desenvolvimento da 
comunidade cientffica brasileira, desde as suas rafzes historicas, propiciando um 
panorama coerente da sua luta pel a sobrevivencia. Esta versao contou com as 
contribuicoes de Ricardo Guedes Ferreira Pinto, que focalizou a historia da ffsica e da 
engenharia; de M aria Clara M ariani e M arcia Bandeira de M elo, que se concentraram 
nas ciencias biomedicas; de Tjerk Franken, que estudou a historia institucional e 
produziu uma cronologia detalhada da ciencia brasileira, de 1500 a 1945; de Nadja V. 
X. Souza, que se dedicou a qufmica e as ciencias da terra; de Antonio Paim, que 
estudou a heranca cultural portuguesa, o papel do positivismo na visao cientffica 
brasileira e a criacao da U niversidade do Brasil, nos anos 1930; e de J ose M urilo de 
Carvalho, que pesquisou independentemente a historia da Escola de M inas de Ouro 
Preto. 2 Joseph Ben-David visitou o projeto nos seus primordios, elaborando um 



1 CPDOC 1984. As entrevistas foram realizadas com a ajuda do Programa de Historia 
Oral do CPDOC, dirigido por Aspasia Alcantara de Camargo. As entrevistas com Gleb 
Wataghin, o fundador da ffsica moderna no Brasil, foram feitas independentemente pelo ffsico 
Cylon E. Tricot Goncalves, da U niversidade Estadual de Campinas, em Sao Paulo. Marcflio 
M orais, Beatriz Rezende e M aria Beatriz de Pena Vogel se incumbiram da transcricao e edicao 
dessas entrevistas. 

2 Schwartzman 1979. A maioria desses pesquisadores continuaram com seu trabalho 
independente, uma parte dos quais foi reunida mais tarde em um volume separado. Vide 
Schwartzman (ed.) 1982; R. G. F. Pinto 1978; J. M. Carvalho 1978; M ariani 1982-a; Paim 
1982; Nunes, Souza e Schwartzman 1982. 



Prefacio a Edicao Inglesa- 2 



relatorio bastante perceptivo sobre a ciencia brasileira naquele momento. 3 A pesquisa 
contou com amplo apoio e simpatia por parte dos cientistas brasileiros e dos 
responsaveis pela polftica cientffica, e nao teria sido possfvel sem o interesse pessoal e 
o incentivo de Jose Pelucio Ferreira, na epoca Presidente da FINEP --- uma figura 
fundamental na historia recente da ciencia brasileira. A FINEP apoiou todo o trabalho 
de pesquisa, assim como a edicao do livro em Ifngua portuguesa. 

presente texto comecou como urn projeto para uma traducao completa para 
a Ifngua inglesa do texto original de 1979, que demonstrou nao ser realista. A medida 
que a traducao avancava, ficava claro nao so que o texto original precisava ser revisto, 
corrigido e atualizado, mas tambem que ele tinha sido produzido para um publico 
diferente, com enfases que nao sao as aqui adotadas. Enquanto a edicao em portugues 
se destinava a um publico amplo e bem informado de profissionais, professores, 
cientistas e responsaveis pela polftica cientffica, que conheciam bem a situacao 
brasileira mas pouco da bibliografia corrente sobre estudos sociais no campo da 
ciencia e da tecnologia, a edicao em Ifngua inglesa exigiria o oposto: se o leitor 
brasileira estava interessado na historia detalhada das instituicoes existentes e das que 
tinham desaparecido, em alguns casos ha varias decadas, ou mesmo no seculo 
dezenove, o leitor internacional estaria mais interessado no sentido geral e na direcao 
desse desenvolvimento. 

O texto a que se chegou e um meio-termo entre os dois extremos. Baseia-se 
em parte nos materiais utilizados no volume de 1979, mas usa tambem textos 
subsequentes e uma variedade de outras fontes. Os dados sao apresentados dentro de 
um quadra interpretative muito mais explfcito. Nos dez anos depois de 1979 creio ter 
aprimorado minha compreensao do papel que a ciencia pode desempenhar em 
sociedades como a brasileira, e por isso este livro e mais pessoal e afirmativo. A 
maior parte das secoes genericas da edicao original em portugues foram abandonadas, 
e acrescentou-se como pano defundo informacoes sobre a historia social e economica 
do pafs. Os detalhes historicos foram transferidos para as notas, de modo a deixar o 
texto mais claro para o leitor comum, sem prejudicar seu valor como referencias para 
o especial ista. 

Agradeco a Nancy Stepan sua crftica do rascunho original, e a Herbert S. 
Klein os comentarios detalhados assim como suas amplas sugestoes. Espero que o 
resultado seja mais do seu agrado. Walzi Sampaio da Silva contribuiu com a leitura 



3 Ben-David 1976. 



Prefacio a Edicao Inglesa- 3 



crftica de varios capftulos. Parte da traducao foi feita por Diana U. Grosklauss, e 
Helena Araujo Leite de Vasconcelos ajudou verificando a correcao dos nomes e 
referencias. O preparo do primeiro texto em ingles foi viabilizado por uma doacao do 
Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientffico e Tecnologico. Por fim, agradeco 
a Ermfnio Martins e Richard Whitley o estfmulo para preparar a versao inglesa do 
texto de 1979, que se transformou neste livro. Em parte ela foi redigida no Centra de 
Estudos sobre a Educacao Superior da U niversidade da California, em Berkeley, onde 
estive como professor visitante na primavera de 1987. O texto final foi conclufdo no 
Institute de Estudos Avancados da U niversidade de Sao Paulo, em 1988, gracas a uma 
bolsa da Fundacao Ford. 

J untamente com o apoio e a cooperacao recebidos durante todos esses anos, 
gozei sempre de ampla liberdade, e portanto tenho plena responsabilidade pelo modo 
como o estudo foi conduzido e com respeito as ideias e i nterpretacoes aqui 
apresentadas. Portanto, os erros que forem encontrados nas paginas que seguem nao 
devem ser atribufdos aos colegas que participaram de diferentes fases do projeto, ou 
as instituicoes que apoiaram esse trabalho. Espero que com o nosso esforco coletivo 
tenhamos todos alcancado uma melhor compreensao da historia e das circunstancias 
do desenvolvimento da comunidade cientffica brasileira, e estamos agora melhor 
equipados para colocar esse conhecimento em um contexto interpretativo mais amplo, 
podendo assim ter mais confianca no futuro. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

a formagao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



CAPITULO 1 
INTRODUCAO -UM ESPACO PARA A CIENCIA 

Sisifo 12 

O desenvolvimento de uma comunidade cientffica 15 

A busca da ciencia 20 

Ciencia, tecnologia e as profissoes 22 

Um sumario 29 



Sisifo 



Amaldicoado pelos deuses, Sisifo foi condenado a carregar uma grande pedra 
ate o topo de uma montanha, para deixa-la rolar ladeira abaixo e em seguida 
recomecar tudo outra vez. A lenda de Sisifo e uma metafora apropriada para a historia 
da ciencia moderna no Brasil, onde os sucessos tern si do poucos e efemeros, mas a 
persistencia e o entusiasmo nunca faltaram. Ao longo de centenas de horas de 
entrevistas, os indivfduos que compoem esta comunidade cientffica demonstraram ser 
um grupo crftico e extremamente lucido, consciente das suas limitacoes e orgulhoso 
das sua realizacoes, otimista sobre o papel que Ihe cabe. A persistencia de Sisifo nao 
deriva de uma visao rosea do futuro, mas da conviccao de estar no caminho certo, de 
que seria possfvel atingir um dia as fronteiras do conhecimento, dando uma 
contribuicao significativa para a sociedade, ou pelo menos construindo a base para o 
trabalho das geracoes futuras. Quando ha essa conviccao, os fracassos e as frustrates 
causados por forcas e eventos que nao e possfvel control ar parecem menos 
importantes, e nao perturbam o desejo de recomecar, se necessario, quando menos 
para atingir a mesma meta. 

Esta e uma razao que explica por que o presente estudo sobre o 
desenvolvimento da ciencia moderna no Brasil gerou tanto interesse entre os 
cientistas brasileiros quando foi iniciado, em meados dos anos 1970. Em um certo 



Introducao: um espaco para a ciencia 13 

sentido, contribuir para ele representava retracar as trilhas desvendadas, reviver 
experiencias bem sucedidas, gozar outra vez o sentimento do trabalho criativo, erguer 
a pedra de volta aos ombros, sabendo quetemos a forca necessaria para suste-la. Entre 
1976 e 1978, dezenas de cientistas brasileiros de muitas geracoes (graduados desde 
1910 ate a decada seguinte, graduados de antes da Segunda Guerra M undial, e os que 
comecaram a surgir na decada de 1950) dedicaram em media quatro a seis horas cada 
um para contar sua experiencia pessoal. As entrevistas focal izavam a vida 
profissional, ambiente familiar, educacao secundaria e universitaria, iniciacao 
cientffica, experiencia educacional no exterior, realizacoes profissionais, experiencia 
dentro das instituicoes, relacoes pessoais, exitos e fracassos de cada um. 1 
Natural mente, as entrevistas abrangeram alguns temas de carater mais geral: a 
natureza da atividade cientffica, o ambiente cientffico no Brasil, o sentido, a 
importancia e os problemas do trabalho cientffico no Brasil e no resto do mundo. 
Gravadas, transcritas e editadas, essas observacoes representam uma cronica 
incomum da experiencia de introduzir a ciencia moderna em ambiente social e cultura 
ainda nao habituados com ela. 

Ricos em detalhes, esses testemunhos sao valiosos, oferecendo-nos um quadro 
das diferentes motivacoes, valores, atitudes e percepcoes compartilhados por esses 
cientistas, um panorama do que eles consideravam estimulante ou frustrante. 
Nenhuma outra fonte poderia fornecer esse tipo de informacao. Normal mente pensa- 
se no conhecimento cientffico como uma coletanea de conceitos, informacoes e dados 
com valor intrfnseco, que nao dependem dos indivfduos responsaveis pela sua 
producao. No entanto, a conclusao mais importante do presente estudo ejustamente a 
reafirmacao de que a ciencia consiste acima de tudo em uma comunidade de 
indivfduos com boa educacao que empregam com entusiasmo o melhor da sua 
inteligencia e criatividade. Os resultados desse trabalho --- artigos, dados cientfficos, 
aplicacoes tecnologicas — nao passam da ponta de um iceberg que nao se pode 
sustentar sem sua base oculta: os indivfduos que os produzem. 

Os testemunhos orais tambem conhecem limites. A memoria e seletiva. As 
i nterpretacoes construfdas pelas pessoas a respeito da suas vidas e experiencias sao 
influenciadas inevitavel mente por atitudes humanas tais como o cansaco, as 
preferencias, a timidez ou o orgulho. Essas limitacoes podem ser reduzidas quando 
dispomos de varias testemunhas dos mesmos fatos, e quando outras fontes de 



1 A maioria absoluta da geracao mais antiga de cientistas brasileiros, e todos os nossos 
entrevi stados, com uma unica excecao, eram homens. As mulheres comecaram a aparecer na 
ciencia brasileira em numeros mais significativos com a criacao da Universidade de Sao Paulo, 
em 1934 (embora principal mente nas ciencias sociais, que nao foram cobertas pelo presente 
estudo). 



Introducao: um espaco para a ciencia 14 

informacao podem ser consultadas. Em certa medida, a coexistencia de versoes 
contraditorias dos mesmos fatos nao quer dizer que alguns cientistas sejam honestos e 
outros nao, em seus testemunhos; na verdade, dentro desse caleidoscopio, cada 
percepcao evalida dentro da perspectiva pessoal e psicologica do narrador. 

projeto foi recebido com interesse --- por vezes misturado com uma certa 
desconfianca --- por outra razao, mais concreta. Tratava-se de um estudo levado a 
cabo com o apoio de uma agenda governamental brasileira, e sua intencao --- ouvir 
os cientistas, procurar seus pontos de vista e o valor da sua contribuicao, sem excluir 
ninguem por razoes polfticas ou ideologicas --- contrastava fortemente com a 
hostilidade e a repressao manifestadas pelas autoridades militares, alguns anos antes, 
contra alguns dos cientistas mais conhecidos do Brasil. 

O princfpio da decada de 1970 e chamado de anos do "milagre", termo que, 
usado entre aspas, sugere o paradoxo do grande desenvolvimento economico e da 
euforia nacional devido a conquista repetida da Copa M undial de Futebol, em 1972, e 
tambem pelo que foi provavelmente a maior repressao polftica que ja havida no pafs. 
Em 1964, depois de um perfodo de instabilidade polftica, os militares brasileiros se 
apossaram do poder, dando infcio a uma ampla reorganizacao das instituicoes 
polfticas e economicas, com a promessa (que seria adiada por vinte anos) de um 
rapido retorno a vida civil. A polftica economica recessiva adotada em meados dos 
anos 1960 tinha reduzido a taxa de inflacao, e a modernizacao do aparelho estatal, 
combinada com a modernizacao do mercado interno e um influxo de capital externo, 
elevou mais tarde as taxas anuais de crescimento a dez por cento ao ano, e um sentido 
de confianca no pafs levou ao projeto de fazer com que o B rasil alcancasse o status de 
potencia mundial em uma ou duas decadas. Com populacao de cem milhoes, 2 um 
territorio de mais de oito milhoes de quilometros quadrados e o maior parque 
industrial da America Latina, esse projeto ambicioso nao parecia absurdo. 

O lado escuro do "milagre" era nao so a persistencia da pobreza e da 
desigualdade social, como tambem a repressao polftica. O desenvolvimento 
economico era obtido gracas principalmente a concentracao de renda no topo da 
piramide social, e estudos realizados alguns anos depois mostravam que se a renda 
tinha melhorado para todos os grupos sociais, durante o perfodo do "milagre", a 
desigualdade tambem aumentou. 3 O regime militar era uma alianca diffcil entre 



2 O censo de 1970 registrou 93,1 milhoes de habitantes; o de 1980, 119 milhoes. A 
projecao para 1990 era de cerca de 150 milhoes. Vide Fl BGE 1987: 52. 

3 Schwartzman 1980. 



Introducao: um espaco para a ciencia 15 



A 



tecnocratas esclarecidos , militares profissionais e anticomunistas militantes, e ao 
final de 1968 o equilfbrio tinha mudado, com a enfase deslocada dos primeiros para 
os ultimos. No fim daquele ano, toda atividade polftica foi proibida e todas as formas 
de liberdade polftica foram suspensas. Nos anos que se seguiram, mi I hares de pessoas 
perderam seus direitos polfticos, assim como os cargos publicos que ocupavam 
(muitas das vftimas eram professores universitarios ou pesquisadores de institutes 
govemamentais), enquanto nos maiores centres urbanos os militares reprimiam as 
tentativas de insurreicao lideradas muitas vezes por estudantes. 

Dada a inclinacao ideologica do regime militar, amplos setores das elites 
educadas do Brasil presumiram que esse regime so podia condenar o pafs ao atraso 
economico e ao obscurantismo intelectual. Esta era a visao prevalecente entre muitos 
dos cientistas brasileiros mais conhecidos, que levantaram sua voz contra as 
iniquidades sociais, economicas e polfticas do passado, e estiveram entre os primeiros 
a perder o emprego depois de 1964, e a serem obrigados a se exilar. J a em 1968, 
contudo, alguns orgaos govemamentais comecavam a fornecer recursos para projetos 
de desenvolvimento cientffico e tecnologico; em meados de 1970 ja estava claro que, 
ao lado do sua face autoritaria, o regime militar estava abrindo novos espacos para a 
ciencia, a tecnologia e a educacao superior. 5 Depois de 1975, sob a presidencia de 
Ernesto Geisel, a balanca voltou a se deslocar no sentido de um regime autoritario 
esclarecido. O liberalismo economico comecou a cederterreno a uma crenca renovada 
no planejamento economico e na intervencao estatal, tendo sido anunciado um piano 
de longo prazo de liberalizacao polftica. 

O desenvolvimento de uma comunidadecientifica 

As primeiras ideias para um estudo sobre o desenvolvimento da ciencia 
brasileira, a ser feito no ambito da FINEP, foram esbocadas por um conhecido 
economista brasileiro. Na proposta de trabalho, que por razoes circunstanciais nao 
chegou a se iniciar, o objetivo seria mostrar a importancia historica do 
desenvolvimento da capacidade cientffica e tecnologica para a economia do pafs. 
Alem de seu inegavel interesse academico, esse projeto mostraria a importancia do 
trabalho que vinha sendo desempenhado pela patrocinadora do projeto, a 
Financiadora de Estudos e Projetos, uma instituicao surgida inicialmente no ambito do 
Banco Nacional de Desenvolvimento Economico. Nosso trabalho buscou desenvolver 



4 O termo "esclarecido" e utilizado aqui por alusao aos "despotas esclarecidos" que, no 
perfodo do absolutismo, buscaram modernizar a Europa a parti r do uso autoritario do poder. 

5 Foi nesse contexto que demos infcio as nossas entrevistas. 



Introducao: um espaco para a ciencia 16 

uma perspectiva que nos parecia ir alem da visao dos economistas. Nos interessava 
demonstrar que havia no Brasil uma comunidade cientffica anterior a redescoberta da 
racionalidade economica pelas novas agendas governamentais --- comunidade que 
nao podia ser colocada sob o controle e os limites estreitos do planejamento 
economico, e que precisava gozar de liberdade de pesquisa, do apoio permanente do 
setor publico e de um sistema de auto-regulagem como condicoes para a sua 
sobrevivencia, reproducao e crescimento. Contrariando a visao economicista 
prevalecente, acentuamos as tensoes que existem entre ciencia e tecnologia, em lugar 
da sua complementaridade; os vfnculos entre ciencia e cultura, de um lado, e de outro 
a educacao superior, em lugar dos vfnculos entre a ciencia e a economia; e o apoio 
buscado pelos cientistas em instituicoes e grupos autonomos, em vez de dependerem 
do estado. 6 As palavras "comunidade cientffica", presentes no tftulo do livro de 1979, 
surgiram ao final do trabalho, e assinalam como que a conclusao de todo o estudo - a 
existencia de uma comunidade que precisaria ser conhecida e entendida 7 A medida 
queo projeto se desenvolvia, a FINEP tambem se deslocava gradual mente do simples 
apoio a tecnologia para o apoio a ciencia, a tecnologia e a educacao universitaria de 
pos-graduacao, de modo geral. 

A escolha de tema e de abordagem se baseava na crenca de que, vista em 
termos muito amplos, como uma busca de desenvolvimento da competencia 
intelectual e de ampliacao do acervo de conhecimento, a ciencia podia ter um papel 
fundamental em um pafs como o Brasil, que ainda enfrenta o problema de como 
participar plenamente do mundo moderno. Nossa preocupacao tinha menos que ver 
com o conhecimento cientffico em si, e com as suas aplicacoes praticas, do que com 
esse papel a ser desempenhado no processo abrangente de racionalizacao da 
sociedade. s Como pode esse tipo de conhecimento penetrar em sociedades que nao 
parti ciparam da revolucao cientffica europeia, a parti r do Renascimento, ou 
permaneceram a sua margem? De que modo ele se relaciona com os varios grupos 



6 Essa preocupacao nao era diferente da que levou Robert K. M erton a acentuar a 
importancia da autonomia e da auto-regulamentacao como pre-requisitos para a ciencia, ao 
refletir sobre a pratica cientffica na Alemanha nazista. Vide M erton 1938. 

7 Esta e uma reconstrucao post factum de um processo muito mais erratico e tentative 
O poder de convencimento das teses mais gerais do projeto depende muito do leitor. Sobre a 
elaboracao deobjetos de pesquisa, vide Latour e Woolgar 1979 e Knorr-Cetina 1981. 

8 Essa preocupacao com a racionalizacao, inspirada na sociologia de Max Weber, nao 
deve ser confundida com uma forma ingenua de racionalismo, ou com a crenca evolucionista 
no destino que teriam as sociedades de alcancar um grau crescente de racionalizacao, no 
processo de substituicao contfnua das formas antigas, "tradicionais" de conhecimento e 
organizacao social por formas "modernas". Vide em Bendix 1984 para uma visao 
contemporanea. 



Introducao: um espaco para a ciencia 17 

sociais, os valores e as instituicoes locais? De que forma ele adquire rafzes --- ou 
permanece desenraizado? Exercera efetivamente o papel que Ihe atribufmos? 

Perguntas como estas sao mais amplas e menos precisas do que as que sao 
abordadas pela maior parte dos sociologos e historiadores da ciencia na Europa 
Ocidental e nos Estados Unidos, onde de modo geral se considera que a ciencia e 
praticada nos centros dinamicos onde grandes obras sao escritas, grandes descobertas 
sao feitas, grandes teorias propostas. Normal mente nao se discute o contexto mais 
amplo. Natural mente, e possfvel argumentar, com Thomas Kuhn, que essas 
realizacoes espetaculares sao apenas os aspectos mais visfveis da atividade cientifica 
quotidiana. Um levantamento que se restringisse aos grandes feitos cientfficos sofreria 
das mesmas deficiencias da historiografia tradicional, limitada aos monarcas, aos 
Papas e as grandes batalhas. As pessoas e os acontecimentos extraordinarios nao nos 
poem em contato com a realidade do dia-a-dia, sem a qual a existencia daqueles 
eventos e daquelas pessoas deixa de ser inteligfvel. E esta percepcao que faz com que 
a historiografia moderna se volte mais para o social, o economico e o institucional. E 
e pela mesma razao que podemos estudar as dimensoes social e historica do trabalho 
cientffico nas regioes perif ericas aos centros de maior dinamismo. Portanto, este eum 
estudo da ciencia "normal" --- na verdade, a unica ciencia que seria possfvel no 
Brasil. 

No entanto, por mais necessaria que seja, esta sociologia da ciencia "normal" 
poderia provavelmente ser melhor desenvolvida em outros lugares, e o presente 
estudo encontra uma justificativa diferente. Em primeiro lugar, havia a motivacao 
polftica de curto prazo de por em relevo o papel e a importancia da comunidade 
cientifica, em oposicao a atitude tecnocratica que estava ocupando o lugar do 
obscurantismo dos anos precedentes. M enos circunstancial e o fato de que o Brasil e 
um dos poucos paises "ao Sul do Equador" que pode desenvolver neste seculo 
instituicoes e grupos cientfficos duradouros e bastante significativos (o exemplo mais 
importante, e muito melhor estudado, ea India). 

Estar situado "ao Sul do Equador" significa nao ter participado plenamente na 
tradicao cultural e intelectual do Ocidente, a que pertencem a ciencia moderna e suas 
instituicoes associadas, tais como as modernas universidades e o capitalismo 
empresarial. No entanto, ser periferico com respeito a tradicao ocidental pode 
significar coisas distintas para diferentes sociedades. O Brasil e o produto de uma 
modalidade especial da civilizacao europeia --- a da penfnsula iberica, que nao 
encontrou nos territorios que descobriu e colonizou uma populacao e uma cultura 



Introducao: um espaco para a ciencia 18 

nativas sobre as quais pudesse aplicar o seu domfnio. 9 No Brasil o processo de 
colonizacao foi conduzido por Portugueses de tipo muito diverso (nobres e cortesaos 
titulares de monopolios e privilegios reais; bandidos; aventureiros em busca de ouro; 
missionaries jesuftas; desertores da Marinha; cristaos novos, escapando da 
Inquisicao), a prinefpio com a ajuda de indios escravizados, mais tarde com o trabalho 
escravo africano, e a partir do fim do seculo dezenove com ondas de imigrantes da 
Italia, Alemanha, do J apao e de varios pafses da Europa Central. O resultado foi um 
pafs que e dos maiores pafses e mais heterogeneos de todo o mundo, com uma 
populacao de cerca de 170 milhoes, uma regiao altamente industrializada em Sao 
Paulo, areas de grande pobreza no Nordeste, regioes que lembram a Europa no 
Parana, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, algumas universidades de boa 
qualidade e um grande numero de pessoas alfabetizadas. 

De que forma a ciencia moderna cria rafzes e floresce fora do seu berco 
tradicional? Como ela se relaciona com outras tradicoes intelectuais, outras situacoes 
institucionais, outros valores, diferentes maneiras de pensar? Os estudos cada vez 
mais numerosos a respeito da "ciencia periferica", que nao pretendo avaliar aqui, 
passaram das explicates difusionistas para as imperialistas, das analises da 
incompatibilidade cultural para a busca de equivalencias funcionais, das teorias e 
propostas de modernizacao cientffica e tecnologica para a proclamacao de tradicoes 
cientfficas unicas e alternativas, supostamente mais promissoras. 10 

Vamos discutir estas e outras questoes de uma perspectiva que espero seja 
mais esclarecedora: tomemos o trabalho cientffico como um entre muitos 
empreendimentos humanos, como uma manifestacao da acao humana que constroi e 
modifica as estruturas sociais nas suas interacoes com outros agentes sociais dentro 



9 Os colonizadores Portugueses encontraram nesses novos territories populacoes 
nativas sem o mesmo grau de organizacao social e densidade demografica do M exico e do 
Peru, colonizados pelos conquistadores espanhois. Como nos Estados U nidos e na Australia, os 
povos nativos foram gradual mente dizimados ou expulsos das areas costeiras para o interior, e 
permaneceram marginal izados com respeito a sociedade dominante. O unico esforco 
significativo de colonizacao dos indfgenas do Atlantico Sul foi feito pelos jesuftas no Brasil 
meridional, e mais tarde confinado ao Paraguai, unico pafs onde o guarani ainda e falado 
largamente, e cuja populacao descende predominantemente daqueles amerfndios. 

10 Para uma visao ampla dos estudos sociais e cientfficos sobre a ciencia e a educacao 
superior na America Latina vide Vessuri 1986 e 1987. Vide tambem Basalla 1967 sobre o 
difusionismo; McLeord 1975 e Pyenson 1982 e 1984 sobre o imperialismo; Herrera 1971 e 
Sabato (ed.) 1975 sobre a dependencia; Sagasti 1983 a respeito da modernizacao; e Bella 1971 
sobre os equivalentes funcionais. A bibliografia sobre as tradicoes culturais alternativas na 
America Latina e muito pobre, embora seja muito ampla com respeito a outras regioes do 
Terceiro M undo. 



Introducao: um espaco para a ciencia 19 

das fronteiras das suas limitacoes no tempo e no espaco." O que pode ser unico no 
estudo social da ciencia em sociedades perifericas ou sem i- peri f ericas tais como a 
brasileira e o esforco para compreender como os portadores da cultura e das 
instituicoes cientfficas modernas precisaram trilhar um caminho diffcil entre duas 
formas opostas de conceber, organizar e interpretar o que estavam tentando realizar. 
De um lado havia os pragmaticos, que so conseguiam entender, justificar e explicar a 
ciencia pelos seus efeitos economicos e tecnologicos; de outro lado, aqueles que 
equacionavam a ciencia com a livre busca do conhecimento --- uma nobre atividade 
das pessoas cultivadas. 12 Ao retracar esse caminho ha muito a ser dito e ponderado 
sobre os esforcos para criar uma ciencia "normal", um moderno sistema universitario 
e uma forma efetiva de participar (ainda que nao de modo central) nas linhas 
fundamentals da atividade cientffica. 

Para entender melhor como a comunidade cientffica brasileira foi formada, e 
por que ela nunca alcancou os nfveis numericos e qualitativos atingidos em outros 
pafses do Ocidente, decidimos combinar os testemunhos colhidos atraves de nossas 
entrevistas com um exame das numerosas fontes, ate aqui dispersas, para tentar um 
quadra amplo da historia social e institucional das principais tradicoes sociais e 
institucionais brasileiras. Sempre que possfvel, concentramo-nos na ciencia e nao na 
tecnologia, assim como nas instituicoes cientfficas, em lugar das instituicoes 
educacionais e industrials. Nao obstante, nao poderfamos ignorar as primeiras escolas 
de medicina, engenharia e agricultura, os institutes de pesquisa aplicada e as 
universidades mais recentes, em que surgiu e se desenvolveu a maior parte da ciencia 
brasileira. Os testemunhos estao limitados as ciencias naturais --- ffsica, qufmica, 
biologia, as ciencias da terra ---, com pouca enfase nas demais. 13 As ciencias sociais 
foram exclufdas devido a necessidade de limitar o projeto, e tambem porque elas 



11 Vide uma elaboracao extensa desta abordagem e suas implicacoes em Giddens 1979, 
Cap. 1; e em Giddens 1987: 220-1. 

12 No seu livro Science in History, de muita influencia, J. D. Bernal prevenia que a 
historia da ciencia deveria superar uma visao desprovida de vida da evolucao do conhecimento 
humano, que tratasse a historia como uma construcao simples e progressiva do "ediffcio ideal 
da verdade". Segundo Bernal, "essa so pode ser escrita negligenciando todos os componentes 
sociais e materials da ciencia, e portanto reduzindo-a a uma tolice inspirada — inspired 
nonsense." Essa "nonsense" ocorre tambem quando se admite uma perspectiva oposta, 
presumindo uma relacao estreitamente unfvoca entre determinadas caracterfsticas do sistema 
produtivo e a atividade cientffica. O proprio Bernal foi atecerto ponto responsavel pela difusao 
desta ideia ao afirmar, por exemplo, que "it is these [productive relations], depending as they 
do on the [technical means] of production that provide the need for changes in these means and 
thus give rise to science" (Bernal 1971, 1:50). A visao contemporanea e melhor expressada por 
Kuhn 1977. 

13 Inclusive na matematica, que no Brasil quase nao se distingue historicamente da 
ffsica. Vide H oning e Gomide 1979. 



Introducao: um espaco para a ciencia 20 

apresentam uma realidade muito diferente, nao so com respeito a producao intelectual 
mas tambem porque no Brasil, com poucas excecoes, elas nunca se 
institucionalizaram, como aconteceu com as ciencias naturais. 14 

A busca da ciencia 

A atividade cientffica nao pode se desenvolver e ser mantida de forma 
sustentada se nao tiver um componente importante de auto-referencia e auto- 
regulamentacao. Essa hipotese sera testada repetidamente conforme sigamos a 
ascensao e a queda das instituicoes cientfficas e tecnologicas brasileiras, a partir do 
seculo dezenove. Pelo menos duas condicoes sao necessarias para que os cientistas 
mantenham seus pares como principal grupo de referenda. Em primeiro lugar, a 
sociedade precisa associar ciencia com progresso, ou de alguma forma reconhecer o 
valor do trabalho cientffico. E esse reconhecimento que permite aos cientistas 
alcancar prestfgio social e atrair apoio financeiro. Em segundo lugar, e 
paradoxal mente, os resultados dos esforcos dos cientistas nao devem produzir lucros a 
ponto de afasta-los da sua tarefa principal. Quando os cientistas assumem posicoes de 
responsabilidade em empreendimentos tecnologicos de grande interesse socio- 
economico, ou quando assuem uma posicao hedonfstica de resultado maximo com o 
mfnimo de esforco, isso significa que a sua preocupacao com o desenvolvimento 
pessoal passou para o pano de fundo, que outros valores e grupos de referenda 
adquiriram rafzes, e a qualidade do seu trabalho cientffico pode estar ameacada. 

Nossa preocupacao com a ciencia como atividade de uma comunidade 
autonoma, e nao como parte de um processo mais amplo de mudancas sociais e 
economicas, ou como atributo de uma educacao profissional, nao corresponde 
necessariamente ao que os cientistas brasileiros pensavam sobre o assunto. O 
desenvolvimento de um "papel cientffico" como nicho profissional desde o 
Renascimento tern sido parte peculiar da tradicao da Europa Ocidental. 15 Como 
veremos, porem, para os medicos e engenheiros brasileiros envoi vidos na atividade de 
pesquisa, nunca foi evidente que a sua identidade como cientistas devia ser acentuada 
e diferenciada com respeito a funcao profissional. Com frequencia os cientistas 
brasileiros tern enfatizado a utilidade do seu trabalho para o estado e para a 
populacao, em lugar do carater especffico do papel que desempenham. 



14 A historia das ciencias sociais no Brasil foi o tema de um projeto do Instituto de 
Estudos Sociais e Polfticos de Sao Paulo (IDESP), sob a direcao de Sergio M iceli. Vide M iceli 
1989. 

15 Ben-David 1971. 



Introducao: um espaco para a ciencia 21 

O amalgama de funcoes profissionais e cientfficas foi parte de uma visao mais 
ampla predominante entre os cientistas brasileiros desde o seculo dezenove, que 
associava a ciencia, o progresso, a modernizacao e a criacao de profissoes baseadas 
no conhecimento cientffico. No princfpio da decada de 1950 parecia haver uma 
convergencia de todas as transformacoes que vinham crescendo no Brasil desde a 
decada de 1930 --- a imigracao europeia, o desenvolvimento da industria e do 
comercio, o crescimento das cidades. Fernando de Azevedo, uma personalidade 
importante na criacao de instituicoes educacionais nos anos precedentes, 16 expressou 
deste modo o pensamento predominante sobre o tema nos cfrculos intelectuais 
brasileiros: 

"Na medida em que o desenvolvimento da industria e as descobertas da ffsica, 
da qufmica e das ciencias experimentais tendem a promover o refinamento das 
ciencias morais e polfticas, nao seria excessivo esperar que esse desenvolvimento 
acrescentasse tambem a riqueza do conhecimento acumulado pelas humanidades por 
meio da observacao e da experiencia com o uso crescente de metodos modernos. 
Assim, e certo que entramos decididamente em uma fase de renovacao cultural, que 
se expande e diversif ica." 17 

Fernando de Azevedo tinha perfeita consciencia das dificuldades potenciais, 
das "reservas e precaucoes --- a despeito no nosso espanto diante das fantasticas 
aplicacoes desses descobertas — com que assistimos aos problemas colocados pelas 
profundas transformacoes tecnicas e economicas que ocorrem no mundo devido a 
excitante aceleracao do progresso cientffico, problemas que provocam ansiedade" 18 
Nao estava claro como a ciencia poderia acompanhar espontaneamente o 
desenvolvimento economico e a modernizacao, dando a sua contribuicao. Devido ao 
seu passado cultural iberico e a tradicao escolastica, a sociedade brasileira deveria 
resistir ao influxo do novo espfrito cientffico. Comenta Fernando de Azevedo: "O 
progresso que fizemos, e sobre o qual precisamos refletir, deveria levar-nos a nao 
alimentar ilusoes sobre a possfvel ocorrencia de pausas, mais curtas ou mais longas, 
assim como de regressoes, por mais transitorias, em um ou outro setor do vasto 
domfnio dos estudos e da pesquisa cientffica. Temos todos consciencia das origens e 
ramificacoes da velha nocao de cultura e das atitudes que se enraizaram no nosso 



16 Fernando de Azevedo, que era sociologo, participou da organizacao da Universidade 
de Sao Paulo e editou uma colecao de artigos que constitui a melhor exposicao sobre o 
desenvolvimento da ciencia no Brasil. Vide F. de Azevedo [ed.] 1955. 

17 F. de Azevedo (ed.) 1955:35. 

18 F. de Azevedo (ed.) 1955:10-11. 



Introducao: um espaco para a ciencia 22 

meio ..., as quais deixaram fortes resfduos, e habitos que persistem a despeito das 
transformacoes profundas que tem havido na sociedade." 19 O diletantismo, a falta de 
cooperacao e de espfrito de equipe, o tradicionalismo na educacao, a preocupacao 
excessiva com os ganhos de curto prazo --- todos esses fatores colocam uma ameaca 
ao progresso regular do espfrito cientffico, e precisam de algum modo ser superados. 

Portanto, o novo espfrito cientffico precisa ser introduzido atraves da 
propaganda e da mobilizacao polftica. No Brasil como em outros pafses latino- 
americanos, a ideologia "cientfstica" 20 se difundiu gradualmente a partir de alguns 
centros de pesquisa isolados, e cfrculos intelectuais limitados, para o sistema 
educacional, levando por fim atensao entre os professores orientados para a pesquisa 
e os outros setores da sociedade, inclusive as instituicoes tradicionais de ensino 
superior. Podemos dividir o perfodo de ativismo cientfstico em tres grandes fases. A 
primeira, que no caso do Brasil corresponde aos anos que precederam a Segunda 
Guerra Mundial, relacionada com as tentativas de criar novas instituicoes 
universitarias, que podiam ser estabelecidas em torno de centros ou institutos 
avancados culturais e cientfficos. A segunda, tfpica do pos-guerra, incluiu algumas 
tentativas mais ambiciosas de modificar completamente a estrutura universitaria 
tradicional, atribuindo a pesquisa cientffica e tecnologica um papel central no 
planejamento socio-economico. A terceira, mais tfpica do fim dos anos 1960 e 1970, 
se caracterizou por tentativas de criar nichos isolados e protegidos para a pesquisa 
cientffica, com apoio em uma crenca renovada no valor de redencao da moderna 
ciencia etecnologia. No princfpio dos anos 1990 parecia estar comecando uma quarta 
fase, marcada por crescente sensibilidade as particularidades do trabalho cientffico e 
as suas complexas interacoes com a educacao superior, a tecnologia e as profissoes. 
Essa sensibilidade devera impor-se pela forca da reflexao em torno da experiencia 
vivida eo peso das circunstancias atuais. 

C iencia, tecnologia eas profissoes 

Adotar como foco principal do nosso estudo o desenvolvimento da 
comunidade cientffica nao requer a premissa de que a ciencia deve ser organizada de 



19 F. de Azevedo (ed.) 1955:36. 

20 Com essa expressao queremos referir-nos ao movimento social surgido na Inglaterra 
e em outros pafses europeus em torno do seculo dezessete, que os historiadores e sociologos 
tem chamado de "cientismo" ou "cientificismo"— em ingles, "scientism". Na Europa os 
primeiros propagandistas da ciencia, da mesma forma como os latino-americanos durante o 
seculo vinte, se preocupavam com a educacao universal e com amplos projetos de pesquisa 
cientffica e tecnologica, que segundo eles garantiria o domfnio da natureza e o surgimento de 
uma nova civilizacao (Ben-David 1971:70). 



Introducao: um espaco para a ciencia 23 

acordo com algum modelo ideal izado, como o proposto ha alguns anos por Robert K. 
M erton. 22 O conceito de "comunidade cientffica" deve ser entendido como um "tipo 
ideal", no sentido weberiano: e uma construcao intelectual que explicita os valores e 
as acoes sociais existentes e nos ajuda a compreender as suas consequencias, 
implicacoes e tensoes com outras formas de acao social. Podemos seguir a 
emergencia desse tipo ideal, e algumas das suas implicacoes, de pelo menos tres 
perspectivas distintas mas convergentes: a primeira deriva da sociologia do 
conhecimento cientffico, a segunda de uma analise do inter- relacionamento entre 
ciencia e tecnologia nas sociedades contemporaneas, a terceira da sociologia das 
profissoes. 

Os sociologos da ciencia nos dizem que "ciencia" nao e um conceito unfvoco, 
e pode significar coisas distintas para pessoas diferentes. Pode ser visto assim como 
um acervo de conhecimentos que e desenvolvido, acumulado, transformado e 
reestruturado de acordo com a dinamica propria de cada campo. Pode tambem 
significar nao qualquer conhecimento mas um tipo especial de saber, com regras 
proprias (geralmente explfcitas) sobre o modo de incorporar novas informacoes e 
novos criterios para validar os resultados. Finalmente, pode referir-se a uma atitude 
especial assumida pelos cientistas, qualificada de "cientffica", orientada para 
incorporar novos dados e aceitar novos conceitos sempre que eles surgirem, em 
conformidade com as normas consideradas apropriadas em cada campo. 

Em sentido lato, uma "comunidade cientffica 22 pode ser entendida como um 
grupo de indivfduos que compartilham valores e atitudes cientfficas, e que se inter- 
relacionam por meio das instituicoes cientfficas a que pertencem. Diz-se que uma 
comunidade cientffica e formada por indivfduos que tern em comum habilitacoes, 
conhecimentos e premissas tacitas sobre algum campo especffico do saber. Nessa 
comunidade, cada indivfduo conhece seu campo especffico e algo das areas 
adjacentes. Ha uma certa sobreposicao do trabalho e das especi alidades, e ninguem 
possui uma compreensao exaustiva e sistematica de todo o campo. Outro elemento na 
caracterizacao da ciencia como um sistema social e a existencia de um sistema de 
autoridade que defende os criterios de probidade, plausibilidade e aceitabilidade dos 
resultados --- criterios que de modo geral nao constituem um traco explfcito do 
metodo cientffico, mas que de qualquer maneira sao uma parte integral e fundamental 



21 Vide M erton 1973, e para um exame mais amplo do conceito vide M ulkay 1977. 

22 Nessa perspectiva, os diferentes sentidos que o conceito pode assumir e algo bem 
exemplificado pela expansao e diversifi cacao da nocao de "paradigma cientffico" por Thomas 
Kuhn, no posfacio de 1970 de 77?e Structure of Scientific Revolutions. Vide Kuhn 1970:174- 
210. 



Introducao: um espaco para a ciencia 24 

do seu funcionamento. 23 Alguns autores chegam ao extremo de sugerir que sao esses 
criterios implfcitos, mais do que os explfcitos, que representam a natureza mais 
profunda da atividade cientifica enquanto tal. 24 

Nas palavras de M ichael Polanyi, a comunidade cientffica funciona ideal mente 
como uma grande e complexa republica: "A Republica da Ciencia e uma sociedade de 
exploradores que lutam em prol de um futuro desconhecido, que acreditam ser 
acessfvel e digno de ser atingido. O cientista-explorador se esforca por aproximar-se 
de uma realidade oculta, para a sua satisfacao intelectual. A medida que ele se 
satisfaz, ilumina todos os homens e ajuda assim a sociedade a cumprir sua obrigacoes 
no sentido do auto-aperfeicoamento intelectual." 25 Considera-sequeo melhor metodo 
para promover essa exploracao edar a cada explorador o maximo de liberdade, ja que 
nao seria possfvel usar criterios externos, extra-cientfficos, para decidir o que e mais 
ou menos importante para a ciencia. Assim, a comunidade cientffica funciona como 
um grande mercado que estimula natural mente o que e mais importante, e deixa de 
lado o que e menos significativo; caberia a sociedade como um todo financia-la sem 
procurar influenciar o modo como esses fundos sao utilizados. 

Uma crftica feita a essa visao idealizada e que ela deriva, na melhor das 
hipoteses, de uma nocao antiquada de "ciencia menor", que separa completamente a 
ciencia da tecnologia. No entanto, desdeo Projeto M anhattan (ou dramatizada por ele) 
a ciencia parece ter dado um salto no sentido da "ciencia maior", caracterizada por 
orcamentos amplos e atividades de pesquisa de alta complexidade, envolvendo os 
esforcos coordenados de centenas e mesmo milhares de pessoas. Sempre que a 
pesquisa atinge esse nivel de custo e de complexidade, desaparecem as fronteiras que 
separam a ciencia da tecnologia, e o "mercado cientffico", concebido por Polanyi e 
substitufdo de um lado pela logica do mercado economico, de outro pelas polfticas 
nacionais relacionadas com metas tecnologicas de grande escala. 26 

Jean-Jacques Salomon acredita que as razoes sao ainda mais profundas. Ele 
argumenta que a ciencia moderna sempre buscou resultados praticos, e que a ideia de 
distinguir entre conhecimento puro e aplicado nao passa de um vestfgio de certa 
atitude elitista de origem aristotelico-escolastica --- atitude que serve como obstaculo 



23 Polanyi 1962. 

24 Por ex emplo Barnes 1974; Bloorl976; Latour e Wool gar 1979; Knorr-Cetina 1981. 



25 Polanyi 1968:19. 

26 Gibbons e Wittrock (eds.) 1985. 



Introducao: um espaco para a ciencia 25 

a ciencia moderna. Referindo-se a Europa do seculo dezessete, Salomon afirma que 
nenhuma outra epoca i lustra melhor a forma como a ciencia esta associada a uma 
representacao completa do mundo: a ciencia vista como contemplacao e parte do 
desenvolvimento de uma ordem social liberal, em que a "tecnica" corresponde a 
artesaos empenhados em tarefas "servis". A tecnica e considerada inferior a ciencia, 
como o artesao econsiderado inferior ao indivfduo livre, e ao academico. 27 

Com o Renascimento, a praxis passou a merecer melhor estima; a investigacao 
experimental alcancou maior dignidade e o conhecimento cientffico passa a ter uma 
funcao na realizacao de metas mundanas. Aconselhando o Cardeal Richelieu, 
Descartes expressou o significado que a ciencia teria daf em diante: "Seria oportuno 
que Vossa Eminencia concedesse dois ou tres dos seus milhoes para efetuar todas as 
experiencias necessarias afim de descobrir a natureza especffica de cada corpo. N ao 
tenho duvida de que poderfamos assim reunir um grande conhecimento, 
conhecimento que seria muito mais util ao publico do que todas as vitorias que 

TO 

pudessem ser conseguidas na guerra." 

N ao obstante, a crenca de Descartes na utilidade da ciencia nao significa que 
ciencia e tecnologia fossem vistas como a mesma coisa. Seu reconhecimento do valor 
da atividade experimental pode ter significado ou que o conhecimento especulativo 
tinha adquirido uma orientacao mais pratica ou que a postura experimental tinha 
ganho "dignidade", sendo incorporada as atividades academicas. 

Sabemos hoje que ate mesmo a pesquisa cientff ica de natureza mais academica 
e guiada por estrategias que sao muito mais complexas do que uma simples busca 
neutra de conhecimento. 29 A "Republica da Ciencia" de Polanyi descreve uma parte 
dessa realidade e muito da ideologia correspondente, como podemos ver pela 
aceitacao que teve a sua proposta de organizacao da atividade cientffica. Os lacos 
estreitos que ligam a ciencia, a pratica e a polftica correspondem ao outro lado da 
realidade, que por sua vez fica evidente nas criticas ao model o de mercado, e na 
resistencia que ele encontra. 

De uma perspectiva mais limitada, a passagem da "ciencia menor" para a 
"ciencia maior" pode ser considerada simplesmente como uma manifestacao do 
mercado da Republica da Ciencia, restringido pelos tetos impostos ao seu modelo 



"Salomon 1970:30. 

28 Citado em Salomon 1970:39, etraduzido do frances. 

29 Knorr-Cetina e Whitley 1981; Latour e Wool gar 1979. 



Introducao: um espaco para a ciencia 26 

historico de crescimento exponencial. O ideal da Republica da Ciencia tem muito a 
ver com esse espfrito dos horizontes abertos, de uma incessante incorporacao de 
novas pessoas e novas ideias, de estfmulo a experimentacao dentro de um sistema em 
expansao contfnua. A "ciencia maior" parece corresponder ao ponto em que esse 
crescimento comeca a ser excessivo, criando uma base justamente para as atividades 
de planejamento que podem restringir o livrefuncionamento do mercado. 30 

Acresce ao progresso exponencial da ciencia e do seu custo o crescimento nao 
menos espetacular dos resultados praticos que promove. A pesquisa de novos 
materials, a eletronica e a biologia tem um tremendo impacto social, cultural e 
economico. Dentro desse contexto, e inevitavel que a sociedade demande mais dos 
cientistas, e que estes por sua vez sintam maior responsabilidade pel as implicates do 
conhecimento que desenvolvem. E uma situacao que cria um dilema para o cientista. 
As caracterfsticas mais gerais da Republica da Ciencia, centradas no esforco de 
desenvolver ao maximo os talentos individuals, e associadas a um sistema de 
compensacao baseado no merito intelectual, sao perturbadas quando comecam a 
intervir criterios de custo, aplicabilidade pratica e utilidade social. Este eum problema 
particularmente agudo nas comunidades cientfficas estranhas aos centros mais 
importantes: a alienacao do cientista com relacao ao seu contexto social mais amplo, 
ou mesmo a sua emigracao, pode ser o preco a pagar pela prioridade maxima posta 
nos valores adotados pela Republica da Ciencia. 

Nao e surpreendente que, quando questionados, os cientistas e pesquisadores 
brasileiros digam que suas decisoes de pesquisa se baseiam essencialmente no 
interesse academico pelo tema escolhido; no entanto, de fato, essas decisoes sao 
fortemente influenciadas por alguma combinacao de consideracoes de ordem pratica, 
incentivos materiais e institucionais, assim como as linhas predominantes da pesquisa 
feita nas instituicoes para as quais trabalham. 31 Essa contradicao reflete os esforcos 
dos cientistas para privilegiar aqueles valores que maximizam o merito intelectual e o 
reconhecimento cientifico na distribuicao de compensacoes, de prestigio e de recursos 
em todo o sistema educacional e cientffico em que estao inseridos. E etambem uma 
indicacao de que eles respondem aos aspectos praticos do "mundo real". 

A tensao existente entre o que os cientistas fazem e aquilo que acreditam que 
deviam fazer e so um dos fatores (e nao o mais importante) que prejudicam o 
funcionamento de uma logica pura de "mercado". Os proponentes do modelo de 



30 Price 1963. 

31 N. S.OIiveira 1975:115. 



Introducao: um espaco para a ciencia 27 

mercado para a atividade cientffica se utilizam dos argumentos classicos usados pelos 
economistas para criticar as economias monopolfsticas: a tendencia a ineficiencia, a 
manutencao indefinida de instituicoes e organizacoes obsoletas, a criacao de 
instituicoes de planejamento cada vez mais pesadas e complexas. Por outro lado, ha 
boas razoes para justificar a busca de precedencia, a distribuicao preferencial de 
fundos, e a manutencao de esquemas protecionistas. A saber, a necessidade de evitar 
uma concentracao espontanea de recursos e talento; de proteger iniciativas ainda 
frageis, que poderiam ser absorvidas ou eliminadas pela competicao indiferenciada; 
custos sociais inevitavelmente elevados; e as distorcoes que surgem quando se 
permite a predominancia de uma atitude de laissez-faire em uma atividade que se 
torna crescentemente custosa, e e dominada por grupos de interesse profissional bem 
organizados. 

Esse dilema e visfvel tambem nas varias polfticas e filosofias dos grupos 
sociais e agendas governamentais associadas direta ou indiretamente com a ciencia, a 
tecnologia e a educacao superior. A ciencia se desenvolve (ou se paralisa) justamente 
no ponto de encontro dessas tendencias. 

Os contrastes entre ciencia e tecnologia nao podem simplesmente ser 
ignorados, pois refletem uma questao mais profunda: o modo como os cientistas 
definem o seu papel na sociedade, como eles se veem, e como esperam ser tratados 
pela sociedade --- um fato percebido claramente por muitas das pessoas entrevistadas. 
O biologo Paulo Emilio Vanzolini, 32 por exemplo, afirmou que "a biologia basica e a 
aplicada so variam em termos do interesse economico envoi vi do. Se estudo a 
estrategia reprodutiva de um lagarto, por exemplo, isto nao e ciencia aplicada. M as se 
faco o mesmo com um peixe que tern uma certa importancia economica, passa a ser 
ciencia aplicada, porque e importante avaliar a intensidade com que essa especie de 
peixe pode ser explorada." E acrescentou: "A distincao entre ciencia pura e aplicada 
nao reside apenas no merito de cada uma, ou no modo como sao concebidas, mas no 
tipo de animal que e estudado. A meu ver, este e o ponto essencial." Vanzolini se 
considera um pesquisador basico que admite como uma das suas tarefas o treinamento 
de pesquisadores aplicados, ensinando-lhes a metodologia apropriada ao seu trabalho. 

Entre os qufmicos parece haver o consenso de que a fisico-qufmica e a 
especial izacao mais teorica dessa disciplina. No entanto, os qufmicos dedicados ao 
estudo das caracterfsticas e dos componentes dos produtos naturais tambem se 
definem como pesquisadores basicos, ja que nao buscam uma aplicacao economica 



32 Vide no apendice a relacao dos cientistas entrevistados. Para a biografia desses 
cientistas, e um sumario das entrevistas, videCPDOC 1984. 



Introducao: um espaco para a ciencia 28 

imediata: "Nosso trabalho consiste em identificar substancias com diferentes 
estruturas quimicas, e af termina o nosso interesse. E preciso que haja 
farmacologistas, ecologistas, agronomos, veterinarios, etc. que se interessem por esse 
trabalho e tentem ver em que medida a analise das plantas brasileiras e importante 
para explicar cada um dos seus proprios fenomenos" (Otto Gottlieb, entrevista). A 
fronteira entre o que e pesquisa "basica", "fundamental", "aplicada" ou "teorica" 
depende menos de nocoes epistemologicas do que da funcao que os cientistas desejam 
ter na sua sociedade. 

Os mesmos dilemas podem ser vistos pelo prisma da sociologia das profissoes. 
Aos medicos e engenheiros brasileiras nunca pareceu evidente que a sua identidade 
como cientistas devesse ser acentuada e diferenciada da sua funcao profissional. 
Alias, esta nao e uma situacao peculiar ao Brasil. A medicina, como o direito, foi 
sempre uma profissao de status social elevado, e no Brasil a engenharia seguiu a 
tradicao francesa. Qualificar essas profissoes de "cientfficas", dotadas portanto de 
uma aura de alta competencia, era uma coisa; coisa diferente era renunciar ao 
prestigio (e muitas vezes aos rendimentos elevados) das profissoes tradicionais. No 
Brasil, como em outros pafses, definir onde termina a "ciencia" biomedica ou ffsica e 
onde comeca a "profissao" medica ou de engenharia e mais um assunto relacionado 
com as disci pi inas academicas e a institucionalizacao profissional do que com 
criterios epistemologicos ou funcionais bem definidos. Mas e importante identificar 
essa fronteira, pois nao ha muitas duvidas de que a pesquisa cientifica nao pode 
progredir se nao e reconhecida como uma atividade profissional independente, dotada 
de um certo grau de auto-regulamentacao e de liberdade com respeito as pressoes e 
exigencias de curto prazo que as profissoes liberais nunca tern, por maior que seja a 
sua autonomia. 

A ciencia moderna, a tecnologia e as profissoes tendem a se desenvolver em 
paralelo (com amplas areas de intersecao) nas sociedades com um crescimento 
industrial endogeno e robusto. A distincao entre o conhecimento puro e o aplicado e 
muitas vezes principalmente institucional --- de um lado as instituicoes academicas, 
de outro os centros de pesquisa tecnologica, as universidades ao lado dos institutes 
tecnicos ---, mas a riqueza de recursos existente dentro das economias mais 
avancadas, e a experiencia de fertilizacao cruzada entre o campo da ciencia e o da 
tecnologia fazem que com os dois tenham um desenvolvimento separado mas 
harmonioso. Um paradoxo dos pafses subdesenvolvidos e o fato de que suas 
atividades cientfficas tendem a seguir padroes internacionais (pois os seus cientistas 
mais qualificados sao educados e treinados no mundo desenvolvido), enquanto a 
tecnologia avanca menos. Quanta melhor o trabalho cientffico feito nessas condicoes, 
mais ele tendera a contribuir para um acervo central de conhecimento acumulado em 
cada campo. E as maiores oportunidades para a aplicacao pratica desse conhecimento 



Introducao: um espaco para a ciencia 29 

estao, naturalmente, nos pafses mais desenvolvidos. Isso explica por que a ciencia 
praticada nos pafses perifericos e vista as vezes como "alienada", sem conexao com as 
necessidades objetivas de cada nacao. Devido a essa "alienacao", as instituicoes 
cientfficas muitas vezes acham diffcil justificar o seu trabalho e obter da sociedade os 
recursos e a liberdade de acao necessarios para levar adiante o seu trabalho. 

Um sumario 

As nocoes precedentes ajudam a entender o modo como este livro esta 
organizado. A Primeira Parte trata dos fundamentos historicos da comunidade 
cientffica, ate o fim da Segunda Guerra M undial. A Segunda Parte e mais analftica e 
discute padroes de crescimento dos anos 1930 ate o presente. Distincao que nao e 
absoluta, porque nas duas Partes ha elementos historicos e anal fti cos, mas 
corresponde a uma nftida mudanca de abordagem, explicada em parte pela 
impossibilidade de acompanhar os eventos na segunda metade do seculo vinte com o 
mesmo tipo de atencao detalhada que se poderia adotar em alguns campos ate aquela 
epoca. 

O livro dedica pouco espaco aos primeiros exploradores que chegaram ao 
Brasil, pois, embora tenham deixado muitas vezes uma heranca importante de 
observacoes e estudos, eles tiveram pouco contato com a sociedade brasileira e nao 
deixaram atras de si discfpulos ou instituicoes. 33 O Brasil foi a maior colonia do 
Imperio portugues, e no proximo Capftulo examina como Portugal se relacionou com 
a revolucao cientffica europeia no seculo dezoito, e o tipo de heranca intelectual 
deixada no Brasil pelos Portugueses. Para Portugal, o Brasil era menos um projeto de 
colonizacao do que um grande latifundio a ser explorado. Durante os dois primeiros 
seculos, a cana de acucar predominava nos estados do Nordeste; no seculo dezoito, 
quando os precos do acucar cafram drasticamente no mercado mundial, comecou em 
M inas Gerais a extracao de grande quantidadede ouro. 34 

O Capftulo 3 trata do seculo dezenove, que viu o fim do ciclo do ouro, a 
chegada da famflia real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, o fim da escravidao, 
em 1889, o exflio do segundo Imperador, Dom Pedro II, e o infcio do perfodo 



33 Para uma visao geral vide Oberakcker 1960. Vide tambem Albertin e Faria 1984 
sobre a presenca holandesa no Norte do Brasil entre os seculos dezesseis e dezessete; Chur, 
Bertels, Komissarov e Licenko 1981 sobre o explorador russo G. I. Langsdorff, no seculo 
dezenove; e Ferri 1979/80, que contem uma ampla bibliografia. 

34 Para uma ampla visao da heranca colonial brasileira vide Holanda 1960b. A respeito 
da sociedade e da economia coloniais, vide Simonsen 1962; C. Prado 1967; Furtado 1968; Lang 
1979; eNovais 1981. 



Introducao: um espaco para a ciencia 30 

republicano. Por volta da segunda metade do seculo dezenove, um novo produto 
agrfcola, o cafe, comecou a predominar primeiro nos estados centrais --- M inas Gerais 
e Rio de J aneiro --- e depois em Sao Paulo, que comecou sua longa ascensao como o 
centra economico e demografico do pafs. Nessa epoca foram criadas as primeiras 
escolas profissionais e formados os primeiras grupos cientificos, e o patrocinio 
imperial dessas atividades era decisivo para o seu exito ou fracasso. 

O Capftulo 4 trata da transicao do seculo dezenove para o seculo vinte, e das 
primeiras decadas do perfodo republicano. O regime republicano representou em larga 
medida o reconhecimento do novo papel economico e polftico de Sao Paulo, e 
coincidiu com um grande influxo de imigrantes europeus e japoneses, que deveriam 
modificar dramaticamente a composicao etnica do Brasil, de Sao Paulo para o Sul. 
Foi tambem um perfodo de transicao da antiga ciencia imperial para uma nova enfase 
em resultados praticos, e pretendo examinar o auge e a crise desse processo. A 
historiografia brasileira. toma habitualmente o ano de 1930 como a data em que o 
Brasil ingressou no mundo moderno. Chega ao poder um novo regime centralizado, a 
industrializacao passa a ser uma preocupacao nacional, sao abertas as primeiras 
universidades e aumenta a presenca e a influencia das mudancas na arte e na literatura 
quetinham comecado nos anos 1920. 35 

O Capftulo 5 trata do impacto dessas mudancas nas instituicoes cientfficas e 
educacionais brasileiras, com enfase especial na criacao das primeiras universidades. 
Capftulo 6 finaliza a Primeira Parte, examinando as rafzes das principais tradicoes 
cientfficas, que datam desse perfodo e que ainda modelam uma boa parte do que e 
hoje a comunidade cientffica brasileira. 

ritmo se acelera na Segunda Parte do livro. O Capftulo 7 da uma visao geral 
das diversas geracoes de cientistas brasileiras no seculo vinte, sua profissionalizacao e 
a introducao de ingredientes do que poderfamos chamar de um moderno "ethos" 
cientffico, com a definicao de um papel para a ciencia. O Capftulo 8 cobre o perfodo 
da chamada Segunda Republica, de 1945 ate 1964, e os dois ultimos Capftulos nos 
trazem aos anos 1990, examinando o importante desenvolvimento cientffico e 
tecnologico dos anos 1970 e as circunstancias da decada de 1980. 



35 Sobre esse perfodo vide, entre outras fontes, W irth 1970 e Skidmore 1967. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

a formagao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



CAPITULO 2 
A HERANCA DO SECULO DEZOITO 

Os temas principals 5 

As novas universidades 7 

A Contra- Reform a 12 

A reforma de Pombal 16 

O Estado, a Igreja e a Educacao no Brasil 18 

Projetos para uma universidade brasileira 21 



No princfpio, a ciencia conforme era praticada no Brasil nao passava de uma 
palida imagem da ciencia europeia, refletida por Portugal. Faltavam as estruturas, 
instituicoes e forcas sociais que davam vida a ciencia no Velho M undo, e no passado 
quaisquer realizacoes cientfficas do Brasil devem ser associadas necessariamente as 
condicoes europeias, nao brasileiras. 

Ate o seculo dezenove a historia institucional da ciencia europeia pode ser 
narrada como a historia da conquista gradual, pela ciencia experimental, de uma 
posicao central na cultura e na cosmovisao do Ocidente. A ciencia experimental se 
desenvolveu fora das universidades tradicionais, e so no seculo dezenove criou rafzes 
a conexao fntima entre a ciencia e a universidade, que hoje e considerada normal. 
Cabe portanto fazer um breve sumario dessa historia para avaliar o que aconteceu no 
Brasil na perspectiva adequada. 

Uma marca significativa do longo processo de legitimacao e ascendencia da 
ciencia moderna na Europa foi a atitude de desafio de Galileu, ao perguntar-se sobre o 
modo como devem ser estabelecidas as verdades importantes: se de acordo com a 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 2 

autoridade de Aristoteles e Ptolemeu, secundada pela Igreja, ou, como ele propunha, 
se orientada por observacoes empfricas desenvolvidas segundo procedimentos 
racionais. 1 O caso de Galileu foi a ultima tentativa pelo estabelecimento religioso e 
intelectual dessa epoca desubordinar osfatos revelados pela ciencia fisica ao dogma e 
ao raciocfnio apriorfstico. Daf em diante prosperou a pesquisa cientffica, coerente com 
a etica individualista do protestantismo e do capitalismo em expansao. Da sua base 
mais importante, a Italia, a ciencia modema foi transplantada para a Franca e a 
Inglaterra, onde daria mais frutos; e com a teoria da evolucao de Charles Darwin, no 
seculo dezenove, foi a vez das ciencias biologicas confrontarem os dogmas religiosos 
da epoca. 

Do modo como se desenvolveu nesses pafses, a ciencia nao comecou nas 
universidades. As universidades prestigiosas e veneraveis, como as de Oxford, 
Cambridge e Paris, eram centros tradicionais de estudos classicos, oferecendo uma 
formacao em direito, medicina eteologia, e relegando a ciencia empfrica a um piano 
secundario. Na Inglaterra, o ponto de encontro dos cientistas era a Sociedade Real, 
criada em 1660. De acordo com os seus fundadores, o objetivo original da Royal 
Society era eminentemente pratico, experimental e tecnico. 2 E bem verdade que essa 
declaracao de proposito nao era inteiramente fiel a realidade: poucos dentre os 
principais membros da Sociedade eram inventores de "coisas uteis", e a forca por tras 
do movimento de apoio e estfmulo a pesquisa cientffica era a busca de uma forma 
original e inovadora de conhecimento do mundo, incorporada a ciencia experimental. 
Estava sendo forjada uma visao completamente nova da natureza e dos metodos com 
que ela devia ser abordada, contrastando com a cultura tradicional que predominava 
no meio universitario. 

Criada em 1666 por Jean- Baptiste Colbert, a Academie des Sciences francesa 
tinha o objetivo explfcito (e altamente pratico) de permitir a expansao da industria e 
do comercio na Franca. Ao contrario da Royal Society, nao era uma sociedade de 
amadores, mas de profissionais: vinte pesquisadores apoiados pelo governo para 
resolver problemas apresentados pelos ministros do Rei. O predecessor imediato da 
Academie de Paris foi a Academie Montmor, que reuniu cientistas como Pierre de 
Fermat, Pascal e Pierre Gassendi, que se correspondia com Galileu, Descartes e 
Hobbes. Inicialmente, a criacao da Academie des Sciences como uma instituicao 



1 Vide Burtt 1951:70. 



2 Na linguagem da epoca, seu objetivo era "aprimorar o conhecimento das coisas 
naturais e de todas as artes uteis, manufaturas, praticas mecanicas, engenhos e invencoes 
mediante experiencias (sem interferir com a religiao, moral, polftica, gramatica, retorica ou 
logica)". Citado em M ason 1975:259. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 3 

governamental orientada para a pratica foi uma tentativa de salvar a Academie 
Montmor, que vivia dificuldades financeiras. Nesse momenta, como aconteceria 
muitas vezes nos seculos seguintes, os cientistas conseguiram persuadir o govemo da 
sua utilidade, e de que a nacao precisava do seu trabalho, recebendo o apoio 
solicitado. 

sucesso da Academia parece ter sido inversamente proporcional a conviccao 
com que foram mantidos seus objetivos iniciais. A parentemente Colbert se limitou a 
dar-lhe algumas diretrizes gerais. Camille Letellier Louvois, seu sucessor, atribuiu aos 
academicos tarefas praticas, tais como projetar fontes para os palacios reais ou 
inventar jogos de azar para entreter a corte. A instituicao sofreu durante esse perfodo, 
mas depois de 1699 foi reati vada e expandida por J ean-Paul B ignon. 

Tanto na Inglaterra como na Franca o surgimento dessas instituicoes 
cientificas visava claramente desenvolver o conhecimento pratico e aplicado, a 
servico das elites. Nos dois casos, havia tambem um grupo de cientistas eminentes 
que lutavam contra a cultura tradicional entrincheirada dentro das velhas 
universidades. A ciencia que estava sendo criada nao pretendia ser um instrumento 
neutro, isento de implicacoes morais, mas era acompanhada por uma cosmovisao que 
via na ciencia o melhor caminho para uma filosofia mais precisa, uma melhor 
compreensao do homem e da natureza e uma melhor sociedade. Essa nova 
Weltanschauung, que os estudiosos desse perfodo chamam de "ideologia cientfstica", 
nao era um evento isolado, mas parte da transformacao social, economica e polftica da 
sociedade europei a que hojeconhecemos como a Revolucao Industrial. 3 

auge da ciencia do seculo dezessete veio com a publicacao da obra mais 
importante de Sir Isaac Newton: Philosophiae Naturalis Principia M athematica, que 
sintetiza e completa o processo de conceituacao e observacao em andamento desde 
que Galileu e Kepler comecaram a aplicar a matematica moderna a visao do uni verso 
deCopernico. O tftulo do livro revela uma intencao da ciencia de Newton queexcedia 
a simples explicacao empfrica, para fins utilitarios, de determinados fenomenos 
naturais. O que Newton pretendia --- e conseguiu --- era uma nova compreensao do 
universe em que a razao se combina harmoniosamente com a observacao empfrica 
sistematica. Gracas a sfntese de Newton, a ciencia moderna consolidou sua 
preeminencia sobre a velha cultura escolastica na sua propria Ifngua e no seu proprio 
estilo, afirmando sua independencia e superioridade com respeito ao conhecimento 
aplicado. Nao foi por acaso que muitos perceberam uma analogia entre a harmonia 



3 Ben-David 1971; Bernal 1971; Mason 1975; Cardwell 1972; M erton 1970; Gilpin 
1968; Crosland (ed.) 1976. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 4 

preestabelecida do universo newtoniano e os ideais de justiga e de riqueza social que 
seriam criados nos anos vindouros por meio da iniciativa individual e o uso amplo do 
conhecimento empfrico. 

No entanto, justamente ao atingir o seu auge, a ciencia inglesa parecia perder o 
impeto. Em 1698, Leibnitz ejohn Wallis (que era entao o unico sobrevivente do 
antigo Colegio Filosofico) se perguntavam a respeito das causas do declfnio que 
observavam na pesquisa cientifica. Ou, para usar as suas palavras, "a causa da atual 
situacao de languidez da filosofia". 4 E possfvel que a obra de Newton, aparentemente 
tao perfeita, tivesse tido um efeito inibidor sobre a ciencia experimental, como uma 
grande arvore cuja sombra impede o crescimento de vegetacao a sua volta. Ou talvez 
a incipiente Revolucao Industrial estivesse atraindo os melhores talentos da Inglaterra 
para outras atividades. 

fato e que na Inglaterra a tecnologia se expandiu e diversificou: na 
agricultura; na industria textil; com o emprego do carvao como combustfvel; na 
mineracao, nos transportes, na producao de ferro e aco; e acima de tudo com a criacao 
do motor a vapor. Esse processo coincidiu com a decadencia progressiva da 
Sociedade Real, que cedeu lugar a instituicoes "nao conformistas" que comecavam a 
surgir nos centros mais industrial izados do pafs: a Sociedade Lunar de Birmingham; a 
Sociedade Literaria e Filosofica de Manchester; a Sociedade Filosofica de 
Edimburgo. Criada em 1831, a Associacao Britanica para o Progresso da Ciencia 
tomou-se eventualmente a instituicao mais importante da comunidade cientffica 
inglesa. 

A despeito do dinamismo demonstrado pelos pesquisadores cientfficos 
escoceses, os estudiosos dessa epoca parecem estar de acordo em que em meados do 
seculo dezoito a Franca passou a ser o centra da ciencia internacional. AM, em 
contraste com o que acontecia na Inglaterra, a revolucao social que acompanhou a 
Revolucao Industrial seria sangrenta. Havia na Franca uma versao oficial da ciencia 
que se apresentava como tecnica e neutra, e estava incorporada na Academie. Mas 
havia tambem um movimento cultural e intelectual em torno da ciencia, uma 
importante ideologia "cientfstica" que seria conhecida historicamente como o 
lluminismo, ou llustracao. Publicada entre 1751 e 1777, a Encyclopedie F rangaise de 
Diderot e d'Alembert aparece como a grande obra da ciencia francesa dessa epoca. 
Comparada com as obras si mi lares desses mesmos anos, era altamente teorica e 
cultural, nao tecnica ou de ciencia aplicada. Lavoisier era entao a figura central da 
ciencia francesa, e a influencia de pensadores sociais como Saint-Simon, Proudhon e 



4 Citado em M ason 1975:280. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 5 

Rousseau testemunha as inclinacoes polfticas e sociais do movimento cientffico e 
intelectual frances (em contraste, a Inglaterra se distinguia principalmente pela 
presenca de uma escola economica de grande importancia, liderada por Adam Smith). 
A Revolucao Francesa condenou Lavoisier a guilhotina, em parte devido ao 
obscurantismo (a autoridade que o condenou teria declarado que "a Republica nao 
precisa de cientistas"), em parte devido as suas ligacoes com o sistema de coleta de 
impostos do ancien regime. M as a ciencia francesa nao tardou a se recuperar, 
alcancando uma posicao de preeminencia no Ocidente durante a Restauracao 
napoleonica. 

Os temas principals 

Depois da sfntese newtoniana, a ciencia se encontrou, no fim do seculo 
dezoito, sem um problema central. De um lado, havia um modelo a seguir, e a epoca 
era de grande expansao economica, de conquista dos mundos selvagens recentemente 
descobertos e estabelecimento progressivo de novas tecnologias. 

Vale a pena relacionar, ainda que sumariamente, as varias areas de interesse 
cientffico nessa epoca. Os natural istas ocupavam uma posicao preeminente, com sua 
preocupacao em descrever e na medida do possfvel sistematizar os objetos 
encontrados na natureza --- plantas, animais e minerais. Lineu (Linnaeus) foi o 
pioneiro da colocacao desses objetos naturais em um sistema classificatorio geral, 
especial mente bem sucedido na botanica. Desenvolvido a princfpio como um modelo 
para organizar as informacoes disponfveis, o sistema de Lineu nao demorou a adquirir 
importancia no cenario intelectual da Franca, servindo como base para a ambiciosa 
Histoire Naturelle de Buffon --- tentativa de classificar todos os fenomenos segundo 
princfpios racionais. A continuacao dessa pesquisa intensiva, e do esforco de 
sistematizacao da natureza abriu caminho para a teoria da evolucao de Charles 
Darwin, que apareceu no seculo dezenove e continua atehoje a exercer sua influencia. 

A observacao dos objetos naturais levou inevitavel mente a teorias sobre o 
desenvolvimento do planeta terra, inspiradas tambem nos princfpios de uma harmonia 
universal preestabelecida. Confrontada com as teorias dos "catastrof istas", que nao 
podiam deixar de observar sinais de grandes alteracoes, eventos dramaticos, na 
superffcie terrestre, a antiga concepcao foi defendida com a "teoria uniformitarista", 
do escoces James Hutton, cujo trabalho, popularizado no seculo dezenove por Sir 
Charles Lyell, contribuiu para a sfntese evolucionaria de Darwin. Oposto de um lado 
pelo pensamento conservador, que se apoiava decisivamente na ideia newtoniana da 
harmonia celestial, e de outro pelo catastrofismo geologico (que persistiu ate 
recentemente como uma posicao filosofica e interpretativa teorica semi-clandestina), 
o evolucionismo e talvez o exemplo mais claro dos vfnculos complexos entre a 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 6 

ciencia, a observacao empfrica e a visao leiga sobre o mundo material, social e 
politico. 5 

evolucionismo contem a ideia da "historia natural", que reune observacoes 
arqueologicas da diversidade geologica, zoologica e botanica. A ideia da evolucao 
nao era repugnante aos meios intelectuais alemaes daquela epoca; no entanto, a 
filosofia da natureza prevalecente se inspirava mais em filosofos e poetas --- Leibniz 
e Goethe --- do que nos model os mecanicistas de Descartes e Newton. Essa filosofia 
pressupunha o desenvolvimento do uni verso a parti r de arquetipos, monadas 
primordiais que continham em si todos os princfpios da vida e do movimento, ideia 
que serviu como base para a iatroqufmica (que se desenvolveria na Alemanha ao lado 
da alquimia) e preparou o caminho para a pesquisa morfologica, onde aparecem em 
relevo as contribuicoes de Lorenz Oken. A partir de Oken, deixou-se de usar um 
modelo mecanico da organizacao da natureza, substitufdo por um modelo 
especificamente organico. O estudo das formas biologicas deveria fundir-se com a 
analise empfrica dos tecidos, com a patologia, a anatomia e a fisiologia, todas 
associadas de perto com o desenvolvimento da medicina, completando assim o quadra 
geral da biologia. 

Foi tambem no seculo dezoito que a qufmica moderna construiu seus alicerces. 
Lavoisier introduziu metodos quantitativos de pesquisa, firmou o conceito de 
elemento e abriu caminho para a teoria atomica da materia, delineada mais tarde por 
John Dalton. Foi a epoca dos primeiros estudos sobre o calor e a energia, aplicados 
imediatamente na Inglaterra a construcao de motores a vapor, e consolidados mais 
tarde em um novo ramo da ffsica, a termod in arnica, cujas bases estao nas obras dos 
f ranceses J . B. J. Fourier e Sadi Carnot. Foi tambem a epoca dos primeiros estudos 
sobre a eletricidade e o magnetismo, quando os resultados experimentais de Stephen 
Gray, Charles F. Dufay, Benjamin Franklin, Luigi Galvani, Alessandro Volta e outros 
ainda nao tinham chegado a sfntese que seria tentada no seculo seguinte com as 
teorias da inducao eletromagnetica, de M ichael Faraday, e do campo magnetico, de 
J ames Clerk M axwell. 



VideGould 1977. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 7 

As novas universidades 

fim do seculo dezoito viu tambem transformacoes profundas nos principals 
centros de educacao superior do Ocidente: a Inglaterra, a Franca e a Alemanha. Esta 
ultima dominaria o seculo dezenove e exerceria uma forte influencia sobre o sistema 
de educacao superior nos Estados U nidos, que chegaria ao seu auge durante o seculo 
seguinte. 

Ate o seculo dezenove a educacao superior se baseava fundamental mente na 
tradicao classica. O estudo do latim, do grego, da logica e da filosofia servia de 
preparacao para as principals profissoes da epoca: medicina, direito, o sacerdocio. 
Durante o seculo dezoito, porem, o progresso da ciencia empfrica tinha comecado a 
mostrar que uma educacao exclusivamente classica era insuficiente, e pessoas que 
tinham adquirido seus conhecimentos fora da educacao tradicional comecaram a 
disputar os privilegios e monopolios profissionais pretendidos pelos poucos que 
tinham completado uma educacao classica. 

J a no seculo dezoito algumas instituicoes comecaram a propor um tipo de 
educacao muito mais tecnica e especializada do que a oferecida pelas universidades 
tradicionais. Entre elas, as mais conhecidas eram as universidades escocesas (no 
campo da medicina), a Ecole Nationale de Fonts et Chaussees, francesa, e a 
Gergsakademie em Freiburg (no campo da engenharia). Por volta do fim do seculo ja 
parecia claro que as profissoes cultas, baseadas nas universidades mais tradicionais, e 
marcadas pelo seu prestigio, estavam prestes a desaparecer, levando consigo todo o 
sistema de corporacoes profissionais que predominara durante seculos, respaldado 
pelo ideal da educacao classica. 6 

Esta nova visao da educacao superior respondia a dois tipos de pressao: a 
necessidade de incorporar novos conhecimentos produzidos pela ciencia experimental 
em expansao; e a necessidade de eliminar os privilegios especiais das profissoes e 
corporacoes profissionais mais antigas, abrindo espaco para novas profissoes, escolas, 
novos metodos de ensino, e substituindo assim uma elite por outra. 

Em nenhum pafs essa transformacao foi mais dramatica do que na Franca, 
onde a Revolucao aboliu a princfpio as velhas universidades, substituindo- as 
inteiramente por escolas profissionais. 7 Mais tarde, porem, houve uma retomada do 



6 Ben-David 1977:36. 



7 Escreve Ben-David: "0 novo sistema que comecou a emergir em 1794 consistia em 
um conjunto de escolas profissionais para formar professores, medicos e engenheiros de que o 
estado necessitava. Os estudos cientfficos e a filosofia cientfstica deviam herdar a posicao 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 8 

antigo modelo educacional, como parte da Restauracao pos-revolucionaria, pois na 
Franca, como no resto da Europa, havia grupos profissionais e intelectuais com 
organizacao e forca suficientes para impor uma boa parte dos seus principios e da sua 
ideologia a sociedade em geral, assim como ao novo modelo de sistema universitario. 
Por mais que quisessem estabelecer novas formas de educacao, separando as 
profissoes tecnicas das cultas e eliminando os privilegios de certos grupos 
profissionais, os governantes desse perfodo nao podiam combater o monopolio de 
excel encia que essas profissoes exerciam quase por definicao. 8 

Na realidade, as Grandes Ecoles criadas pelo sistema napoleonico, para treinar 
o principal corpo tecnico do estado, se transformaram em centres para o treinamento 
da nova elite intelectual francesa. Essas escolas (a Ecole Polytechnique, a Ecole de 
Mines, a Ecole Normale Superieure) comecaram a oferecer a uma elite uma educacao 
concentrada, de alto nfvel, enquanto o sistema de educacao de massa era desenvolvido 
em um nfvel inferior, para o resto da populacao. Sob o novo sistema, o ensino 
especializado era visto como uma forma de valorizacao intelectual e aprimoramento 
da mente, tornando seus estudantes cidadaos educados de um novo tipo. 9 

Na Inglaterra havia tambem uma tendencia para a profissionalizacao da 
educacao, embora nao tao forte como na Franca. As universidades inglesas 
tradicionais (Oxford, Cambridge) se apegavam a nocao de que o estudo mais 
especializado devia ser apreciado nao so como uma forma de adquirir determinadas 
habilitacoes praticas mas como um fim em si mesmo, uma melhor forma de educar a 
mente. Essa insistencia tornou possfvel para essas universidades manter o ideal da 
educacao liberal nao orientado diretamente para as carreiras profissionais, enquanto 
recrutava como professores cientistas e pesquisadores competentes, especial istas e 
profissionais dentro do seu campo especffico. Deste modo, o sistema ingles deixou em 
aberto uma opcao para um tipo de ensino mais generico, focal izado simplesmente na 



central antes ocupada pelos classicos, tanto na educacao secundaria como na superior. 
Eventual mente, sob Napoleao, a orientacao cientffica se debilitou, e a enfase da nova filosofia 
cientifista foi completamente abandonada, e o ensino dos classicos restaurado a sua importancia 
anterior na escola secundaria. No entanto, a educacao superior continuou identificada com a 
formacao especializada para varias profissoes." (Ben-David 1977: 15-16). 

8 "Os governantes, no entanto, so podiam controlar efetivamente a transmissao de 
tecnicas especfficas. Assim, podiam impedir os servicos esotericos dos relojoeiros efabricantes 
de armas, mas nao tinham condicoes de controlar a educacao superior, que ensina mais do que 
tecnicas, e que proporcionam o campo para o exercfcio da virtuosidade intelectual e da 
originalidade ... Os governantes podiam conceder ou negar as universidades a autorizacao de 
funcionamento, ou comprar o seu apoio, mas nao podiam control a-las como controlariam uma 
oficina, onde mestres artesaos ensinavam a seus aprendizes. O ensino superior continuava a ser 
um monopolio das classes cultas." (Ben-David 1977:35-36). 

9 Gilpin 1968. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 9 

educacao geral. Mais tarde ele assumiria uma forma mais completa no sistema do 
college que se generalizou nos dos Estados U nidos. 10 

No entanto, foi a Alemanha que introduziu a pesquisa cientffica na 
universidade do seculo dezenove, tornando-se o modelo que influenciaria todos os 
paises. A reforma do sistema educacional alemao (prussiano, para ser mais preciso) 
teve seu infcio em 1809, com a criacao da universidade de Berlim. O contexto geral 
parece ter sido estabelecido pela existencia de uma "intelligentsia" que se 
desenvolveu sob a protecao do estado, o que significava guiar a Prussia pela estrada 
da modernizacao sem deixar espaco para novos grupos sociais ou para uma 
pluralidade de interesses economicos e polfticos. 11 A atividade universitaria passou a 
ser um dos poucos meios de acesso e de participacao abertos a esses intelectuais, que 
viam a criacao de uma universidade modernizada como uma forma de garantir sua 
presenca e importancia, o que os levava a resistir a completa profissionalizacao da 
educacao superior, e a trabalhar no sentido de manter um sistema educacional 
integrado, mediante uma filosofia de orientacao naturalista, a Naturphilosophie, que 
tinha um componente muito mais humanista e romantico do que a filosofia positivista 
que se difundia na epoca pela Franca e pelo resto da Europa. Em 1817, sob a lideranca 
de Lorenz Oken, foi fundado na Alemanha a revista Isis, a que se seguiu, em 1822, a 
criacao da Deutsche Naturforscher Versammlung, uma associacao de cientistas e 
medicos de Ifngua alema. Este ultimo grupo seria responsavel pela unificacao da 
comunidade cientffica alema, decadas antes da uniao polftica do pafs, e serviria 
tambem como inspiracao para a British Association for the Advancement of Science. 12 

Foi esse sistema educacional integrado, dirigido e orientado por professores e 
intelectuais, que pela primeira vez reuniu efetivamente o ensino a pesquisa. U niao que 
se efetiva inicialmente na qufmica, na farmacia e na fisiologia (que no seculo 
dezenove j a setinham sistematizado suficientemente para permitir um ensino coerente 
e integrado), assim como nas humanidades. Parece ter sido fundamental tambem o 
fato de existirem varias universidades independentes, competindo pelo talento 
disponfvel e ganhando em prestfgio com as realizacoes academicas dos seus 
professores. Os estudantes que pretendiam tornar-se professores tinham que aprender 
a pesquisar para poder depois competir no mercado profissional. Assim, medicos, 



10 Ben-David 1971:75-8,103-6. 

11 Rosemberg 1966; Ringer 1969. 

12 Que e, por sua vez, o modelo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciencia. 
Veja, a respeito, M ason 1975:578. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 10 

qufmicos e farmaceuticos, juntamente com os futuros professores, podiam agora 
aprender a realizar pesquisas cientfficas como parte da sua formacao geral. 

A despeito das obvias dificuldades que apresente, a ideia de uma associacao 
necessaria entre ensino e pesquisa logo se espalhou a outros paises. Ha uma tensao 
natural entre o ensino, que transmite o que ja e conhecido, e a pesquisa, que busca 
desvendar o desconhecido --- tensao que pode ser superada em certos momentos 
historicos. Na Alemanha, com em outras poucas nacoes, essa tensao levou a criacao 
de um sistema especffico de investigacao cientffica, o Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft 
(que depois cedeu lugar aos Institutes Max Planck). Quando mais tarde o sistema 
norte-americano incorporou a ideia de juntar a pesquisa ao ensino, fez isso com uma 
inovacao importante: por meio de escolas de pos-graduacao e curso regulares de 
doutorado, reconheceu a atividade de pesquisa como uma profissao. Nos novos 
programas de pos-graduacao, a pesquisa deixou de ser uma atividade auxiliar dentro 
do aprendizado profissional, ou apenas um metodo de ensino utilizado pelos 
professores; tinha objetivos proprios e pela primeira vez assumia uma posicao de 
relevo dentro da universidade. Em contraste, na Europa o doutoramento servia 
principalmente como um instrumento para avaliar e acreditar um especialista, quase 
sempre como parte da sua carreira como professor, e sem se relacionar 
necessariamente com uma atividade especffica de pesquisa. E contra esse pano de 
fundo que deve ser visto o desenvolvimento ocorrido em Portugal e no Brasil no 
campo da ciencia e da educacao superior. 



Portugal ea ciencia moderna 



NT 



A princfpio Portugal desempenhou um papel pioneiro nas transformacoes que 
comecaram a sacudir a Europa a partir do Renascimento,. Mais tarde porem teria um 
papel marginal, com efeitos profundos sobre a heranca cultural que o Brasil iria 
receber. 13 

O desenvolvimento da navegacao, especialmente no seculo quinze, teve um 
papel significativo na fundamentacao de um novo entendimento da natureza, coroado 
no comeco do seculo dezoito pela obra de Newton. Antes desses progressos na 
navegacao do seculo quinze, os habitantes da penfnsula iberica ja se tinham voltado 
para a exploracao marftima, na suas lutas contra os arabes. Um dos resultados foi a 
conquista de Ceuta por Portugal, em 1415, garantindo a navegacao segura pelo 



NT A parte que se segue, sobre Portugal, se baseia em texto original deAntonio Paim. 
13 Sergio 1972 apresenta uma visao penetrante da historia de Portugal. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 11 

estreito de Gibraltar e fechando o continente europeu a novas migracoes arabes. Em 
1418, com a bula Sane Carissimus o Papa Martinho V abencoou as conquistas 
portuguesas, atribuindo-lhe as caracterfsticas e a funcao de uma cruzada. Durante esse 
perfodo, foram feitos progressos significativos na construcao naval, e num gesto 
revolucionario, Portugal abandonou o uso de galeoes, substituindo-os por caravel as. 14 

No fim do seculo catorze o Rei Dom Joao I iniciou uma nova dinastia 
portuguesa, a dinastia de Avis, e por volta de 1420 um dos seus filhos, o Prfncipe 
Dom Henrique, organizou a escola de Sagres, dedicada ao aperfeicoamento dos 
navios e instrumentos nauticos e ao treinamento de marujos e navegadores. A futura 
lideranca de Portugal na conquista de novas terras tern sido atribufda pelo menos em 
parte a iniciativa pioneira do Prfncipe Dom Henrique, que reuniu em Sagres 
especialistas de muitas nacionalidades. 

No curso do seculo quinze os Portugueses descobriram e colonizaram as ilhas 
da Madeira e dos A cores, no Atlantico, exploraram a costa ocidental da Africa e 
descobriram uma nova rota para o Oriente. Em 1498 a expedicao de Vasco da Gama 
circundou o cabo da Boa Esperanca para alcancar a India. Pouco depois, em 1500, o 
Brasil foi descoberto. 

Por meio das suas navegacoes, os Portugueses formularam uma nova visao da 
geografia mundial, que conflitava diretamente com a visao mediterranea do planeta, 
desenvolvida por Ptolemeu no princfpio da era crista. 15 Pergunta-se muitas vezes se 
os Portugueses se preocupavam em sintetizar esse conjunto de observacoes empiricas. 
Para Antonio Jose Saraiva esse resultado era inevitavel: 



14 "Os robustos e pesados galeoes projetados pelos Portugueses nao mais se 
desintegravam em tempestades, nas suas longas navegacoes; a madeira com que eram feitas, e o 
modo como se colocava a querena os tornavam mais fortes do que as ondas e as correntes ... 
Com a combinacao unica de velas latinas e quadradas, qualquer direcao do vento servia para 
impulsiona-las, em vez de reduzir o seu deslocamento. Essa combinacao permitia tambem uma 
tripulacao menor para um barco maior, o que deixava os tripulantes menos vulneraveis as 
pragas e a desnutricao, e os capitaes menos sujeitos a motins. O tamanho maior dos galeoes 
tornava possfvel dota-las de canhoes maiores, que por sua vez fazia mais seguro o resultado de 
todos os encontros com as muitas pirogas dos nativos. O maior tamanho tornava pratico 
tambem trazer de volta uma carga maior." (Latour 1987:221). 

15 Um texto portugues do fim do seculo quinze observava: "O que foi escrito aqui deve 
ser afirmado a despeito do que foi dito pelo ilustre Ptolemeu, que escreveu muitas coisa certas 
sobre a divisao do mundo, mas nao obstante falhou neste ponto. Porque ele divide o mundo em 
tres parte: primeiro, a povoada, no meio do mundo; o Norte ele declara desabitado devido ao 
frio excessivo; o equador, tambem desabitado, devido ao calor extremo. O que achamos ser o 
oposto, porque o polo artico, como vimos, e habitado, ate o topo do mundo; e a linha do 
equador e tambem habitada, por negros, e af o numero de pessoas e tao grande que e diffcil 
acreditar ... E eu posso dizer verdadeiramente que vi uma boa parte do mundo" (Diogo Gomes, 
As Relagoes do Descobrimento da Guinee das Ilhas dosAgores, Madeira e Cabo Verde, citado 
em Saraiva 1955, 2:455). 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 12 

"A medida que as caravelas abriam o Atlantico, rumando para o Sul, os 
navegadores substitufam sua heranca empfrica tradicional, ponto por ponto, 
adaptando-a as diferentes condicoes que enfrentavam, de acordo com um 
conjunto de regras que ainda eram empfricas mas que tinham sido 
desenvolvidas a partir de novas experiencias e com a colaboracao da ciencia 
teorica dos astronomos. A observacao direta e sistematica da natureza tendia a 
superar o simples empirismo dos navegadores. As viagens tinham muitas 
consequencias, que precisamos necessari amente considerar quando estudamos 
a evolucao da cultura portuguesa ate a Renascenca." 

Saraiva chegou a essa conclusao porque "a tendencia mais marcante que se 
firmou durante o movimento expansionista de Portugal, e que em certos setores estava 
ligado ao pafs, era a crftica ativa da experiencia, e este era o criterio da verdade." O 
pensamento portugues se orientava para uma integracao do seu novo conhecimento 
por meio de um conceito que pudesse restaurar a sua cultura com "a unidade e o 
equilfbrio quetinha perdido devido as navegacoes." 16 

Apoiando essa hipotese, a cultura peninsular podia orgulhar-se da presenca de 
filosofos que se considerava a f rente do pensamento moderno, como os pensadores 
jesuftas Pedro da Fonseca e Francisco Suarez, que abordagem problemas 
considerados "modernos" que seriam mais tarde estudados por Descartes. Na busca 
por uma alternativa adequada para Aristoteles, Suarez exerceu grande influencia no 
seculo dezessete, especialmente nas nacoes protestantes da Europa Central. Suas 
obras foram estudadas pelos professores de Leibniz. Quanto a cultura leiga, havia 
Francisco Sanches, um portugues de Braga queensinava em Montpelier e Toulouse. 
No seu livro Quod Nihil Scitur, que apareceu em primeiro lugar em Lyons em 1581, 
tendo sido republicado em Frankfurt (1628) e em Rotterdam (1649), Sanches combate 
o aristotelismo e preconiza um exame direto dos fenomenos naturais, com dados 
experimentais submetidos ao escrutfnio do julgamento crftico. 

No entanto, nao foi em Portugal que esses precursores da filosofia moderna --- 
Pedro da Fonseca, Francisco Suarez e Francisco Sanches --- encontraram a maior 
receptividade. Os ventos ja estavam soprando em outra direcao. 

A Contra-Reforma 

Por volta do fim do seculo dezesseis a Sociedade de Jesus, criada em 1534 por 
Inacio de Loyola, superou suas vacilacoes iniciais e optou pela preservacao da 



Saraiva 1955, vol. 2, Cap. 4. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 13 

heranca tradicional, conforme expressa pela doutrina de Aristoteles e Sao Tomas de 
Aquino. A Ordem dos Jesuftas --- contraria a contemplacao, rigidamente 
hierarquizada, militante, devotada e ativista --- promoveria uma reorientacao abrupta 
da cultura portuguesa, utilizando para alcancar esse objetivo dois instrumentos: a 
Ratio Studiorum ea Inquisicao. 

A Ratio Studiorum, 17 que sintetizava a experiencia pedagogica dos jesuftas, 
assumiu sua forma definitiva no comeco do seculo dezoito. Estabelecia regras para os 
cursos, programas, metodos e disciplinas usados nas escolas da Sociedade de Jesus. 
Por meio de um conjunto de regras explfcitas de ensino, ditou as normas nao so para o 
nfvel educacional inferior mas tambem para o universitario. O conhecimento era 
completamente sistematizado; no cume da piramide estava a teologia, ensinada de 
acordo com Tomas de Aquino, seguida pela filosofia ensinada de acordo com o 
aristotelismo tomista. 

O objetivo maior era preservar o conhecimento tradicional e impedir qualquer 
possfvel inovacao epistemologica. Os jesuftas nao se opunham a novas informacoes 
ou tecnicas, mas nao toleravam o ponto de vista filosofico mais amplo e as 
instituicoes intelectuais inovadoras que haviam surgido em algumas partes da Europa. 
As questoes que os professores deviam levantar, e os textos que os estudantes deviam 
ler estavam sujeitos a um controle estrito. A obediencia as autoridades religiosas 
devia ser respeitada em todas as questoes relacionadas com a disciplina e o estudo; 
nas explicates, nenhuma referenda era feita a autores ou livros nao autorizados; 
nenhum novo metodo de ensino ou de discussao devia ser introduzido, e a ninguem se 
permitia levantar novas questoes, ou apresentar uma opiniao que nao fossa de um 
autor qualificado, a nao ser quando devidamente autorizado a faze-lo. 

A escolha dos livros que podiam ser lidos pelos estudantes estava limitada a 
Summa Theologica de Sao Tomas, as obras filosoficas de Aristoteles, comentarios 
selecionados e livros orientados para cultivar as humanidades. A doutrina aristotehca 
era defendida com ciume contra qualquer i nterpretacao nao aprovada pela hierarquia 
da Igreja, atitude que contrastava fortemente com a abertura e a f lexibi I idade de 
alguns luminares dos anos precedentes, como Suarez. 

Essa doutrina pedagogica nao era usada apenas para preservar a integridade e 
pureza de uma unica ordem religiosa, mas tornou-se uma norma aplicavel a toda a 
nacao portuguesa. Os jesuftas assumiram o controle da educacao em todos os nfveis: 
na universidade de Evora, diretamente; na universidade de Coimbra, atraves do 



"Franca 1952. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 14 

Colegio das Artes, que precisava ser cursado por todos os estudantes, e onde os 
jesuftas ensinavam as disciplinas propedeuticas. A I em disso, essa doutrina permeava a 
administracao do estado portugues. 18 O resultado foi uma barreira impenetravel 
estendida em torno de Portugal, isolando-o inteiramenteda cultura moderna. 

O controle exercido pelos jesuftas sobre o sistema educacional foi apoiado 
pela Inquisicao. Conhecida oficialmente como o Tribunal do Santo Offcio, a 
Inquisicao era responsavel pela salvaguarda da integridade da fe catolica. Para 
cumprir essa funcao, o Santo Offcio recebia amplos poderes sobre a liberdade das 
pessoas, e tinha autorizacao para extrair confissoes com o emprego da tortura. No fim 
do seculo quinze, as atividades da Inquisicao na Europa quasetinham cessado, mas a 
parti r de 1540 foram restauradas em Portugal, como parte da luta da Igreja contra o 
movimento protestante, e foram expandidas no comeco do seculo dezessete. 

Os historiadores Portugueses nao conseguiram reconstruir inteiramente as 
atividades da Inquisicao. Cada caso gerava um arquivo, e embora muitos tenham sido 
extraviados, restam ainda 36.000 deles para serem investigados. Segundo Saraiva, em 
1732 23.068 casos terminaram com o arrependimento dos acusados. O numero de 
indivfduos condenados pelo Santo Oficio pode ser estimado em 120 a 160 por ano, 
em media. Por outro lado, as medidas repressivas da Inquisicao nao se limitavam a 
suas vftimas diretas, pois impunham panico a todos os que tinham qualquer 
associacao com as vftimas, e a todos que aspirassem a um mfnimo de liberdade 
intelectual. Um dos poucos levantamentos existentes sobre a origem social dos 
condenados entre 1682 e 1891 ilustra essa situacao: cerca de 57 por cento pertenciam 
a classes superior ou intelectual; 30 por cento eram artesaos; e so 12 por cento 
trabalhadores comuns. Assim, parece razoavel concluir que os alvos prediletos dos 
inquisidores eram justamente os segmentos da populacao que poderiam opor-se a 
cultura monolftica imposta pela Igreja, e ao cordon sanitaire que protegia o pafs das 
influencias contrarias originadas no exterior. 19 



18 Um jesufta descreve assim essa situacao: "Em nenhuma parte da Europa, ou em 
qualquer dos dois hemisferios, havia uma nacao onde nossa sociedade fosse mais estimada, 
mais poderosa e estivesse mais firmemente estabelecida do que em Portugal, e em todas as 
nacoes e reinos sujeitos ao domfnio portugues ... Eramos mais do que simples guias da 
consciencia de prfncipes e princesas da famflia real, pois o proprio monarca e seus ministros 
pediam nosso conselho em todos os assuntos — atemesmo nos mais importantes — e nenhum 
cargo no governo de estado ou dentro da Igreja era preenchido sem uma consulta previa 
conosco, ou sem a nossa influencia. O Alto Clero, os poderoso s e povo lutavam assim 
fervorosamente pela nossa protecao e o nosso favor." (Anais da Sociedade, citado em 
Domingues 1963:109). 

19 Saraiva 1955, 2:79-82. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 15 

A maioria das vftimas eram antigos judeus, os chamados "cristaos novos", que 
por mais que quisessem seguir genuinamente a crenca oficial continuavam sob 
suspeita, e vigiados, muito depois de mudar o sobrenome, adotando em seu lugar 
nomes de plantas e animais. 

Em Portugal a Inquisicao era controlada pelos dominicanos, enquanto os 
jesuftas se incumbiam da educacao. As duas Ordens atuavam em unfssono para 
garantir que a sua maneira de pensar continuasse prevalecendo durante todo o seculo 
dezessete e a primeira metadedo seculo dezoito. Embora os dominicanos dispusessem 
de "grande poder repressivo", para usar as palavras de M ario Domingues, os jesuftas 
tinham "a maioria dos institutos voltados para a educacao, onde moldavam a mente 
dos governantes; como e sabido, eram tambem confessores e guias espirituais da 
famflia real e da maior parte da nobreza." 20 Durante o seculo dezoito, e notadamente 
sob o reinado de Dom Joao V, acredita-se que surgiu dentro da corte uma tendencia 
para estimular a rivalidade entre as ordens religiosas, na esperanca de reduzir o seu 
poder. Nesse processo a Congregacao do Oratorio deveria exercer um papel central. 21 

Foi so no fim do longo reinado de Dom Joao V (1706-50) que alguma luz 
conseguiu penetrar em Portugal, atravessando a cortina negra do controle totalitario. 
Essa iluminacao foi possfvel gracas a alguns diplomatas que, tendo vivido nas cortes 
de Paris e Londres, ao retornar a Portugal percebiam como o pafs era atrasado. Pelo 
menos um deles, Alexandre de Gusmao, teve uma carreira exitosa no governo 
portugues, tomando-se o responsavel por algumas iniciativas que mais tarde deram 
fruto. Entre elas, a concessao a Congregacao do Oratorio do direito de preparar 
candidates para ingressar na universidade. Deixou assim de ser obrigatorio para os 
que se formavam passar pelo Colegio das Artes, encerrando-se efetivamente o 
monopolio exercido pelos jesuftas sobre um setor essencial da nacao. 

Com respeito a modemizacao, o evento mais significativo foi a publicacao, em 
1746 e 1747, do Verdadeiro M etodo de Estudar, cujo autor, Lufs Antonio Verney, era 
uma figura preeminente da Congregacao do Oratorio. 22 O livro consiste em uma serie 



20 Domingues 1963:264-5. 

21 "A Congregacao do Oratorio tinha sido fundada em 1550, em Roma, por Filipe Neri, 
e foi introduzida na Franca em 1611 pelo Cardeal de Berulle, e em Portugal em 1688, por 
iniciativa do Padre Bartolomeu do Quental, pregador e confessor da capela real. A 
Congregacao era conhecida na Franca pelo seu liberalismo, assim como por cultivar a 
matematica, a ffsica, as ciencias naturais, a historia e a Ifngua nacional. M alebranche, discfpulo 
de Descartes, era membro, e os padres da Congregacao sempre se inclinavam para o 
cartesianismo." (C. M agalhaes 1967:173). 

22 Verney 1949/50. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 16 

de cartas publicadas com a assinatura do autor, que estava em Roma. As cartas eram 
dirigidas a um interlocutor imaginario, e faziam uma crftica completa ao sistema 
pedagogico dos jesuftas. A pos quase dois seculos de silencio e apatia, os intelectuais 
Portugueses iniciavam um debate que Ihes dava a consciencia da necessidade de uma 
reforma. 

Entre 1748 e 1756, vinte livros e panfletos foram publicados defendendo ou 
criticando o Verdadeiro Metodo. Os seus opositores mais radicals exigiam um auto- 
da-fe e a destruicao do texto, que consideravam perigoso. 23 Desta vez, porem, os 
livros controvertidos nao foram queimados. A reforma tao vivamente recomendada 
por Verney deveria afetar todas as disciplinas ensinadas em Portugal, desde o latim e 
as humanidades ate o treinamento tecnico e profissional. O essencial da sua 
mensagem representava uma ruptura radical com o aristotelismo tomista. Apontando 
a Portugal o caminho do empiricismo, Verney argumentava que a verdadeira filosofia 
consiste em "saber o que faz realmente com que a agua se eleve em uma seringa". 
Quando Pombal expulsou os jesuftas, em 1759, e tentou implantar uma nova 
mental idade, o terreno para isso ja tinha si do preparado por Verney. 

A reforma de Pombal 

Os que viviam no exterior, a servico do Rei ou por alguma outra razao, e 
tinham voltado ao pafs com a intencao de livra-lo do seu medievalismo persistente, 
introduzindo-o na modernidade, eram chamados em Portugal de "estrangeirados". O 
mais i lustre dentre eles era Sebastiao Jose de Carvalho e M elo, que mais tarde ficou 
conhecido como o Marques de Pombal. Em 1738 Pombal havia sido nomeado 
Embaixador em Londres, onde residiu varios anos. Depois da morte do rei Dom Joao 
V, em 1750, e da subsequente subida ao trono de Dom Jose I, Sebastiao de Carvalho e 
M elo foi convidado a integrar o governo, tornando-se finalmente a mais alta 
autoridade govemamental, e o govemante de facto do pafs. Para ele, o sucesso da 
Inglaterra era explicado pela aplicacao do conhecimento cientffico as atividades 
produtivas, efoi esseconceito que ele procurou transferir para Portugal. 24 

Em 1771 Pombal fundou em Lisboa o Colegio dos Nobres, um colegio interno 
onde uma centena de estudantes da nobreza aprendiam nao so os classicos mas 



23 "Como o verdadeiro autor nao se apresenta, seus escritos devem ser obrigados a 
pagar por ele, servindo como uma estatua do escritor. Louvado seja o Senhor! H a quanto tempo 
nao se ve em Portugal uma dessas fogueiras, oferecendo a caridade crista e a paz publica o 
fumo desse holocausto mais precioso do que qualquer incenso." (Candido de Lacerda, em 1749, 
citado em J . de Carvalho 1950, 17). 

24 Falcon 1982 contem uma exposicao erudita sobreo projeto de Pombal. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 17 

tambem matematica, ffsica, hidrostatica, hidraulica, desenho e arquitetura, ensinados 
por instrutores franceses e ingleses, sob a mais estrita disci pi ina. O objetivo era criar 
uma nobreza moderna, que permanecesse fiel ao Rei Dom Jose e ao seu poderoso 
M inistro. M as essa iniciativa nao deu os resultados desejados, aparentemente devido 
ao clima prevalecente de espionagem e denuncias. Assim, alguns anos depois Pombal 
decidiu reformar a propria universidadede Coimbra. 

A reforma de Coimbra, em 1772, representou a fundacao de uma universidade 
inteiramente nova. Escolas, instituicoes de treinamento pratico, programas e metodos 
de estudo, sancoes e medidas disciplinares, ediffcios, livros de texto — tudo isso foi 
profundamente renovado, quando nao recriado. A maior parte dos professores eram 
escolhidos e nomeados pelo proprio Pombal, que recrutou mestres renomados do 
exterior, especial mente italianos. Foram criadas duas novas escolas, de matematica e 
filosofia, esta ultima orientada para o que era entao conhecido como "filosofia 
natural", com base no conhecimento aplicado. A educacao secundaria passou tambem 
por uma mudanca total. A universidade ganhou um jardim botanico, um laboratorio 
de ffsica e qufmica, um dispensario farmaceutico e um laboratorio de anatomia. 25 

O pensamento cientffico moderno precisa conviver com a autocracia. Pombal 
queria 

" ... civilizar a nagao ao mesmo tempo em que a 
escravizava, di fundi r a luz das ciencias filosoficas e transformar 
o poder real em despotismo. Ele estimulou o estudo da lei 
natural, internacional e universal, criando catedras na 
universidade; mas nao percebeu que estava fazendo luz para que 
as pessoas vissem que o governo precisava servir o bem estar da 
nagao, nao o do Prfncipe, e precisava ter limitados os seus 
poderes." 26 



25 



Os estatutos relevantes procuravam implantar um novo estilo pedagogico: "Imbuir o 
estudante do espfrito cientffico: este eo ponto acentuado continuamente. Em vez da escolastica 
inutil, prescreve-se o conhecimento das leis de Newton da filosofia natural. Todo raciocfnio 
teorico sera derivado de princfpios comprovados plenamente por uma das disciplinas basicas — 
ffsica, matematica, qufmica, botanica, farmacologia e anatomia." Ao explicar o funcionamento 
de um organismo sadio, "o professor descrevera a parte em questao, sem alteracoes feitas de 
acordo com a imaginacao, mas seguindo a anatomia; da mesma forma, sera estudado o 
movimento dos fluidos, sem hipoteses ou fantasias, mas conforme demonstrado por 
expert encias, mediante injecoes anatomicas, a dissecacao de animais, sendo tudo explicado na 
medida do possfvel com relacao as leis da ffsica, da mecanica, da hidraulica. Nesse aspecto, a 
teoria medica exige cuidado, assim como uma clara percepcao dos seus limites. Nunca se deve 
insinuar que a doenca pode ser curada com especulacoes." (citado em Cidade 1969, 2:210). 

26 Ribeiro dos Santos, citado em Sergio 1972:76. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 18 

Em outras palavras, a ciencia modema chegou a Portugal sem suas dimensoes 
etica e filosofica, uma caractenstica que podia ser tracada, segundo alguns autores, a 
epoca das descobertas, e que poderia explicar, final mente, a falta de participacao 
historica dos pafses ibericos no desenvolvimento cientffico. E foi assim que el a 
chegou ao Brasil. 27 

Depois da morte de Pombal, um movimento de restauracao que ficou 
conhecido como a "viradeira" destruiu boa parte do que ele tinha construfdo. Antonio 
Sergio acredita que as reformas de Pombal ganharam substancia gracas ao trabalho 
continuado da Academia de Ciencias de Portugal, e as bolsas de estudo no exterior 
concedidas nos anos que se seguiram. 28 As invasoes francesas poriam um fim a esse 
processo, mas no fim do seculo Portugal ja contava com um numero significativo de 
naturalistas, mineralogistas, metalurgistas e botanicos, alguns deles bem conhecidos 
no resto da Europa. 

O Estado, a Igreja ea Educacao no Brasil 

A discussao precedente ajuda a desmentir a ideia de que o Brasil foi 
historicamente uma sociedade rural, tradicional e profundamente catolica, que se 
desenvolveu gradualmente na modernidade --- mito que nao resistiu a historiografia 
modema. 29 Imperio marftimo e mercantilista, Portugal nunca teve a experiencia feudal 
de poder decentralizado que predominou na maior parte da Europa Ocidental. Sua 
administracao centralizada, burocratica e patrimonialista foi transplantada para o 
Brasil --- primeiro, com o estabelecimento de um governo geral, em 1548; e muito 
mais tarde com a migracao de toda a corte portuguesa para o Rio dej aneiro, em 1808. 
Quando o Brasil se tornou independente, em 1822, pela decisao de um membra da 
casa real portuguesa, o Prfncipe Dom Pedro, a linha de continuidade nao chegou a ser 
cortada completamente --- um fato importante para compreendermos a 
institucionalizacao estavel do governo brasileiro durante o perfodo colonial e na 
segunda metade do seculo dezenove, em forte contraste com o que aconteceu na 
maior parte do continente. Dessa perspectiva, a decentralizacao republicana de 1889 
pode ser vista como uma simples pausa na tendencia que seria retomada novamente 
em 1930. 



27 Vide M. B. N. Silval988. 

28 Sergio 1972:105-8. 

29 Faoro 1958; Schwartzman 1973, 1975 e 1982; Velho 1976; E. P. Reis 1979. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 19 

Essa tendencia central izadora explica por que, ao contrario do que 
normal mente se acredita, o Brasil nunca foi um pafs onde a Igreja tivesse autoridade e 
controle indisputados, embora as relacoes fntimas que sempre existiram em Portugal 
entre a Igreja eo Estado fossem transferidas para a colonia brasileira e continuassem a 
existir no Imperio brasileiro (ou justamente por essa razao). 30 E verdade, contudo, que 
os brasileiros normalmente se diziam catolicos, e a Igreja proporcionava o unico 
codigo etico legftimo disponfvel a populacao. A Igreja tinha tambem o monopolio dos 
principals ritos de passagem que definem o lugar que se ocupa na sociedade — 
batismo, casamento, enterro --- e estar fora da Igreja significava nao ter os direitos de 
cidadania institufdos simbolicamente por esses ritos. Na verdade, nao eram so 
sfmbolos que estavam envoi vidos. Durante todo o seculo dezenove era necessario 
fazer um juramento catolico para graduar-se por uma faculdade publica, para servir 
como funcionario do Estado ou para participar da legislatura. 31 O Estado estava ligado 
a Igreja por meio de um acordo conhecido como o "padroado", segundo o qual o 
governo tinha o direito de aprovar todos os documentos gerados pela Igreja antes que 
produzissem efeito no territorio brasileiro. Alem disso, as autoridades civis 
participavam da nomeacao de todos os Bispos brasileiros. Essa ligacao entre Igreja e 
Estado significava que, na pratica, as questoes religiosas eram tratadas muitas vezes 
como simplesmente polfticas, e a religiao era usada com frequencia para promover os 
objetivos do Estado. Se o Brasil fosse uma sociedade profundamente religiosa, esse 
arranjo teria criado um regime teocratico, com a hierarquia eclesiastica controlando 
plenamente tanto o Estado como a sociedade. O que aconteceu, porem, foi quase o 
oposto: o domfnio pertencia ao Estado secular, e cabia a Igreja um papel de menor 
importancia, aceitando sem questionar a autoridade civil e o mores menos cristao do 
povo em troca de alguma medida de autoridade e poder. 

Em consequencia desse acordo, para a maioria dos brasileiros o catolicismo se 
tornou acima de tudo um conjunto de condutas convencionais, em vez de um 
compromisso profundo com a religiao. Naturalmente, na base da sociedade surgiram 
formas mais intensas de religiosidade, que continuam a surgir ainda hoje, 
independentemente da autoridade eclesiastica, e por vezes fora do seu controle: cultos 
sincreticos, movimentos milenaristas e, mais recentemente, espi ritual istas e 
fundamental istas protestantes. 

Havia tambem dentro da Igreja uma distincao clara entre as ordens religiosas 
(notadamente os jesuftas) e o clero secular, que trabalhava em paroquias em todo o 



30 Lacombel960. 
31 Barrosl962: 330. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 20 

pafs. Os jesuftas se organizavam hierarquicamente em linhas militares, em uma 
organizacao que ultrapassava as fronteiras nacionais. Ate sua expulsao de Portugal, 
em 1759, controlavam a maior parte da educacao no Imperio portugues, e se 
envolveram em um projeto visando a conquista do poder secular, que se estendia do 
controle doutrinario da U niversidade de Coimbra a organizacao polftica, economica e 
militar dos amerfndios, na regiao das M issoes, na fronteira entre os imperios coloniais 
de Portugal e da Espanha. A grandiosidade e a ambicao desse projeto explica o 
conflito entre os jesuftas ea Coroa portuguesa, queterminou com a Ordem expulsa do 
territorio portugues pelo Imperio. 

J a com o clero secular a situacao era bem diferente. Uma carreira como 
sacerdote era muitas vezes a unica opcao para homens de origem social obscura, que 
nao podiam ingressar na U niversidade de Coimbra ou nas faculdades abertas no 
seculo dezenove em algumas cidades brasileiras --- Rio de J aneiro, Sao Paulo, Recife 
e Salvador. 32 Trabalhando no campo ou em pequenas cidades do interior, a 
sobrevivencia dos padres seculares dependia principalmente da protecao e do apoio 
recebidos da elite local. Eles praticavam os rituais esperados e ensinavam religiao e o 
alfabeto aos filhos das famflias mais ricas da regiao. Aos olhos das autoridades 
polfticas, portanto, o padre secular nao so nao contestava o regime como contribufa 
para a sua estabilidade. 

A educacao religiosa tinha dois sentidos completamente distintos. Para os 
jesuftas, era considerada como um instrumento destinado a controlar a sociedade e a 
manter as autoridades civis sob a seu domfnio. Para o padre secular, era apenas uma 
forma tradicional de criar os filhos e imbuf-los (especial mente as meninas) das 
virtudes cristas. Essa distincao foi percebida claramente pelas autoridades 
portuguesas, e depois pelas brasileiras, que se opuseram aos jesuftas e quando 
necessario atacaram violentamente a Igreja organizada, mas nunca deixaram de 
declarar-secatolicas, ede levarseus filhos a igreja para serem educados. 

Quando os sacerdotes tradicionais tentaram afastar-se do papel esperado, 
afastaram-se tambem da Igreja oficial. O melhor exemplo foi provavelmente a 
fermentacao intelectual do seminario de Olinda, liderada por Azeredo Coutinho e 
descrita como "possivel mente a melhor manifestacao do lluminismo brasileiro --- 
tanto religioso como racional, realista e utopico, fundindo a influencia dos filosofos 
[franceses] com o vigilantismo clerical." 33 Essa combinacao de ideias aparentemente 



32 J. M. Carvalho 1980. 
33 Souza 1960:102. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 21 

incongrua fazia sentido a partir da condicao peculiar desses "padres liberals" que 
deveriam ter um papel importante nos movimentos em favor da independencia 
ocorridos durante o seculo dezoito; que ingressavam na M aconaria e chegaram a 
tentar convencer o Imperio Brasileiro a decretar o fim do celibato para os sacerdotes, 
o quecorresponderia virtual mente ao estabelecimento deuma Igreja nacional. 

A independencia polftica do Brasil so fortaleceria essas tendencias. O Imperio 
brasileiro manteria o Catolicismo como religiao oficial, a instituicao do "padroado" e 
a delegacao dos rituais cfvicos a Igreja. Esta, porem, era uma Igreja debil, infiltrada 
pelo lluminismo do seculo e sem a forca que tiveram os jesuftas; e ainda mais 
debilitada pela forte influencia das ideias naturalistas e cientfficas nas elites mais 
educadas do pafs. No seculo dezenove nenhuma instituicao educacional religiosa teve 
o prestigio e o apelo das escolas profissionais criadas pel as autoridades 
governamentais nas cidades mais importantes do pafs. Se essa subordinacao da Igreja 
podia provocar uma fermentacao no baixo clero, ela nunca foi suficiente para desafiar 
o poderdo Estado. Quando houve um desafio dessetipo, no episodio conhecido como 
a "questao religiosa", no fim do seculo, foi uma tentativa de restabelecer o poder 
conservador da hierarquia eclesiastica, e nao uma manifestacao de intelectuais 
esclarecidos. 34 

Podemos entender agora por que os Portugueses nunca criaram no Brasil 
universidades como as que a Espanha instalou nas suas colonias americanas: era tarde 
demais para as universidades catolicas, no sentido tradicional, e cedo demais para as 
universidades modemas. 

Projetos para uma universidade brasileira 

No Brasil colonial nao havia educacao superior organizada, mas era pouca a 
atividade educacional alem das aulas elementares oferecidas pela Igreja. Como aliado 



34 A chamada "Questao Religiosa" consistia em saber se o Bispo de Olinda, Dom Vital 
(e mais tarde tambem o Bispo de Bel em, M acedo Costa) tinha o direito de expulsar os membros 
de irmandades religiosas que eram tambem macons, e de fechar essas irmandades se elas 
resistissem as suas ordens. A dificuldade estava em que essas irmandades nao eram apenas 
associates religiosas, mas tinham varias funcoes civis. A disputa evoluiu sob a forma de um 
conflito entre os poderes relativos da Igreja e do Estado, em um perfodo em que a Igreja de 
Roma tentava restabelecer sua lideranca e sua autoridade em todo o mundo, reafirmando seus 
valores mais tradicionais e conservadores. O Papa Pio IX , na encfclica Quanta Cura, relacionou 
todos os males da sociedade moderna, condenados pela Igreja: o racionalismo detodos os tipos; 
o naturalismo; a indiferenca; a nocao de uma Igreja livre em um Estado livre (ou seja, a 
separacao entre o Estado e a Igreja); a prevalencia da autoridade civil; a subordinacao da 
autoridade religiosa ao governo civil; o liberalismo; o progresso; a civilizacao moderna (Barros 
1962:349). Os Bispos brasileiros se opunham a todas essas ideias, e seu confronto com o 
Imperio de Pedro II, sob influencia do lluminismo, era inevitavel. Por resistir a autoridade do 
Estado, Dom Vital foi sentenciado aprisao. 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 22 

da Inglaterra, em 1808, durante as guerras napoleonicas, Portugal foi invadido por 
tropas francesas comandadas pelo General Junot. A famflia real portuguesa escapou 
para o Brasil, sob a protecao da frota inglesa, e devido a essa transferencia a colonia 
brasileira foi promovida a "Reino Unido" com Portugal, eo Rio de Janeiro passou a 
ser a capital efetiva do I mperio portugues. 

A corte portuguesa trouxe para a colonia muitas inovacoes, e nos dez anos 
seguintes o Brasil teria seus primeiros cursos superiores de engenharia e medicina, 
assim como cursos de formacao para varias profissoes, mas uma universidade so seria 
contemplada no fim do perfodo: iniciativa associada ao nome de J ose Bonifacio de 
Andrada e Silva, que nas ultimas decadas do seculo dezoito tinha estudado na 
Universidade de Coimbra ja reformada. 

Jose Bonifacio pertencia a uma famflia rica, de ascendencia portuguesa 
recente, que se instalara em Santos. Enviado ao exterior para estudar em Coimbra no 
princfpio dos anos 1780, em 1787 completou seu curso na Faculdade de Filosofia, e 
no ano seguinte na Faculdade de Direito. Tendo escolhido a carreira de naturalista, 
que preferiu ao magisterio, desde 1785 foi aceito como membro da Academia de 
Ciencias de Lisboa, e ja no ano seguinte apresentava a Academia um ensaio sobre a 
pesca da baleia e a extracao do oleo. Em 1790 o governo portugues o enviou em uma 
missao cientffica a varios pafses da Europa, em busca de novos conhecimentos no 
campo da mineralogia. 35 

Durante parte de 1790 e 1791, Jose Bonifacio estudou qufmica e mineralogia 
em Paris. Em 1792 partiu de Paris para Freiburg, onde trabalhou no laboratorio de 
Abraham Werner, considerado fundador da mineralogia sistematica. Nos anos 
seguintes dedicou-se a pesquisa mineral em varios pafses da Europa, atividade que I he 
valeu a admissao a algumas instituicoes cientfficas, como as de Londres e a Sociedade 
de M ineralogia dejena, assim como as associates correspondentes de Paris, Berlim 
e Edimburgo. No fim de 1800 J ose Bonifacio voltava a Paris, e depois disso ocupou 
cargos importantes no governo portugues. Em 1801 foi nomeado diretorda agenda de 
mineracao, onde era responsavel pela administracao das minas de carvao e a reforma 
das usinas siderurgicas. Chefiou tambem um laboratorio de experiencias qufmicas e 
metalurgicas, assumiu a cadeira de metalurgia em Coimbra e continuou como 
membro ativo da Academia de Ciencias de Lisboa, que anos depois serviu como 
Secretario. Em 1819 J ose Bonifacio voltava ao Brasil. 



Falcao(ed.) 1965. 



Capftulo 2 - A Heranca do Seculo Dezoito - 23 

Nas tres decadas desde a sua graduacao em Coimbra, Jose Bonifacio manteve 
fidelidade a compreensao do papel da ciencia que prevaleceu na reforma pombalina 
da universidade portuguesa — a saber, que o objetivo da investigacao cientifica e a 
aplicacao dos seus resultados. 36 Alem disso, a unica garantia do sucesso era a 
interacao do conhecimento cientffico com a atividadede producao. 37 

Acredita-se que J ose Bonifacio tenha retomado ao Brasil a convite de Dom 
J oao VI para chefiar o Institute Academico, um tipo de universidade que os 
Portugueses estavam considerando fundar no Rio de J aneiro. Nomeado em 1821 para 
redigir as instrucoes dos representantes de Sao Paulo ao Parlamento de Lisboa, 
retomou a ideia de uma universidade brasileira, inspirando-se em grande parte no 
modelo de Pombal. Ninguem sabe exatamente o que levou a postergacao desse 
empreendimento; o que sabemos e que, pouco mais de um ano depois de retornar a 
Santos, Jose Bonifacio ja desempenhava um papel central nos eventos que levaram a 
corte portuguesa a retornar a Lisboa, assim como a declaracao da independencia, em 
1822. 

A universidade concebida por Jose Bonifacio constaria de tres escolas: 
filosofia, jurisprudencia e medicina. A escola de teologia mantida na reforma de 
Pombal foi omitida, mostrando ao que parece que o pensamento leigo tinha 
progredido nesse interregno. A escola de filosofia estaria dividida em tres areas: 
ciencias naturais, filosofia racional e moral e matematica. Essa estrutura, em que a 
matematica figurava dentro da filosofia, negava a autonomia da escola de matematica 
concedida pela reforma de 1772. O ensino das ciencias naturais seria centralizado no 
estudo da historia natural, qufmica, ffsica e mineralogia, esta ultima desenvolvida ao 
maximo possfvel. Esperancoso com respeito ao potencial mineral do Brasil, sobretudo 



36 Paiml971. 

37 Em 1813, em um ensaio sobre as minas de carvao e as fundicoes de ferro, Jose 
Bonifacio afirmava: "Se a nossa nacao eesteril em produtos agrfcolas; se as fabricas encontram 
obstaculos quase insuperaveis para competir com as do exterior, que forma mais natural e 
segura teria um pafs evitar o empobrecimento e o abandono a nao ser com a mineracao 
extensiva dos minerals com os quais a Providencia escolheu abencoar-nos ? ... Se a Russia, a 
Prussia e a Franca conseguiram tantas riquezas pela exploracao dos seus minerios, quern 
impedira Portugal de fazer o mesmo ? As nacoes sao sustentadas e defendidas com pao, polvora 
e metais; e quando eles nao existem no seu proprio quintal, eprecaria a existencia e a liberdade 
dequalquer pafs." (citado em Falcao [ed.] 1965, 1:40). No comeco da sua carreira, no primeiro 
ensaio apresentado a Academia de Ciencias de Lisboa, ja mencionado, J ose Bonifacio escreveu: 
"Os homens comuns acreditam que as coisas comuns nao participaram da ciencia; isso significa 
que a arte de construir fornos econsiderada vulgar, como a arte dequalquer pedreiro ignorante. 
No entanto, el a requer um bom conhecimento de ffsica. Em Santa C atari na, onde estao 
localizadas as maiores minas de carvao do Brasil, ha pelo menos vinte caldeiras com igual 
numero de fornalhas; mas se os primeiros a construi-las soubessem um pouco mais sobre a 
ffsica e a qufmica da combustao, todas poderiam ter sido reduzidas a cinco, no maximo" 
(Falcao [edit.] 1965, 1:40). 



Capftulo 2 - A Heranga do Seculo Dezoito - 24 

devido ao seu grande territorio, o curso formaria profissionais que pudessem 
administrar essa exploracao. 

Esse projeto nunca se materializou, mas mesmo que tivesse sido levado 
adiante provavelmente nao conseguiria fundir o ensino, a pesquisa e a formacao 
profissional, como nas universidades europeias, que no seculo dezenove passaram por 
um processo de modernizacao. Estas tiveram exito em combinar de di versos modos as 
caracterfsticas mais tradicionais das ligas profissionais com as pressoes exercidas 
pel as novas profissoes em expansao, que ostentavam a bandeira e o credo da ciencia 
empfrica e dos ideais da racionalidade. Na Europa, a autonomia universitaria se 
identificava com o autogoverno por uma comunidade de estudiosos e cientistas. 38 Na 
experiencia luso-brasileira, porem, a nocao de autonomia universitaria tendia a ser 
identificada com o controle da universidade pelo clero, em oposicao ao estado 
modernizador. Ao opor-se a essa autonomia, as elites de Portugal e do Brasil foram 
deixadas so com um dos dois ingredientes principais das universidades europeias 
modernas --- a educacao profissional. Faltou-lhes o outro --- sua tradicao de 
autogoverno e liberdade intelectual e de pesquisa. 

Em suma, tanto ao Brasil como a Portugal faltava um movimento social mais 
profundo, que pudesse ver a renovacao universitaria como um instrumento de 
mobilidade e afirmacao social. As transformacoes ocorridas foram tentativas, feitas a 
parti r do topo para a base, de formar indivfduos qualificados tecnicamente para 
administrar os assuntos do Estado e descobrir novas riquezas. Como veremos mais 
adiante, isso se conseguiu em parte, mas nao havia espaco para que as atividades 
cientfficas dessem fruto. Ao assumir um caminho independente, a cultura brasileira 
incorporava so um dos componentes da ideia progressista de ciencia daquela epoca, 
aquela relativa a sua aplicacao. Faltava outro componente essencial: a existencia de 
setores amplos da sociedade que vissem no desenvolvimento da ciencia e na expansao 
da educacao o caminho para o seu proprio progresso. 



38 Rothblattl985. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

a formagao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



CAPITULO 3 
A CIENCIA NO IMPERIO 

Ciencia colonial: os naturalistas 4 

Ciencia Imperial: o seculo dezenove 5 

A educacao superior 10 

Engenharia e M ineracao 13 

M edicina e Cirurgia 16 

A ciencia imperial em perspectiva 20 



A conquista da independencia polftica do Brasil foi suave e pacffica, gracas a 
transferencia da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, durante as guerras 
napoleonicas, sob a protecao da Gra-Bretanha. Durante cerca de vinte anos o Rio de 
J aneiro continuou a ser a sede do I mperio portugues, e as tentativas de reverter o pais 
ao status colonial provocou a independencia formal do pafs, em 1822, patrocinada 
pelo herdeiro da Coroa de Portugal, Dom Pedro I. As primeiras decadas do seculo 
dezenove testemunharam uma relativa estagnacao da economia, com a exaustao das 
minas de ouro de M inas Gerais. A expansao do comercio internacional trouxe uma 
nova vida as plantacoes de cana de acucar do Nordeste, mas nada comparavel ao seu 
apogeu, nos seculos precedentes. O algodao florescia tambem na mesma regiao, mas 
nao podia competir com a producao das plantacoes do Sul dos Estados U nidos. 1 

A medida que perdia impulso o setor externo, mais dinamico, a vida brasileira 
recuou para um regime de isolamento e auto-sufi ciencia, em velhas fazendas e vilas 
adormecidas, ligadas apenas pelas lentastropas de mulas, enquanto no Rio de J aneiro 



1 Sobre as condicoes da economia nesse perfodo vide Simonsen 1962 e C. Prado Jr. 
1967. Sobre o algodao, vide Stein 1957. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 2 

uma elite polftica instavel procurava consolidar a sua posicao. Desde o princfpio 
surgiram conflitos entre as elites brasileiras (quase sempre regionais) e as 
portuguesas, e em 1830 Dom Pedro I abdicou e viajou para Portugal, onde mais tarde 
seria coroado como Pedro IV. Entre 1830 e 1840 o pafs foi governado, em nome do 
seu filho e herdeiro, por uma sucessao de regentes. Durante a regencia uma serie de 
levantes regionais ameacaram destruir a unidade polftica do pafs, mas todos 
fracassaram. Em 1840, com apenas quinze anos, Dom Pedro I foi coroado Imperador, 
ese manteria no trono ateo princfpio da Republica, em 1889. 

A segunda metade do seculo dezenove foi um perfodo de consolidacao polftica 
e crescente expansao economica e demografica. Durante quase cinquenta anos o 
Brasil funcionou como uma monarquia constitucional estavel, baseada em um 
sufragio limitado e em um sistema bi-partidario, em que os partidos se alternavam no 
poder sob a supervisao benevolente do Imperador, que representava o Poder 
M oderador, acrescentado aos tres tradicionais. As provfncias, uma heranca das velhas 
divisoes administrativas da colonia, eram govemadas por enviados do Rio de Janeiro, 
que nunca permaneciam no posto o tempo suficiente para criar vfnculos e lealdades 
locais, e as eleicoes parlamentares eram manipuladas rati nei ramente pelo centra do 
poder, garantindo assim a lealdade dos eleitos ao partido governista. 

A expansao economica era devida principalmente a crescente importancia do 
cafe no mercado intemacional. No princfpio do seculo dezenove o cafesetomou uma 
cultura de peso em M inas Gerais e no Rio dej aneiro, dada a disponibilidade de terras 
baratas e mao de obra escrava. A medida que a terra era exaurida, o plantio de cafe se 
deslocava para o Sul, e no fim do seculo Sao Paulo tinha substitufdo as outras 
provfncias como a principal regiao produtora. Essa mudanca na geografia do cafe 
coincidiu com a escassez de mao de obra, pois em 1850 o governo brasileiro cedeu 
por fim as pressoes inglesas para terminar o trafico negreiro. Com a reducao do 
numero de escravos, a imigracao procedente da Europa e da Asia para substituir essa 
mao de obra por trabalhadores assalariados emergiu como uma solucao natural para a 
crise. 2 

So em parte as mudancas demograficas e sociais podem ser explicadas por 
essas modificacoes na economia. A ocupacao do territorio brasileiro, a partir do 
seculo dezesseis, foi motivada por uma variedade de razoes, desde preocupacoes 
militares ate a presenca de povos indfgenas suscetfveis a escravizacao e a conversao 
religiosa; da presenca de produtos extrativos a existencia de portos seguros e rotas 



2 Vide em Balan 1973 e Graham 1973 visoes comparativas sobre a imigracao europeia 
no B rasi I . 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 3 

para a facil penetracao do interior. Ate meados do seculo dezoito o Brasil foi 
governado de Salvador, na Bahia, e durante a maior parte do perfodo colonial uma 
administracao independente govemou a parte setentrional do pafs, desde Sao Lufs, no 
M aranhao, e Belem, na foz do rio Amazonas. Recife foi tambem a sede da aventura 
colonial holandesa na America do Sul, e por muito tempo funcionou como entreposto 
e porto de safda natural para a economia acucareira do Nordeste brasileiro. Os 
Imperios coloniais portugues e espanhol se encontraram, e disputaram seus limites, 
em torno do rio da Prata. Com sua tradicao de insurreicoes e mobilizacao militar, a 
provfncia do Rio Grande do Sul foi em parte um produto desse conflito. Sao Paulo era 
uma porta para o interior, uma fonte de escravos indfgenas e um primeiro centra das 
missoes jesufticas. A descoberta de ouro em Minas Gerais, no seculo dezoito, 
concentrou a populacao brasileira naquela provfncia, que manteve um tipo peculiar de 
sociedade urbana e rural baseada no trabalho escravo, e que sobreviveu por muito 
tempo a febre do ouro. De modo geral, cada ciclo economico ou administrative 
deixou sua marca nos centros urbanos, nas instituicoes associadas e na populacao, 
levando a formacao de uma sociedade complexa e urbanizada que coexistia, por vezes 
de forma autonoma ou pouco integrada, com a economia das grandes culturas 
agrfcolas. 3 

Este breve sumario deveria bastar para sugerir que nao se poderia esperar que 
a ciencia e a tecnologia despontassem no Brasil em resposta a demandas da economia 
colonial ou pos-colonial. O que vemos, na verdade, sao tentativas reiteradas das 
autoridades portuguesas, e depois das brasileiras, de criar instituicoes de natureza 
pratica, seguidas logo pela decadencia ou a transformacao dessas instituicoes em 
algum tipo imprevisto de entidade de pesquisa ou instituicao educacional de carater 
generico. Essa mudancas espontaneas e inesperadas devem ser compreendidas em 
termos da cultura moderna que comecava a se desenvolver na capital do pafs, em 
parte devido a europeizacao intelectual de alguns segmentos da elite brasileira, em 
parte devido ao numero cada vez maior de europeus atrafdos pel as oportunidades de 
emprego ou aventura que esperavam encontrar no Brasil — nao so Portugueses mas 
franceses, alemaes e cidadaos de outros pafses. 



'Vide Martins Filho e Martins 1983. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 4 

C iencia colonial: os natural istas 

Ao contrario de nacoes como a Franca, Holanda e Inglaterra, que transferiram 
alguma forma de "ciencia colonial" para os territorios e as nacoes que ocupavam, nao 
se podia esperar o mesmo de Portugal, que nao tinha desenvolvido uma tradicao 
cientffica propria. 4 O colonialismo portugues era predatorio e espoliativo, sem a 
intencao de criar no Novo M undo uma sociedade complexa, com instituicoes para 
produzir e transmitir o conhecimento. 5 Alguns procedimentos tecnologicos foram 
desenvolvidos para a mineracao do ouro e a producao de acucar, as principais 
atividades economicas durante os quatro seculos de ocupacao colonial no Brasil, e 
pouco mais do que isso. 6 

No entanto, o Brasil nao se manteve completamente isolado do resto do 
mundo. Durante todo o seculo dezesseis Portugal disputou com outras potencias 
marftimas europeias a posse do territorio brasileiro, e entre 1630 e 1661 a Holanda 
controlou a regiao mais lucrativa desse territorio, o Nordeste, tendo como base a 
cidade de Recife. 7 A administracao holandesa trouxe para o Brasil pessoas dedicadas 
ao estudo da geografia, zoologia e botanica, e deixou uma importante colecao de 
desenhos que so agora esta sendo redescoberta. As atividades cientfficas realizadas no 
B rasi I ate a i ndependenci a ti nham por f oco descri coes da natureza do N ovo M undo --- 
sua fauna, flora, minerais, seus habitantes. Era uma ciencia descritiva, praticada em 
grande parte por viaj antes estrangei ros, que acrescentavam ao acervo de observacoes 
sobre a historia natural que estava sendo acumulado na Europa. 

O interesse da Coroa portuguesa pelas materias primas existentes no Brasil 
provocou um certo esforco para coligir informacoes sobre novos produtos de possfvel 
valor comercial. Ate a segunda metade do seculo dezenove as instituicoes cientfficas e 
educacionais brasileiras nao podiam ser comparadas com as da America hispanica. A 
educacao, por exemplo, sob a direcao dos jesuftas, nunca ultrapassou o equivalente a 
escola secundaria. Preocupada com a ideia de que algum instituto brasileiro pudesse 
rivalizar com os Portugueses, a Coroa impediu que os jesuftas instalassem na colonia 
a universidade que desejavam, assim como impediu a criacao de qualquer tipo de 
imprensa que pudesse contribuir para a disseminacao de novas ideias. 



4 M cLeod 1975; M oyal 1976. 

5 Godinho, 1961-70; Lang 1979; Maxwell 1972. 

6 A. deB. Castro 1971. 

7 M elo 1976; Boxer 1965 e 1973. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 5 

Com a ascensao do Marques de Pombal em Portugal, o cenario da colonia 
passou por mudancas substanciais. Em 1783 o governo portugues confiou a 
Alexandre Rodrigues Ferreira, o primeiro naturalista brasileiro a estudar em Coimbra, 
a responsabilidade de explorar a flora e a fauna do pais. Os resultados do estudo de 
Ferreira, uma contribuicao importante a botanica e a zoologia brasileiras, foram 
perdidos por Portugal durante a invasao das tropas napoleonicas, quando o acervo do 
M useu Real foi transportado para Paris por Geoffroy de Saint-Hi I aire. 

Em 1772, no vice-reinado do Marques do Lavradio, foi fundada no Rio de 
Janeiro a Sociedade Cientffica, com o objetivo de disseminar conhecimentos 
cientificos. A Sociedade patrocinou conferencias publicas e lidou com toda uma gama 
de temas de botanica, zoologia, qufmica, ffsica e mineralogia. O M arques do Lavradio 
criou tambem um pequeno jardim botanico para experiencias com plantas. Em 1779 a 
Sociedade mudou o seu nome para Sociedade Literaria do Rio de Janeiro. Suas 
atividades foram mantidas ate 1794, quando foi fechada, provavelmente por motivos 
polfticos de menor importancia. 8 Em 1797 instalou-se finalmente a primeira 
instituicao oficial de pesquisa do Brasil, quando o Rei de Portugal ordenou ao Capitao 
Geral do Para que criasse um jardim botanico na cidade de Bel em, para a aclimatacao 
de plantas. 9 

C iencia I mperial: o seculo dezenove 

So no seculo dezenove, depois da transferencia da corte portuguesa, 
comecaram a surgir alguns institutos tecnicos e certas atividades de pesquisa mais 
sistematicas. Para o geologo Othon Leonardos, a ciencia brasileira comecou de fato 
com os irmaos M artim Francisco e J ose Bonifacio de Andrada e Silva, que viajaram 
pelo interior de Sao Paulo em 1819 para estudar sua geologia e mineralogia, e aplicar 
esses conhecimentos as atividades de mineracao. 10 J a em 1808 tinham sido criadas 
varias instituicoes: a Academia de Guardas-M arinha, no Rio de Janeiro, que passaria 
depois a Academia Naval; o Colegio M edico-Cirurgico da Bahia e a Escola M edico- 
Cirurgica do Rio de Janeiro, que seriam as duas primeiras escolas de medicina do 
pafs; a Biblioteca Nacional, o Jardim Botanico do Rio de Janeiro, conhecido 
original mente como o Horto Real; e a Escola Central, uma academia militar que seria 
a primeira escola deengenharia do Brasil. 



8 Azevedo 1885; Alexandre M archant 1961; Alden 1968. 

9 A nyda M archant 1961. 

10 Leonardos 1955:271. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 6 

O proposito pragmatico dessas primeiras instituicoes, e a forma como dele se 
afastaram ficam claras nos exemplos do Jardim Botanico e do M useu Imperial. 11 O 
jardim Botanico teve sua origem na criacao de uma fabrica de polvora perto da lagoa 
Rodrigo de Freitas. Paralelamente a criacao dessa fabrica, em 13 de junho de 1808 o 
Prfncipe Regente 12 decretou fosse preparado um terreno perto do alojamento do 
inspetor da fabrica e para a construcao de um centra de aclimatacao de especies 
orientais, jardim que seria usado tambem para o cultivo de cha destinado ao mercado 
europeu. Em 1814 um grupo de colonos chineses se instalou na regiao, e demonstrou 
como preparar o produto. Embora o cultivo do cha desse resultados razoavelmente 
bons, o piano original de exportar para a Europa nunca foi implementado. No entanto, 
o Jardim Botanico serviu como o principal centra para a aclimatacao e 
desenvolvimento de plantas como noz-moscada, abacate, cravo, canela, cana de 
acucar, etc. O exemplo sedifundiu, eoutros jardins botanicos foram criados na Bahia, 
em Minas Gerais, Pemambuco, Sao Paulo e outras provfncias, usando mudas e 
sementes procedentes do exterior e recebidas inicialmente no Rio de Janeiro. Mais 
tarde, Dom J oao VI expandiu o Real Horto, que foi franqueado ao publico com o 
nome de Real J ardim Botanico. Sob a administracao de Frei Leandro do Sacramento, 
primeiro professor de botanica na Escola M edico-Cirurgica e primeiro diretor do 
Jardim Botanico depois da independencia, a funcao inicial do Jardim foi muito 
ampliada. De um simples terreno para a introducao e aclimatacao de plantas, ele 
passou a funcionar como um instituto cientffico dedicado ao estudo e a 
experimentacao. Alem de dar infcio ao cultivo de algumas plantas, inclusive o cha, a 
administracao de Frei Leandro promoveu um intercambio de especies com o Jardim 
Botanico de Cambridge e distribuiu sementes e plantas aos jardins do Para, de 
Pemambuco e da Bahia. Como o pouco valor economico desses produtos se tomou 
evidente, o Jardim Botanico passou a ser um centra de estudos tradicionais de 
taxonomia vegetal, e principalmente um parque agradavel e lugar de recreio para a 
populacao do Rio dej aneiro. 

M useu Real (depois chamado de M useu Imperial, e finalmente de M useu 
Nacional) comecou com uma colecao de amostras minerais do mineralogista alemao 
Abraham Werner, que estava sendo usada nas aulas praticas da Academia Militar; 
objetos artfsticos de madeira, marmore, prata, marfim e coral; uma colecao de 
pinturas a oleo doadas pelo Rei Dom J oao VI; artefatos nativos e produtos naturais 



11 Outra instituicao criada nessa epoca foi o Laboratorio Qufmico-Pratico, fundado por 
Dom J oao VI em 1812, que H. Rheinboldt considera o primeiro centro brasileiro de qufmica 
industrial. Vide Rheinboldt 1955:23-5. 

12 A corte portuguesa que fugiu para o Brasil em 1808 era chefiada pelo Prfncipe 
Regente Dom J oao, que reinava em nome da incapacitada Rainha mae, e que foi depois 
coroado como D om J oao V I . 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 7 

dispersos por varias instituicoes do Rio de Janeiro; e animais empalhados de uma 
velha colecao iniciada na epoca da colonia, e conhecida como a Casa dos Passaros. 13 
Alem disso, houve muitas doacoes particulares. A administracao original inclufa um 
diretor, um contfnuo, um assistente zoologico, um escriturario e um guarda-livros. 
U m total de 2.880 mil reis --- o equivalente a aproximadamente 580 I i bras inglesas --- 
foi orcamentado para a compra de material. 

M useu Nacional se desenvolveu lentamente, e levou algum tempo para que 
a exibicao publica das suas colecoes se tornasse uma atividade importante, ou mesmo 
possfvel. Ate 1821 so duas sal as no terreo do ediffcio do Campo de Santana estavam 
abertas ao publico, com uma mostra de modelos de maquinas industrials, montada por 
iniciativa de outra instituicao, a Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional. A quel e 
ano as colecoes cientfficas do M useu foram abertas aos visitantes. Depois da 
independencia, em 1822, o M useu iniciou um novo perfodo, bastante frutffero. Os 
M inistros do Imperio Ihe davam o seu apoio solicitando aos naturalistas estrangeiros 
que visitavam o Brasil a doacao de material coligido, e assim o M useu ampliou 
gradual mente o seu acervo com doacoes de Langsdorff, Natterer, Sellow e outros. Foi 
instalado um laboratorio de ffsica e qufmica e teve infcio o intercambio regular de 
colecoes ou amostras com instituicoes estrangeiras. 

A medida que o seculo progredia, o M useu Nacional se tornou um centra 
cientffico, onde os naturalistas europeus se reuniam ao chegar ao Brasil. Ludwig 
Riedel, que veio em 1820 para juntar-se a expedicao cientffica de G. I. Langsdorff, 14 
serviu durante algum tempo como chefe da secao botanica do M useu; Friedrich 
Sellow, que viajou tambem ao Brasil por sugestao de Langsdorff, percorreu o interior 
comissionado pelo M useu. Fritz M Ciller, cuja obra Fur Darwin e considerada uma 
contribuicao a teoria da evolucao, foi durante muitos anos um naturalista viajante do 



13 O interesse portugues pelo Brasil, utilitarista, eevidente no decreto de 6 dejunho de 
1808 que criou o M useu Real: "No interesse de difundir o conhecimento e o estudo das ciencias 
naturais no Reino do Brasil, que abrange milhares de objetos dignos de observacao e exame e 
que podem ser uteis para o comercio, a industria e as artes (todos os quais desejaria abencoar 
com grandes fontes de riqueza), determino por este meio que se estabeleca nesta corte um 
museu real, para o qual serao transferidos os instrumentos, maquinas e offcios atualmente 
espalhados por outros locais, tudo sob a responsabilidade daqueles que designar no futuro. E 
sendo do meu conhecimento que os locais de moradia agora ocupados no Campo de Santana 
pelo seu proprietario, J oao Rodrigues Pereira de Almeida, tern proporcoes adequadas, e salas 
para esse fim, e que o mencionado proprietario concordou voluntariamente em vender essa 
propriedade pela soma de trinta e dois contos, para me prestar um servico, decidi aceitar essa 
oferta, prosseguindo com a transferencia de tftulo atraves da Junta de Financas, de modo a 
incorpora-la as posses da Coroa." (citado em Lacerda 1905:3-4). 

14 Langsdorff, descendentedealemaes, foi nomeado Consul da Russia no Brasil, eentre 
1820 e 1827 organizou duas expedicoes, percorrendo a maior parte do interior do pafs e 
reunindo uma grande quantidade de material botanico, zoologico e etnografico, enviado a Sao 
Petersburgo e so recentemente aberto aos interessados. Vide Chur, Komissarov & Licenko 
1981. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 8 

M useu. Outros nomes memoraveis associados ao M useu Nacional incluem Hermann 
von Ihering e Emil Goldi. Servindo como natural ista viaj ante para o M useu depois de 
chegar da Alemanha, von Ihering tomou-se o fundador e primeiro diretor do M useu 
Paulista, em 1894. Goldi juntou-se ao M useu Imperial como assistente da secao 
zoologica, e mais tarde foi convidado a organizar o M useu do Para, que hoje traz o 
seu no me. 

Em 1876 a Comissao Geologica do Imperio fomeceu ao M useu uma 
importante colecao geologica organizada por Charles F. Hartt. Constam dessa colecao 
ouro, prata, ferro, cobre, chumbo, zinco e gemas preciosas, com mostras do M exico, 
Estados Unidos, Russia, Austria e outros paises. Em 1850 o bem equipado laboratorio 
de mineralogia do M useu ampliou suas analises e experiencias para incluir amostras 
de combustfveis. Exploradores estrangeiros estavam interessados na identificacao de 
depositos de carvao, petroleo, cobre e outros minerais, 15 mas a funcao do M useu foi 
reduzida com a transferencia para os servicos geologicos do governo da 
responsabilidade pel as principais atividades geologicas e minerais. 

M useu chegou a sua idade de ouro em 1876, com Ladislau Neto: 

"Havia entusiasmo no ar, um desejo de formar a reputacao do M useu e ganhar 
estima aos olhos do publico e do governo nacional. O trabalho era realizado com 
seriedade, nos laboratories e nos escritorios; as colecoes eram reexaminadas, os 
especimes velhos ou danificados eram substitufdos por outros mais recentes; as 
prateleiras foram preenchidas; ossos dispersos reunidos para formar esqueletos; couros 
foram final mente utilizados; cuidava-se do aspecto estetico das colecoes a mostra; 
rotulos antigos eram substitufdos por novos; adaptacoes modernas tomavam o lugar de 
antigas denominates gen ericas ... As conferencias realizadas no audi tori o do M useu, 
a noite, atrafam um grupo seleto e distinto, que inclufa muitas vezes a presenca vibrante 
do Imperador Dom Pedro II. Professores, deputados, senadores, altos funcionarios e 
senhoras da sociedade reuniam-se ali em dias determinados para ouvir uma licao util e 
fascinante sobre um dos varios ramos das ciencias naturais, ilustrada com desenhos e 
gravuras, murais e amostras dos objetos mencionados na apresentacao. Os temas de 
zoologia, botanica e biologia eram todos abordados de forma sintetica, e o 
conferencista expunha aos seus ouvintes as conclusoes e um sumario dos fatos, faceis 
de reter e assimilar. Os jornais e algumas revistas cientfficas e literarias publicavam os 
textos dessas conferencias. Aberto ao publico tres dias por semana, o M useu atrafa 
cada mes milhares de visitantes, desejosos dever os objetos em exibicao ... Em toda a 



15 Lacerda 1905:26-7. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 9 

parte elogiava-se e falava-se bem do M useu; os viajantes que vinham visitar a capital 
do pafs ansiavam por ver suas colegoes." 16 

Em 1880 o M useu abriu um laboratorio de fisiologia experimental --- o 
primeiro do pafs --- ondejoao Batista de Lacerda e Louis Couty desenvolveriam seus 
trabalhos. Couty viera da Franca para ensinar biologia industrial na Escola 
Politecnica, mas escolheu o M useu como local apropriado para suas experiencias 
praticas. Os primeiros estudos foram feitos com venenos animais, plantas toxicas e 
nutritivas, fisiologia do clima, o alcool da cana de acucar, o cafe e o mate; doencas 
dos homens e dos animais e fisiologia cerebral, com a utilizacao de macacos. Todos 
os que estudam o desenvolvimento da ciencia biologica no Brasil acentuam a 
importancia que teve o laboratorio de Couty e Lacerda, durante todo o tempo em que 
funcionou. 17 

No comeco do seculo vinte as secoes de geologia e mineralogia do M useu 
tinham acumulado uma colecao importante, que inclufa amostras de quase todos os 
minerais que vinham sendo explorados no territorio do pafs. No entanto, esse ja era 
um perfodo de decadencia institucional. A Republica trouxe novas urgencias e 
prioridades, e nao encontrou um lugar para o velho M useu, que se tomou 
principalmente uma colecao de curiosidades cientfficas inertes para o visitante 
eventual. 

apogeu da ciencia imperial foi marcado pela presenca ativa do proprio 
Imperador em todos os assuntos relacionados com a ciencia, a tecnologia e a 
educacao. Fazendo o papel de M ecenas, o interesse de Dom Pedro II pelas ciencias o 
levou a buscar a companhia de cientistas, tanto no Brasil como no exterior, e a 
participar de todos os acontecimentos culturais e cientfficos mais importantes do pafs. 

Esse envolvimento pessoal do Imperador com as ciencias encontrava uma 
certa resistencia, que para Fernando de Azevedo era a resistencia a modernizacao, a 
"hostilidade mal disfarcada sentida em um ambiente intelectual e polftico dominado 
por indivfduos com tendencia a retorica, educados com abstracoes --- ambiente que 
levava o pensamento nacional a se absorver na literatura, nas questoes e preocupacoes 
legais, no debate polftico." 18 A I em de consideracoes desse tipo, o interesse do 
Imperador pelos assuntos cientfficos colocava essas atividades a merce dos caprichos 



16 Lacerda 1905:44-5. 

17 L. deC. Faria 1951. 

18 F. deAzevedo 1963:395. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 10 

imperials. Os que pensavam nao estar recebendo um tratamento justo se encontravam 
possivelmente em melhor condicao para perceber os perigos inerentes aquela 
situacao. Era o caso de Joaquim M urtinho, um medico homeopata que ao defender a 
medicina homeopatica criticava incisivamente Dom Pedro II: 

"Sua Alteza Real sofre do que se poderia chamar de mania cientffica. Com uma unica 
tese na mao, Sua Alteza pretende que ela abranja a medicina, a matematica, as ciencias 
naturais, a engenharia civil e de minas, a filosofia, a historia, a linguagem ... e tudo o 
mais; Sua Alteza estuda essa tese com toda seriedade e, sempre que alguem menciona 
um determinado ponto do seu trabalho, Sua Alteza folheia a tese como se tivesse 
compreendido o seu tema, e procurasseformular uma opiniao. ... Seja uma experiencia 
cientffica ou industrial, a tentativa de guiar um balao, uma experiencia com a 
iluminacao eletrica, e af esta Sua M ajestade citando os livros que leu sobre o assunto e 
expressando uma opiniao sobre os resultados da experiencia." 

Por outro lado, Dom Pedro nao so tinha opinioes como tomava decisoes: 

"Quando ha um exame de selecao para candidatos a professor de nossas escolas, os 
exames prestados pelos candidatos sao enviados para ser lidos por Sua Alteza Real. E 
felizes sao aqueles cujo exame agrada a Sua M ajestade. Quando se trata de contratar 
um professor estrangeiro para um cargo em uma das nossas universidades, nao e o 
corpo docente que aconselha o Governo sobre o candidato com melhor currfculo, mas 
quern escolhe e o proprio Imperador, ou um dos seus assistentes cientfficos. 
Fisiologistas sao enviados para ensinar agricultura, eengenheiros de minas para ensinar 
artes e manufatura, ignorando assim as vocacoes profissionais, deslocando indivfduos 
das suas areas de opcao e transformando professores que se distinguiram nos seus 
campos em professores medfocres, que precisam ensinar materias com as quais nao 
estao familiarizados, simplesmente porque Sua Alteza Real decidiu confiar-lhes essa 
tarefa. Em todos as suas acoes Sua Alteza Real parece dizer: a ciencia sou eu." ig 

A educagao superior 

As autoridades govemamentais se envoi vi am nao so com a ciencia mas 
tambem com a educacao. A localizacao das instituicoes de ensino superior criadas no 
infcio do seculo dezenove nos diz algo sobre os seus objetivos. A transferencia da 
Coroa portuguesa para o Brasil foi o ponto mais baixo na historia do Imperio 
portugues desde os anos gloriosos das grandes descobertas, e a debilidade militar do 
Brasil explica a prioridade atribufda a criacao de escolas militares na capital, a cidade 
do Rio de Janeiro. A segunda prioridade era medicina e cirurgia, tanto por razoes 
militares como, supostamente, para a protecao da saude publica. Depois da capital, a 



19 Citado em Lobo 1964: vol. 3. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 11 

Bahia era o maior e mais importante centra urbano, e era apropriado que tivesse a 
segunda escola de medicina. A formacao em direito provavelmente ainda era vista 
como o melhor destino para os filhos da elite local na Recife decadente e em Sao 
Paulo que estagnava, e as duas cidades obtiveram as escolas que almejavam. 

Se essa era a motivacao dos que cercavam o Rei de Portugal no seu exflio, nos 
anos seguintes esse modelo nao permaneceu sem mudancas ou questionamentos. As 
academias militares se transformaram em escolas de engenharia, que nao se 
projetaram como centres tecnicos mas forneceram um campo fertil para que 
prosperassem os valores cientificistas do positivismo; e a profissao medica, 
estimulada pela eficacia das descobertas recentes contra as doencas tropicais, na 
mudanca do seculo, desenvolveu tambem suas proprias ambicoes. Quanta as escolas 
de direito, criadas em Sao Paulo e em Recife em 1827, escaparam do domfnio do 
direito canonico e dos codigos lusitanos tradicionais para receber um influxo de 
diferentes influencias do pensamento liberal europeu. 20 

No Imperio o sistema educacional se caracterizava principalmente pela 
centralizacao administrativa. Segundo diploma legal de 4 de dezembro de 1810, a 
Academia Real M ilitar devia ser "presidida por uma junta militar composta por um 
presidente e quatro ou mais suplentes, tres dos quais seriam aqueles que eu decida 
selecionar e nomear para essa posicao como os mais capacitados nos estudos 
cientfficos e militares." 21 Todos os nomeados pelo Imperador, em um Decreto de 
1811, eram membros do Corpo Real de Engenharia. 22 M esmo depois da introducao de 
um esquema de exames de selecao para a Academia, em 1833, a polftica continuou a 
exercer um papel importante na nomeacao dos professores. Um relatorio de 1837 
sobre a situacao do ensino profissional no Brasil chamava atencao para "a ma escolha 
de alguns professores, nomeados em condicoes de escandaloso favoritismo. Em vez 
de selecionar os candidates de maior merecimento, com algumas honrosas excecoes 
houve um esforco para so escolher os protegidos ... Nos exames de selecao o 
favoritismo tern sido tal que causa repulsa ate mesmo menciona-lo: os filhos seguem 



20 Sobre as escolas de direito do seculo dezenove vide Venancio Filho 1977 e Adorno 
1988. 

21 Citado por F. M. deO. Castro 1955:50. 

22 Antonio Jose do Amaral, Primeiro Tenente, natural do Rio de Janeiro, instrutor do 
PrimeiroAno; Francisco Cordeiro da Silva e A Ivim, Sargento, natural de Portugal, instrutor do 
Segundo A no, que mais tarde receberia o tftulo de Visconde dejerumirim; Jose Saturnino da 
Costa Pereira, Primeiro Tenente, natural da Colonia do Sacramento, situada no extremo 
meridional do Brasil, instrutor do Terceiro Ano; Manuel Ferreira de Araujo Guimaraes, 
Capitao, natural deSao Salvador, na Bahia, instrutor do Quarto Ano; ej oseVitorino dos Santos 
e Souza, Segundo Tenente, lugar de nascimento desconhecido, instrutor de geometria descritiva 
(Morais 1955:118; F. M. deO. Castro 1955:52). 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 12 

os pais, os cunhados seguem os cunhados, os primos seguem os primos, os sobrinhos 
seguem os tios ,.." 23 Sem uma demanda significativa de profissionais qualificados e 
de uma comunidade profissional que pudesse impor padroes de qualidade, era 
inevitavel que a central izacao tivesse esses efeitos negativos. Assim, as instituicoes de 
ensino funcionavam mal, pela falta de empenho por parte dos estudantes e 
professores, praticas desonestas nos exames e descuido na preparacao das aulas. 

Os livros que os professores deviam usar para suas aulas eram prescritos por 
lei. Essa centralizacao transparecia tambem na subordinacao direta das escolas ao 
Gabinete Imperial. Todas as instituicoes deviam seguir um ano escolar obrigatorio de 
sete meses, e mais tarde foram criados "exames preparatories" junto as Comissoes 
Provinciais de Ensino Publico para os candidates aos Institutes educacionais 
superiores. Esses exames se baseavam nas materias ensinadas nas escola secundarias, 
quase exclusivamente humanidades, e retiravam das escolas o direito de escolher os 
seus alunos segundo criterios proprios. 24 

Com a reforma Leoncio de Carvalho, implementada no Imperio durante o 
governo do Primeiro Ministro Visconde de Sinimbu, a educacao superior brasileira 
passaria por uma mudanca profunda --- transformacao provocada pela adocao mal 
compreendida de elementos do sistema universitario alemao, juntamente com as 
ideias positivistas, adaptadas ao clima politico de descentral izacao que predominou a 
partir do M anifesto Republicano de 1870. A presenca nas aulas passou a ser opcional, 
e a adotou-se plena liberdade de ensino, com a introducao de uma versao brasileira do 
Privatdozent alemao e a eliminacao do controle govemamental sobre o que deveria 
ser ensinado. Segundo a opiniao dos contemporaneos, os efeitos foram desastrosos, 
pois desapareceu o pouco controle de qualidade que havia no regime anterior de 
centralizacao. Para compensar essa falta de controle foi adotado um sistema de 
exames governamentais no fim dos cursos, mas a confiabilidade desses exames 
dependia muito da capacidade individual de cada professor. 25 O principal resultado 
dessa lei, que permaneceu em vigor ate 1895, foi a disseminacao de instituicoes de 
ensino superior por todo o Brasil, comecando por Sao Paulo. A reforma Leoncio de 
Carvalho e suas consequencias deixou a impressao de que o Brasil nao estava 
preparado para o pluralismo e a liberdade academica, o que acabou por reforcar as 
tendencias autoritarias e central izadoras que prevaleceriam ateo presente. 



23 Clovis Bevilaqua, citado em AlmeidaJ r.: 1956:21,22. 
24 J. M. Carvalho 1978. 



25 



AlmeidaJ r. 1956; Venancio Filho 1977; Barms 1959. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 13 

Apesar destas limitacoes e falta de autonomia, foi nas instituicoes de ensino 
superior que surgiram varias das primeiras tradicoes de trabalho de pesquisa cientffica 
no Brasil, nas areas das ciencias ffsicas e biologicas. 

E ngenharia e M ineragao 

A primeira instituicao tecnica brasileira foi a Academia Real de Marinha 
criada por Dom Joao VI no Mosteiro de Sao Bento, no Rio de Janeiro. Dois anos 
depois o Rio ganhava sua Academia Real Militar, responsavel pelo treinamento de 
oficiais de artilharia e engenheiros topograficos e geograficos. O documento de 
fundacao da Academia Real M ilitar, datado de 4 de dezembro de 1810, definia que a 
instrucao consistiria em "urn curso completo das ciencias matematicas, das ciencias 
de observacao --- isto e,. ffsica, qufmica, mineralogia, metalurgia e historia natural, 
incluindo os reinos vegetal e animal --- assim como as ciencias militares, incluindo 
tanto a tatica como a artilharia e a construcao de fortalezas." 26 Em 1832 as duas 
academias se uniram para formar a Academia M ilitar e de M arinha, uniao que nao 
durou mais do que um ano. 

O curso completo da Academia Militar durava sete anos, divididos entre 
matematica (quatro anos) e ensino militar (tres anos). O ensino da matematica seguia 
as seguintes linhas: 

"O professor do Primeiro Ano ensinava aritmetica, algebra (ate as equacoes deterceiro 
e quarto grau), geometria, trigonometria linear e elementos da trigonometria esf erica; o 
professor do segundo ano ensinava algebra avancada, geometria analftica, calculo 
diferencial e integral; o professor do terceiro ano ensinava mecanica (estatica e 
dinamica), hidrostatica e hidrodinamica; e no quarto ano havia um professor de 
trigonometria esferica, otica, astronomia egeodesia." 27 

O programa estava estruturado de tal forma que seus conceitos fossem 
aplicados rigidamente, sem deixar espaco para duvidas ou a experimentacao. 28 Todas 



26 Citado em F. M . deO. Castro 1955:56. Videtambem Barata 1973 sobre a tradi cao de 
engenharia no Rio dej aneiro. 

27 F. M. de O.Castro 1955:51. 

28 Assim, por exemplo, o segundo capftulo do programa de matematica estabelece: "O 
instrutor do Quarto Ano explicara plenamente a trigonometria esferica de Lagrange, assim 
como os princfpios da otica, catoptrica e dioptrica; a base de todos os tipos de oculos (refracao 
e reflexao) seguida por uma explicacao do sistema do mundo, em que os trabalhos de Laplace 
terao grande utilidade — sem aventurar-se nas suas nobres teorias, ja que nao havera tempo 
para isso, mas revel ando os principals resultados demonstrados por Laplace com tanta 
elegancia, e explicando todos os metodos usados na determinacao das latitudes e longitudes, no 
mar e na terra; e comentando e demonstrando regularmente como isso pode ser aplicado as 
medidas geodesicas, outra vez com a maior amplitude possfvel. O instrutor revel ara tambem os 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 14 

as reformas posteriores feitas na Academia Real Militar ou tratavam de questoes 
disci pi inares ou procuravam aperfeicoar os aspectos puramente profissionais dos seus 
cursos. Mais tarde, a engenharia militar comecou a se afastar da civil, e a partir de 
1833 foi permitido a civis seguir os seus cursos, ao lado de militares. Em 1839 a 
Academia se transformou na Escola Militar, e nao tardou a ganhar a reputacao de 
manter uma disciplina extremamente rfgida, deixando assim de atrair alunos civis. Em 
1842 foi introduzido um curso de engenharia civil de sete anos, sendo possfvel obter o 
doutorado mediante a apresentacao de uma tese. Em 1855 foi criada uma Escola de 
Aplicacao para o ensino exclusivo de assuntos militares, e em 1858 a Escola M ilitar 
passou a ser a Escola Central, uma instituicao predominantemente civil, embora os 
militares continuassem a frequentar as aulas comuns aos dois cursos. A partir de 1858 
a fisica passou a ser ensinada como uma materia a parte. 29 

Em 1874, durante a vigencia do Gabinete do Visconde de Rio Branco, o 
sistema brasileiro de educacao superior passou por uma completa reforma, e os cursos 
de engenharia civil e militar foram separados de forma definitiva, o que resultou na 
criacao da Escola Politecnica do Rio de Janeiro, de acordo com o modelo frances. 
Nessa epoca, o regime imperial estava em pleno auge, a populacao seexpandia, o cafe 
aumentava os rendimentos da aristocracia rural, e mais impostos eram recolhidos pelo 
governo central. Os contatos com a Europa se intensificaram, e as velhas instituicoes 
educacionais passaram a ser vistas como demasiadamente limitadas para os filhos de 
uma elite em expansao. Na nova Escola Politecnica o antigo curso de matematica da 
Escola M ilitar foi dividido em um curso de ciencias ffsicas e matematicas e outro de 
ciencias ffsicas e naturais. Dentro das ciencias ffsicas e matematicas se ensinava a 
"mecanica celeste e a ffsica matematica", assim como "matematica suplementar". 
Outra mudanca importante e sem precedentes era a possibilidade de obter um diploma 
de bacharel ou de doutor em ciencias ffsicas e matematicas, ou em ciencias ffsicas e 
naturais, fora dos cursos profissionais de engenharia. Assim, a ciencia pura era 
introduzida no ensino, levando as grandes expectativas do Visconde do Rio Branco a 
respeito da Escola Politecnica; em um relatorio de 1876 ele descreveu o novo 



fundamentos da cartografia geografica, de varias projecoes, e a aplicacao aos mapas 
geograficos e topografias, assim como explicara os princfpios aplicaveis aos mapas marftimos 
reduzidos e ao novo metodo usado para desenhar o mapa da Franca; dando tambem uma ideia 
geral da geografia global e das suas divisoes. As obras de Laplace, de Lacaille, a Introducao de 
Lacroix e a geografia de Pinkerton servirao como base para o livro de texto a ser compilado, no 
qual deve ser feito um esforco para cobrir plenamente estes topicos" (citado em Morais 
1955:117). 

29 F. M. deO. Castro 1955; Morais 1955; Ribeiro 1955; Almeida J r. 1956. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 15 

currfculo como incorporando "a culminacao dos progressos alcancados pelas ciencias 
naturais e ffsico-matematicas." 30 

Era otimismo excessive Nemo espfrito nem a estrutura desses cursos foram 
mantidos depois de 1889, durante o perfodo republicano. A primeira tentativa de 
extingui-los veio em 1890, sob o governo provisorio, logo depois da queda do 
Imperio, em 1889. Os professores da Escola Politecnica se manifestaram contra a 
reforma proposta, e o Chefe do Governo Provisorio decidiu contra a sua adocao. Os 
cursos cientfficos da Politecnica sobreviveram ate 1896, quando foram finalmente 
abolidos pela propria direcao da Escola. 31 

A Escola de Minas de Ouro Preto e uma excecao notavel entre as escolas 
profissionais fundadas depois da reforma educacional do Visconde do Rio Branco. 
Criada em 1875 por iniciativa pessoal do Imperador, a Escola ganhou vida com 
Claude Henri Gorceix, seu organizador e primeiro diretor. 32 Durante uma visita a 
Europa, no prinefpio da decada de 1870, Dom Pedro II convidou Auguste Daubree, 
diretor da Escola de Minas de Paris, a organizar e dirigir uma escola analoga no 
Brasil, mas Daubree sugeriu Henri Gorceix para essa missao. Em julho de 1875, um 
ano depois de chegar ao Brasil, Gorceix apresentou ao governo brasileiro um relatorio 
sugerindo a local izacao e os estatutos da Escola, que seria construida na cidade 
colonial de Ouro Preto, capital da provfneia de Minas Gerais, perto dos depositos 
minerais mais ricos do pafs. Gorceix propunha um curso de dois anos, com aulas 
cobrindo um perfodo de dez meses, de agosto ate junho, com dois meses adicionais 
dedicados a excursoes etrabalhos praticos. O curso exigiria regime de .tempo integral 
tanto dos professores como dos alunos; o corpo docente teria bons salarios e os 
estudantes mais pobres seriam contemplados com bolsas. Haveria um maximo de dez 
alunos por classe, e os alunos de melhor rendimento seriam enviados aos Estados 
Unidos e a Europa, para se aperfeicoarem. Os candidates precisariam ser aprovados 
em um exame de ingresso, independentemente das Comissoes Oficiais de Ensino 
Publico, que controlavam o acesso as outras instituicoes de ensino superior do pais, e 
ao longo do curso haveria exames frequentes. Por fim, o governo identificaria os 
estudantes que, tendo completado o curso, obtivessem melhor rendimento durante 
suas viagens ao exterior, e empregaria os seus servicos. Depois de algumas mudancas 
relacionadas com os gastos previstos, e tendo sido aprovado plenamente por Daubree, 
o projeto inicial foi oficializado em 6 de novembro de 1875. 



30 Citadoem F. M. deO. Castro 1955:61. 

31 F. M. de O.Castro 1955:61. 

32 Vide um relato completo em J . M . Carvalho 1978. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 16 

projeto definitivo da Escola de M inas inspirou-se nao na famosa escola de 
Paris, mas na de Saint-Etienne. A natureza do ensino na primeira era mais ampla, e 
atraia para o seu curso de tres anos os melhores graduados da Ecole Polytechnique. J a 
o curso de dois anos de Saint-Etienne era mais pratico e operacional, embora 
procurasse proporcionar uma melhor educacao do que a exigida para simples tecnicos 
ou mestres artesaos. Assim, a Escola de Ouro Preto seria uma ecole de mineurs, nao 
uma ecole de mines, na tradicao da de Paris. 

Desde o infcio a historia da Escola de M inas foi marcada pela luta contfnua 
contra a tendencia central izadora do Gabinete Imperial e por choques constantes com 
a Politecnica do Rio de Janeiro a proposito do seu status, autonomia e objetivos. Um 
decreto de 1880 determinava que os graduados da Escola de M inas deviam receber 
igual tratamento quando competissem por posicoes docentes em escolas similares. Em 
1885 o curso de Ouro Preto foi equiparado ao curso de engenharia da Politecnica. No 
entanto, a despeito dessa garantia legal, as bancas examinadoras da Politecnica 
sempre rejeitavam os graduados de Ouro Preto que se candidatavam a cargos de 
professor, e para evitar essa discriminacao em varias oportunidades foi necessaria a 
intervencao pessoal do Imperador. A falta de um mercado especializado para os 
graduados da Escola tornava necessario incluir no curso a engenharia civil, como 
recomendara em 1884 o Presidente da provfncia de M inas Gerais, que se ofereceu 
para apoiar a escola, pois escasseavam os fundos fomecidos pelo governo central. De 
acordo com J. M. De Carvalho, "a intervencao da provfncia, que implicava em 
mudancas no projeto original, provavelmente impediu a extincao da Escola. M as essa 
intervencao decorria nao de interesse em preservar uma Escola de M inas de nfvel 
superior, mas do desejo de manter em M inas Gerais uma escola superior de qualquer 
tipo." 33 

M edicina e C irurgia 

A abertura em 1808 de dois cursos medico-cirurgicos, um em Salvador e o 
outro no Rio de Janeiro, marcou a inauguracao oficial do ensino da medicina no 
Brasil. Antes disso, a assistencia medica era prestada na colonia ou por curandeiros --- 
herdeiros de conhecimentos empfricos, indfgenas ou africanos --- ou por clfnicos que 
trabalhavam sob o Proto-M edicato de Portugal. O Proto-M edicato era uma junta 
permanente que supervisionava todas as praticas relacionadas com a arte medica; e 
julgava tambem os pedidos de autorizacao para essa pratica, submetendo-os a 
aprovacao oficial. Para ter essa qualificacao os candidates precisavam apresentar uma 



! J. M. Carvalho 1978:59. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 17 

declaracao certificando terem passado por um certo perfodo de aprendizado, e 
haverem sido aprovados em um breve exame realizado por essa junta medica. 34 

Em 1808 a Coroa portuguesa criou no Brasil os cargos de Ffsico M or do Reino 
e Cirurgiao M or do Exercito, que passaram a ser as mais altas autoridades no campo 
da saude dentro da organizacao administrativa de Portugal. Em conjunto, esses dois 
cargos formavam uma especie de junta de saude publica. O Cirurgiao M or e seus 
delegados estavam incumbidos de supervisionar tudo o que se relacionasse com o 
ensino e a pratica da cirurgia, de sangrias, partos, extracao de dentes, aplicacao de 
sanguessugas e restauracoes osseas. A I em da sua responsabilidade sobre os hospitais 
militares, os medicos e servicos de saude, o Ffsico M or e seus delegados deviam 
inspecionar o ensino e a pratica da medicina; as questoes entre medicos e seus 
pacientes; a pratica das farmacias, dos curandeiros e cirurgioes dedicados a tratar 
doencas internas. Eram responsaveis tambem pela prevencao de epidemias e a 
supervisao geral da saude publica. Havia uma obvia distincao hierarquica entre a 
medicina, uma profissao liberal, e a cirurgia, uma habilitacao de ordem pratica. 

O novo Cirurgiao M or, Jose Correia Picanco, natural do estado de 
Pernambuco e graduado de Coimbra, sugeriu fosse criada na Bahia a Escola de 
Anatomia e Cirurgia, funcionando no Hospital Real daquela cidade, "em beneffcio da 
preservacao e da saude dos cidadaos, com o objetivo de treinar professores capazes e 
expertos que, por meio da uniao da ciencia medica e do conhecimento da pratica 
cirurgica pudessem servir os residentes no Brasil." 35 O curso do Rio de Janeiro foi 
criado pouco tempo depois, devido a "grande necessidadede que os hospitais militar e 
naval treinem seus cirurgioes nos princfpios da medicina, e cuidem dos doentes a 
bordo dos navios e das pessoas que precisam morar em vilas distantes, no vasto 
continente que e o Brasil." 36 Quatro disciplinas eram oferecidas durante os quatro 
anos de estudo: anatomia efisiologia; terapia cirurgica e privada; medicina cirurgica e 
obstetrica; e medicina, qufmica, temas medicos e farmacia. Ao completar seus 
estudos, o aluno recebia um certificado e podia solicitar ao Cirurgiao Mora formacao 
de uma banca examinadora para avaliar as suas qualificacoes. Depois de receber o 
diploma, era preciso tambem obter a aprovacao da universidade de Coimbra. Uma 
reforma de 1811, baseada no modelo de Coimbra, exigia que para ser aceito o 
candidate conhecesse latim, filosofia moral e racional, geometria e elementos de 



34 As informacoes que seguem se baseiam em Magalhaes 1932; Campos 1941; Lobo 
1964, I, Cap. 2; Santos Fil ho 1947 e 1977; eLacaz 1977. 

35 Citado por Lobo 1964, 1:13. 

36 Lobo 1964 1:13. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 18 

algebra, ffsica e qufmica: um currfculo muito mais lato do que e comum em nossos 
dias. O curso de farmacia devia tomar tres anos; o de cirurgia e medicina, cinco. M as 
essa reforma nunca foi implementada. 

Em 1813 a escola de medicina do Rio de Janeiro foi reorganizada em linhas 
muito menos ambiciosas, passando a chamar-se Academia M edico-Cirurgica. Tendo 
como foco a cirurgia, o programa exclufa a farmacia e a medicina. Para ser admitido, 
o candidate so precisava ler e escrever portugues corretamente, e concordar em 
aprender frances e ingles no decorrer do curso. Aqueles que ja soubessem latim ou 
geometria estavam dispensados de fazer o Primeiro A no. Depois de cursar a 
Academia por cinco anos, e tendo sido aprovado em todos os exames finais, o aluno 
recebia uma Carta de Aprovacao em Cirurgia. Os que prosseguissem nos estudos por 
mais dois anos recebiam uma Carta de Graduacao em Cirurgia, que garantia varios 
privilegios: colocacao preferencial em vagas de cargos publicos; permissao de tratar 
todas as doencas em lugares onde nao houvesse medicos; participacao automatica no 
Colegio Cirurgico e na Academia de Medicina do Rio de Janeiro, assim como em 
todas as instituicoes si mi I ares a serem criadas no Brasil. O grau de Doutor em 
medicina seria conferido a qualquer cirurgiao com graduacao que apresentasse uma 
dissertacao em latim e fosse aprovado nos exames indicados pelo Ffsico M or. Em 
1815 a Escola da Bahia foi reorganizada nessas mesmas linhas. A independencia, em 
1822, nao alterou a estrutura das escolas de medicina, e so em 1826 foi eliminada a 
exigencia da confirmacao pela universidadede Coimbra. 

A fundacao da Sociedade de Medicina, em 1829, foi um sinal da sua 
profissionalizacao e crescente prestfgio. O primeiro nucleo da Sociedade foi um grupo 
de cinco medicos ilustres, dois brasileiros e tres estrangei ros, alem de dois cirurgioes 
graduados. Organizada no modelo da Academia Francesa, sua primeira tarefa foi 
estudar os projetos para a reforma do ensino medico, que estavam entao sendo 
debatidos pelo Congresso. Obtida a aprovacao legislativa, depois de algumas 
mudancas a reforma foi assinada em 3 de outubro de 1832, qualificando as escolas da 
Bahia e do Rio de Janeiro como Escolas de Medicina, e autorizando-as a conceder 
diplomas de Doutor em Medicina, Farmacia ou Obstetrfcia (o tftulo relativo as 
Sangrias foi eliminado). 

Essa reorganizacao do ensino medico deveria marcar a passagem da medicina 
pratica e sintomatologica para a cientffica. O antigo currfculo era criticado porque ele 
nao 

"oferecia um unico curso, com as chamadas ciencias auxiliares, lidando com o estudo 
da natureza ou dos corpos e das propriedades gerais e especfficas em cada caso .... 
Ffsica, qufmica e botanica: essas ciencias sao indispensaveis ao estudo da medicina; 
elas nao fornecem inumeravel documentacao que pode ser usada ou para explicar os 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 19 

fenomenos do organismo ou para examinar a composicao e acao dos corpos, ou ainda 
para procurar os meios medicos e mecanicos de proteger a saude e curar a doenca." 37 

Alem de incluir as tres "ciencias auxiliares", o piano do novo curso enfatizava 
e expandia o ensino de higiene, um campo que teria enfase especial no Rio dej aneiro. 
No entanto, a pratica clfnica continuava ser o forte das duas Escolas. 

Uma excecao a essa tradicao clfnica era a chamada "Escola Tropicalista 
Bahiana", que nao era propriamente uma Escola, mas um movimento iniciado por 
volta de 1850 e desenvolvido fora da Escola de M edicina da Bahia. Com a excecao de 
Otto W ucherer ej ohn Ligertwood Paterson, que tinham estudado no exterior, todos os 
membros desse movimento estudaram na Escola de M edicina da Bahia. 

A Escola Tropicalista Bahiana deu algumas contribuicoes importantes. 
W ucherer e Paterson identificaram a epidemia de febre amarela em 1849, e a colera 
morbus em 1853. Em 1863 W ucherer publicou um ensaio sobre a fauna brasileira, 
examinando e descrevendo novas especies de serpentes e estabelecendo regras 
morfologicas para a identificacao de variedades venenosas. Foi tambem responsavel 
pela correta identificacao e descricao de varias doencas, inclusive a infeccao pelo 
verme ancilostomo, enquanto Silva Lima descrevia a beriberi mais precisamente do 
que nunca. O trabalho da Escola Tropicalista Bahiana ficou registrado na Gazeta 
M edica da Bahia, que comecou a ser publicada em 1866. 38 Considerada na epoca uma 
boa revista, a Gazeta M edica apareceu regularmente ate 1908, servindo como vefculo 
para difundir o trabalho de outros membros desse movimento. As fontes disponfveis 
nao esclarecem a natureza do possfvel relacionamento entre os membros do 
movimento e a Escola de M edicina --- se havia entre eles colaboracao ou rivalidade. 
No entanto, e diffcil imaginar que na cidade de Salvador, no seculo dezenove, esses 
dois polos da medicina pudessem se ignorar mutuamente. E provavel queo modelo de 
ensino e pesquisa quedeveria permear a ciencia brasileira durante todo um seculo (ou 
seja, com as duas praticas realizadas em lugares diferentes) ja estivesse criando rafzes. 



1974. 



37 Citado por Lobo 1964 1:50. 

38 Uma reproducao em fac-sfmile, em dois volumes, foi publicada por Falcao (ed.) em 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 20 

A ciencia imperial em perspectiva 

Ateo princfpio da Republica, a atividade cientffica no Brasil era extremamente 
precaria. De um lado, precisava lidar com iniciativas instaveis, empreendidas segundo 
os impulsos do Imperador. Por outro, tinha que enfrentar as limitacoes das escolas 
profissionais burocratizadas, sem autonomia ecom objetivos puramente uti I itarios. 

Essa situacao precaria sera melhor compreendida se lembrarmos que o Brasil 
nao tinha setores sociais significativos que julgassem a atividade cientffica 
suficientemente valiosa e importante para justificar o interesse e o investimento por 
parte da nacao. Para termos uma melhor perspectiva, podemos contrasta-la com o que 
vinha acontecendo, mais ou menos na mesma epoca, em dois pafses nao ocidentais de 
grande extensao --- o J apao e a India. 

Desde a Restauracao Meiji, de 1868, o J apao se empenhou em absorver 
sistematicamente a ciencia e a tecnologia do Ocidente. Em 1900 a Universidade 
Imperial de Toquio ja oferecia cursos avancados de fisica, tecnologia e biologia, 
ensinados em Ifnguas ocidentais. Alem disso, os estudantes japoneses enviados aos 
centros cientfficos mais importantes da Europa e dos Estados Unidos deveriam mais 
tarde ensinar no seu pafs. Ao enfrentar esse desafio, o governo japones podia contar 
com o apoio de um grupo social bem definido, os Samurais. Com o fim do perfodo de 
descentralizacao feudal, essa classe guerreira tradicional abandonou suas antigas 
atividades e dela safram os indivfduos necessarios para realizar a revolucao cientffica 
etecnologica japonesa. 39 

Embora de forma diferente, sob muitos aspectos, a India do seculo dezenove 
estava tambem muito envoi vida com a cultura ocidental. Os ingleses levaram a sua 
colonia seus metodos de ensino, e estimularam a elite local a enviar seus filhos as 
universidades na Inglaterra. A sociedade indiana passava por um processo de 
ocidental izacao que levou a adocao do ingles como Ifngua oficial. A elite cultural 
indiana, a casta dos Bramanes, ingressou nas novas escolas e universidades na 
expectativa de manter sua lideranca cultural e social dentro dos limites permitidos 
pelos colonizadores. Os estudiosos da historia indiana tendem a acentuar a 
esterilidade desse processo de adocao de uma tradicao cientffica e tecnologica que a 
India pudesseconsiderar como sua. 40 



39 Koizumi 1975; Hashimoto 1963. 

40 M orehause 1971; Rahman 1970. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 21 

Essa comparacao com a India e o Japao do seculo dezenove evidencia a 
debilidade dos projetos educacionais e cientfficos do Imperio brasileiro, onde a 
ciencia era vista a princfpio como um conhecimento aplicado, e como tal considerada 
pouco pratica e economica; e, mais tarde, foi vista como simples cultura, e portanto 
em grande parte irrelevante. A expansao gradual da educacao superior, ao longo do 
seculo dezenove, foi em parte a busca de conhecimentos novos e uteis com crescente 
conteudo cientffico; e tambem parte do movimento de uma elite urbana pequena mas 
crescente que desejava abrir espaco para si e obter reconhecimento na sociedade pel a 
forca do seu peculio especial: os novos conhecimentos reunidos pela Europa, que 
estavam sendo levados para o Brasil. 41 

modo como a antiga Escola M ilitar do Rio de J aneiro mudou de nome e de 
objetivos no seculo dezenove e uma boa indicacao de como ela se via. Com excecao 
da fronteira meridional, a profissao militar nunca gozou de grande prestfgio no Brasil, 
e a dimensao civil da Escola foi sempre predominante. Em 1858 a Escola Militar 
passou a se chamar Escola Central e em 1874 adotou finalmente a denominacao 
francesa de Escola Politecnica. A predominancia da engenharia civil nao significava 
que a Escola tivesse competencia especial no desenvolvimento da qualificacao em 
mecanica ou na construcao, ou ainda no estfmulo a competencia nas ciencias ffsicas e 
naturais. Os visitantes eram unanimes na sua crftica ao modo como o ensino era 
conduzido --- com livros detexto desatualizados, sem aulas praticas ou experimentais, 
e sem um esforco de pesquisa proprio: situacao que no entanto talvez fosse 
compatfvel com a limitada demanda tecnologica da sociedade brasileira daquela 
epoca. No longo prazo, a Escola de M inas deOuro Preto nao teve melhor resultado, a 
despeito de seus padroes iniciais terem sido bem mais estritos. O subsolo de M inas 
Gerais era rico, mas nunca houve uma base economica para uma industria de 
mineracao que necessitasse do conhecimento especializado que a Escola de Minas 
deveria desenvolver. Uma educacao tecnica especializada so se desenvolveu em Sao 
Paulo, cuja Escola Politecnica, criada em 1894, acompanharia de perto o 
desenvolvimento do sistema ferroviario na regiao do cafe. 

O que justificava a Escola Politecnica do Rio dej aneiro (assim como a Escola 
de M inas e em certa medida a Politecnica de Sao Paulo) era sobretudo o seu papel na 
criacao de um novo tipo de intelectual de elite que desafiava a sabedoria convencional 
dos sacerdotes e advogados, em nome da ciencia moderna. A ideia de que a sociedade 
podia ser planejada e administrada por engenheiros, bem caracterfstica da tradicao 
francesa, teria no Brasil um forte impacto. Enquanto na tradicao inglesa a engenharia 
foi sempre considerada uma ocupacao menor, pouco adequada a cavalheiros, desde a 



41 O que segue esta baseado em Schwartzman 1991. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 22 

sua criacao a Ecole Polytechnique foi o centra de formacao da elite francesa. Nela a 
instrucao militar era acompanhada do treinamento em matematica e ffsica, e 
acreditava-se que essa combinacao era a melhor forma de preparar mentes cartesianas 
para construir pontes, organizar exercitos e administrar a economia. A doutrina 
positivista garantia aos engenheiros brasileiros que eles tinham o direito e a 
competencia necessaria para governar a sociedade, e sob a sua orientacao torna-la 
melhor e mais civilizada. Eles promoveram as campanhas contra a monarquia, em 
favor da educacao universal, pela melhoria dos salarios dos trabalhadores; opuseram- 
se a Igreja e a todas as formas de corporativismo (as ambicoes de auto- 
regulamentacao das universidades eram vistas como uma manifestacao 
corporati vista); opunham-se a vacinacao obrigatoria contra a varfola e acima tudo se 
organizavam em sociedades secretas, conspirando para conquistar o poder. Nesse 
movimento tiveram tanto exito que o seu lema "Ordem e Progresso", aparece ate hoje 
na bandeira nacional. 

Na medicina encontramos um cenario semelhante. No seculo dezenove 
firmou-se nos meios medicos brasileiros a ideia de que a ciencia medica poderia 
deixar seu papel curativo para ter uma funcao preventiva, mais social. 42 Ate entao os 
medicos e outros profissionais da arte de curar lidavam principalmente com as 
pessoas que procuravam a sua ajuda, e que podiam pagar pelos seus servicos. As 
epidemias globais --- as pragas, a lepra, a varfola, as doencas venereas --- eram uma 
responsabilidade do governo e das autoridades religiosas, com o isolamento dos 
doentes, o conforto dos moribundos, a exortacao as pessoas nao atingidas para evitar a 
promiscuidade com os doentes. No princfpio do seculo, provavelmente pela primeira 
vez no Brasil, os medicos foram solicitados a explicar as causas das doencas do Rio 
de Janeiro como centra urbano, e a propor uma solucao. Eles identificaram problemas 
com o ar, a arquitetura, o fornecimento de alimentos e a moral idade social. Suas 
recomendacoes eram principalmente de carater urbanfstico, legal e moral, e nao 
estritamente medicas; para implements I as era preciso a aprovacao das autoridades, e 
nas decadas quese seguiram tentariam desempenhar um papel mais importante. 

Em 1839 uma dissertacao com o tftulo "Contribuicoes da Medicina para a 
M elhoria da M oral e a M anutencao dos Bons Costumes" ja tinha exposto essa visao 
ampla em todos os seus detalhes. A profissao medica, que conhecia as pessoas e os 
disturbios organicos provocados pela desordem social, devia liderar a organizacao da 
sociedade, localizando as causas das doencas sociais e intervindo com o proposito de 



42 O que segue esta baseado em M achado, Loureiro, Luz e Muricy 1978. Uma fonte 
importante para a parte final do seculo dezenove sao os Anais da Academia Imperial de 
Medicina, publicados no Rio de Janeiro entre 1870 e 1890, e depois intitulados Anais da 
Academia de Medicina. 



Capftulo 3 - A Ciencia no Imperio - 23 

corrigi-las. A cura dos males sociais seria alcancada evitando as paixoes e a 
desordem. Nessa "Republica dos Medicos" prevaleceria a ordem, a serenidade e o 
equilfbrio. O papel da medicina era estudar o impacto que tinham sobre o povo o 
governo, a liberdade, a escravidao e as instituicoes religiosas e de outra natureza; 
identificar as alteracoes funcionais provocadas e fazer as recomendacoes apropriadas 
para o equilfbrio. 43 A Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro se empenhava em 
colocar a sociedade sob a supervisao cientffica da profissao medica, ao mesmo tempo 
em que combatia todas as formas nao institucionalizadas de servicos medicos, desde a 
homeopatia atea medicina tradicional. 

E provavel que a profissao medica brasileira nunca tenha tido o mesmo poder 
dos engenheiros em promover suas ambiciosas propostas de reforma social. O 
mercado para a clfnica medica particular foi sempre melhor do que a demanda pelos 
servicos de engenharia, e os medicos podiam seguir mais de perto, e desde mais cedo, 
as normas de uma profissao liberal. So aqueles mais relacionados com os hospitals 
gerais, a saude publica e a organizacao militar podiam tentar exercer uma funcao de 
natureza mais geral. Suas maiores realizacoes ocorreram no princfpio do seculo vinte, 
quando os especialistas em saude publica se uniram aos engenheiros para reorganizar 
e sanear o espaco urbano, mais especificamente o Rio de J aneiro. Essa foi tambem a 
base para criar a instituicao cientffica mais importante do Brasil ate entao, o Instituto 
de Manguinhos, nascido sob uma promessa de redencao social que durante algum 
tempo parecia genufna. 

Se como grupo organizado os medicos nunca tiveram muito poder, eles se 
aproximaram das ciencias sociais mais do que os engenheiros, e tiveram um papel 
importante na formacao das ideologias sociais predominantes no pafs. A antropologia 
ffsica, por exemplo, surgiu no Brasil como um ramo da medicina legal. Na mudanca 
do seculo, Nina Rodrigues, da Escola de Medicina da Bahia, estudou as teorias 
biologicas procurando identificar vfnculos entre as formas ffsicas e a conduta 
criminosa. Esses estudos conduziam diretamente a questao das caracterfsticas raciais 
da populacao brasileira, os problemas de miscigenacao racial e degeneracao. 44 A 
explicacao dos problemas apresentados pelos brasileiros --- a preguica, a luxuria, a 
falta de disciplina --- se transferia das antigas concepcoes baseadas no ambiente para 
novas teorias biologicas, presumivelmente mais cientfficas. 



43 M achado, Loureiro, Luiz eM uricy 1978:197-8. 

44 Stepan 1984. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 5 

A REVOLUCAO DE 1930 E AS PRIM EIRAS UNI VE RSI DADE S 

A "Educacao Nova" e a Igreja Catolica 1 

Aprocura de alternativas 4 

A Reforma Francisco Campos 9 

Um projeto liberal: a Universidade do Distrito Federal 13 

Ummodelo a ser seguido: a Universidade do Brasil 17 

Uma nova elite para uma nova na§ao: a Universidade de Sao Paulo 21 



A "Educacao Nova" ea Igreja Catolica 

Em 1889 a Republics concluiu a separacao formal entre a Igreja e o Estado, 
que ja vinha tomando forma nas ultimas decadas do Imperio. O novo regime abriu 
espaco para as oligarquias regionais que tinham sido mantidas afastadas pela 
monarquia, mas nab incorporou os novos intelectuais que comecavam a surgir com a 
modernizacao das cidades e o infcio do processo de industrializacao. Na nova 
situacao, nao havia lugar para os que tinham lutado contra o Imperio sob a bandeira 
do abolicionismo, assim como para as versbes mais radicais do republicanismo. Em 
muitos aspectos a Republica era menos ilustrada e modernizadora do que a monarquia 
precisamente porque cedia tanto poder aos estados e renunciava a centralizacao 
polftica que marcara o perfodo imperial. 

E facil ver como a educacao passou a ser uma preocupacao fundamental dos 
intelectuais, cujo numero aumentava mas que eram mantidos alienados pelo regime 
republicano. Se o pafs pudesse reconhecer a importancia da educacao, os intelectuais - 
-- e especial mente os que trabalhavam no setor educacional --- ocupariam o primeiro 
piano na vida nacional, e, acreditavam, teriam a oportunidade de usar os meios ao seu 
dispor para resolver os problemas do atraso, da pobreza, da ignorancia e da falta de 
espfrito publico que prevaleciam no Brasil. Um novo interesse pela educacao 
produziria nab so mais escolas mas tambem mais instituicbes, secretarias e ate mesmo 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 2 

um ministerio responsavel pela educacao --- e portanto mais poder e emprego para os 
intelectuais. 

Na decada de 1920 os propagandistas da educacao compartiam o isolamento 
em relacao ao poder polftico, mas fora isso estavam profundamente divididos. De um 
lado havia aqueles mais tarde identificados como "pioneiros da educacao nova" --- 
grupo que inclufa Anfsio Teixeira, Fernando de Azevedo, Francisco Venancio Filho, 
Heitor Lira, Almeida Junior, Lourenco Filho e varios outros. Para eles parecia 
evidente que os problemas brasileiros comecariam a ser resolvidos quando o sistema 
educacional se expandisse e modemizasse, tornando-se mais racional. Fernando de 
Azevedo descreve os conflitos daqueles dias como uma luta entre o novo e o velho, a 
mental idade moderna e a tradicional --- quase um conflito de geracoes. A expressao 
"educacao nova", trazida por Anfsio Teixeira da sua experiencia no Teachers College 
da U niversidadede Columbia, tinha um sentido sobretudo pedagogico: a saber, a ideia 
de que a educacao deve basear-se nos princfpios da liberdade individual, da 
criatividade, da originalidade do pensamento, em lugar da educacao formal e do 
aprendizado baseado na memorizacao que prevaleciam na educacao tradicional. Alem 
desses princfpios, o Manifesto dos Pioneiros da Educacao Nova, de 1932, apoiava a 
educacao leiga, a criacao de um sistema nacional de educacao, conforme normas 
estabelecidas pelo governo federal, e a atribuicao de um papel central ao Estado na 
execucao dessa tarefa. 1 Em outras palavras, o projeto consistia em retomar e expandir 
a tradicao central izadora e intervencionista por parte do Estado, que a Republica 
interrompera, mas que devia ser revivida pelo novo regime chefiado por Getulio 
Vargas. A Igreja catolica, porem, e seus Ifderes leigos mais proeminentes, tinha outra 
visao das coisas. 

Fernando de Azevedo, que tinha percorrido pessoalmente o itinerario do 
seminario tradicional ista ate a tentativa de introduzir a modemidade na educacao, 
descreve a Igreja brasileira nos primeiros anos da Republica, mostrando que el a 
passava por uma crise de estagnacao, substitufda, depois da Primeira Guerra M undial, 
por uma fase de grande ativismo. Segundo ele havia entre a Igreja e o seculo "uma 
indiferenca recfproca, quase que uma dissociacao entre a religiao e as forcas vivas da 
sociedade." As vocacoes sacerdotais eram extremamente raras, e os que escolhiam 
esse caminho se isolavam, nao participavam da vida dos outros estudantes. 2 O que 
fica menos claro e de que modo se desenvolveu, a partir dessa estado de letargia, o 
que o proprio Fernando de Azevedo descreveu como "o mais vigoroso movimento 



1 Penna 1987 traz o texto integral do M anifesto, um amplo panorama do movimento e 
de uma das suas figuras principais, Fernando de Azevedo. 

2 F. deAzevedo 1963:270-1. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 3 

catolico da nossa histaria, pela amplitude do seu ativismo social, pela nova 
interpretacao da Igreja e do seculo, pelo renascimento do espfrito nacional e religioso 
e por uma nova atitude combativa, nao necessariamente marcada pelo espfrito 
ecu m en i co ou a abertura mental". 

Essa experiencia de renascimento catolico tern sido o tema de ampla 
investigacao. 3 Uma das suas principais caracterfsticas era a intensa militancia do 
Cardeal Leme, do Rio de Janeiro, que promovia eventos dramaticos como a 
inauguracao da estatua do Crista Redentor, no Corcovado, em 1931, ou a consagracao 
da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, no mesmo ano --- eventos que 
reuniam grandes multidoes, pressionando o governo a levar a Igreja em consideracao 
no perfodo deconstrucao nacional quedevia comecar. 

A essa militancia da Igreja oficial devemos acrescentar um novo elemento: o 
surgimento de um pequeno grupo de intelectuais catolicos reunidos em torno de um 
instituto que, significativamente, adotou o nomede Centra Dom Vital, sob a lideranca 
de Alceu Amoroso Lima, que nos seus artigos literarios usava tambem o pseudonimo 
deTristao de Atafde. Esses intelectuais catolicos leigos compartilhavam com todos os 
outros intelectuais sua insatisfacao com o atraso, a ignorancia e a falta de fibra moral 
da nacao, assim como com a corrupcao e ineficiencia das autoridades civis. Como 
todos, eles acreditavam que o caminho para a redencao nacional inclufa a 
reconstruct do povo por meio da educacao. Como todos, eles tambem esperavam ter 
um papel ativo nesse trabalho de educacao humana e redencao nacional, voltando-se 
para a Franca em busca defontes de inspiracao. 

A diferenca principal estava em que enquanto alguns se inspiravam no 
lluminismo frances e no espfrito republicano dos dreyfusards, outros encontravam 
maior inspiracao no realismo conservador da Action Francaise. Para estes ultimos os 
valores fundamentals eram a ordem social, a hierarquia, a autoridade religiosa, a 
educacao orientada por princfpios religiosos e controlada pela Igreja. Seus inimigos 
eram os ideais do liberalismo, o individual ismo, a liberdade de pensamento e de 
informacao e o poder do Estado, quando nao controlado pela Igreja. O temario nao 
mudou muito desde a epoca de Dom Vital, no seculo dezenove, e, como naqueles 
anos, este era um perfodo em que voltou a prevalecer o poder e a autoridade da 
hierarquia romana sobre a Igreja universal. A "romanizacao" progressiva da Igreja 
Catolica aproximou o Brasil de Roma como nunca antes, levando ao aumento da 
presenca de padres estrangeiros nas paroquias brasileiras e a procura de um papel para 



3 Todaro 1971; Bruneau 1974; Cava 1976; A Ives 1979; Salem 1982. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 4 

a Igreja nos assuntos polfticos e sociais muito mais forte do que a Constituicao 
republicana tinha previsto. 4 

A revolucao de 1930 foi recebida pelos catolicos com desconfianca. Bastava a 
palavra "revolucao" para atemorizar aqueles para quem ate mesmo a pior ordem 
social era melhor do que qualquer desafio a autoridade. Alem disso, Getulio Vargas 
era um produto da oligarquia polftica positivista do Rio Grande do Sul, e o seu 
governo levaria inevitavelmente ao aumento da centralizacao polftica e ao 
fortalecimento do Estado. Logo porem surgiu um acordo polftico: o Estado concederia 
a Igreja privilegios nos campos da educacao, da moral e da ordem social; e de seu 
lado a Igreja contemplaria o governo com a paz social eo apoio ideologico. 

Assim, as decadas de 1920 e 1930 encontraram o Brasil diante de novas ideias 
e novas formas de ver o mundo mas tambem com movimentos culturais, sociais e 
polfticos que teriam consequencias de peso nas decadas seguintes. Em Sao Paulo a 
Semana de Arte M oderna de 1922 retirou da pintura e da literatura as muletas do 
classicismo arcaico, permitindo-lhes um maior contato com a realidade brasileira e 
com as experiencias artfsticas mais vibrantes da Europa. Foi criada no Rio de Janeiro 
a Academia Brasileira de Letras e a Associacao Brasileira de Educacao iniciou um 
movimento para ampliar e modernizar em todos os nfveis o sistema educacional do 
B rasi I . 

Seria um erro interpretar essas tendencias como conducentes a um movimento 
contfnuo e ininterrupto de modernizacao social e cultural. Na decada de 1930 elas 
seriam afetadas pelas tendencias central izadoras do Estado brasileira; pelo profundo 
conservadorismo do pafs, onde uma Igreja catolica militante desempenhava um papel 
fundamental; e pelas tensoes e contradicoes existentes entre o Estado central izador, as 
elites regionais e uma nova geracao de intelectuais independentes. Nas secoes 
seguintes examinaremos os movimentos em favor da ci end a moderna e da ampliacao 
da educacao que estavam tomando forma nos anos 1920, registrando com algum 
detalhe as experiencias de institucionalizacao academica havidas no Rio de Janeiro e 
em Sao Paulo. 

A procura dealternativas 

Duas instituicoes capturaram o clima de renovacao da ciencia e da educacao 
brasileiras nos anos 1920: a Academia Brasileira de Ciencias e a Associacao 
Brasileira de Educacao. A primeira foi institufda em 1922 como um desdobramento 



4 Bastide 1951; Cava 1976:11-2. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 5 

da Sociedade Brasileira de Ciencias, fundada em 1916. Na epoca da sua criacao a 
Sociedade estava vinculada ao Institute Franco-Brasileiro de Alta Cultura, criado sob 
os auspfcios do governo f ranees, como institutes semelhantes abertos em Buenos 
Aires e outras capitais. Henrique M orize, diretor do Observatorio e professor de ffsica 
experimental na Politecnica e foi o primeiro diretor da Sociedade, mantendo esse 
posto atemorrer, em 1930. 5 

A prinefpio a Sociedade promovia suas reunioes na sala dos professores da 
Escola Politecnica, e se compunha temporariamente de duas areas principais, com 
enfases na matematica e nas ciencias ffsico-qufmicas. M ais tarde passou a haver uma 
divisao mais precisa: matematica, ffsica, qufmica, geologia e ciencias biologicas. Em 
1917 teve infcio a publicacao da Revista da Sociedade Brasileira de Ciencias, sob a 
responsabilidade de Artur M oses. 6 Alem de publicar e divulgar trabalhos cientfficos, a 
Academia promoveu o intercambio com cientistas estrangei ros, especialmente 
franceses. Em 1922 Emile Borel foi convidado a viajar ao Brasil para fazer uma 
conferencia sobre "A Teoria da Relatividade e a Curvatura do Universo". Em 1923 
houve visitas de Emil Grey, Henri Abraham e Henry Pieron; em 1925, a visita de 
Albert Einstein, como extensao da sua viagem a Buenos Aires; e em 1926 visitas de 
Paul J anet, Emile M archouy e George Dumas. 

A Academia desempenhou uma funcao cultural e intelectual, agindo para 
promover a ciencia, mais do que de pratica-la, e nao promovia ou patrocinava 
programas de pesquisa. Em certa medida a Academia representava a "anti-faculdade", 
em contraste com a Escola Politecnica --- uma reacao contra o atraso na penetracao 
das ideias modemas na Escola. Talvez por esse motivo muitos dos seus membros 
defendiam com energia os novos principios da educacao, da pesquisa e do ensino 
preconizados pela Associacao Brasileira de Educacao. 

O ano de 1924 testemunhou a criacao no Rio de Janeiro da Associacao 
Brasileira de Educacao. Os tftulos dos seus varios departamentos nos dao uma ideia 
dos objetivos almejados: educacao primaria e de professores, educacao secundaria, 
educacao superior, educacao profissional e artfstica, educacao ffsica e higiene, 
educacao moral e cfvica e cooperacao familiar. A Associacao patrocinou muitas 



5 A primeira diretoria inclufa tambem J.C. da Costa Sena ejuliano Moreira (Vice- 
Presidentes); Alfredo Lofgren (Secretario Geral); Roquetre Pinto (Primeiro Secretario); 
Amoroso Costa (Segundo Secretario); e Alberto Betim Pais Leme (Tesoureiro) — todos eles 
figuras notaveis do meio cientffico brasileira (Paim 1982). 

6 O tftulo da Revista sofreu varias mudancas nos anos seguintes: Revista de Ciencias, 
em 1920; Revista da Academia Brasileira de Ciencias, em 1926; e Anais da Associacao 
Brasileira de Ciencias, em 1929. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 6 

atividades, incluindo cursos de extensao, trabalhos de pesquisa, elaboracao de leis de 
recrutamento militar e --- o mais importante --- uma serie de conferencias 
educacionais de ambito nacional que deveriam mobilizar o ambiente intelectual e 
cultural do Brasil depois de 1927. 7 

Othon Leonardos, geologo graduado pela Escola Politecnica do Rio de 
J aneiro, membro ativo da Associacao, lembra que dos seus primeiros anos: 

"Toda semana havia reunioes da diretoria e dos varios departamentos — educacao 
superior, educacao secundaria, ensino profissional. Cada departamento estudava um 
tema para ser debatido por todos. Um desses temas, examinado durante muitos anos e 
sobre o qual a Associacao chegou a editar uma publicacao, com entrevistas feitas com 
varios professores de renome, era a necessidade de uma universidade brasileira; outro 
era a necessidade de um M inisterio da Educacao. A Associacao ajudou tambem a criar 
cursos de extensao universitaria. Por exemplo: eu estive incumbido desses cursos na 
Escola Politecnica, cuja localizacao era mais central, no largo de Sao Francisco. 
Fazfamos entre cem e duzentas conferencias por ano. De tarde, chegavam automoveis 
ao largo de Sao Francisco, mas a maioria das pessoas vinham de bonde ou onibus — a 
vida nao era tao apressada como hoje. A presenca do publico era surpreendente — 
normalmente o auditorio ficava quase lotado, e curiosamente ate garcons vinham 
assistir essas conferencias, ansiosos por aprender coisas novas." 8 

Dentro da Associacao, os membros mais interessados na criacao de uma 
universidade brasileira vinham principalmente da Escola Politecnica do Rio de 
J aneiro. 9 A visao que a Associacao tinha da educacao e da universidade brasileira esta 
refletida em numerosos "inqueritos", pesquisas de opiniao promovidas no fim da 
decada de 1920. Essas pesquisas consistiam essencialmente em uma serie de 
perguntas preparadas por um grupo de especialistas e dirigida a um ampla amostra de 
instituicoes e figuras publicas bastante conhecidas. As respostas eram depois 
publicadas pelos principais jornais do pafs, ou como estudos independentes. Em 1927 
foram feitas pesquisas sobre a educacao secundaria e a questao da universidade 



7 que segue esta baseado em grande parte em Paim 1982. 

8 Entrevista de Othon Leonardos. 

9 "Lira — Heitor Lira da Silva, um graduado da Escola de Engenharia — reuniu seus 
colegas deturma, inclusive Amoroso Costa; Backheuser; Lino Sa Pereira; um pouco mais tarde 
Ferdinand Laboriau; os irmaos e irmas Osorio, especialmente Alvaro Osorio e Branca Osorio 
de Almeida Fialho; uma irma do Almirante Alvaro Alberto, Amandina Alvaro Alberto, que era 
tambem uma professora conhecida, casada com Siqueira M endonca; J ulio Porto Carreiro, que 
introduziu a psicanalise no Brasil ...; Laura Jacobina Lacombe; Carlos Gregorio de Carvalho" 
(entrevista de Leonardos). Os cientistas que trabalhavam em M anguinhos nao participavam do 
grupo, embora mantivessem estreito contato com a Academia deCiencias. Um membro notavel 
da Academia era Henrique Beaurepaire Aragao, descendente de franceses: "Fomos todos muito 
influenciados por ele, que era um verdadeiro Ifder" (entrevista de Leonardos). Laboriau, com 
Paulo Castro Maia, Tobias M oscoso e Amoroso Costa, todos da Escola Politecnica, morreram 
no acidente de aviacao durante a homenagem a Santos Dumont, que chegava da Europa de 
navio, em 1928. Leonardos lembra que na noite anterior tinha decidido ceder o seu lugar no 
aviao a Amoroso Costa, que nunca tinha voado. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 7 

brasileira, 10 com o apoio dos jornais Estado de Sao Paulo, J ornal e J ornal do 
Comercio. M embros da comissao visitaram Sao Paulo, Bahia e Minas Gerais, e a 
secao responsavel pela educacao tecnica e superior procurou conhecer a opiniao de 
varios especial istas e profissionais sobre alguns temas, tais como o modelo de 
universidade melhor adaptado ao Brasil, se as instituicoes de pesquisa deveriam ser 
inclufdas nas u niversidades, quais os metodos de ensino a serem utilizados, se os 
governos estaduais deviam oferecer assistencia financeira ao governo federal, assim 
como questoes relativas ao status profissional dos professores universitarios (por 
exemplo, o nivel dos salarios e as horas de trabalho). Os resultados dessa pesquisa 
foram publicadosem 1929 pelojornal Estado deSao Paulo. 

Em 1927 foi dado infcio a uma serie de conferencias nacionais sobre a 
educacao. Na primeira delas, realizada em Curitiba, Amoroso Costa apresentou um 
trabalho sobre as relacoes entre a universidade e a pesquisa cientffica. Na segunda, em 
Belo Horizonte (1928), Tobias M oscoso apresentou um estudo sobre a questao da 
universidade. No ano seguinte, a terceira conferencia, em Sao Paulo, presidida por 
Teodoro Ramos, foi dedicada a educacao secundaria, mas o problema de definir o 
papel da universidade tambem foi tratado como um tema importante. 

Em resposta ao "inquerito" da Associacao a recem criada Universidade de 
M inas Gerais decidiu apresentar um documento preparado com todo cuidado, o qual 
afirmava que "as universidades brasileiras deviam receber plena autonomia 
economica, didatica, administrativa e disciplinar, e a sua viabilidade devia ser 
garantida por um custeio independente." Esse conceito de autonomia permitia a 
diferenciacao entre as universidades: "Nao seria recomendavel ter uma so 
universidade padronizada para todo o Brasil. Ao contrario, cada uma delas devia 
organizar-se livremente, conforme seus recursos financeiros e as peculiaridades 
regionais, geograficas, economicas e sociais, respeitando embora os supremos 
interesses nacionais." Natural mente o tipo de universidade imaginado prepararia seus 
estudantes para o exercicio profissional ("engenheiros, medicos, juristas, 
farmaceuticos, Ifderes comerciais, agronomos, artistas, etc." ) mas serviria tambem 
"como um centra para a elaboracao cientffica corrente, contribuindo para enriquecer o 
conhecimento coletivo, melhorando nosso bem-estar ffsico e glorificando a heranca 
cultural da humanidade." Ao mesmo tempo, "essas instituicoes devem ser 
marcadamente nacionais --- e atecerto ponto regionais ---, refletindo as caracterfsticas 



10 Comissao chefiada por Domingo Cunha, Roquete Pinto, Ferdinand Laboriau, Inacio 
deAzevedo, Levi Carneiro, Raul Leitao da Cunha e Vicente Licfnio Cardoso. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 8 

da populacao que as sustenta e orientadas para as necessidades especiais da sua 
localizacao imediata." 11 

Tres ideias transparecem nessas propostas: a separacao entre o ensino 
profissional e as atividades cientfficas, a nocao da livre investigacao e o conceito da 
autonomia universitaria. Tobias M oscoso, que apresentou o tema na segunda 
conferencia nacional, expressou claramente o ponto de vista prevalecente sobre a 
separagao entre o ensino profissional e as atividades cientfficas: 

"Acredito que quando criamos universidades precisamos distinguir claramente entre 
duas orientacoes: ... a tecnica e a cientffica. A primeira deve resultar no 
desenvolvimento da capacitacao para aplicar o conhecimento cientffico adquirido a 
vida pratica, profissional, com base no conhecimento dos preceitos e processos da 
otimizacao economica, conforme sao aplicados especificamente ao nosso pafs. A 
segunda tern por objetivo a promocao da competencia nas investigates cientfficas e 
nas contribuicoes ao progresso da ciencia ... tudo isso orientado especificamente, 
sempreque possfvel, para a realidade brasileira." 12 

Essas duas distintas questoes educacionais deviam ser refletidas claramente no 
nfvel organizacional: "Precisamos de uma universidade equipada com departamentos 
de qufmica, ffsica, matematica e ciencias biologicas, com os meios para realizar 
pesquisas cientfficas em todos os ramos da ciencia pura; e tambem com 
departamentos de filosofia, letras e ciencias sociais, para criar um rico pano de fundo 
cultural." 13 

A ideia de que a pesquisa devia subordinar-se as necessidades praticas da 
nacao --- ou as exigencias do treinamento profissional --- foi claramente rejeitada por 
muitos. Alvaro Osorio de Almeida o expressa de forma enfatica: 

"A expert encia secular dos povos cuja civilizacao progrediu ou esta progredindo indica 
que preservar o espfrito do progresso exige nao so indivfduos de mente pragmatica mas 
tambem temperamentos idealistas — capazes de satisfazer suas necessidades 
intelectuais com a pura contemplacao dos fenomenos naturais, mediante o 
conhecimento ou o estudo desses fenomenos, ou a cultivacao das letras ... Para fazer o 
seu trabalho esses espfritos nao precisam de um estfmulo externo, ou de outros 
indivfduos. Por si mesmo esse trabalho Ihes da a alegria e inspiracao de que todos 
necessitamos. Eles sao a fonte, a origem da producao intelectual e do progresso da 
sociedade. Como todos os pensadores avancados compreenderao perfeitamente, 
precisamos por isso manter esses indivfduos juntamente com os espfritos utilitaristas 
que extraem sua inspiracao dos primeiros, transferindo o conhecimento que eles 
colheram para adaptar e aplicar a vida das sociedades humanas." 14 



"Campos 1954:80. 

12 Citacoes em Laboriau, Pinto e Cardoso (eds.) 1929:499. 

13 Gilberto Amado, conforme citado por Laboriau, Pinto e Cardoso (eds.) 1929:354. 

14 Laboriau, Pinto e Cardoso (eds.) 1929:168. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 9 

Enquanto isso, Tobias M oscoso defendia a autonomia universitaria: 

"Esse projeto nao seria necessariamente frustrado de forma completa, mas nao ha 
duvida de que sofreria serios danos com a intervencao do Estado na administracao 
dessas instituicoes, particularmente no que diz respeito as questoes didaticas. Dado o 
que aprendi com as I i goes de outras nacoes, assim como do nosso proprio pafs, sou 
decididamentefavoravel a completa autonomia universitaria, e a total independencia da 
universidade com relacao ao governo e mesmo ao Poder Legislativo." 15 

A Reforma Francisco Campos 

A primeira universidade oficial brasileira foi criada no Parana, e nao teve vida 
longa. Surgiu em 1912 com a legislacao liberal pouco duradoura que foi substitufda, 
em 1915, pela chamada Reforma M aximiliano. 16 Em 1920, sob a nova legislacao, foi 
criada a Universidade do Rio de Janeiro, com a fusao das antigas escolas de 
engenharia, medicina e direito. M as dessas primeiras universidades nenhuma foi mais 
do que um simples aglomerado de escolas profissionais reunidas sob um fragil 
reitorado, com poucas atribuicoes. E de abril de 1931 a primeira legislacao federal 
delineando as caracterfsticas proprias de uma universidade: 17 o que seria conhecido 
mais tarde como "Reforma Francisco Campos", lembrando o autor desses textos 
legais, que dirigia o recem criado Ministerio da Educacao e Saude Publica, e tinha 
antes contribufdo para a reforma da educacao fundamental em M inas Gerais. 18 

A ciencia e a educacao nao estavam entre as maiores prioridades do governo 
de Getulio Vargas, mas Francisco Campos percebeu que poderiam nao so conferir 
legitimidade ao novo regime, entre as pessoas educadas, como tambem contribuir 
para o projeto de modernizacao desejado por tantas pessoas. Sua legislacao foi 
apresentada como resultado de um extenso debate e de um esforco para aproximar os 
extremos. Segundo Campos, o texto definitivo foi "cuidadosamente estudado, 



15 Laboriau, Pinto e Cardoso (eds.) 1929:168. 

16 Cartaxo 1948; AlmeidaJ r. 1956; J . Furtado 1962; Tobias 1968; Lobo 1969. 

17 Essa legislacao compreende tres Decretos do governo provisorio de Getulio Vargas: 
19.850, 19.851 e 19.852, de 11 de abril de 1931. 

18 Francisco Campos, polftico e jurista mineiro, teve uma participacao ativa na 
revolucao de 1930 e em 1931 tornou-se o primeiro M inistro da Educacao do Brasil. "Chico" 
Campos, como era conhecido, ficaria famoso pela sua simpatia pelo fascismo europeu, e por 
redigir a constituicao autoritaria do Estado Novo, em 1937. E menos lembrado pelos esforcos 
que fez para elaborar um pacto de cooperacao entre o regime de Getulio Vargas e a Igreja 
catolica. Entre outros privilegios Campos concordou em que a Igreja ensinasse religiao nas 
escolas publicas, na expectativa de que de sua parte ela proporcionasse inspiracao, disciplina e 
ordem espiritual ao governo. O pacto polftico entre a Igreja e o Estado tomaria forma na 
Assembleia Constitucional de 1934, que supostamente deveria criar os fundamentos para a 
nova sociedade brasileira. Naquele ano tomou posse um novo M inistro da Educacao, Gustavo 
Capanema, antigo protegido de Francisco Campos que ouvia com atencao Amoroso Lima e 
seria responsavel por uma profunda reorganizacao das instituicoes educacionais brasileiras. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 10 

examinado de perto, ampla e calorosamente debatido, com opinioes recolhidas de 
todas as correntes de pensamento, das mais radicals as mais conservadoras. ... Esse 
espfrito aparentemente ecletico, aberto e pluralista reflete nao so a realidade como o 
desejo de que essa reforma ganhe legitimidade aos olhos das pessoas de muitas 
posicoes, durante uma epoca de transicao." Mas as razoes declaradas para o novo 
projeto nao deixam duvida de que a intencao era chegar a uma visao monolftica, 
coerente e oficial do que deveria ser uma universidade, em sintonia com o novo 
regime polftico. 19 

Ao delinear esses objetivos, Francisco Campos deixou claro sua percepcao dos 
ideais da organizacao universitaria que na epoca eram populares no Brasil. Na sua 
opiniao, a universidade seria: 

" ...[uma] instituicao administrativa e educacional que une toda a educacao superior 
sob uma unica lideranca intelectual e tecnica, seja o seu ensino de natureza pragmatica 
e profissional ou puramente cientffica, sem aplicacao imediata, com o duplo objetivo 
de proporcionar a elite da nacao um treinamento tecnico, e criando ao mesmo tempo 
um clima propfcio para que os talentos puristas e especulativos persigam a sua meta, 
indispensavel para o crescimento cultural da nacao — a investigacao e a ciencia pura." 

O projeto nao esperava que a dupla funcao de ensino profissional e 
investigacao cientffica fosse exercida isoladamente. Pelo contrario, a universidade era 
vista como "uma unidade social ativa e militante --- ou seja, um centra para o contato, 
a colaboracao e a cooperacao entre diferentes desejos e aspiracoes, uma famflia 
intelectual e moral cujas atividades nao se esgotam dentro do cfrculo limitado dos 
seus interesses imediatos; ao contrario, como uma unidade viva ela tende a ampliar a 
sua area de ressonancia e influencia dentro do contexto social, assumindo uma funcao 
educacional autorizada, ampla e vigorosa." Dai a necessidade de que essa 
universidade fosse organizada como uma corporacao autonoma, "com os modelos de 
organizacao propostos, apropriados a sua vida social interna, que estimulem os 
contatos e fortalecam os lacos de solidariedade baseados nos interesses economicos e 
espirituais comuns aos professores e ao corpo discente." Como um instrumento para 
influenciar o ambiente social em torno da universidade seriam realizados cursos de 
extensao para distribuir "os beneffcios do clima universitario entre as pessoas nao 
associadas diretamente a vida da universidade." Para atingir esses objetivos, duas 
condicoes seriam necessarias: a autonomia universitaria e a criacao de instituicoes 
dedicadas principalmente a pesquisa, e nao ao ensino profissional. 



19 "Embora a estrutura geral resulte de acordos e da conci Macao de v arias tend end as, 
linhas e preferencias, o projeto tern a sua propria individualidade e unidade; por tras dessa 
estrutura ha um raciocfnio que segue linhas amplas, claras e precisas, de modo firme e positivo, 
garantindo que o piano desenvolvido com base em princfpios de organizacao administrativa e 
tecnica seja adequadamente proporcionado e equilibrado" (citado da justifi cacao dos Decretos, 
transcrito em Lobo 1969:156-61). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 11 

Ao criar a base para essas duas condicoes, ficava claro que o ideal de 
Francisco Campos estava muito afastado do mundo real. Com respeito a autonomia, 
por exemplo, seria "no entanto inconveniente e mesmo contraproducente para o 
si sterna de ensino se houvesse uma quebra subita e completa com o presente, dando as 
universidades ampla e plena autonomia administrativa e de ensino, pois a autonomia 
exige pratica, experiencia e diretrizes claras." Presumivelmente o ambiente 
universitario imaturo da nacao nao tinha essas caracterfsticas. Zeloso em relacao ao 
poder que acabara de adquirir, o Estado pretendia agir como guardiao e educador da 
universidade, para que essa autonomia se tornasse, algum dia, "uma conquista do 
espfrito universitario --- amadurecido, experiente e equipado com um firme e estavel 
sentido de direcao e responsabilidade, em lugar de uma concessao gratuita e 
extemporanea que provavelmente teria o efeito de deseducar as universidades em vez 
de instilar-lhes um sentido de organizacao, comando e governo." 

Assim, faltava realidade pratica ao ideal da autonomia. O primeiro Decreto da 
reforma criava um orgao permanente, o Conselho Nacional de Educacao, para assistir 
o M inistro. Com seus membros designados pelo Presidente da Republica, o Conselho 
tinha uma ampla funcao consultiva e poder decisorio sobre muitos assuntos. Assim, 
por exemplo, cabia-lhe endossar "as diretrizes gerais a ser aplicadas a educacao 
primaria, secundaria, tecnica e superior, em resposta acima detudo as necessidades da 
civilizacao e da cultura nacionais." 20 

O passo seguinte foi a promulgacao de um estatuto para as universidades 
brasileiras (Decreto 19.851), que deu autoridade ao M inistro da Educacao e ao 
Conselho Nacional de Educacao para aprovar os regulamentos internos de qualquer 
universidade que viesse a ser criada no pais. Em 116 artigos o estatuto definia a 
responsabilidade dos reitores; a organizacao e funcoes dos conselhos universitarios, 
das assembleias e institutes; a organizacao do ensino, com os direitos, deveres e 
regras para a promocao dos professores; os procedimentos de admissao; as normas 
disci pi inares; e ate mesmo as atividades sociais previstas, incluindo a organizacao de 
associates estudantis. O outro Decreto, com 328 artigos, criava a Universidade do 
Rio de Janeiro, abrangendo detalhes que iam da lista de escolas que compunham a 
U niversidade ate o programa de cada serie de cada curso, terminando com uma tabela 
indicando as taxas de inscricao, a presenca, a emissao decertificados, diplomas, etc. 

Em nenhum caso a Reforma Francisco Campos admitia a possibilidade de que 
as universidades tivessem a iniciativa de se organizar de forma diferente, competindo 
entre si para oferecer um ensino da melhor qualidade. A ordenacao detalhada de todas 



20 Decreto 19.859, citado em Lobo 1969:198. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 12 

as formas de operacao, e a necessidade de obter aprovacao do govemo federal para 
qualquer mudanca deu as universidades brasileiras uma rigidez que so 
excepcionalmente seria abalada. 

A "pesquisa cientffica", como ideal, teve o mesmo destino da "autonomia 
universitaria". A aparente simpatia de Francisco Campos pela ciencia nao passava de 
uma ilusao. Ele reunia a investigacao cientffica a arte --- uma decoracao 
indispensavel, mas que nao era urgente. No projeto, uma recem criada Faculdade de 
Educacao, Ciencias e Letras daria a universidade seu carater genuinamente 
"universitario", "permitindo que a vida universitaria transcendesse os limites do 
interesse puramente profissional, e abrangendo todos os valores culturais elevados e 
autenticos que emprestam a universidade o carater e as peculiaridades que a definem e 
distinguem." 21 Nesse aparente tribute ao ideal da ciencia como cultura os beneffcios 
economicos e sociais da pesquisa cientffica, no curso e no longo prazo, sao 
simplesmente ignorados, e a ideia de associar o ensino a pesquisa tambem nao e 
reconhecida. A ciencia era apenas um ornamento, e podia esperar: "Durante a 
primeira tentativa feita no Brasil de criar uma instituicao de ensino superior nao 
podemos esquecer que os povos como o nosso, que ainda passam por um processo de 
crescimento e amadurecimento, nao devem procurar organizar uma cultura avancada 
de forma imediata, completa e exclusivamente. Para que essa instituicao floresca no 
nosso meio e absolutamente indispensavel que de frutos imediatos." Assim, a 
Faculdade de Educacao, Ciencias e Letras, "alem de ser uma instituicao de cultura 
avancada e ciencia pura deve ser antes de mais nada um institute educacional no qual 
possam ser encontrados todos os elementos vitais para treinar nossos mestres, 
especialmente os de nfvel primario e secundario." 22 Em outras palavras, a Faculdade 
de Educacao, Ciencia e Letras devia ser na verdade uma escola de formacao de 
professores. 

A legislacao proposta para os cursos de direito, engenharia e medicina reflete 
as diversas concepcoes de diferentes conselheiros. Assim, o curso de direito devia ser 
estritamente profissional, comecando com uma analise das relacoes economicas -"que 
constituem quase todo o conteudo do direito" --- e incluindo o estudo da lei positiva. 
As materias mais conceituais ou especulativas, como o direito romano e a filosofia, 
deviam ser deixadas para o nfvel de pos-graduacao. A proposta para o curso de 
engenharia enfatizava a necessidade de estudar a teoria, acentuando a importancia da 
matematica, da ffsica e da pesquisa tecnologica. O curso de medicina proposto dava 



21 Citado em Lobo 1969:163. 

22 Citado por Lobo 1969:164. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 13 

enfase a "organizacao tecnologica e cientffica das escolas de medicina, que torna a 
pesquisa cientffica original e representa um complemento indispensavel dos processos 
didaticos." 23 

Em suma, a reforma Francisco Campos prometia muito e foi saudada pela 
maior parte das pessoas como um marco na historia da educacao superior brasileira. 
Mas ela surgiu quando um novo regime forte subia ao poder, e foi orientada 
claramente para paralisar o movimento favoravel a um sistema universitario baseado 
em comunidades cientfficas organizadas de forma autonoma --- ideia que era 
defendida na epoca por setores ativos da Academia de Ciencia, e especial mente pela 
faccao liberal da Associacao Brasileira de Educacao. Os entendimentos secretos de 
Francisco Campos com a Igreja, e o seu fascfnio por M ihail M aniolescu e o fascismo 
europeu explicam em boa parte suas verdadeiras intencoes. 24 

Francisco Campos nao permaneceu muito tempo mais no Ministerio da 
Educacao, e nao pode criar sua Faculdade de Educacao, Ciencias e Letras. A despeito 
da sua tendencia central izadora, o regime de Getulio Vargas dependia muito do apoio 
regional, e so depois de 1935 Getulio comecou a percorrer o caminho rumo ao poder 
autoritario, culminando em 1937, quando Francisco Campos reapareceu como 
M inistro da Justica do Estado Novo. Por isso as duas primeiras universidades foram 
criadas, na decada de 1930, nao pelo governo federal, mas pelos govemos da cidade 
do Rio dej aneiro edo estado de Sao Paulo. O que houvede relevante na legislacao de 
Francisco Campos foi o fato de que a sua concepcao de uma universidade nacional em 
um sistema centralizado seria adotada alguns anos mais tarde, levando a extincao da 
Universidade do Distrito Federal, a criacao da Faculdade de Filosofia, Ciencias e 
Letras e a constante tensao entre a Universidade de Sao Paulo e as autoridades 
federals, no Rio dej aneiro. A Universidade de Sao Paulo sobreviveu para tornar-se a 
principal instituicao academica brasileira; quanto ao restante do pafs, o modelo 
seguido foi o de Francisco Campos. 

Um projeto liberal: a Universidade do Distrito Federal 

Um dos efeitos mais significativos do movimento liderado pela Associacao 
Brasileira de Educacao foi a criacao no Rio dej aneiro da Universidade do Distrito 
Federal, por um Decreto municipal. 25 A nova universidade estaria integrada por cinco 



23 Citado por Lobo 1969:171. 

24 Campos 1940; Schwartzman, Bomeny e Costa 1984:61-6. 

25 Decreto 5.513, de 4 de abril de 1935. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 14 

escolas: ciencias, educagao, economia e direito, filosofia e letras, artes. A primeira (e 
unica) a ser criada efetivamente foi a Faculdade de Ciencias. Na aula inaugural, 
Anfsio Teixeira, Secretario de Educacao do Distrito Federal, resumiu assim os 
objetivos da nova instituicao: 

"A Universidade tern um papel singular e exclusivo. Precisa nao apenas transmitir 
conhecimento: os livros fazem o mesmo. Precisa nao apenas preservar a experiencia 
humana: os livros fazem o mesmo. Precisa nao so treinar profissionais nas diversas 
artes e profissoes; o aprendizado direto faz o mesmo, ou pelo menos o mesmo fazem 
seguramente escolas mais especial izadas do que as universidades ... O que a 
Universidade precisa fazer e manter uma atmosfera de conhecimento para preparar o 
indivfduo que ela serve e que e quern a desenvolve. Precisa preservar o conhecimento 
vivo, nao morto, contido em livros ou no empirismo da pratica nao intelectualizada. 
Precisa formular a experiencia humana intelectualmente, fazendo-o com inspiracao, 
enriquecendo e vitalizando o conhecimento do passado com a seducao, atracao e 
fmpeto do presente ... O conhecimento nao e um objeto transmitido das geracoes 
passadas para a nossa. O conhecimento e uma atitude do espfrito que lentamente se 
forma pelo contato com aqueles que tern conhecimento." 26 

A nova Universidade foi marcada desde o princfpio pelo clima tenso de 
confrontacao ideologica existente na epoca entre os intelectuais brasileiros. Os 
revolucionarios de 1930 se haviam dividido entre a esquerda, que inclufa Pedro 
Ernesto, 27 Prefeito do Rio de Janeiro, e a direita conservadora, muito mais poderosa, 
personificada pela Igreja catolica, por Francisco Campos e os chefes militares que 
cercavam Getulio Vargas, entre outros. No fim de 1935 os comunistas tentaram 
apoderar-se do governo com um levante militar, o que provocou violenta repressao e 
uma onda de caga as bruxas, que incluiu a deposicao e prisao de Pedro Ernesto. Em 
julho daquele ano, ao falar na inauguracao da Universidade do Distrito Federal, 
Anfsio Teixeira tinha antecipado o que os anos seguintes iriam trazer. Nascido em 
uma famflia aristocratica da Bahia, o Secretario da Educacao do Distrito Federal 
estava longe de ser um comunista, mas a influencia do pragmatismo norte-americano 
e do liberalismo ideologico recebida durante uma curta permanencia na Columbia 
University foi suficiente para torna-lo um alvo dos conservadores catolicos. Seu 
discurso na Universidade do Distrito Federal comegava defendendo a liberdade de 
catedra, e conclufa com imagens deconflito e morte: 

"Houve aqueles que pensaram ser possfvel comecar nossa tradicao universitaria 
negando a liberdade de catedra que e uma das primeiras conquistas da inteligencia 
humana nos tempos modernos. Acreditavam que poderia haver uma universidade para 
escravizar, em vez de liberar; para deter a vida, em vez de faze-la continuar. Todos 
conhecemos essa linguagem reacionaria, velha como Matusalem: 'A crise do nosso 
tempo e uma crise moral ... Falta de disciplina, ... de estabilidade ... Estamos 
marchando para o caos, ...para a revolucao ... O comunismo esta chegando !' Falam 
assim hoje como falavam ha quinhentos anos." 



26 Citado em Paim 1982:69-70. 

27 Sobre Pedro Ernesto e seu papel como precursor da polftica populista no Brasil vide 
Conniff 1981. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 15 

Ao terminar, dedicou a nova universidade a cultura, a liberdade e a memoria 
dos que tinham perdido a vida lutando pelos ideais da liberdade de expressao: 

"Todos aqueles que desapareceram nessa luta e aqueles que continuam lutando — eles 
representam a grande comunidade universitaria que celebramos com a inauguracao 
formal dos nossos cursos. Dedicada a cultura e a liberdade, a Universidade do Distrito 
Federal nasceu sob um signo sagrado que a ajudara a trabalhar e lutar por um Brasil de 
amanha, fiel as grandes tradicoes liberals e humanistas do Brasil de ontem." 28 

A universidade municipal deveria ser criada uma outra vez, com a participacao 
das melhores mentes, mas sem os problemas das velhas escolas profissionais. Anfsio 
Teixeira dissera que a Universidade assumiria a tarefa de moldar a classe intelectual 
da nacao, tarefa deixada previamente "ao auto-didatismo mais precario e 
abandonado", e preencheria porfim a necessidade ha muito sentida de uma instituicao 
capaz de treinar nao so professores secundarios mas tambem pesquisadores em varios 
campos. Roberto Marinho de Azevedo, membra tanto da Associacao Brasileira de 
Educacao como da Academia de Ciencias, foi nomeado diretor, e conseguiu reunir um 
grupo de professores que nao so eram cientistas genufnos mas se identificavam 
plenamente "com a ideia de promover o estudo neutro das ciencias, com a esperanca 
de produzir pesquisadores assim como bons professores nesses campos." 29 

Entre os contratados para ensinar na nova Escola de Ciencias estavam os 
matematicos Lelio Gama e Francisco de Oliveira Castro, o fisico Bernard Gross, os 
geologos Djalma Guimaraes e V iktor Leinz, e os biologos Lauro Travassos e Herman 
Lent. M ais tarde outros cientistas se juntariam a essa equipe, como o ffsico Joaquim 
Costa Ribeiro, um graduado recente da Escola Politecnica; o qufmico Otto Rothe, do 
Institute Nacional de Tecnologia; e o botanico Karl Arens, ex-assistente de Felix 
Rawitscher, da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade de Sao 
Paulo. Nao havia instalacoes para pesquisa, nem pesquisadores trabalhando em tempo 
integral. Todos faziam pesquisas em outras instituicoes, o que tinha o efeito de 
construir uma ponte entre essas instituicoes e a Escola de Ciencias. O que significava 
que os estudantes faziam visitas frequentes aos laboratories de Lauro Travassos, em 
M anguinhos, de Leinz, no Departamento Nacional de Producao M ineral, e de Gross, 
no Institute Nacional de Tecnologia, onde podiam observar em primeira mao as 
pesquisas e experiencias em andamento. 30 



28 "A instalacao, ontem, dos cursos da Universidade do Distrito Federal", Correio da 
Manha, primeiro de agosto de 1935, citado em Schwartzman, Bomeny e Costa 1984:211. 

29 Paim 1982:84. 

30 O estilo da Escola pode ser percebido nas recordacoes de um dos seus primeiros 
professores, o geologo Viktor Leinz: "As experiencias de aprendizado compartilhadas por esses 
estudantes e seus j ovens professores — todos mais ou menos da mesma idade — eram das mais 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 16 

Em 1936 o ano escolar foi iniciado com uma serie de conferencias 
pronunciadas pelos membros de uma missao universitaria francesa, que inclufa Emile 
Brehier (filosofia), Eugene Albertini, Henri Hauser e Henri Tronchon (historia), 
Gaston Leduc (linguista), Pierre Deffontaines (geografia) e Robert Garric 
(literatura).Vendo a graduacao da primeira turma, no ano seguinte, como um sinal de 
que a sua missao tinha sido completada vitoriosamente, Afonso Pena Jr. passou a 
reitoria para o biologo Baeta Viana, de M inas Gerais, enquanto Roberto M arinho de 
Azevedo deveria transferir a direcao da Escola de Ciencias para o matematico Lufs de 
Barros Freire, de Recife. 31 

E preciso notar, porem, que o primeiro ano da Universidade do Distrito 
Federal transcorreu com um pano defundo desfavoravel. De um lado, eram poucos os 
recursos para adquirir equipamento e material de ensino, e as areas de trabalho eram 
modestas. A reitoria estava instalada em um predio que pertencia ao Institute de 
Educacao, uma escola publica que formava professoras, e as aulas eram dadas tanto 
na Escola Politecnica como em uma escola situada no Largo do M achado. As aulas de 
laboratorio precisavam ser dadas nas velhas escolas profissionais da Universidade do 
Rio dej aneiro, ou entao no Institute Nacional deTecnologia. 

O mais serio porem foi a criacao de um clima polftico fortemente direitista, 
como reacao ao frustrado levante comunista de outubro de 1935: daf por diante o 
projeto estava condenado. O Distrito Federal sofreu uma intervencao direta do 
governo federal, e Anfsio Teixeira perdeu seu cargo como Secretario da Educacao. 



agradaveis. Eu mesmo introduzi um sistema usado na Alemanha: fazer viagens com os 
estudantes, para familiariza-los de perto com a geologia do Distrito Federal. Partfamos de 
manha rumo a Copacabana, onde ainda havia muitas pedreiras, ou famos a praia. Eu explicava a 
influencia do mar, e andavamos por af. Comecei tambem a usar slides, que na epoca era uma 
novidade, e imprimi muitos slides de fenomenos geologicos. Tfnhamos importado muitas 
amostras de fosseis da Alemanha, material que os proprios estudantes podiam manipular. 
Ensinavamos nossos estudantes a reconhecer rochas e minerals, usando metodos simples mas 
modernos. Em 1937 fiz uma longa viagem de graduacao com os estudantes, ate M inas Gerais. 
Afonso Pena J r., nosso Reitor — filho do Presidente Afonso Pena, de M inas Gerais — nos deu 
uma ajuda. Fizemos essa viagem para ver todo o estado: o manganes, o ferro, o pico de Itabira, 
a mina de ouro de M orro Velho. A maioria desses graduados nunca estivera fora do Distrito 
Federal ... Estimulei muito o trabalho pratico, a manipulagao direta dos materials, que e 
extremamente importante para evitar que o aprendizado seja 'livresco'. Como os fundos 
disponfveis eram adequados, a Universidade nos permitia importar o que quisessemos, e nos 
importavamos, essencialmente da Alemanha: projetores, equipamentos didaticos, mapas, 
minerals, slides e microscopios. Os livros eram fornecidos pela Universidade. Nessas condigoes 
podfamos criar rapidamente um local para o estudo da geologia e da mineralogia, que oferecia 
muito boas condigoes para a epoca" (entrevista de Viktor Leinz). 

31 Barros Freire, contudo, nunca chegou a completar sua mudanca de Recife para o Rio 
de J aneiro. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 17 

Com a sua demissao, muitos professores deixaram a U niversidade, e todos perderam a 
fe no futuro do projeto. 32 

Urn modelo a ser seguido: a U niversidade do Brasil 

A U niversidade do Distrito Federal foi fechada porque ela se chocava, 
institucional e ideologicamente, com os pianos do novo M inistro da Educacao, 
Gustavo Capanema, de criar uma universidade nacional que se ajustasse ao projeto 
proposto alguns anos antes por Francisco Campos, e que preenchesse os termos do 
acordo entre o regime de Getulio Vargas e a Igreja catolica, cujo cumprimento 
Capanema considerava sua responsabilidade. 

Gustavo Capanema assumiu o Ministerio da Educacao em 1934, muito 
provavelmente por influencia da Igreja, e seu arquivo pessoal contem uma ampla 
correspondencia com Alceu Amoroso Lima, atraves da qual o Ifder intelectual 
catolico estendia sua influencia. Em uma dessas cartas Alceu mostra o desagrado com 
a criacao da Universidade do Distrito Federal, e pede que Anfsio Teixeira seja 
demitido. 33 Em 1937, afastado Anfsio Teixeira, Capanema nomeou Amoroso Lima 
reitor da Universidade do Distrito Federal, aparentemente para preparar a sua 
liquidacao. Quando a Universidade foi formalmente extinta por um Decreto 
presidencial, nas primeiras semanas de 1939, o projeto de criar a Faculdade Nacional 
de Filosofia ja estava bem adiantado, e a nomeacao de Amoroso Lima como seu 
primeiro diretor nao chegou a surpreender. 

A Universidade do Brasil foi criada oficialmente por uma lei de 5 de julho de 
1937, de acordo com o piano proposto por Francisco Campos quatro anos antes. Ela 
substituiria a U niversidade do Rio dej aneiro, incorporando suas escolas profissionais, 



32 "Em 1938 ainda estavamos trabalhando na instalacao da Universidade, embora 
sempre temerosos deque ela fosse fechada. Nessa epoca, a era de Capanema (como M inistro da 
Educacao), estava sendo criada a Faculdade Nacional de Filosofia e — pessoal mente, eu nada 
entendia de polftica — dizia-se que a nossa escola seria fechada, e tudo transferido para a 
Faculdade. Corriam esses rumores: vai ser fechada; nao, nao vai; vai ser transferida; nao, nao 
vai ... Todo o ano de 1938 foi marcado por essa inquietacao, e no princfpio de 1939 ficou claro 
que a Universidade de fato seria fechada. Mas ninguem foi avisado. Aqueles dentre nos que 
tinham contratos pensaram natural mente que esses contratos seriam respeitados, mas nao 
foram. Um belo dia, quando fui receber meu salario, uma jovem medisse: nao ha mais recursos 
para a Universidade. Em outras palavras, nunca houve um anuncio oficial. E possfvel que os 
colegas que seguiam mais de perto a vida polftica ja soubessem, mas so entao eu tomei 
conhecimento" (entrevista de Viktor Leinz). 

33 "A recente criacao de uma universidade municipal, com escolas dirigidas por pessoas 
que nao disfarcam sua inclinacao comunista, obrigou finalmente a comunidade catolica a 
revelar seu desagrado. Aonde vamos ? Sera que o governo vai permitir que uma nova geracao 
seja envenenada por sentimentos que contrariam as melhores tradicoes brasileiras e os ideais de 
uma sociedade sadia, reconhecidamente contra a sua vontade mas em todo caso sob a sua 
protecao ?" (trecho de carta transcrita em Schwartzman, Bomeny e Costa 1984:297-301). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 18 

algumas das quais datavam do princfpio do seculo dezenove, e seria unificada por 
uma nova Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras. 

A Universidade do Brasil culminaria o amplo imperio educacional que 
Capanema estava procurando montar. Seu discurso, a proposito da promulgacao da 
lei, acentuava antes de mais nada o fato de que a nova instituicao devia "estabelecer o 
modelo da educacao superior para todo o pafs", e tambem que seria uma instituicao 
genuinamente nacional, com estudantes recrutados em todo o pafs, com base em 
criterios estritos. Seria uma universidade de elite, em uma cidade universitaria 
completamente nova. 34 

J a em 1935 o M inistro tinha formado uma comissao de catorze membros para 
formular o piano geral das escolas, faculdades e outras instituicoes educacionais, e 
preparar uma descricao detalhada de cada uma dessas categorias. Dois anos depois ja 
se tinha acumulado um grande numero de elementos, e Capanema podia anunciar que, 
assim como Minerva nascera da cabeca de Jupiter, a nova universidade estava 
nascendo completa e pronta para funcionar. Preparava-se tambem um Piano Nacional 
de Educacao, que se esperava transformar em lei. Capanema achava que a realidade 
acompanharia as definigoes legais: "E obvio que nao basta criar normas legais. Sera 
necessario dar vida a esses textos, transform a- 1 os na realidade dos cursos superiores 
em todos os campos. E essa realidade tera como seu padrao a Universidade do 
Brasil." 

Na verdade, nao se esperava que a Universidade do Brasil crescesse, se 
desenvolvesse e buscasse o seu proprio caminho: na verdade ela deveria impedir todas 
as tentativas de inovacao e experimentacao no pafs, a comecar, naturalmente, pela 
Universidade do Distrito Federal. A nova universidade deveria ser uma "instituicao 
total e unanime", o que para Capanema queria dizer que nos seus institutes e escolas 
seriam encontrados todos os tipos de ensino prescritos pela legislacao, de forma que 
nao faltasse um modelo para qualquer instituigao brasileira de educagao superior. Esta 
ficaria assim sob um estrito controle centralizado. A Universidade do Brasil teria a 
maior competencia possfvel, com a introducao de varias inovacoes, inclusive o tempo 
integral para o corpo docente. Quanta aos alunos, precisariam provar sua "vocacao, 
dedicacao e disci pi ina". Havia tambem pianos para bibliotecas, laboratories, museus e 
hospitais-escola. 



34 O que segue se baseia em Schwartzman, Bomeny e Costa 1984: Cap. 7. As citacoes 
sao de documentos do arquivo de Gustavo Capanema, existente no Centro de Pesquisa e 
Documentacao em Historia Contemporanea do Brasil da Fundacao Getulio Vargas, do Rio de 
J aneiro, reproduzidos ou citados naquela obra. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 19 

Para Gustavo Capanema a organizacao da nova universidade e a construcao da 
cidade universitaria eram quase a mesma coisa, e os dois assuntos estavam confiados 
a mesma comissao. 35 Para o projeto arquitetonico o M inistro contratou os servicos de 
Marcello Piacentini, figura importante da arquitetura fascista da Italia, que tinha 
trabalhado no planejamento da cidade universitaria de Roma. A contratacao de 
Piacentini foi contestada por um grupo de arquitetos brasileiros ligados a Le 
Corbusier (inclusive Lucio Costa e Oscar Niemeyer, que vinte anos depois seriam o 
urbanista e o arquiteto de Brasflia), que foi tambem convidado a vir ao Brasil e a fazer 
alguns projetos preliminares. Em 1938 as maquetes da cidade universitaria do Rio de 
Janeiro foram apresentadas ao publico, em Roma, e embarcadas para o Brasil. No 
entanto, aproximava-se a Segunda Guerra M undial, e os projetos nunca foram 
executados. 36 

De acordo com a legislacao idealizada por Francisco Campos, o orgao central 
da U niversidade do Brasil seria a Faculdade Nacional de Filosofia, Ciencias e Letras, 
que concentraria as atividades de pesquisa cientffica. Em 1935 Capanema comecou a 
trabalhar nesse projeto, que se materializaria em 1939. Mas nao seria a primeira 
escola do genera, pois a Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras de Sao Paulo tinha 
sido inaugurada em 1934, ea Escola de Ciencias da U niversidade do Distrito Federal 
comecara a funcionar um ano mais tarde. O convite a especial istas estrangeiros tinha 
sido um aspecto importante tanto do projeto de Sao Paulo como o do Rio de Janeiro, e 
Capanema seguiu a mesma trilha. Um dos seus consultores foi George Dumas, 
intelectual frances com muitos contatos no Brasil. Dumas expos ao M inistro suas 
ideias sobre o que o Brasil necessitava no terreno da educacao superior, e ajudou a 
escolher professores franceses para a Faculdade Nacional de Filosofia, como fizera 
alguns anos antes para a faculdade paulista. 37 



35 O M inistro da Educacao definiu assim a tarefa da comissao: "Primeiramente ela deve 
definir o que deve ser a Universidade, para depois conceitualiza-la e em seguida projetar a sua 
construcao." Capanema sabia exatamente o que significavam essas palavras: "Vamos admitir 
que se decida que a Universidade vai precisar de uma escola de odontologia. Isso nao basta. 
Sera preciso definir tambem os seus componentes — tais divisoes, tal estrutura. Se criarmos um 
instituto de criminologia, precisamos saber quantas partes, escritorios e laboratories serao 
necessarios" (discurso de 22 de julho de 1935, citado em Schwartzman, Bomeny e Costa 
1984:96-7). Daf para o projeto arquitetonico a distancia era pequena. 

36 Entrementes, L ucio Costa e seus colegas foram solicitados a construir o ediffcio sede 
do Ministerio da Educacao, no Rio de Janeiro, inaugurado em 1945 e desde entao saudado 
como um marco da arquitetura moderna, e um testemunho do espfrito progressista e da 
clarividencia de Gustavo Capanema como primeiro M inistro da Educacao do Brasil. 

37 Em carta escrita a Capanema em 1935 Dumas explicou seu ponto de vista sobre as 
necessidades brasileiras em materia de educacao: "Nao falta inteligencia aos seus mocos ... mas 
a boa fada que preside ao seu nascimento colocou tambem no seu berco outros dons alem da 
inteligencia: o gosto pela imaginacao e os sonhos, a abundancia da vida emocional. Essa 
inclinacoes naturais nao devem ser combatidas, mas seria muito util se pudessemos limita-las a 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 20 

Em 1936 Capanema escreveu a Luigi Fantappiee Gleb Wataghin, professores 
italianos de matematica e ffsica da U niversidade de Sao Paulo, pedindo a sugestao de 
nomes. Wataghin respondeu com uma lista de professores italianos que inclufa 
U mberto Nobile, de Napoles, Giovanni Giorgi, de Roma, Beniamino Segre, de 
Bolonha, e ate mesmo E. Schrodinger, mas nenhum deles viria para o Brasil. Em 
1939, finalmente, o Presidente Getulio Vargas aprovou a contratacao de quinze 
professores estrangei ros, e a parti r desse momento todos esses contatos se tornaram 
oficiais. Em junho de 1939 o Embaixador italiano confirmou em carta que o governo 
brasileiro tinha solicitado professores de Ifngua e literatura italiana, analise 
matematica, mecanica racional, ffsica teorica, fisico-qufmica, geometria superior e 
ffsica experimental, e tinha anunciado que sete professores ja haviam sido 
selecionados e deveriam chegar ao Rio de J aneiro nos meses seguintes. Com a ajuda 
de Georges Dumas e sob estrito controle ideologico, foram tambem expedidos 
convites a professores franceses pelos canais oficiais. 38 A Embaixada da Franca no 
Brasil ajudou nessas negociacoes, pressionando o M inistro para agilizar as decisoes e 
nao deixou de mencionar as tendencias ideologicas dos professores franceses. 39 

De acordo com as recomendacoes de Dumas, era pouca a enfase atribufda as 
ciencias naturais, em que pese a solicitacao feita ao governo italiano de especialistas 
em ciencias exatas. Capanema precisava tambem acomodar pedidos de polfticos e 
intelectuais de todos os lados, efoi em parte devido a isso que Amoroso Lima decidiu 



alguns campos onde elas sao convenientes. O Brasil edotado de poetas admiraveis, certamente 
porque a poesia e inerente a sua raca e todos os brasileiros sao a seu modo poetas da alma e da 
natureza. M as esse dom se torna inconveniente quando se manifesta fora das obras da poesia e 
da imaginacao, e os fundamentos da universidade que o Senhor esta construindo deveriam 
moderar e canalizar essas tendencias para os produtos da razao, onde decerto nao se deveria 
exclui-las completamente." Dumas prossegue dizendo que o Brasil se encontra em uma fase 
crftica, em que seria necessario decidir se vai permanecer "urn pafs cheio de encanto, onde tudo 
e lido e pouco e produzido, ou se tera um lugar amanha entre os pafses que contribuem para a 
producao intelectual do mundo." A Faculdade de Filosofia proposta deveria concentrar seus 
esforcos no treinamento de professores secundarios e na pesquisa, com enfase nos campos da 
filosofia, historia e literatura (carta de primeiro de setembro de 1935, transcrita em 
Schwartzman, Bomeny e Costa 1984:326-9). 

38 Em 1939 o M inistro escrevia a Dumas: "Para psicologia e sociologia preciso 
professores habituados a pesquisa e a estudos bem orientados, mas associados a Igreja. A 
Faculdade sera dirigida pelo Senhor Alceu Amoroso Lima, um catolico amigo de Jacques 
Maritain. Por essa razao nao me agradariam nomes conhecidos por tendencias opostas as da 
Igreja, ou del as divergentes" (carta de 17 dejulho de 1939, citada em Schwartzman, Bomeny e 
Costa 1984:216). 

39 Sobre o Professor Poirier, que devia ensinar filosofia, o Embaixador afirma: " E I e j a 
indicou que a sua orientacao doutrinaria responde inteiramente ao ponto de vista do diretor da 
nova faculdade". Sobre o Professor Ombredonne, de psicologia, a Embaixada francesa 
confirma que "apresenta todas as garantias desejaveis no concernente as suas tendencias"; do 
professor de psicologia era Jacques Lambert, que ja tinha estado no Brasil, observa-se que 
pertence a mesma geracao de professores catolicos como Deffontaines e Garric (citado em 
Schwartzman, Bomeny e Costa 1984:216). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 21 

final mente declinar o convite para presidir a nova instituicao. 40 Nessa epoca a Igreja 
catolica ja tinha desistido do seu projeto de colocar as universidades publicas sob o 
seu controle, e fazia pianos para criar uma universidade catolica. Outro conservador 
catolico, ligado ao movimento integralista, o jurista Santiago Dantas, assumiu o lugar 
de A moroso L i ma e ocupou-o ate 1945. 

A forma como foi organizada a Faculdade Nacional de Filosofia, com seu 
formalismo, a ausencia de uma lideranca intelectual, a dependencia de procedimentos 
burocraticos em todas as etapas, teve o seu preco. A despeito de alguns nomes 
reputados, ela teria muitas dificuldades para se tornar um centra significativo de 
pesquisa cientffica, e menos ainda um centra de pensamento conservador no campo 
das humanidades edas ciencias sociais, papel para o qual tinha sido concebida. 

Uma nova elite para uma nova nacao: a UniversidadedeSao Paulo 

Em contraste, a criacao da Universidade de Sao Paulo, em 1934, foi o 
acontecimento mais importante na historia da ciencia e da educacao no Brasil. Para 
entender como ela foi criada, como pode desenvolver-se de modo tao diferente da 
Universidade do Brasil, sediada na capital do pais, e o papel que desempenharia no 
futuro, precisamos ve-la a luz da derrota de Sao Paulo na revolucao de 1932 contra o 
regime de Getulio Vargas. Uma figura fundamental nesse projeto foi Julio de 
M esquita Filho, proprietario do Estado de Sao Paulo, o jornal tradicional que 
remontava ao seculo dezenove, e que era ligado por lacos familiares a Armando de 
Sales Oliveira, a principal personal idade polftica do estado em 1932, que retornou do 
exflio dois anos depois para ser o I nterventor federal no governo provisorio de Getulio 
Vargas. Outro nome importante foi Roberto Simonsen, empresario, autor da primeira 
historia economica moderna do Brasil, Ifder da Federacao das Industrias de Sao Paulo. 
Portanto, os defensores da ideia de criar uma universidade estadual estavam entre os 
membros mais poderosos da elite agrfcola e industrial do estado, o que contrastava 
com a situacao do projeto de Capanema no Rio de Janeiro, considerado marginal pelo 



40 Em abril de 1939 Amoroso Lima ainda estava disposto a aceitar o cargo, mas so se a 
nova escola nao admitisse os quase 100 professores e 500 estudantes exclufdos pelo 
fechamento da Universidade do Distrito Federal. Tres meses depois ele percebeu que a nova 
escola nunca seria como desejava, e dirigiu uma carta irritada a Capanema protestando contra a 
nomeacao de professores "por outros, nao por nos", e mais especificamente contra a designacao 
de um "italiano desconhecido" para ensinar ffsica em lugar dejoaquim Costa Ribeiro. Em 
Janeiro de 1941 Amoroso Lima formal izou sua decisao, argumentando que seria impossfvel 
para ele demitir os numerosos professores que, abertamente ou nao, estavam criando um clima 
de "confusionismo filosofico e ideologico" (citado em Schwartzman, Bomeny e Costa 
1984:218). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 22 

regime de Vargas, e que nunca conseguiu apoio amplo ou gerou grande interesse fora 
dos circulos de educadores eda Igreja. 41 

A preocupacao da elite paulista com o conhecimento tecnico e a educacao 
superior nao comecou em 1932. J a havia no estado uma poucas instituicoes de 
bastante sucesso --- o Institute Butanta, o Institute Biologico, as escolas de engenharia 
e medicina --- mas pretendia-se torna-las mais diretamente relevantes para o 
gerenciamento da economia, e para a nacao como urn todo. A preocupacao com a 
administracao cientffica ja tinha motivado a Associacao Comercial do estado a criar o 
Institute de Organizacao Racional do Trabalho, por iniciativa de Roberto Simonsen e 
tendo Armando de Sales Oliveira como presidente. 42 

A ideia foi ampliada em 1933, pelo mesmo grupo, com a criacao da Escola 
Livre de Sociologia, precedida por urn manifesto publicado em todos os jornais de 
Sao Paulo e assinada pelos diretores de todas as instituicoes de ensino superior do 
estado, alem de uma lista de personal idades bem conhecidas. 43 O documento afirmava 
o proposito de fazer da Escola Livre "um centra de cultura polftica e social capaz de 
promover o interesse pelo bem comum e de criar vfnculos entre as pessoas e o seu 
ambiente, de estimular a pesquisa sobre as condicoes de vida e os problemas das 
nossas populacoes e de formar personal idades capazes de participar com eficiencia e 
auto-percepcao na lideranca da nossa vida social." Essas personal idades deviam 
corrigir o que a proclamacao caracterizava como "a falta de uma elite ampla e 
ordenada, treinada com metodos cientfficos, consciente das instituicoes e realizacoes 
do mundo civilizado, e capaz de entender o nosso ambiente social, para depois atuar 
sobre ele." A ausencia dessa elite se relacionava diretamente com as frustrates que 
tinham provocado a rebel iao de 1932. 

Em 1933 foi criada tambem a Escola Paulista de Medicina, que se esperava 
trouxesse inovacoes radicais para as tradicoes da educacao superior brasileira. Caberia 



41 "Com Armando de Sales Oliveira no poder ej ulio de M esquita Filho como diretor de 
O Estado de Sao Paulo, pensavamos que chegara o momento de criar a Universidade de Sao 
Paulo e sua Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras. J ulio de M esquita e eu vfnhamos lutando 
por essa ideia desde 1923. Naquele ano, e em 1926, escrevi varios artigos sobre o assunto para 
O Estado, e em 1925 iniciei uma grande pesquisa sobre a instrucao publica em Sao Paulo, que 
tomou varios meses, e na qual tratamos dos problemas da educacao superior no nosso estado ... 
Dada a encruzilhada em que encontramos o sistema educacional paulista, acreditavamos na 
necessidade de solucoes radicais, de cima para baixo, inclusive a criacao de uma universidade, 
com a sua Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras" (F. de Azevedo 1971:119-20). 

42 Seu predecessor tinha sido o Institute de Organizacao Cientffica do Trabalho, 
dirigido por um especialista sufco em psicologia industrial, Leon Walter — uma primeira 
expert encia queteve curta duracao. 

43 Berlink e Ferrari 1958. 



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a nova Escola proporcionar um ensino de alta qualidade, promover pesquisas 
biomedicas e abrir novas oportunidades para a educacao medica no estado, limitada 
ate entao ao pequeno numero de estudantes recrutados cada ano pela Faculdade de 
Medicina de Sao Paulo. U ma novidade importante e que a Escola Paulista de 
M edicina receberia apoio do setor privado alem do setor publico, o que aconteceu ate 
a sua federal izacao, no pos-guerra. 44 A Escola Paulista de Medicina foi um sucesso 
em termos dos seus propositus originais, e e ainda uma das escolas medicas mais 
prestigiosas do pais. Enquanto isso, depois de alguns anos de intensa atividade, a 
Escola de Sociologia e Polftica perderia forca e nunca chegou a criar uma tradicao 
academica como a desenvolvida pela Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras. 45 

A essas duas iniciativas seguiu-se a criacao da U niversidade de Sao Paulo, que 
deveria ser a melhor reacao dos paulistas a sua derrota militar em 1932: 

"Derrotados pela forcas das armas, sabfamos perfeitamente bem que so pela ciencia, e 
com um esforco contfnuo, poderfamos recuperar a hegemonia gozada na federacao por 
varias decadas. Paulistas ate os ossos, tfnhamos herdado dos nossos antepassados 
bandeirantes o gosto pelos projetos ambiciosos e a paciencia necessaria para as grandes 
realizacoes. Que monumento maior do que uma universidade poderfamos erigir aqueles 
que tinham aceito o sacriffcio supremo para defender-nos do vandalismo que 
conspurcara a obra dos nossos maiores, desde as bandeiras ate a independencia, da 
Regencia ate a Republica ? ... Safmos da revolucao de 1932 com o sentimento de que o 
destino tinha colocado Sao Paulo na mesma situacao da Alemanha depois dejena, do 
Japao depois do bombardeio pela marinha norte-americana, ou da Franca depois de 
Sedan. A historia desses pafses sugeria os remedios para os nossos males. Tfnhamos 
vivido as terrfveis aventuras provocadas, de um lado, pela ignorancia e incompetencia 
daqueles que antes de 1930 tinham decidido sobre o destino do nosso estado e da nossa 
nacao; de outro, pela vacuidade e a pretensao da revolucao de outubro [de 1930]. 
Quatro anos de contatos estreitos com os Ifderes das duas faccoes nos convenceram de 
que o problema do Brasil era acima de tudo uma questao de cultura. Daf a fundacao da 
nossa universidade, e mais tardeda Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras." 46 

A nova universidade seria publica, leiga e livre de influencias religiosas; 
deveria ser uma instituicao integrada, nao apenas um grupo de escolas isoladas. Seu 
nucleo central seria a Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras, com professores 
estrangei ros. AM haveria uma atividade de pesquisa confiada a uma equipe de tempo 
integral, que trabalharia nas formas mais adiantadas da ciencia, deixando os trabalhos 
praticos para as escolas profissionais. A universidade teria autonomia ad mini strati va e 
academica, destinando-se a criar uma nova elite que assumisse a lideranca do pais, 
superando o atraso e levando Sao Paulo de volta ao lugar que merecia como o estado 
lider da federacao. 



44 Albernaz 1968; Vale 1977; Pena 1977. 

45 L.L. Oliveiral986. 

46 M esquita Filho 1969:164, 199. O texto ede 1937. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 24 

Alan dessas caracterfsticas gerais, era necessario escolher um modelo de 
organizagao a ser seguido. A legislagao de Francisco Campos ja tinha institufdo a 
nocao de uma Faculdade de Filosofia central, destinada ao trabalho cientffico e a 
educacao pedagogica, ideia extrafda da experiencia italiana, e esse conceito foi 
mantido. Curiosamente, alguns paulistas preferem pensar que esta foi uma sua 
invencao. Assim, um dos organizadores da U niversidade de Sao Paulo, Paulo Duarte, 
lembra: 

"Selecionamos dois paradigmas, por assim dizer, para a U niversidade. Em primeiro 
lugar, tanto Julinho [M esquita Filho] como eu tivemos uma educacao francesa, mas 
nao querfamos limitar-nos a el a. Natural mente, escolhemos a Sorbonne como modelo 
para uma universidade organizada em base cientffica, mas selecionamos tambem o 
modelo ingles, atraves de Cambridge. Procuramos reunir o maximo possfvel de 
informacoes sobre essas universidades, mas a organizacao francesa era muito melhor 
do que a inglesa, e por isso podemos dizer que a nossa organizacao seguiu em oitenta 
por cento o modelo frances. ... Antes as faculdades de filosofia, ciencias e letras eram a 
celular matar da universidade francesa, que depois se dividiu nas escolas de filosofia e 
letras, de um lado, e nas escolas cientfficas, de outro. Nao tfnhamos os meios para criar 
duas escolas desde o princfpio, e por isso decidimos fazer o que os franceses faziam no 
passado, e todas as outras escolas giraram em torno desta. Nao me lembro bem da 
estrutura inglesa, mas lembro sim que na Inglaterra a ciencia era completamente 
separada da filosofia. Para as ciencias mais avancadas, como a biologia, havia 
institutos independentes. A Franca tambem dispoe de institutos fora das universidades, 
so associados a el as." 47 

Alem do conhecimento superficial revelado sobre as caracterfsticas dos 
sistemas academicos supostamente adotados como modelos, as observagoes de Paulo 
Duarte sugerem a predominancia de uma preocupacao com as formas organizacionais, 
nao com a qualidade academica e cientffica e as realizagoes das instituicoes cujas 
caracterfsticas estavam sendo seguidas. Em parte isso se deve ao fato de que tanto ele 
como J ulio M esquita eram hommes de lettres na tradicao francesa, e nao cientistas. E 
sobretudo porque eram ati vistas polfticos. Paulo Duarte se definia como um 
"socialista democratico", e neste sentido era um marginal em polftica, enquanto 
M esquita era um liberal na tradicao classica, e membro do establishment paulista. 

Esses comentarios revel am tambem as restrigoes com que o projeto devia ser 
executado. Era preciso seguir as linhas gerais da legislacao de Francisco Campos, e 
isso inclufa uma escola de ciencias e educacao. Da mesma forma, as instituigoes de 
educacao superior e de pesquisa tradicionais no estado deviam ser incorporadas ao 
projeto, e nao podiam ser alteradas. A premissa era de que essas instituigoes 
resistiriam a qualquer forma de integracao que excedesse a simples justaposicao e 
coexistencia autonoma, ou que tentasse ultrapassar as simples vantagens da 
racionalizacao burocratica e material. 



47 Entrevista de Paulo Duarte. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 25 

O ato criando a universidadefoi assinado pelo Govemadordo estado no dia 25 
de Janeiro de 1934. 48 Em contraste com a legislacao de Francisco Campos, o texto era 
breve, redigido em linguagem clara e direta. Tinha so 54 artigos, em comparacao com 
os 328 da legislacao preparada por Francisco Campos para a Universidade do Rio de 
Janeiro. O primeiro objetivo da nova universidade era "promover o progresso da 
ciencia atraves da pesquisa"; o segundo era transmitir conhecimento; o terceiro, 
formar especialistas e profissionais; o quarto, promover a difusao e a popularizacao 
das ciencias, artes e letras por meio de cursos de curta duracao, conferencias, 
programas de radio, filmes cientfficos, etc. 49 

Os paulistas falavam de sua universidade, mas a maior parte dos seus esforcos 
estavam dirigidos para criar a nova Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras. Dada a 
historia dos seus fundadores, era natural esperar que eles enfatizassem as 
humanidades e as ciencias sociais. So depois as ciencias naturais passaram a receber 
maior atencao, quando Teodoro Ramos, Rocha Lima e outros cientistas foram 
convidados a participar da comissao organizadora da Faculdade. 50 

Estava previsto recrutar todos os professores na Europa, especialmente na 
Franca. Com o fascismo europeu em ascensao, a Franca era vista como uma 
alternativa liberal, consentanea com a tradicao brasileira de influencia francesa nas 
humanidades. 



48 Fernando de Azevedo, que ajudou a redigir o projeto que criava a universidade, 
lembra: "J ulio de M esquita Filho ..., falando por si e por Armando de Sales Oliveira, pediu-me 
para minutar a lei que criava a Universidade de Sao Paulo. A versao final foi completada em 
menos de quatro dias, incluindo a introducao e a justificativa. Era dezembro de 1933, e pedi a 
M esquita que combinasse com Armando de Sales para nao assinar o decreto imediatamente ... 
Como a nova universidade incluiria as escolas profissionais de direito, engenharia, medicina e 
agricultura ja existentes, nao seria prudente assina-lo antes de fazer um contato com essas 
escolas. Para quebrar a resistencia, foi criada uma comissao de catorze membros — dois de 
cada escola, dois do Instituto Agronomico de Campinas, dois do Instituto Biologico de Sao 
Paulo, dois da Faculdade de Educacao ... A comissao trabalhou catorze dias e aprovou o meu 
projeto com algumas restricoes de pouca importancia" (F. de Azevedo 1971:120-1). Paulo 
Duarte, que participava desse grupo, descobriu a ultima hora queo seu nome tinha sido retirado 
da lista de membros da comissao, por razoes que permaneceram obscuras (Duarte 1976:71-3). 

49 Decreto estadual 6.283, de 25 dejaneiro de 1934. 

50 Paulo Duarte descreve a criacao dessa comissao como uma negociacao entre ele e 
Julio de M esquita: "A comissao foi formada por Henrique de Rocha Lima e Fernando de 
Azevedo, meus candidatos, que foram aceitos por J ulinho com reservas; o primeiro porque era 
muito germanico, o segundo por ter sido seminarista, o que Ihe retirava toda serenidade. 
Teodoro Ramos tinha sido um instrumento dos inimigos de Sao Paulo, mas era extremamente 
inteligente, um dos poucos dentre nos que podia ensinar matematica superior em uma 
universidade. Havia duvidas a respeito de Raul Briquet, que segundo J ulinho nao sabia o 
representava realmente uma universidade. O mesmo acontecia com Agesilan Bittencourt, 
sugerido por Rocha Lima, que se supunha nao ter suficiente cultura geral. Os outros nao foram 
objeto de discussao: Vicente Rao, Fonseca Teles, Andre Dreyfus e Almeida J unior" (Duarte 
1976:68). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 26 



"Querfamos utilizar o melhor nao de um unico pafs desenvolvido mas de todos. Assim, 
a Italia deveria proporcionar professores de matematica, geologia, ffsica, paleontologia 
e estatfstica; a Alemanha, de zoologia, qufmica e botanica; a Inglaterra ajudaria em 
outro ramo da historia natural, e talvez tambem em psicologia; quanta a Franca, teria 
reservada as catedras de pensamento puro: sociologia, historia, filosofia, etnologia, 
geografia, e possivelmente tambem a ffsica. Mas nem sempre esse piano pode ser 
cumprido." 51 

"A presenca de uma grande colonia italiana em Sao Paulo e a insistencia do governo 
italiano em nos ajudar criava problemas especiais. Nao podfamos deixar que as 
catedras da Faculdade de Filosofia cafssem nas maos dos seguidores do credo polftico 
italiano — particularmente aquelas catedras que poderiam ter maior influencia sobre a 
educacao moral da nossa juventude. Essa dificuldade era complicada pelo grande 
numero de filhos de italianos que viviam em Sao Paulo, e que em sua maioria nao 
escondiam a tendencia para aceitar a orientacao do fascismo romano. Precisavamos ter 
muito cuidado devido as pressoes crescentes e impertinentes que o governo italiano e a 
colonia italiana de Sao Paulo faziam sobre o governo paulista, querendo forcar a 
admissao de um grande numero de professores italianos para compor o novo corpo 
docente. Solucionamos o problema oferecendo aos italianos algumas cadeiras no 
campo da ciencia pura (analise matematica, geometria, estatfstica, geologia, 
mineralogia), assim como em Ifngua e literatura italianas. As outras cadeiras — 
qufmica e historia natural — seriam ocupadas por alemaes expulsos do seu pafs pelo 
hitlerismo. Desta forma, podfamos proteger o sentido liberal da evolucao brasileira ... 
As futuras elites nao seriam vitimadas pelo ensino dessas teorias exoticas contrarias a 
natureza e as tendencias naturais do nosso povo." 52 

A legislacao de Francisco Campos pretendia que as faculdades de filosofia se 
orientassem para a formacao de professores secundarios, adiando as atividades de 
pesquisa cientffica para um futuro distante. Em contraste, no caso da U niversidade de 
Sao Paulo havia a intencao de criar uma separacao rfgida entre a Faculdade de 
Filosofia eo instituto de Educacao, destinado a formacao de professores. A Faculdade 
de Filosofia teria estudantes com conhecimentos substantivos, e aqueles interessados 
no ensino precisariam dirigir-se ao Instituto de Educacao para estudar pedagogia e 
para poder licenciar-se. Os professores seriam assim um produto secundario da nova 
instituicao. 53 

A ideia, portanto, era distribuir as atividades academicas em dois nfveis. O 
nfvel inferior devia relacionar-se com o trabalho aplicado e com a educacao 
profissional, e incluiria as antigas escolas profissionais de medicina e engenharia; o 
nfvel superior cobriria todas as especi alidades cientificas necessarias para o primeiro, 



51 Duarte 1976:70. 

52 M esquita Filho 1969:192. N ao e verdade que uma parte significativa dos professores 
da nova universidade fosse composta por refugiados polfticos, e entre os professores admitidos 
quase nao havia judeus. 

53 "Querfamos um Instituto onde nada mais [alem da ciencia] fosse feito, onde as 
vocacoes genufnas encontrassem um campo sem limites para expandir suas tendencias naturais, 
onde a regra seria a da ciencia por amor a ciencia, e onde o espfrito da investigacao cientffica 
dominasse todos os espfritos. Em uma palavra, preencherfamos o imenso hiato na cultura da 
nacao dando ao estudos academico o lugar que Ihe era devido na hierarquia intelectual ou em 
um organismo universitario" (J ulio de M esquita Filho 1969:189). 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 27 

mais aqueles campos considerados partes essenciais do conhecimento humano. 
Supunha-se que o nfvel superior alimentasse os que estavam no inferior, elevando 
gradual mente o seu nfvel de proficiencia. Nenhum professor estrangeiro foi 
contratado para as antigas escolas, que nos anos que se seguiram mudaram muito 
pouco. A influencia benefica que supostamente devia alcanca-las, a partir da 
Faculdade de Filosofia, passou a ser uma fonte de conflito permanente e de resistencia 
a mudanca, que em certos momentos chegou a ameacar a sobrevivencia da Faculdade 
e de toda a U niversidade. 54 U ma fonte de divergencia era a ideia de que as disciplinas 
basicas, como matematica, qufmica e biologia, deviam ser organizadas de modo que 
ficassem vinculadas a Faculdade de Filosofia, que Ihes proporcionaria os cursos 
necessarios. Essa integracao obrigaria a reunir todas as instituicoes no mesmo 
campus, urn projeto de longo prazo que nao foi considerado na epoca. M as desde o 
princfpio os responsaveis pela Faculdade de Direito declararam que nao aceitariam a 
transferencia para uma cidade universitaria que viesse a ser construfda, e a Faculdade 
de M edicina se recusou a permitir a construcao de mais um pavimento no seu predio 
para abrigar algumas secoes da Faculdade de Filosofia. De seu lado, a Politecnica se 
recusou a receber "filosofos" (ou seja, professores da Faculdade de Filosofia) para 
ensinar suas disciplinas basicas. Quando Luigi Fantappie concordou em ir a 
Politecnica para dar aulas, foi acusado de falta de competencia. Assim, a ideia de 
departamentos e institutes unificados foi posta de lado, tendo sido mantida em recesso 
durante v arias decadas. 55 

A decisao de quetodos os professores da nova U niversidade viriam do exterior 
foi radical. A princfpio, Teodoro Ramos foi considerado para a cadeira de analise 
matematica, Andre Dreyfus para biologia geral e Fernando de Azevedo para 
sociologia, segundo o proprio Azevedo. Ramos ja era detentor da cadeira de analise 
matematica na Escola Politecnica, e Dreyfus era considerado o melhor biologo do 



54 "Tivemos longas discussoes sobre a conveniencia de trazer para a nova U niversidade 
instituicoes como a Escola Politecnica, a Faculdade de Direito; as Escolas de Farmacia, 
Odontologia e Veterinaria; eo Instituto Luiz deQueiroz [de agricultural, de Piracicaba — todas 
elas instituicoes desatualizadas, cheias de complexos de superioridade e inferioridade, sem 
qualquer compreensao do que era real mente uma universidade ... J ulinho apontava o perigo de 
que as velhas escolas contaminassem as novas com seus vfcios incuraveis. Eram todas 
resistentes eatealergicas a pesquisa; sua pedagogia era obsoleta, ea vaidadesimploria dos seus 
professores formados pelo auto-didatismo, resistiria a todas a tentativas que fossem feitas para 
muda-los. Outros membros da comissao, em especial Rocha Lima e Dreyfus, nos lembraram de 
que o contrario podia tambem ser verdade, e que isso era o que aconteceria se mantivessemos a 
Universidade sob estrita vigilancia nos seus primeiros dez anos" (Duarte 1976:70). 

55 Mesquita Filho 1969:172-3. Algumas decadas depois foi construfdo um amplo 
campus para a Universidade, mas nem a Escola de M edicina nem a de Direito se instalaram ali. 
Em 1988, quando surgiu uma disputa sobre os estatutos universitarios, os professores da Escola 
de M edicina ameacaram deixar a U niversidade e recuperar a autonomia que tinham perdido em 
1934. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 28 

Brasil, e o de mente mais aberta. No entanto, todos eles decidiram que precisavam de 
pelo menos um ou dois anos de estudo no exterior antes de assumir esse encargo. 

Nao existe um registro unico das pessoas convidadas, dos que vieram ou da 
duracao da sua permanencia. O primeiro grupo inclufa, da Franca, Paul Arbusse 
Bastide (sociologia), Emile Coomaert (historia da civilizacao), Robert Garric 
(literatura francesa), Pierre Deffontaines (geografia), Etienne Borne (filosofia e 
psicologia) e Michel Berveiller (literatura greco-romana); da Italia, Francesco 
Piccollo (latim), Luigi Fantappie (analise matematica, calculo integral e diferencial), 
Ettore Onorato (mineralogia) e Gleb Wataghin (ffsica teorica); da Alemanha, Ernest 
Breslau (zoologia), Heinrich Rheinboldt (qufmica), Felix Rawischer (botanica); e de 
Portugal, Francisco Rebelo Goncalves (literatura portuguesa). 

Alem desses, o primeiro anuario da Faculdade, relativo a 1934-5, relaciona 
Jean M ouge, Pierre Monbeig, Fernand Braudel, Claude Levi-Strauss, Edgar Otto 
Gothsch e Pierre Hourcade, todos da Franca; e tambem os primeiros brasileiros: 
Teodoro Ramos (que foi tambem o primeiro diretor da escola), Lufs Cintra do Prado, 
Antonio Soares Romeu, Andre Dreyfus, Paulo Sawaya, Afonso d'EscragnolleTaunay 
e Plfnio Airosa. Como assistentes tecnicos eram citados Omar Catunda, Ernest Lufs 
de Oliveira, Fernando Jorge Larrabure, Heinrich Hauptmann, Herbert Stettiner, 
Reinaldo Saldanha da Gama, M aurfcio Rocha e Silva e Gertrud Siegel. U ma segunda 
onda trouxe para Sao Paulo Ernst Marcus, Paul Vanorden Shaw, Francois Perroux, 
Luigi Galvani, Giacomo Albanese, Giuseppe Ungaretti, Georges Readers e Ottorino 
de Fiori Cropani. M arcus substituiu Breslau, que morreu subitamente. Em sua maioria 
os professores vinham por um curto perfodo, e retomavam depois do primeiro ano, 
sendo muitas vezes substitufdos por outro do mesmo pais, como Jean Gage, Pierre 
Fromont, Roger Bastide, Alfred Bonzon, Karl Arens e Atilio Venturi. 

Nos primeiros anos as secoes de ffsica e matematica ficavam na Escola 
Politecnica, enquanto as outras estavam localizadas na Faculdade de Medicina. As 
inscricoes para os primeiros cursos foram abertas no princfpio de 1935, mas a nova 
Faculdade pouco significava para os jovens paulistas que terminavam o curso 
secundario, e menos ainda para os filhos das famflias importantes de Sao Paulo, que 
aspiravam a uma profissao de prestfgio --- o que a Faculdade de Filosofia nao podia 
oferecer. Em consequencia, o numero de matrfculas era mfnimo, e a solucao foi 
receber os estudantes que se inscreviam no I nstituto de Educacao (que tinha Fernando 
de Azevedo como diretor), concedendo-lhes inscricao provisoria na nova Faculdade. 
As aulas tiveram infcio em 11 de marco de 1935, com 46 estudantes de filosofia, 29 
de matematica, 10 de ffsica, 29 de qufmica, 15 de ciencias naturais, 16 de geografia e 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 29 

historia, 18 de ciencia polftica e social, 5 de portugues e literatura classica e 9 de 
Ifnguas estrangeiras. 56 

Embora a elite paulista nao enviasse seus filhos para a nova Faculdade, eles 
podiam participar das conferencias dos visitantes mais conhecidos, que atrafam um 
grande publico, chegando por vezes a intimidar o pequeno numero de estudantes 
regulares. N ao era incomum identificar no auditorio Armando de Sales Oliveira, J ulio 
de M esquita ou os seus parentes. 

Claude Levi-Strauss proporcionou uma rara visao externa desses eventos. Ele 
tinha estudado com Georges Dumas, e veio ao Brasil com a sua ajuda (e nao contra a 
sua vontade, como Paulo Duarte reconstruiu erradamente muitos anos depois). O 
B rasil representou para Levi-Strauss a sua introducao aos tropicos e a etnografia, e ele 
preferia a autenticidade dos fndios as tentativas dos paulistas de imitar a ciencia e a 
civilizacao europeias. Em suas recordacoes, Levi-Strauss se refere as cidades 
americanas que passam da barbarie a decadencia sem nunca se civilizar, e fala do 
Embaixador brasileiro em Paris que para parecer civilizado negava que houvessem 
fndios remanescentes no Brasil. Ele via a nova Universidade como uma reacao a 
necessidade que tinha a oligarquia brasileira de formar "uma opiniao publica 
inspirada por valores civis e leigos, para compensar a influencia tradicional da Igreja, 
dos militares e do poder pessoal." Para isso era necessario dar cultura a um publico 
mais amplo. Para Levi-Strauss, a excitacao a proposito dos professores estrangeiras 
era suspeita: havia pessoas querendo conseguir emprego ou afastar a competicao 
futura, e havia tambem ritos de status e de prestfgio pessoal nas exibicoes de 
familiaridade com a ultima moda intelectual de Paris, e os seus representantes. 
Ninguem se interessava realmente pelo valor intrfnseco das ideias e conceitos que 
eram discutidos. Com diplomas concedidos pela Universidade, esses parvenus 
conseguiam acesso a cargos administrativos, formando assim uma nova elite para 
substituir os arranjos feudais ateentao existentes. Para Levi-Strauss esse era o produto 
mais evidente da missao cultural francesa, algo que Georges Dumas, fascinado por 
seus amigos poderosos na oligarquia brasileira, nunca teria percebido. 57 Sem 
realmente compreender ou se interessar por tudo isso, Levi-Strauss se voltou o mais 
depressa possfvel para o que Ihe parecia a realidade mais autentica dos fndios 
caduveo, bororo e nambiquara, na selva brasileira. So a "firme decisao de um pequeno 
grupo de jovens bem dotados" 58 podia explicar como os seus alunos (em grande parte 



56 F. deAzevedo 1958:222; E. deS. Campos 1954:427. 

57 Levi -Strauss 1955:114,118. 

58 Le/i-Strauss 1955:117. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 30 

mulheres) podiam transformar-se, quinze ou vinte anos mais tarde, em uma 
comunidade significativa de cientistas sociais. 

Sob muitos aspectos a Universidade de Sao Paulo foi um projeto frustrado. A 
esperada integracao entre as escolas profissionais nao aconteceu; a inscricao na 
Faculdade de Filosofia foi sempre diffcil, e ela continuou sendo uma escola para a 
formacao de professores. A maioria dos seus estudantes eram mulheres, vindos das 
pequenas cidades do interior do estado ou filhos de imigrantes recentes. Nessas 
circunstancias, era impossfvel fazer com que a nova instituicao exercesse o esperado 
papel de lideranca na formacao da elite, como queria J ulio de M esquita. Se havia uma 
hierarquia de prestfgio e reconhecimento entre as diferentes instituicoes reunidas na 
Universidade de Sao Paulo, a Faculdade de Filosofia nao estava no primeiro piano. 
Depois de 1937, com o Estado Novo e o ostracismo polftico de Armando de Sales 
Oliveira e do seu grupo, a Universidade passou a sofrer todos os tipos de pressao das 
novas autoridades estaduais, assim como do proprio M inisterio da Educacao, no Rio 
de Janeiro. 

A despeito de tudo, a U niversidade de Sao Paulo — e mais precisamente a sua 
Faculdade de Filosofia --- tomou-se a mais importante instituicao cientffica ja 
estabelecida no Brasil depois do Institute Oswaldo Cruz, o que se pode explicar em 
parte pelas condicoes economicas do estado de Sao Paulo, que podia fomecer-lhe 
mais recursos do que os recebidos por qualquer outra instituicao similar em todo o 
pafs. Mas seria um equfvoco tentar explicar tudo pelo poder do dinheiro. Mais 
importante ainda era o fato de que, mesmo em pequena escala, a Faculdade de 
Filosofia da Universidade de Sao Paulo abriu um espaco para a ciencia, que foi 
explorado por um pequeno grupo de visitantes estrangeiros e seus discipulos 
brasileiros; e embora em grande parte frustradas, as metas ambiciosas de Julio de 
M esquita ajudaram a preservar atraves dos anos a respeitabilidade e o reconhecimento 
da nova instituicao. Ate mesmo o padrao de recrutamento da Faculdade de Filosofia 
acabou sendo uma bencao. Os cientistas raramente sao recrutados no topo da 
hierarquia social, onde o poder e o dinheiro sao muito mais faceis de conseguir. Para 
as mulheres e filhos dos imigrantes, e para as pessoas do povo que procuravam a nova 
instituicao, muitas vezes sonhando com pouco mais do que um futuro emprego como 
professor, a ciencia se tomou subitamente uma nova visao do mundo, que muitos 
adotaram com entusiasmo. 

A debilidade evidente do projeto da Universidade de Sao Paulo foi o seu 
isolamento do ambiente cientffico e intelectual de Ifngua inglesa. Os contatos com a 
Inglaterra e os Estados Unidos se intensificaram durante a guerra, e terminariam por 
prevalecer. 



Capftulo 5: A Revolucao de 1930 e as Primeiras U niversidades - 31 

A questao do modelo universitario adotado e i nteressante. A Franca era a 
influencia predominante, e no passado o Brasil procurou imitar as grandes ecoles, 
como a Politechnique e a Ecole de Mines. Mas desde a Revolucao Francesa nada 
havia na Franca de semelhante a Faculdade de Filosofia. Cambridge, embora 
mencionada por Paulo Duarte, nunca foi considerada realmente como uma alternativa. 
M as a Italia, que nao e mencionada pelos paulistas, foi a fonte de boa parte das ideias 
sobre educacao de Francisco Campos e Gustavo Capanema, e tinha uma organizacao 
similar. 

O que predominou na Universidade de Sao Paulo foi nao tanto o que os seus 
fundadores tinham posto no papel, mas o que os visitantes estrangeiros extrafram da 
sua propria experiencia pessoal. Assim, os alemaes continuaram a fazer pesquisas em 
qufmica e biologia, como tradicionalmente faziam em seu pafs; mas para os 
educadores a Faculdade de Filosofia continuou sendo sempre uma especie de ecole 
normale. Cada instituicao trazida para o seio da Universidade manteve sua propria 
organizacao e tradicao. A Faculdade de Medicina se aproximava do padrao norte- 
americano, gracas ao apoio recebido da Fundacao Rockefeller; a Escola de Direito 
nunca abandonou o estilo professoral; a Escola Politecnica manteve sua fidelidade a 
tecnologia, e resistiu a incorporacao da ffsica moderna; e assim por diante. Essa 
mistura de diferentes modelos academicos, tradicoes e experiencias dentro da mesma 
instituicao acabou por ser urn dos pontos fortes da U niversidade de Sao Paulo, onde a 
centralizacao eo domfnio pela burocracia nunca prevaleceriam plenamente. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 6 
AS RAIZES DAS TRADI £OES CIENTIFICAS 

Da agronomia a genetica 1 

Parti ndo de M anguinhos: os novos institutes de pesquisa biologica 6 

Qufmica: I i mites e possibilidades do model o alemao 10 

Gleb Wataghin e a ffsica dos raios cosmicos 16 

O esforco deguerra 20 

Desenvolvimentos do pos-guerra 21 



Em sua maior parte, a ciencia contemporanea brasileira tern rafzes nas 
tradicoes cientfficas e nas institutes criadas e fortalecidas durante o perfodo de 
transicao da decada de 1930. Algumas dessas raizes, como as das ciencias biologicas, 
surgiram nos institutes de pesquisa aplicada dos anos precedentes; outras, como as da 
ffsica moderna, comecaram na Universidade de Sao Paulo. De modo geral, so os 
campos que podiam ser organizados academicamente sobreviveram nos anos 1930, 
para ressurgir nas decadas de 1950, 1960 e ainda mais tarde. Os outros, como as 
ciencias da terra e a pesquisa tecnologica, tiveram que aguardar um novo comeco, 
muitos anos depois. Neste Capftulo reconstruo em algum detalhe o caminho seguido 
por algumas dessas tradicoes, mostrando como el as ajudaram a consolidar os alicerces 
sobreos quais a ciencia brasileira deveria continuar a crescer. 

Da agronomia a genetica 

A pesquisa agrfcola teve infcio no Brasil (se nao levarmos em conta os antigos 
jardins botanicos) com a criacao da Estacao Agronomica de Campinas, para o estudo 

das plantas tropicais, sob a direcao do qufmico austrfaco F. W. Dafert. Naquela 



1 Dafert nasceu em Viena e tinha um doutorado obtido em Giessen, na Alemanha. Em 
1908, depois de retornar a Europa, foi nomeado diretor da Estacao Experimental Qufmico- 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 2 

epoca Campinas estava no centra da regiao do cafe, mas nem os habitantes daquela 
area nem o Ministro da Agricultura do Brasil, que criou a Estacao Agronomica, 
reconheceram os estudos feitos por Dafert sobre a fertilizacao do cafe, e em 1890 ele 
foi demitido, sendo readmitido algum tempo depois gracas a intervencao de outro 
cientista estrangeiro --- Orville Derby, presidente da Comissao Geografica e 

2 

Geologica de Sao Paulo. Em 1892 a Estacao passou para a jurisdicao estadual, 

adotando o nome de Instituto Agronomico de Campinas; em 1907 Dafert foi 
final mente afastado, depois de uma tentativa frustrada de transformar o Instituto em 
uma instituicao puramente pratica, orientada para a solucao de problemas agrfcolas de 

curto prazo, efuncionando de forma comercial, como um negocio lucrative 

Assim, o Instituto Agronomico entrou na decada de 1920 afastado das 
primeiras metas estabelecidas por Dafert, e funcionando com uma equipe reduzida: 
um agronomo chefe, dois jardineiros e alguns trabalhadores. Em 1927 Teodureto de 
Camargo empreendeu uma reforma que seria fundamental para retornar a filosofia 
original da instituicao: o estudo dos problemas agrfcolas devia ser feito primeiramente 
em laboratories e campos experimental s, e mais tarde nas varias subestacoes do 
Instituto, localizadas por todo o estado; e so numa terceira fase os resultados seriam 
divulgados. Na decada de 1930 o Instituto Agronomico voltou a funcionar a pleno 
vapor, sobretudo porque em 1929 os seus especial istas foram designados para 
trabalhar em tempo integral. Os estudos feitos tiveram repercussao no mundo 
academico e foram importantes para melhorar a agricultura paulista. Com o cafe em 
crise, devido a superproducao e a recessao internacional, o Instituto fomecia aos 
fazendeiros locais sementes de algodao edeoutras culturas. 



Agrfcola de Viena. Dean 1989 contem um estudo completo sobre a presenca de Dafert no 
Brasil. 

2 "Nao surpreende que no comeco o trabalho experimental da Estacao Agronomica 
tenha atrafdo forte interesse por parte dos grandes plantadores de cafe, assim como daqueles 
simplesmente curiosos com o trabalho dos especial istas. Alguns porem ficavam perplexos com 
o que viam: o trabalho parecia excessivamente teorico — talvez pudesse ter alguma utilidade 
para a agricultura nacional, mas so no futuro. Por mais que o diretor da Estacao tentasse 
explicar que essa pesquisa era necessaria que determinar o sentido do futuro trabalho 
experimental, nao conseguiu convencer os seus crfticos, e espalhou-se o rumor de que o diretor 
da Estacao estava realizando experiencias orientadas para os seus proprios interesses 
cientfficos, sem se preocupar com a aplicacao pratica imediata dos resultados" (F. Campos 
1954:496). 

3 "As observacoes e experiencias acumuladas ate entao nao eram adequadas para 
justificar a sua divulgacao pelos proprietaries de plantacoes, pois precisavam ser testadas ainda 
nas varias regioes do estado cujo clima e solo diferiam dos de Campinas. So entao, se os 
resultados o justificassem, o aconselhamento relevante podia ser dado aos cafeicultores 
interessados. Como esse prinefpio basico foi ignorado, os cafeicultores de Sao Paulo sofreram 
muitos prejufzos serios" (F. Campos 1954:497, 498). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 3 

Os anos 1930 foram tambem importantes para a Escola Superior de 
Agricultura Luiz de Queiroz, criada em 1901 como Escola Agrfcola de Piracicaba, 

4 

sob a Secretaria de Agricultura do estado de Sao Paulo. Seu objetivo era 

proporcionar educacao agrfcola em todos os nfveis, desde o primario ate o de pos- 
graduacao no mesmo estabelecimento educacional e de pesquisa, assegurando assim 

continuidade e coerencia na formacao de especial istas. A qualidade do trabalho feito 

pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz na ciencia basica e aplicada, no 
campo da agricultura, e ilustrada pela sua decisao pioneira de ensinar genetica, 
tomada em 1918 em um curso agrfcola dado por Carlos Teixeira M endes, parte do 
curso de zootecnia de Otavio Domingues. Essa foi a primeira vez que o assunto era 
ensinado no Brasil. 

No entanto, so em 1928 a genetica foi empregada sistematicamente pelo 
Institute Agronomico de Campinas para melhorar produtos como o cafe, o milho e o 
fumo, ou para adaptar ao ambiente brasileiro outras sementes, como o trigo e a 
cevada. Em 1932 C. A. Krug foi enviado pelo Institute Agronomico a Universidade 
de Cornell para especial izar-se em genetica, citogenetica e aperfeicoamento de 
plantas. Krug voltou ao Brasil no fim daquele ano, e organizou um grupo de pesquisa 
para trabalhar na melhoria do cafee do milho. No ano seguintefoi criada uma cadeira 
de genetica, com o objetivo de formar especialistas em tecnologia do melhoramento 
de sementes. 

A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz deveria adotar uma 
abordagem diferente, convidando Friedrich Gustav Brieger para organizar seu 
departamento de genetica. Nascido em 1900, Brieger recebeu um doutorado em 
botanica em 1921 pela U niversidadede Breslau, e nos quatro anos seguintes trabalhou 



4 A Escola deve sua existencia principalmente a Luiz Vicente Sousa Queiroz, um rico 
benfeitor de Piracicaba que ja tinha dado a cidade alguns beneffcios como o fornecimento de 
energia eletrica. Em 1802 Luiz de Queiroz se apoiou em uma lei estadual que criava a Escola 
Superior de Agricultura, com dez estacoes experimental s, para doar ao estado seu rancho Sao 
Joao da M ontanha, que deveria ser a sede da Escola. Embora o projeto contasse inicialmente 
com o apoio de dois polfticos importantes, J orgeTibirica Piratininga e Bernardino de Campos, 
a construcao foi paralisada quando o primeiro deixou seu cargo no governo do estado. A Escola 
so pode ser inaugurada em 1901, nao como Escola de Agronomia mas como Escola Agrfcola 
Pratica. Quando Jorge Tibirica assumiu o cargo de Governador do estado foi finalmente 
possfvel para a Escola se organizar conforme a concepcao original. 

5 A Escola patrocinou visitas de notaveis professores estrangeiros, como Nicolas 
Athanasov, Arsene Putmans e outros, e o Governador Rodrigues A Ives criou bolsas de viagem, 
proporcionando assim treinamento adicional a estudantes como Carlos Teixeira M endes, 
Trajano Sampaio ej ose de M elo M orais. O M inisterio da Agricultura foi estimulado a oferecer 
bolsas semelhantes a graduados de escolas de agronomia, permitindo a estudantes como Jose 
Vizioli e Salvador de Toledo Pizza Junior ampliar seu conhecimento em varios campos por 
meio deestudos realizados na Europa ou nos Estados Unidos. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 4 

nas universidades de M unique, Berlim e Viena. Em 1924 recebeu uma bolsa da 
Fundacao Rockefeller e trabalhou dois anos em Harvard com Edward M . East, que ele 
considerava a influencia mais forte que ja tinha recebido. Depois desse perfodo em 
Harvard Briegerfoi pesquisar no Kaiser-Wilhelm-lnstitut, onde trabalhou com Karl E. 
Correns, conhecido por haver redescoberto as leis de Mendel. Em 1933 deixou a 
Alemanha e ingressou no Instituto John Innes, na Inglaterra, onde foi convidado para 
organizar o departamento de genetica da Escola Luiz de Queiroz. Encorajado pela 
opiniao de outros europeus que iam trabalhar em Sao Paulo na mesma epoca, decidiu 

embarcar nessa "aventura tropical", como ele mesmo a chamou. 

As realizacoes de Brieger podem ser creditadas a suas qualificacoes 
academicas e tambem a sua capacidade de trabalhar com pessoas que, embora nao 
fossem cientistas, estavam empenhadas na criacao de uma nova mentalidade 
academica em Sao Paulo. Desde a sua chegada, contou com o apoio de J ose M elo 

Morais, o diretor da escola Havia tambem Andre Dreyfus, que era mais urn 

intelectual autodidata do que urn pesquisador, mas que teria urn papel importante na 

introducao da genetica moderna na U niversidade de Sao Paulo. 

Brieger, Krug e Dreyfus montaram uma comunidade cientffica em miniatura, 
assumindo o encargo de fazer pesquisas e, mais do que isso, principalmente detreinar 



6 Briger lembrava que ao chegar encontrara "... uma situacao muito interessante em 
Piracicaba. Jose de Melo Morais, diretor por muitos anos, era uma pessoa excepcional. 
Qufmico, estudara na Alemanha, e embora nao fosse um pesquisador tinha uma excelente 
intuicao, e percebeu que o velho si sterna de ensino adotado no Brasil, com base nos livros e 
ignorando a pesquisa, perdera sua importancia. Assumindo a bandeira da U niversidade de Sao 
Paulo, queria dar a sua Escola o regime de tempo integral, e introduzir a atividade de pesquisa, 
para transforma-la de uma mera escola em uma verdadeira instituicao universitaria. Achei tudo 
isso muito favoravel, porque nao posso imaginar o ensino em qualquer universidade sem a 
pesquisa" (entrevista de Brieger). M ais tarde Brieger comentaria: "Outra coisa que na epoca era 
muito favoravel era o fato de que em Sao Paulo Andre Dreyfus tinha assumido o cargo de 
diretor do Departamento de Biologia Geral, e se interessava tambem pela introducao da 
genetica. E em Campinas, Carlos A. Krug, diretor da secao de genetica que ele proprio tinha 
criado, comecara a introduzir metodos de melhoramento genetico, ou seja, o aperf ei coamento 
de sementes com base cientffica. Nos tres firmamos uma amizade maravilhosa, e era uma 
grande atmosfera de trabalho, de forma que nos criticavamos reciprocamente mas quando 
necessario defendfamos uns aos outros. Nos tres tivemos a ideia nao so de usar metodos 
fundamentals e aplicados mas tambem detreinar discfpulos." 

7 "Ele estava longe de ser um pesquisador, mas tinha faro, e havia percebido que a 
velha maneira brasileira de ensinar com base em livros, sem pesquisar, nao funcionava. Uniu-se 
assim ao projeto da nova universidade, em busca de trabalho em tempo integral, com pesquisa, 
e trabalhou efetivamente no sentido de transformar uma escola tecnica em uma instituicao 
academica" (entrevista de Brieger). 

8 "Ele proprio pesquisava muito pouco, mas tinha a capacidade de absorver 
conhecimento e de transmiti-lo a outras pessoas; portanto, tinha a qualidade necessaria para 
criar uma escola, o que fez." (entrevista de Brieger). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 5 

discfpulos e criar uma tradicao cientffica. Enquanto Krug trabalhava sobretudo com 
genetica aplicada, usando metodologias ortodoxas, Brieger tinha mais interesse em 
descobrir novos metodos. Seu primeira trabalho no Brasil foi com mi I ho ealface, e ao 
estudar o milho foi o primeiro a utilizar a analise genetica das populacoes, em lugar 
da hibridizacao, como tecnica para o melhoramento das especies. Para isso precisava 
utilizar modelos matematicos sofisticados, e a sua insistencia na superioridade dessa 
abordagem, comparada com a tradicional, o levou a entrar em conflito com Krug, o 
que pos umfima sua colaboracao. Por outro lado, seu trabalho com o alface provocou 

9 

a refutacao de velhos ensinamentos ateentao considerados verdades cientificas. 

Em 1938 Dreyfus comecou a trabalhar em tempo integral no departamento de 
biologia geral da Faculdade de Filosofia. Tanto o antigo Institute Agronomico como a 
Escola Luiz de Queiroz tinham sido incorporados a Universidade de Sao Paulo, e 
Krug e Brieger continuaram onde estavam, fora da cidade de Sao Paulo. Na 
Faculdade de Filosofia, Dreyfus e tres dos seus assistentes --- Martha Brener, 
Crodowaldo Pavan e Rosina de Barros --- lutavam para melhorar a qualidade de seus 
trabalhos. No entanto, uma mudanca efetiva so ocorreu alguns anos mais tarde, depois 
da vinda deTheodosius Dobzhansky. 

Dobzhansky chegou ao Brasil em 1943, com o apoio da Fundacao 
Rockefeller. Em 1936 havia publicado um livro que foi considerado amplamente 
como uma das contribuicoes mais importantes a ciencia da genetica, desde Darwin. 
Havia solicitado uma bolsa para viajar a America Central, e foi persuadido a vir para 
Sao Paulo por Harry M iller, um consultor da Fundacao Rockefeller que conhecia bem 
o Brasil. Dobzhansky elembrado como uma pessoa extremamente dinamica, e mudou 
o ritmo mais lento dos brasileiros com suas constantes solicitacoes de viagens de 
estudo, recursos e equipamentos. Dreyfus nao so nao competiu com ele mas tornou-se 

seu principal defensor e ponto de apoio. Em Sao Paulo Dobzhansky desenvolveu 

uma linha de pesquisa sobre a genetica da populacao da drosophila que recebeu 
rapidamente reconhecimento internacional. Mais tarde, varios dos seus estudantes e 
assistentes foram completar seu treinamento nos Estados Unidos, e formaram uma 
rede de geneticistas (trabalhando nao so em Sao Paulo mas em Porto Alegre, Brasflia 



9 "A crenca cientffica era de que os vegetais verdes sao de clima temperado, e nao 
podiam ser plantados nos tropicos, a nao ser em grandes altitudes. As sementes em particular 
deviam ser produzidas em grandes altitudes. Eu queria trabalhar no melhoramento das plantas, 
e como em Piracicaba nao dispunhamos de altitude suficiente, decidi que neste caso as plantas 
teriam que adaptar-se a mim. Sabia por experiencia propria que muitas das teorias cientfficas 
eram fruto da falta de observacao, e naquela epoca ninguem sabia muito a respeito dos 
tropicos" (entrevista de Brieger). 

10 Entrevista de Pavan. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 6 

e no Parana) especial izados em genetica medica, genetica das populacoes humanas e 
citogenetica. Os estudantes orientados por Brieger continuaram proximos da pesquisa 
agrfcola e desenvolveram estudos na genetica das abelhas e dos fungos. 

Partindo de M anguinhos: os novos institutes de pesquisa bioldgica 

Um desenvolvimento paralelo foi a criacao, em 1927, do Institute Biologico 
de Defesa Agrfcola e Animal de Sao Paulo, para substituir a antiga comissao dedicada 
ao estudo e erradicacao da broca do cafe, uma praga que ameacava o principal 
produto agrfcola do estado. O novo institute foi um fruto direto da tradicao de 
pesquisa do institute de M anguinhos, no Rio dej aneiro, e seu primeiro diretor, Arthur 
Neiva, trabalhou com Oswaldo Cruz nas primeiras campanhas sanitarias, chefiando o 

trabalho de campo na luta contra a malaria em diversas regioes do Brasil. 

Institute Biologico comecou com um mandate para realizar pesquisa basica 
e aplicada, promover medidas de protecao dos produtos agrfcolas do estado, ensinar 
sua utilizacao adequada e produzir soro e vacinas contra doencas animais. A equipe 
de funcionarios inclufa agronomos, veterinarios, medicos, biologos e qufmicos, 
organizados em duas divisoes --- uma de recursos vegetais, chefiada por Adalberto de 

12 

Queiros Teles, e a outra de recursos animais, chefiada por Henrique de Rocha Lima. 

Institute Biologico contratou, entre outros, os tres primeiros graduados do Curso de 
Aplicacao de M anguinhos no ano da sua fundacao: Otto Bier, Jose Reis e Adolfo 
M artins Penha. Esperava-se que suas oito secoes mantivessem um contato constante 
entre si, compartilhando uma boa biblioteca e servicos tecnicos. Desde o princfpio 
havia a ideia de que a pesquisa basica e a aplicada podiam coexistir em harmonia, 

13 

como aconteceu em M anguinhos na sua melhor epoca. 

Otto Bier caracterizou o Institute, na epoca da sua criacao, como marcado por 
"uma massa crftica de pessoas interessadas no mesmo objetivo, ou seja, desenvolver 



11 Segundo Jose Reis, Arthur Neiva estava igualmente a vontade no laboratorio e no 
campo, e tornou-se um dos entomologistas mais importantes da sua geracao. Como diretor de 
higiene do estado de Sao Paulo redigiu o primeiro codigo sanitario da historia do Brasil, 
presidiu a antiga comissao e foi responsavel por transforma-lo em uma instituicao permanente 
(Reis 1976b el976d). 

12 A primeira era subdividida em secoes de botanica e agronomia, qufmica, 
entomologia e parasitologia e fitopatologia, e inclufa a maioria dos que tinham trabalhado nas 
antigas comissoes, alem de botanicos, agronomos, entomologistas e qufmicos recentemente 
recrutados. A divisao animal, chefiada por Genesio Pacheco, estava dividida em secoes de 
fisiologia, bacteriologia, anatomia, patologia e entomologia e parasitologia. 

13 Reis 1976a, 1976b, 1976d. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 7 

em silencio um trabalho cientffico serio, com um forte sentido de continuidade e sem 

qualquer preocupacao com a autopromocao." A cultura institucional presumia que 

a ciencia era essencial para resolver os problemas praticos, e os agronomos e 
veterinarios participavam das reunioes cientfficas, enquanto os cientistas normal mente 
trabalhavam no campo. 

E m 1932 N ei va deixou o I nstituto e foi substitufdo por H enrique Rocha L i ma, 

conhecido pela sua formacao alema. Desde o princfpio havia se estabelecido uma 

divisao de trabalho natural entre Neiva e Rocha Lima --- o primeiro mais voltado para 
o lado externo do I nstituto (levantamento de fundos, contatos polfticos, campanhas 
sanitarias), o segundo mantendo-se o mais proximo possfvel das atividades 
quotidianas, tecnicas e cientfficas. Quando Neiva partiu, o Institute ja tinha 
estabelecido algumas das suas principais caracterfsticas como uma instituicao 
cientffica seria: trabalho dos pesquisadores em regime de tempo integral, abordagem 
interdisciplinar, uma excelente biblioteca, bom apoio tecnico (fotografia, desenho, 
fabricacao de vidro, publicacoes) edois periodicos, os Arquivos do I nstituto Biologico 
eO Biologico. 

O estilo do Institute se revelava nas suas reunioes cientfficas semanais. As 
tercas-fei ras as reunioes internas consistiam na apresentacao e discussao de artigos 
cientfficos recentes, organizada cada semana por um pesquisador diferente. As sextas- 
feiras havia conferencias, muitas vezes por convidados, cobrindo um temario mais 
amplo — cientffico, literario ou artfstico — , e abertas para o publico, as quais nao 
tardaram a se tornar uma parte do calendario intelectual da cidade. N ao raro cientistas 
e intelectuais cariocas viajavam para Sao Paulo afim de participar desses eventos. Na 
sua entrevista Otto Bier salientou que essas atividades eram muito importantes para o 
prestfgio e o reconhecimento do Institute, e ajudavam a manter o que Neiva e Lima 
consideravam seu "espfrito universitario", que Ihes parecia necessario para evitar uma 

especial izacao muito estreita. 



14 E ntrevi sta de O tto B i er. 

15 Rocha Lima era filho de um prestigioso medico do Rio dej aneiro, e desde estudante 
mantivera contato com o grupo de M anguinhos. Em 1901, depois de formar-se em medicina no 
Rio de J aneiro, viajou para Berlim, onde se especializou em anatomia patologica, que no Brasil 
era um campo novo. 

16 J ose Reis descreveu o "espfrito universitario" que prevalecia no Institute como "algo 
que se aprende dos grandes pensadores e cientistas, acostumados a pensar em termos 
universais, interessados no intercambio de ideias e convictos de que nao existem barreiras 
entre os diferentes campos do conhecimento. E um espfrito de modestia, baseado na aceitacao 
das crfticas e na necessidade interminavel de aprender. E o espfrito do dialogo aberto, sem 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 8 

Esse "espfrito" nao existia na Faculdade de M edicina do Rio de Janeiro, onde 
em 1937 Carlos Chagas Filho criou seu Instituto de Bioffsica. A Faculdade era 
descrita unanimemente pelos contemporaneos como deficiente em equipamento e 
com cursos mal organizados; os melhores estudantes se aproximavam de um 
professor de prestfgio para praticar na sua enfermaria ou laboratorio. As disciplinas 
basicas, porem, que supostamente deviam municiar os futures clfnicos com 
conhecimentos cientfficos, eram justamente as mais negligenciadas. Havia uma unica 
excecao, fisiologia, gracas ao ensino de Alvaro Osorio de Almeida, que transmitia a 
seus alunos uma imagem excitante do que podia ser a pesquisa cientffica, e convidava 
alguns deles para o seu laboratorio ou para M anguinhos. 

Carlos Chagas Filho tinha ingressado na Faculdade de M edicina por meio de 
um concurso publico para a cadeira de ffsica biologica. Sua tese foi discutida 
intensamente com Cameiro Felipe, qufmico; Costa Ribeiro, ffsico; e Antonio Oliveira 
Castro, do Instituto deTecnologia Eletrica da Faculdade de Engenharia. Pela primeira 
vez a Faculdade de M edicina tinha usado metodos ffsicos e qufmicos no estudo dos 
fenomenos biologicos. Depois de nomeado, Chagas viajou para estudar na Franca e na 
Inglaterra, e ao retornar comecou a organizar um instituto de pesquisa na Faculdade. 

Contatos pessoais e familiares asseguravam a Carlos Chagas e seus 
colaboradores o apoio financeiro de que necessitavam, livrando-os dos limites 
burocraticos. Assim, por interferencia direta de Lufs Simoes Lopes, diretor do 
poderoso DASP --- o Departamento Administrative do Servico Publico --- foi criado 
na Faculdade de M edicina um cargo de "tecnico especializado", com salario superior 
ao de professor assistente. A I em da sua capacidade de obter apoio financeiro, Chagas 
tinha uma visao moderna e atualizada de como se devia desenvolver o trabalho 
cientifico, enfatizando a cooperacao interpessoal e a troca de informacao entre todos 
os cientistas; a abertura a curiosidade, o questionamento e a troca de ideias; a reducao 
da burocracia e da hierarquia excessivas. Chagas dizia que uma instituicao cientffica e 
feita primeiro de pessoas, depois de problemas a resolver e equipamento apropriado, e 
final mente do lugar de trabalho: um ponto de vista que contrastava com a tradicao 
brasileira de comecar pelos ediffcios, enche-los de equipamento, para depois contratar 



limites impostos pelas diferencas de idade ou hierarquia, mas baseado no respeito pela 
personalidade e as ideias de cada um. E o espfrito de aventura na busca e na transmissao do 
conhecimento, em que as preocupacoes intelectuais, espirituais e morais sempre prevalecem 
sobre as materials. E o espfrito de estar sempre recomecando de novo" (Reis 1976a: 593). As 
entrevistas com Penha, Bier, Rocha e Silva e Reis, e a significativa producao cientffica do 
Instituto, ao longo dos anos, confirmam que essa forma de compreender o seu trabalho estava 
presente nas suas mentes e tinha um efeito positivo sobre a produtividade do seu trabalho. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 9 

pessoal e so entao identificar os problemas que poderiam justificar as pesquisas 
imaginadas. 

O laboratorio de Chagas conquistou rapidamente reputacao nacional e 
internacional. Ele convidou Tito Eneas Leme Lopes e Lafaiete Rodrigues Pereira, 
ambos treinados em Manguinhos, assim como Oromar Moreira, Jose M oura 
Goncalves e Jose Batista Veiga Salles, todos bioqufmicos de Belo Horizonte, 
endossados por Baeta Viana. Herta M eyer, que costumava trabalhar no laboratorio de 
patologia de Manguinhos, apoiado pela Fundacao Rockefeller, deu infcio ao 
laboratorio de histologia, juntamente com Joao M achado. Eles realizaram estudos 
sobre a cultura de protozoarios, tais como o Trypanosoma cruzi e o Plasmodium 
aviarium, com relevancia direta para a saude publica, e tinham o apoio do Servico 
Especial de Grandes Endemias, uma agenda nao oficial dirigida pelo irmao de Carlos 
Chagas, Evandro, e apoiada com recursos da famflia Guinle; e a bioeletrogenese dos 
tecidos, derivada de motivacoes estritamente academicas. O outro laboratorio a ser 
organizado foi o de bioffsica, dirigido por Carlos Chagas com a cooperacao de 
Bemhard Gross, do Institute Nacional de Tecnologia. O principal tema de estudo era 
a bioeletrogenese do Eletrophorus eletricus, um peixe eletrico da regiao amazonica 
que eum veiculo unico para estudar a interacao dos processos biologicos effsicos. 

A comparacao entre essas duas instituicoes --- o Institute Biologico e o 
Institute de Bioffsica --- mostra alguns elementos comuns e certas diferencas 
importantes. Os dois eram dirigidos por homens de personal idade forte, treinados na 
Europa e em M anguinhos --- Neiva, Rocha Lima e Carlos Chagas Filho. Ambos se 
beneficiavam dos vfnculos estreitos mantidos pelos seus diretores com figuras 
polfticas importantes, e que eram essenciais para protege-los dos efeitos da 
uniformidade pouco imaginativa imposta a todas as instituicoes pela burocracia 
governamental. Finalmente, eles compartilhavam uma visao nova e ousada do papel 
da ciencia moderna, vendo-a com base na pesquisa fundamental e em horizontes 
intelectuais amplos. 

O que fazia diferenca era o fate de que o Institute Biologico era uma 
instituicao de pesquisa aplicada. Durante alguns anos o prestfgio e a forte 
personalidade de Rocha Lima, combinados com sua ligacao familiar com Fernando 
Costa, bastaram para proteger o Institute contra interferencias externas. Depois de 
1937, porem, com Ademar de Barros no governo do estado, nao so o Institute 
Biologico mas todas as instituicoes cientfficas e educacionais de Sao Paulo 



17 Mariani 1982b. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 10 
18 

comecaram a sofrer. Em 1949 Rocha Lima pediu demissao e o Institute Biologico 
comecou uma fasede lento declfnio. 

Em contraste, os melhores anos do Institute de Bioffsica ainda estavam por 
vir. A lideranca de Carlos Chagas se prolongaria ate a decada de 1980, e a protecao 
contra as exigencias de curto prazo e as interferencias extemas, a relativa 
independencia dos cursos profissionais e um solido compromisso com altos padroes 
de excel encia se combinavam para fazer do Institute de Bioffsica um herdeiro genufno 
das melhores tradicoes de M anguinhos. 

Quimica: limitesepossibilidadesdo modelo alemao 

No Brasil a qufmica sempre contou com uma importante participacao alema, 
que pode ser ilustrada pela lista de alguns dos nomes mais importantes nesse 

campo. Theodore Teckolt, nascido na Silesia alema e formado em farmacia pela 

Universidade de Rostock, reorganizou o laboraterio de qufmica do M useu Nacional 
em 1874, sob Ladislau Neto; Wilhelm M ichler, nascido em W urttemberg, estudou no 
Institute Politecnico de Stuttgart, doutorou-se em Zurique com Victor Meyer e em 
1884 foi nomeado professor de qufmica industrial da Escola Politecnica do Rio de 
Janeiro, onde usou fundos privados para montar um laboraterio de qufmica para nele 
poder trabalhar e treinar seus alunos; F. G. Dafert, que em 1887 organizou a Estacao 
Agronomica de Campinas; Alfred Schaeffer, que recebeu seu bacharelado em 
farmacia e o doutorado em qufmica pela U niversidade de M unique, e organizou nao 
so o Laboraterio de Analise do Estado, em Belo Horizonte, em 1911, mas tambem o 
da Escola de Engenharia, alguns anos depois; Otho Rothe, quetinha um doutorado em 
qufmica pela Universidade dejena e foi contratado em 1920 para instalar o curso de 
qufmica da Escola de Engenharia de Porto Alegre, tendo sucedido Schaeffer em Belo 
Horizonte, em 1926 --- e varios outros. 

A participacao alema se tornou ainda mais pronunciada com a chegada de 
Heinrich Rheinboldt a U niversidade de Sao Paulo, e a de Fritz Feigl ao Laboraterio de 
Producao Mineral do Rio de Janeiro, que pertencia ao Ministerio da Agricultura. 



18 Maurfcio Rocha e Silva lembra aqueles anos como um perfodo de "completo 
desastre": "Em certo momento os salarios dos cientistas foram cortados, terminou o regime de 
tempo integral e foram criadas tantas dificuldades que muitos preferiram deixar as instituicoes 
de pesquisa para conseguir um emprego no setor privado. O Institute Butanta foi 
provavelmente o que mas sofreu, e durante algum tempo os seus cientistas — por exemplo 
Anatol Rosenfeld e Leal Prado — se refugiaram no Biologico." (entrevista de M aurfcio Rocha 
e Silva). 

19 Vide uma historia da qufmica no Brasil em Rheinboldt 1955 e M athias 1975. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 11 

Rheinboldt foi seguido pelo seu assistente Heinrich Hauptmann, e mais tarde por 
Herbert Stettiner, Hans Stammreich e Pawel Kromholz. Hans Zocher, que tinha 
ensinado nas universidades de Berlim e Praga, veio tambem trabalhar com Fritz Feigl. 

Havia tres razoes por tras dessa forte presenca alema: os lacos economicos e 
migratorios que ligavam os dois pafses ate a decada de 1930; o problema de emprego 
dos jovens professores alemaes, devido atradicional rigidez das universidades do seu 
pais; e as crises e perseguicoes resultantes do crescimento do nazismo na Alemanha, 
que provocou a emigracao nao so de cientistas judeus mas tambem daqueles que eram 
simplesmente liberais. De seu lado, havia no Brasil um grande interesse pela qufmica 
alema, talvez devido a tradicao germanica de integrar a pesquisa qufmica as 
atividades industrials. Esse portanto e um excelente teste da possibilidade de 
transplantar esse tipo de tradicao para um contexto economico e social diferente. 
Como veremos, o fracasso em reproduzir tal integracao contribuiu para as 
dificuldades encontradas nas tentativas de enraizar a qufmica no Brasil. 

M as a presenca alema nao era exclusiva. Um levantamento detalhado dos 
professores de qufmica e dos autores de livros dessa materia, feito por Heinrich 
Rheinboldt, mostra uma longa lista de nomes nao-germanicos nas escolas de medicina 

20 

eengenharia do pais, alguns deles considerados originais e muito competentes. 

Institute de Qufmica do Rio de Janeiro foi a primeira instituicao dedicada 
especificamente a essa materia. Foi organizado como um centra de pesquisa e 
treinamento, que deveria organizar "cursos estritamente cientfficos para treinar 
qufmicos profissionais", alem de cursos breves para os nao especial istas, ensinando 

21 

"certos aspectos da quimica aplicada para uso da industria e do comercio." Esses 

cursos, que tiveram vida curta, inspiraram eventualmente a criacao de varios outros 
cursos de qufmica industrial em todo o pafs. Em 1920, o governo ofereceu um 



20 Um desses professores era Alvaro J oaquim de Oliveira, engenheiro militar e autor de 
Apontamentos de Qufmica, livro que Rheinboldt considera "a melhor e mais original obra 
brasileira" nesse campo. Rheinboldt observa que Alvaro de Oliveira foi, com Benjamin 
Constant Botelho de M agalhaes, um dos fundadores da Sociedade Positivista, e talvez por essa 
razao "foi levado a defender a teoria da constancia da Valencia de modo tao unilateral que isso 
deu ao seu livro um traco peculiar. As obras de Alvaro de Oliveira merecem a atencao de um 
filosofo qualificado !" A posicao de Rheinboldt com respeito ao positivismo brasileiro era 
marcada por uma perplexidade cautelosa: "E muito peculiar que essa doutrina — que indica 
claramente os caminhos que devem ser seguidos na futura pesquisa qufmica, o que levou J . H . 
Van't Hoff, por exemplo, a fazer descobertas maravilhosas — nao detonou o que era tao 
necessario no Brasil: a abolicao do velho si sterna de ensino decorado, e o nascimento da 
pesquisa pura. Mas nem mesmo o proprio Alvaro de Oliveira fez uma unica experiencia 
original (Rheinboldt 1955:69). 

21 M athias 1975:17 cita excertos do Decreto quecriou o Instituto. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 12 

subsfdio de 100 contos (na epoca, o equivalente a aproximadamente seis mil libras 
esterlinas) para os cursos que fossem criados em Belem, Recife, Salvador, Belo 
Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro, Sao Paulo e Porto Alegre. Durante algum 
tempo essa lei estimulou o estudo da qufmica nos cursos de engenharia da Escola 
Politecnica de Sao Paulo, nas escolas de engenharia de Belo Horizonte (que contratou 
Schaeffer e von Burgher), de Porto Alegre (que contratou Otho Rothe e E. Schirm) e 
Recife, assim como na Escola Superior de Agricultura e Veterinaria de Niteroi. Antes 
disso, em 1926, a Escola Politecnica de Sao Paulo tinha fundido seus cursos de 
qufmica e engenharia industrial em um curso de engenharia qufmica. Quando o 
financiamento oficial foi extinto, em 1930, essa experiencia praticamente terminou. 
So as instituicoes que tinham iniciado seus programas de qufmica de forma 
independente continuaram a existir. Em 1934, uma nova Escola, a Nacional de 
Qufmica, foi criada no Rio de J aneiro, mas nunca adquiriu o status de uma instituicao 

22 

de pesquisa importante. 

Hoje fica claro que as tentativas iniciais de implantar a qufmica no Brasil 
falharam porque o pafs nao reproduzia a combinacao especial de um solido ambiente 
academico com uma industria qufmica ativa, como acontecia na Alemanha de forma 
tab marcante. A experiencia mostrou que se inexistiam aquelas duas condicoes a 
pesquisa qufmica se beneficiava mais com uma enfase no trabalho academico do que 

23 

na busca de resultados da sua aplicacao. 

A pesquisa qufmica na Universidade de Sao Paulo foi criada por Heinrich 
Rheinboldt em conformidade com a tradicao alema. Rheinboldt tinha chegado ao 



22 Dirigida primeiro por Freitas M achado e depois por Carneiro Felipe, el a estava ligada 
ao Departamento Nacional de Producao M ineral, que manteve o seu curso de qufmica industrial 
ate 1951, quando foi transformado em um curso de engenharia qufmica. A Escola Nacional de 
Qufmica parece ter sido particularmente infensa a influencias externas. A partir de 1939, o 
Laboratorio de Producao Mineral contratou Fritz Feigl, de reputacao internacional, a quern se 
juntou em 1946 Hans Zocher. Jacques Danon, que estudou na Escola Nacional de Qufmica, 
lembra que esses professores estrangeiros nao tinham qualquer influencia na Escola porque 
foram proibidos de ensinar. "A comunidade cientffica brasileira — a comunidade de 
professores, para ser mais exato — era extremamente ciumenta dos privilegios derivados das 
suas catedras, e tinha medo dos indivfduos mais criativos. N ao os culpo, porque compreendo as 
suas condicoes sociais. A presenca de nomes dessa importancia ameacava os que posavam de 
especialistas mas nao tinham criatividade" (entrevista de Danon). A Escola Nacional de 
Qufmica sofreu varias transformacoes nos anos seguintes, mas o ensino da qufmica como 
disciplina independente so foi institucionalizado no Rio de J aneiro com a criacao do Instituto de 
Qufmica da Universidade Federal do Rio dej aneiro, na decada de 1970. 

23 Para Simao M athias, aluno de Rheinboldt na Universidade de Sao Paulo, os cursos de 
qufmica industrial da decada de 1920 fracassaram porque eles se destinavam apenas "ao 
treinamento profissional, nao estavam orientados para estudos neutros de profundidade ou para 
a pesquisa original" (M athias 1975:21). Este seria o objetivo do departamento de qufmica da 
U niversidade de Sao Paulo. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 13 



24 
Brasil em 1934, e ja era entao um cientista experiente. Estava acompanhado de 

Heinrich Hauptmann, que completara seu doutorado em qufmica sob Fritz Strauss, 
tendo trabalhado em Gottingen com Adolf Windaus, que recebeu o Premio Nobel de 
qufmica em 1928 pel a descoberta do colesterol, e por Herbert Stettiner, doutorado 
pela U niversidadede Berlim em 1928. 

O departamento de qufmica da Faculdade de Filosofia adquiriu renome pela 
orientacao pratica, sistematica e empfrica que Ihe imprimiu Rheinboldt e a sua equipe. 
Lembra Walter M ors que "os primeiros grupos de estudantes eram muito pequenos. 
Eu fui da terceira ou quarta geracao, e eramos vinte e quatro. Vivfamos nos 
laboratories, das oito da manna as seis da tarde, e so os deixavamos para assistir as 

25 

aulas." Rheinbolt dava as aulas teoricas e experimental s, e ensinava quimica geral, 
inorganica e analftica, com a assistencia de Stettiner. Hauptmann estava incumbido do 
trabalho pratico e do ensino da qufmica ffsica, organica e biologica. 

Rheinboldt sempre se referia ao seu departamento como "o Institute", 
seguindo a tradicao alema, e se conduzia de acordo a isto. Alem da licenciatura em 
qufmica para professores secundarios, oferecia tambem um doutorado para os que 
pudessem apresentar uma dissertacao baseada em um projeto original de pesquisa, sob 
a direcao de um professor. Dois dos quatro primeiros alunos, Simao M athias e 

27 

Pascoal Senise, obtiveram seu doutorado eforam contratados pelo departamento. 

A prinefpio os departamentos de ffsica e qufmica estavam sediados na Escola 
Politecnica, mas como nao foram bem recebidos, mudaram-se para a secao de 

28 

farmacia da Faculdade de M edicina. M as la a situacao era ainda pior. Pouco depois 
o departamento foi instalado em um predio provisorio da alameda Glete. 



24 Heinrich Rheinboldt nasceu em Baden e formou-se em qufmica e geologia pelo 
Instituto Tecnico de Karlsruhe; tinha um doutorado em Estrasburgo sob a orientacao de W. 
Wedekind. Em 1927 ja dirigia o departamento de qufmica analftica e inorganica da 
Universidade de Estrasburgo, e em 1928 ensinou no Instituto de Qufmica de Bonn como 
extraordinarius. 

25 E ntrevi sta de M ors. 

26 M athias 1975:11. 

27 Acredita-se que Simao M athias recebeu o primeiro tftulo de doutor concedido pela 
U niversidade de Sao Paulo. 

28 M athias lembra que "quando estava sendo construfdo um novo laboratorio de 
qufmica, os estudantes de medicina fizeram um protesto: ' Nao queremos filosofos na 
Faculdade de Medicina !' Para eles nos eramos os filosofos da Faculdade de Filosofia. Uma 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 14 

A hostilidade das escolas profissionais nao impediu o departamento de 
qufmica de formar bons qufmicos. Na verdade, os estudantes de qufmica formados 
pela Faculdade de Filosofia foram considerados a melhor geracao de qufmicos 
profissionais ja graduada no Brasil, e nao tinham dificuldade em encontrar emprego 
no numero cada vez maior de industrias brasileiras e multinacionais que eram 
instaladas em Sao Paulo e em outras cidades. Isso nao significa que houvesse 
qualquer tipo de relacionamento entre o departamento e alguma agenda de 
planejamento economico ou industrial, ou entre o departamento e o setor privado. 
Com excecao da epoca da guerra, quando o departamento ajudou a desenvolver os 
cristais de quartzo para o projeto de sonar, quase nao havia contato direto entre os 
seus professores e a industria ou as agendas govemamentais. O que contrariava a 
experiencia alema, e portanto era considerado uma coisa ruim. 

A situacao foi assim descrita por Simao M athias: 

"Se olharmos para os departamento de qufmica importantes na Alemanha e em outros 
pafses, depois da Segunda Grande Guerra (ou mesmo depois da Primeira Grande 
Guerra, nos Estados Unidos), veremos que eles mantinham intensos contatos com as 
industrias. Havia sempre contratos ou outras formas de colaboracao entre os industrials 
e os cientistas. Esta e uma antiga tradicao alema que foi adotada pelos americanos. 
Infelizmente, aqui [no Brasil] isso nunca foi entendido. Nossas leis, que prescrevem o 
tempo integral, profbem esses arranjos. No nosso pafs ninguem jamais favoreceu os 
contatos entre a industria e a ciencia. Quando eu era diretor do departamento de 
qufmica [da Universidade de Sao Paulo] procurei varias vezes a Federacao das 
Industrias, procurando algum tipo de integracao, mas sem sucesso." 

problema nao se limitava a incompreensao ou a regulamentacao rfgida do 
trabalho em tempo integral: 

"A maior parte das nossas industrias qufmicas sao controladas por empresas 
multinacionais ou sao associadas a el as. Essas industrias tern seus proprios laboratories 
nos pafses de origem, e nao estao interessadas em fazer pesquisa cientffica no Brasil ... 
O pafs precisa criar sua propria tecnologia, relevante para a nossa realidade, em vez da 
transferencia de tecnologia dos pafses mais avancados, que nos obrigam a usar um 
si sterna desenvolvido por eles." 

Nao so as industrias viravam as costas para os departamentos de qufmica, mas 
o proprio governo fazia o mesmo: "Nunca tivemos projetos de pesquisa aplicada bem 
definidos. J amais recebemos para pesquisar projetos bem definidos. U m exemplo e o 
alcool. Agora o governo despertou e descobriu que o alcool pode substituir o petrol eo. 
Nos, qufmicos, ha seculos que sabfamos disso." No entanto, esse isolamento nao 
parece ter prejudicado a qualidade da pesquisa desenvolvida na Universidade de Sao 
Paulo. "Os fenomenos qufmicos nao conhecem fronteiras. Eles acontecem aqui como 



noite alguem pos fogo nos andaimes, e foi o fim do departamento de qufmica na Faculdade de 
M edicina" (entrevista de M athias). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 15 

em outros planetas, como estamos aprendendo hoje com a astroffsica. Todo o nosso 
trabalho cientffico esta sendo publicado em revistas intemacionais e acrescenta ao 

29 

conhecimento existente nesse campo cientifico." 

Em outras palavras, os pesquisadores de qufmica na Faculdade de Filosofia 
sonhavam com um trabalho muito mais aplicado, mas seu relativo sucesso pode ser 
explicado pelo fato de que, querendo ou nao, eles orientavam seu trabalho para a 

pesquisa basica. Os equfvocos implicitos nas frustrates de Mathias com o seu 

departamento foram captados por Joseph Ben-David no texto que escreveu em 1976, 
depois de uma curta visita ao Brasil, sobre a comunidade cientffica brasileira e sua 
frustracao a respeito da pesquisa aplicada: 

"No longo prazo, limitar a pesquisa e o treinamento as exigencias de problemas 
definidos tecnologicamente seria muito ineficiente. As pessoas treinadas com esses 
objetivos teriam grande dificuldade em aprender novas tecnologias, e a pesquisa dessa 
forma limitada em pouco tempo ficaria obsoleta. Novas necessidades tecnologicas 
exigiriam novos pianos de treinamento e pesquisa, e o amadurecimento desses pianos 
normalmente seria mais lento do que o aumento das necessidades. ... Contrariando o 
mito de que os pafses em desenvolvimento nao tern condicoes de fazer ciencia pura, e 
devem ajustar seus i nvesti mentos em pesquisa e treinamento a metas economicas 
precisas, para eles isto seria a coisa mais irrazoavel a fazer. Como eles tern grandes 
incertezas sobre o rumo futuro do seu desenvolvimento economico e tecnologico, ao 
submeter seus esforcos a consideracoes estreitas provavelmente as orientarao mal, 

desperdicando-as." 

Rheinboldt e Hauptmann mantiveram no Brasil os interesses de pesquisa que 
tinham sido definidos na Alemanha. O primeiro trabalhava no "estudo dos compostos 
organicos e moleculares do enxofre, e mais tarde dos compostos organicos do selenio 
etelurio". Hauptmann examinava a composicao dos produtos naturais encontrados no 
Brasil, inclusive a qufmica do cafe. A pesquisa sobre produtos naturais foi 
desenvolvida por Walter B. M ors, que estudou com Hauptmann e em 1943 ingressou 
no recem criado Instituto Agronomico do Norte, em Belem --- uma das varias 



29 Entrevista de M athias. 



30 A competencia profissional e os altos padroes desenvolvidos por Rheinboldt e o seu 
grupo sao indiscutfveis. No entanto, e possfvel que eles nao estivessem tao atualizados na sua 
disciplina como os colegas quetrabalhavam no campo da ffsica. M athias lembra que o curso de 
Hauptmann sobre a fisico-qufmica, na Universidade de Sao Paulo, era "um desastre". Paulus 
Pompeia, um ffsico, diz que Rheinboldt e Hauptmann "eram grandes qufmicos, mas do seculo 
dezenove". "Os alemaes tinham avancado muito na qufmica classica, mas nao sabiam ffsica, 
nao conheciam a mecanica quantica, nao sabiam a parte ffsica da qufmica. Creio que esse era 
um problema peculiar a Alemanha, porque em outros lugares os qufmicos trabalhavam bem 
perto dos ffsicos" (entrevista de Mathias). Provavelmente por esta razao varios jovens 
talentosos que vi eram estudar qufmica na Universidade de Sao Paulo, como Jose Israel Vargas, 
nao encontravam ali as respostas intelectuais que estavam buscando, e logo se transferiam para 
o departamento de ffsica. 

31 Ben-David 1976:17-8. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 16 

estacoes de pesquisa agrfcola estabelecidas pelo M inisterio da Agricultura. O Instituto 
se interessava, entre outras coisas, pela borracha natural, produto que naqueles dias 
tinha importancia militar, e essa pesquisa era fortemente apoiada pelo governo norte- 
americano. Mors pesquisava as propriedades de uma planta conhecida localmente 
como timbo, que produzia uma substancia utilizada em inseticidas, e que tambem 
tinha importancia estrategica. M ais tarde ajudou a organizar o Instituto de Qufmica 
Agrfcola do Rio de Janeiro, que era tambem um ramo do M inisterio da Agricultura, 
desmantelado por Decreto de 1962 1 . 

G leb Wataghin e a ffsica dos raios cosmicos 

A ffsica moderna teve infcio no Brasil na Faculdade de Filosofia, Ciencias e 
Letras da U niversidade de Sao Paulo, com a ffsica das partfculas subatomicas, que, ao 
contrario da qufmica e das ciencias biologicas, nao apresentava qualquer resultado ou 
aplicacao pratica. Nas decadas seguintes, porem, surgiria a oportunidade de 
demonstrar o seu valor pratico, e a ffsica se tornaria um dos campos de pesquisa mais 

produtivos do Brasil. 

A pesquisa ffsica no Brasil teve infcio com Gleb Wataghin, que tinha sido 
convidado por Teodoro Ramos para a U niversidade de Sao Paulo por intermedio de 
Enrico Fermi. Juntamente com Francesco Cerelli, da Academia Italiana de Ciencias, 
Fermi ajudou a localizar candidates adequados. Wataghin era um dos nomes 
sugeridos; o outro era o matematico Luigi Fantappie, que na epoca tinha so vinte e 

nove anos. Wataghin nao integrava o grupo dos maiores ffsicos da Europa, mas nao 

estava longe deles; conhecia os ffsicos mais importantes, compreendia o seu trabalho 



1 O Instituto de Qufmica Agrfcola desenvolveu um grupo importante de pesquisa sobre 
a qufmica dos produtos naturais, com a cooperacao de Carl Djerassi, da Wayne State 
University, e depois de Stanford, que antes tinha dirigido as atividades de pesquisa da Syntex 
Corporation (Syntex tinha as patentes para a producao de hormonios usados nas pflulas de 
controle da natalidade, extrafdo de cactos mexicanos). Depois de 1962, Otto Gottlieb, um dos 
membros do grupo, foi organizar o departamento de qufmica da nova Universidade de Brasflia, 
enquanto M ors criava um centra de pesquisa sobre produtos naturais na Faculdade de Farmacia 
do Rio de J aneiro, incorporada mais tarde ao departamento de qufmica da U niversidade do Rio 
de Janeiro. 

33 Para uma historia detalhada do desenvolvimento da ffsica moderna no Brasil vide R. 
G. F. Pinto 1978. 

34 Cerelli tinha estado previamente no Brasil, e discutira com Armando de Sales 
Oliveira o projeto da nova Universidade. Wataghin soube que Fermi havia sugerido o seu 
nome, e a princfpio teve uma reacao negativa. Foi quando Teodoro Ramos o convidou "em 
Roma, onde fomos a um restaurante famoso — Via del I a Scrofa — onde a pasta era comida 
com colheres egarfos de ouro puro" (entrevista de Wataghin). Por fim ele concordou. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 17 

e identificava temas de pesquisa adequados para ele e para os seus estudantes. Em 

1927 participou de uma conferencia internacional de ffsica em Como, na Italia, 
familiarizando-se com os ffsicos mais conhecidos do seu tempo. Em 1930 publicou 
urn artigo no Zeitschrift fur Physik a respeito das forcas e partfculas nucleares, que foi 
debatido na conferencia de Solvay daquele ano e provocou uma troca de cartas com 
Enrico Fermi. Em 1931 Wataghin comecou a estudar os raios cosmicos (linha de 
investigacao iniciada em 1921 por Robert M ilikan, nos Estados Unidos, econtinuada 
por Arthur Compton) e publicou seu primeiro artigo sobre a relatividade. Em 1933 
Wataghin viajou pela Europa, passando alguns meses em contato com Lord 
Rutherford, em Cambridge, e algumas semanas em Copenhague com Niels Bohr --- 

experiencias que marcariam sua vida como cientista. 

A princfpio Wataghin e Fantappie partilharam um pequeno escritorio no 
terceiro andar da Escola Politecnica. "Tfnhamos que dar um curso complete 
Fantappieensinava todas as materias matematicas, e eu a ffsica experimental e teorica 
e a mecanica teorica. Davamos muitas aulas. Alem disso, fui instrufdo a montar um 
laboratorio experimental. Sempre preferi a teoria, mas podia comecar com os raios 

cosmicos, a alta energia. E para isso podia usar um laboratorio." Entre seus 



35 Wataghin nasceu em Odessa e completou o curso secundario na Russia. Seu pai era 
um oficial engenheiro do exercito russo, e depois da revolucao, em 1919, toda a famflia 
emigrou para a Italia. Em Turim Wataghin fez traducoes do russo para o esperanto, ensinou 
latim e matematica e trabalhou na industria cinematografica. Em 1922 obteve um doutorado em 
ffsica pela Universidade de Turim, e em 1924 foi contratado como assistente pela Escola 
Politecnica daquela Universidade. Cinco anos depois recebia do Ministerio da Educacao da 
Italia a qualificacao de livre-docencia em ffsica teorica, com a licenca para ensinar mecanica 
racional e ffsica avancada. 

36 "Da minha epoca em Cambridge lembro-me especial mente de dois tipos de eventos. 
Em dois ou tres domingos fui convidado para tomar cha em casa de Rutherford. Todos vieram, 
conheci Geiger e fiz amizade com Dirac. Essas reunioes me davam uma ideia da sociedade 
inglesa, que naquela epoca era muito exclusiva. Na reuniao havia nao so cientistas mas tambem 
senhoras. Para mim, essas ocasioes eram uteis e extremamente interessantes." Os outros 
eventos eram as reunioes semanais do chamado Clube Kapitza. "Kapitza era um cidadao 
sovietico e trabalhava em estreito contato com Rutherford. Ele e quatro ou cinco anos mais 
velho do que eu, o que significa que na epoca teria trinta e seis ou trinta e sete anos ... Fizemos 
amizade — os dois somos russos — e costumavamos jogar xadrez. Acho que ele quase sempre 
ganhava, mas isso nao importava. O importante era a amizade, a conversa..." A proxima escala 
foi Copenhague: "Pela primeira vez encontrei pessoalmente Bohr. Havia tambem Heitler, 
Heisenberg, Pauli ...A reuniao era presidida por Pauli, e Bohr me convidou a apresentar minhas 
ideas. Todos foram contra mim, porque eu acreditava que os raios cosmicos tern varias fontes." 
De Copenhague Wataghin foi para Leipzig, onde Heisenberg trabalhava em um perfodo de 
grande excitacao. La encontrei J ordan, Debye, M ax Born — que acabara de chegar a cidade — 
e Ettore Majorana, muito jovem, que me impressionou como um autentico genio, que na 
verdade ele era" (entrevista de Wataghin). Com a excecao do seu artigo da conferencia de 
Solvay, Wataghin era um desconhecido, e sempre se impressionou com a informalidade e a 
cordialidade com que foi recebido por essa pequena elite. 

37 Entrevista de Wataghin. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 18 

primeiros alunos na Politecnica estavam M ario Schenberg, J ulio Rabim, Candido da 
Silva Dias e Cavalcante A Ibuquerque. Entre 1937 e 1942 Wataghin desenvolveu duas 
linhas de pesquisa: a primeira em ffsica teorica, com Schenberg, Abraao de Morais e 
Waltger Schutzer; a segunda sobre os raios cosmicos, com M arcelo Damy de Souza 
Santos, Paulus Pompeia e Yolande M onteux. 

Wataghin era sobretudo um ffsico teorico, e entre 1934 e 1936 publicou 

varios trabalhos teoricos sobre a estatfstica das partfculas leves em alta temperatura e 
sobre el etrod in arnica relativista e quantica. Seu melhor aluno de ffsica teorica foi 
provavelmente M ario Schenberg. Este tinha chegado a Sao Paulo vindo de Recife, 
onde estudara com Lufs Freire, e logo ficou claro que era dotado de um talento 
extraordinario para a matematica e a ffsica. Em 1936 Schenberg viajou para Roma, 

39 

onde trabalhou com Fermi durante dois anos. Em 1939 foi convidado por George 

Gamow, que estivera no Brasil, a trabalhar com na U niversidade George Washington, 
e juntos desenvolveram uma teoria astroffsica que se tornou conhecida como o 
"processo Urea" --- referenda ao cassino da Urea, no Rio de Janeiro Mais tarde 
passou algum tempo no Centra para Estudos Avancados de Princeton e no 
Observatorio Astronomico Yerkes, com Subramanyan Chandrasekhar, voltando ao 
Brasil em 1942. Em 1944 foi nomeado para a catedra de mecanica racional da 
Faculdade de Filosofia da U niversidade de Sao Paulo. 

Desde que se graduou, em 1937, M arcelo Damy, que tinha trocado a 
engenharia pela ffsica, foi o principal assistente de Wataghin nos trabalhos 

experimentais. A pesquisa se intensificou em 1938 com a chegada de Giuseppe 

Occhialini, que tinha estudado em Cambridge com Patrick M. Blackett. Segundo 



38 M arcelo Damy observa, contudo, que "Wataghin era um ffsico teorico com um 
grande interesse pelo lado experimental. Ele sabia perfeitamente que a teoria precisava basear- 
se em fatos, porque a ffsica e uma ciencia natural ... M as nao era um ex peri mental ista; nao era 
uma pessoa que projetasse equipamentos, os fabricasse e ajustasse para a pratica da observacao. 
Sua contribuicao estava no planejamento das experiencias e na analise dos seus resultados" 
(entrevista de Damy) 

39 Wataghin lembra que "Schenberg voltou uma pessoa diferente, e tinha aprendido 
muito mais do que eu Ihe poderia ter ensinado. A partir desse momento nos colaboramos um 
com o outro; ele desenvolveu um belo trabalho sobre os raios cosmicos e comecou depois a 
trabalhar em eletrodinamica, sob a direcao de Dirac. Tinha aprendido muito em Roma, e decidi 
que nao tinha muito mais a aprender de mim, edevia voltar a viajar" (entrevista de Wataghin). 

40 "Comecei a trabalhar com os problemas relativos aos raios cosmicos, que exigiam 
tecnologias muito especiais. Assim, por exemplo, todas as observacoes eram feitas com 
equipamentos baseados em circuitos eletronicos. A radiacao era detectada com os famosos 
contadores Geiger-M uller, que na epoca nao eram muito conhecidos. Mas no mercado nao 
havia circuitos eletronicos para detetores de radiacao; o ffsico precisava planejar e fabricar seus 
proprios circuitos, construir o detetor com as proprias maos, para entao usa-lo na pesquisa que 
queria fazer" (entrevista de M arcelo Damy). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 19 

Damy, foi ele que introduziu no Brasil a tradicao de ffsica experimental que vinha 
sendo desenvolvida por J.J. Thompson e Lord Rutherford, e teve infcio assim uma 
nova serie de experiencias com raios cosmicos. No fim de 1938 Damy recebeu uma 
bolsa do governo ingles para Cambridge. "Em Cambridge trabalhei com Sir Henry 
Bragg e seu filho, William Lawrence Bragg, que como o pai tinha recebido um 
premio Nobel. William Bragg era um especialista em raios-X, e eu tinha um outro 
supervisor de pesquisa, o Professor H. Carmichael. Carmichael era o especialista em 
raios cosmicos de Cambridge, e trabalhara com Walter Heitler e H. Bhaba, ambos 

41 

muito famosos, ganhadores do premio Nobel." Com a guerra, os cientistas de 

Cambridge se envolveram na pesquisa para desenvolver o radar, e Damy foi 
convidado para permanecer na Inglaterra e juntar-se ao grupo, pois a nova tecnologia 
exigia medicoes muito precisas. Houve contatos oficiais entre o F oreign Office ingles 
e o Ministerio das Relacoes Exteriores do Brasil sobre essa possibilidade, que o 
governo brasileiro nao aceitou, eem 1940 Damy retomou ao Brasil. 

No princfpio de 1939 Damy foi substitufdo como assistente de Wataghin por 

Paulus A. Pompeia, formado pela Escola Politecnica de Sao Paulo em 1935. 

Wataghin, Occhialini e Pompeia iniciaram uma serie de estudos sobre os raios 
cosmicos, usando avioes da Forca Aerea Brasileira voando a sete mil metros de altura. 
A convite de Arthur Compton, Pompeia foi para os Estados Unidos em 1940, e 
trabalhou dois anos sob a supervisao de Norman Wilberg (que mais tarde dirigiu o 
Laboratorio Argon, de Chicago), desenvolvendo circuitos eletronicos e novas tecnicas 
de medicao. 

Em 1941 Compton organizou uma expedicao a America do Sul para medir o 
impacto dos raios cosmicos nos Andes bolivianos e na regiao de Sao Paulo, e 
Pompeia retomou ao Brasil para preparar o evento, com Wataghin e Damy. Eles 
trabalharam com baloes estratosfericos e Wataghin demonstrou a existencia de 
"chuvas penetrantes" de raios cosmicos, que evidenciavam a producao multipla de 
mesons. Em 1942 Compton foi nomeado para dirigir o M etallurgical Laboratory, que 
estava trabalhando no projeto da bomba atomica, e Pompeia regressou ao Brasil. Com 
todos os mais importantes grupos cientfficos da Inglaterra e dos Estados Unidos 
envoi vidos no esforco de guerra, Wataghin e seus companheiros foram durante algum 
tempo os unicos a trabalhar com os raios cosmicos. Pouco tempo depois, contudo, os 
brasileiros tambem seenvolveriam com a tecnologia militar. 



41 Entrevista de M arcelo Damy. 

42 Entre 1935 e 1938 Paulus Pompeia tinha trabalhado como assistente de Fonseca 
Teles no Instituto de Eletrotecnica, onde organizou um laboratorio para medicoes ffsicas. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 20 

O esfor^o de guerra 

M arcelo Damy lembra que "um ou dois meses depois do meu regresso da 
Inglaterra, Paulus Pompeia e eu fomos procurados pela Marinha brasileira sobre a 
possibilidade de desenvolver equipamentos para detectar a presenca de submarinos. ... 
Tivemos muitos navios torpedeados por submarinos alemaes e italianos, e nao 
tfnhamos qualquer equipamento para detecta-los. Embora o Brasil setivesse unido aos 
Aliados na guerra, nao so nao recebeu os novos sonares e radares como os brasileiros 
nao podiam sequer se aproximar dessas instalacoes militares ultra secretas. Antes, 
tfnhamos sido procurados tambem pelo exercito, que estava fabricando projeteis para 
canhao com polvora fabricada no Brasil, e era preciso criar metodos para medir a 
velocidadedesses projeteis. Essefoi a nossa primeira tarefa militar." 2 

Nos dois casos citados os fisicos foram abordados depois que as autoridades 
perceberam que ninguem mais no Brasil podia executar esses projetos: 

"Quando recebemos essa incumbencia da Marinha deixamos claro a pessoa 

responsavel, o Almirante Guilherme Bastos Pereira das Neves, que nao tfnhamos 

experiencia com problemas navais e com a deteccao de submarinos, pois nao 

passavamos de 'filosofos' trabalhando com raios cosmicos. M as para poder estudar os 

problemas de ciencia basica eramos obrigados a empregar metodologias nao 

convencionais afim de demonstrar a existencia de certos fenomenos. Portanto, 

estavamos acostumados a enfrentar o desconhecido, e a tratar com ele. Acreditavamos 

assim que, pelo menos do ponto de vista psicologico, tfnhamos a atitude adequada para 

examinar o problema. Alem disso, pensavamos que ele nao seria excessivamente 

diffcil. Ha um numero razoavel de publicacoes sobre as tecnicas utilizadas para a 

deteccao de submarinos na Primeira Guerra Mundial. Nosso problema nao nos 

obrigava a descobrir novas leis da natureza, mas a redescrobir, por assim dizer, as 

condicoes em que um fluxo de ultra-som podia ser emitido e recebido de volta, e como 

44 
medir o interval o de tempo transcorrido para identificar a posicao do submarino." 

Para o exercito Pompeia desenvolveu um instrumento que podia medir a 

45 

velocidade inicial dos projeteis com uma precisao de 0,4 por cento. Ele e Damy 

desenvolveram tambem radios portateis para os jipes e caminhoes do exercito. Os 
projetos mais i nteressantes, porem, eram os da M arinha. O primeiro produto foi um 
instrumento que podia ouvir o som dos helices de um submarino. Mais tarde 
desenvolveram um equipamento para enviar um feixe de ultra-som, mas nao 



2 Entrevista com Damy. 

44 Entrevista de M arcelo Damy. 

45 "A medicao de pequenos interval os de tempo era completamente desconhecida dos 
engenheiros brasileiros — isto eu sabia por ter trabalhado nos Estados Unidos com a medicao 
da meia-vida dos mesons, que tinha uma magnitude de microssegundos. Tratava-se de uma 
tecnologia muito especializada e muito nova ... Construfmos um equipamento que media o 
tempo que o projetil levava para atravessar dois feixes luminosos" (entrevista de Pompeia). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 21 

conseguiram captar o seu eco. Depois conseguiram chegar a um sonar complete que 
na versao final tinha um transmissor com 400 cilindros de nfquel soldados em uma 
base de aco que precisava girar continuamente. O eco era captado por um detetor de 
cristal. Um problema especial, que foi resolvido pelo departamento de qufmica da 
Faculdade de Filosofia, era a fabricacao de cristais de quartzo do tamanho adequado. 
Damy e Pompeia desenvolveram um termostato especial, eu funcionava com a 
dilatacao da gasolina, para controlar a temperatura do arrefecimento do cristal. 

Desenvolver esses equipamentos, na epoca completamente desconhecidos no 
Brasil, exigiu que uma serie de problemas tecnicos fossem resolvidos, mediante a 
incorporacao ao processo de novos especialistas e instituicoes — tais como o Liceu de 
Antes e Offcios, o Institute de Pesquisas Tecnologicas e o Institute de Eletrotecnica, 
todos em Sao Paulo. Oitenta sonares foram construfdos para a Marinha, com pecas 
fornecidas por vinte e duas industrias, que ignoravam o seu destino final. Os sonares 
eram montados no ediffcio da Faculdade de Filosofia, na avenida Brigadeiro Lufs 
Antonio, por Damy, Pompeia e dezoito tecnicos especial izados. 

Depois da guerra a Marinha terminou sua cooperacao com os ffsicos da 
Universidade de Sao Paulo, que retornaram a seus trabalhos academicos e cientfficos. 
M as o know-how tecnologico desenvolvido pelo grupo tinha sido transmitido a outras 
instituicoes e empresas, que comecaram a fabricar equipamentos eletricos e outros 
produtos sofisticados para o mercado consumidor do pos-guerra. A medida que a 
economia do pais se abria, porem, essas industrias, com poucas excecoes, foram 
inviabilizadas pelas importacoes, ou adquiridas por empresas estrangeiras que se 

4-1 '46 

instalavam no pais 

Desenvolvimentos do pos-guerra 

A guerra fez com que F antappi e retornasse a I tal i a, mas nao W ataghi n, que era 
um expatriado do seu pafs adotivo. No entanto, para os brasileiros Wataghin era 
italiano o bastante para mante-lo afastado dos projetos militares desenvolvidos por 
Damy e Pompeia. Ele precisou deixar a chefia do departamento deffsica da Faculdade 
de Filosofia, mas continuou seus projetos de pesquisa, com a ajuda de Oscar Sala e 
Elza Gomide. Sala ingressou na Universidade em 1942, e foi imediatamente 
convocado para ajudar a expedicao Compton. 

Sala lembra que quando Wataghin o convidou para participar do seu estudo 
sobre os raios cosmicos, o departamento de ffsica da Universidade de Sao Paulo ja 



46 Leff 1968. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 22 

tinha interrompido todos os projetos de pesquisa academica. Seu primeiro problema 
foi reconstruir todos os equipamentos "mais sofisticados do que os usados antes por 

47 

Damy e Pompeia" A principio Wataghin e Sala, que trabalhavam com poucos 

recursos e escasso apoio, instalaram seus equipamentos no sotao da Faculdade de 
Medicina, e depois os transferiram para uma garagem em um pequeno hotel de 

Campos do Jordao. 

Depois da guerra, com M arcelo Damy dirigindo o departamento de ffsica, a 
Fundacao Rockefeller doou US$75,000 ao departamento para que adquirisse um 
acelerador de partfculas nos Estados Unidos. Damy e Wataghin viajaram aos Estados 
Unidos para escolher o equipamento, e se decidiram por um betraton de 23 
megawatts. Damy permaneceu em Illinois durante um ano, trabalhando com Donald 

49 

W. Kerst nesse betraton Ao se graduar, em 1945, Sala foi convidado para trabalhar 

como assistente de Damy, e viajou a Illinois em 1946, com Paulo Bittencourt, tambem 
com apoio da Fundacao Rockefeller, para trabalhar com M aurice Goldhaber em ffsica 
de neutrons. Em 1948 esteve em Wisconsin para preparar a compra de um novo 
equipamento para a Universidade de Sao Paulo: um acelerador eletrostatico Van der 
G raaf . 

A linha de pesquisas sobre os raios cosmicos desenvolvida por Wataghin foi 
continuada por Cesar Lattes, que entre 1941 e 1943 estudou na Faculdade de 
Filosofia, tendo trabalhado com Occhialini, que tambem ficou no Brasil durante a 
guerra. Em 1944 a Universidade o contratou como terceiro assistente da cadeira de 
ffsica teorica e matematica, e ele mais tarde se envoi veu com o trabalho experimental. 
Em 1945, Occhialini, que no ano anterior se tinha transferido para a U niversidade de 
Bristol, convidou Lattes para se juntar a ele. Em Bristol, Lattes trabalhou com 
Blacket, Conversi, Pancini e outros, sob a direcao geral de Cecil Powell. Depois de 
Bristol, Lattes foi convidado a apresentar os resultados do seu trabalho em 



47 Entrevista deSala. 



48 "Nao havia dinheiro para pagar o transporte e minhas despesas em Campos do 
Jordao. Wataghin pagava essas despesas do seu bolso, ou entao pedfamos auxflio a pessoas 
ricas e conhecidas. Certa vez Wataghin foi falar com o governador de Sao Paulo, Ademar de 
Barros. Wataghin era uma pessoa entusiastica, e nessa conversa (que eu nao presenciei, ouvi a 
historia mais tarde) o governador ficou muito impressionado, abriu uma gaveta, tirou um pacote 
de notas e perguntou: "Professor, de quanta o senhor precisa ?" E uma historia engracada, que 
mostra a opiniao que Wataghin tinha do governador" (entrevista de Sala). E mostra tambem o 
i sol amenta de Wataghin nessa epoca. 

49 A instalacao do betraton proporcionou uma oportunidade para treinar um novo grupo 
de cientistas, que inclufa Jose Goldemberg, R. Pieroni e outros. "Foi o primeiro equipamento e 
permitiu o infcio da ffsica nuclear no Brasil" (entrevista de M arcelo Damy). 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 23 

Copenhague, e em seguida foi para Berkeley, onde George Gardner tinha um 
cyclotron, "com a clara intencao de produzir artificial mente mesons pesados, cuja 

desintegracao devia produzir mesons leves." Em Berkeley Lattes conseguiu 

produzir mesons-pi e demonstrar como eles se desintegravam em mesons-mi e em 

uma nova partfcula, o neutrino. Em 1949 Cesar Lattes voltou ao Brasil para 

organizar no Rio de Janeiro o Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas, de que foi o 
primeiro diretor cientffico. 

Nesse mesmo ano Wataghin voltou a Italia para dirigir o institute deffsica da 
Universidade de Turim. A partir dessa epoca ele so retornaria ao Brasil em ocasioes 
especiais: em 1952, para um curso breve; em 1955 para receber o grau de doutor 
honoris causa da U niversidade de Sao Paulo, e em 1971, quando o Institute de Ffsica 
da nova U niversidade de Campinas recebeu o seu nome. 

Enquanto isso acontecia em Sao Paulo, no Rio de Janeiro se formava uma 
tradicao diferente de pesquisa, embora em menor escala, com os trabalhos de 
Bemhard Gross ejoaquim Costa Ribeiro. 

Gross nasceu na Alemanha, estudou engenharia e obteve seu doutorado no 
Institute Tecnico de Stuttgart, onde fez pesquisas sobre os raios cosmicos. Chegou ao 
Brasil em 1933 e conheceu Dulcfdio Pereira, titular da cadeira de ffsica na Escola 
Politecnica, tendo como assistentes Joaquim Costa Ribeiro, Francisco M endes de 
Oliveira Castro e Eugenio Hime. Foi convidado a apresentar seus trabalhos na 
Politecnica e no Institute Nacional de Tecnologia, criado havia pouco, onde comecou 

52 

a trabalhar. Suas tarefas eram tecnicas e aplicadas, mas ele conseguiu dar inicio a 
seus proprios projetos de pesquisa. 



50 E ntrevi sta de C esar L attes. 



51 J ose Leite Lopes descreve assim o trabalho de Lattes em Berkeley: "U ma realizacao 
importante na ffsica, a descoberta dos pfons e a desintegracao do pfon-muon, assim como o 
trabalho de Marcello Conversi e seus associados, na Italia, sobre a captura de mesons na 
radiacao cosmica, marcaram o nascimento da ffsica das partfculas como um campo 
independente da ffsica nuclear, depois de anos de realizacoes cientfficas limitadas, durante a 
Segunda Guerra M undial" (Lopes 1988:2). 

52 "Estava completamente so em uma sala que tinha ... bem, era uma sala vazia. Eles 
ainda nao possufam uma divisao de ffsica. Ou seja, ela existia no papel, e o diretor era Anfbal 
de Souza, que depois se transferiu para o departamento de propriedade industrial. No institute 
ele nao fazia nenhum trabalho de ffsica; estava mais interessado em patentes e coisas desse tipo. 
No comeco eu tomei emprestado alguns equipamentos eletricos do Observatorio Nacional, que 
tinham si do comprados por Henrique M orize. Precisava de uma fonte de alta tensao, e consegui 
uma bateria de 500 volts. Havia tambem um galvanometro. Nao tenha idea de como o 
conseguimos" (entrevista de Gross). Com esses instrumentos, Gross comecou a trabalhar. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 24 

"Em 1934 a companhia de eletricidade local queria medir a resistencia eletrica dos 
cabos telefonicos e da sua insulacao. Comecamos a fazer essas medicoes. Os cabos 
apresentavam um fenomeno que me tinha fascinado na Alemanha, juntamente com os 
raios cosmicos: o que se conhecia como absorcao dieletrica. Comecamos a medir com 
instrumentos muito simples. A medida que o trabalho progredia, iniciamos tambem 
estudos teoricos, e os artigos produzidos naquela oportunidade de certa forma ainda sao 

validos, porque o assunto continua a ser tao relevante como naquela epoca." 

Em 1937 Gross se tomou diretor da recem criada divisao de normas do 
Instituto, incumbida de definir legal mente os padroes de para pesos e medidas. Sendo 
alemao, em 1942 foi substitufdo como diretor por Oliveira Castro. Durante a guerra 
Gross teve um papel secundario no esforco de guerra, que incluiu o desenvolvimento 
de um mecanismo de relojoaria para a detonacao de granadas. Colhido pelas 
circunstancias, continuou as pesquisas de seu interesse, e em 1942 identificou um 
fenomeno que chamou de "congelamento" da corrente eletrica nos eletretos. O 
trabalho que realizou entre 1942 e 1945 foi publicado em tres artigos no J ournal of 
Applied Physics (1947, 1948 e 1949). Depois da guerra Gross continuou a trabalhar 
no Instituto Nacional deTecnologia, desempenhando varias funcoes. 

O mais importante colaborador de Gross, Joaquim Costa Ribeiro, formou-se 
em engenharia pela Escola Politecnica do Rio de Janeiro, e em 1933 foi nomeado 
livre docente. Ocupou a cadeira de ffsica experimental na Universidade do Distrito 
Federal, enquanto Gross tinha a de ffsica geral, sendo assistido por Plfnio Sussekind 
da Rocha. Quando em 1939 a Universidade do Distrito Federal foi fechada, todo o 
grupo se transferiu para a Faculdade Nacional de Filosofia. Costa Ribeiro cooperou 
com Gross em diferentes projetos relacionados com eletretos, e em 1942 demonstrou 
a existencia de um "efeito termo-dieletrico" que ficou conhecido como "efeito Costa 
Ribeiro". Em 1946 Costa Ribeiro assumiu a cadeira de ffsica da Faculdade Nacional 
de Filosofia, onde continuou suas pesquisas e formou um grupo significativo de 
estudantes, que inclufa Paulo Saraiva de Toledo, Armando Dias Tavares, E. 
Rodrigues e Sergio M ascarenhas. Este ultimo, por sua vez, organizou o grupo de 
ffsica do estado solido da Universidade de Sao Carlos, onde Gross iria trabalhar no 
fim da vida. 



Podemos agora propor algumas general izacoes a respeito dessas experiencias. 
Em primeiro lugar, os desenvolvimentos mais bem sucedidos, e mais suscetfveis de 
aplicacao pratica no longo prazo, foram aqueles que contaram com uma orientacao 
academica mais forte. Em segundo lugar, todos eles se beneficiaram com a presenca 



53 E ntrevi sta de G ross. 



Capftulo 6: As rafzes das tradicoes cientfficas - 25 

de imigrantes ou de visitantes estrangeiros --- Wataghin, Rheinboldt, Brieger e 
Dobzhansky --- que sabiam como formar discfpulos e como criar uma tradicao de 
pesquisa. Em terceiro lugar, nao tardaram em mandar seus melhores estudantes para 
os centros internacionais de pesquisa. 

Foram experiencias que levaram a realizacoes e tambem a problemas e 
fracassos, alguns ja vistos, e outros que ainda estariam por ocorrer. De qualquer 
modo, elas deram ao Brasil, e mais especificamente a Universidade de Sao Paulo, 
uma densidade cientffica que nenhuma outra instituicao educacional do pafs chegou a 
ter. Os cientistas vindos dessa U niversidade, junto com os da tradicao de M anguinhos, 
formariam a base para os principals desenvolvimentos ocorridos na ciencia brasileira 
depois da Segunda Guerra Mundial. E impossfvel acompanhar esses 
desenvolvimentos em todos os seus detalhes, e por isto a segunda parte deste livro 
apresenta uma perspectiva ampla da sua direcao geral, alem de discutir os problemas 
atuais e os dilemas para o future 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 7 
A PROFISSIONALIZACAO DA CIENCIA 

Os Pioneiros 2 

Segunda Geracao: Infcios da Profissionalizacao 6 

Segunda Geracao: As Ciencias Exatas 9 

Cientistas M odernos: a Terceira Geracao 11 

Fontes de Apoio Financeiro 16 

A Fundacao Rockefeller no Brasil 19 

Central izacao administrativa e a Pesquisa Cientffica 24 



Instituicoes e comunidades cientificas com estabilidade e escopo para projetos 
e crescimento de longo prazo so podem prosperar quando a sociedade passa a 
reconhecer e aceitar a ciencia como uma profissao. Existia algo desse 
reconhecimento nos velhos museus e algumas outras instituicoes cientfficas 
brasileiras da epoca imperial, mas nada disso sobreviveu na visao pragmatica da 
Republica. Apos a saida do imperador e mecenas, os que quisessem fazer pesquisas 
tinham que lecionar em escolas profissionais, trabalhar em campanhas sanitarias, 
produzir medicamentos, atender pacientes, trabalhar em projetos de engenharia ou 
dedicar-se a lavra de jazidas minerais. Qualquer trabalho cientffico de longo alcance 
so poderia ser realizado nas horas de lazer ou sob o manto de atividades aplicadas. 
Nao era somente a sociedade que deixava de dar o devido valor a ciencia; mas 
tambem os proprios cientistas que, com poucas excecoes, careciam de uma visao clara 
de seu papel e do seu lugar na sociedade. Nas decadas seguintes, com esse papel 
comecando a tomar forma em sua mente, os cientistas passaram a trabalhar para obter 
o reconhecimento da sociedade, e esta luta esta longe deter si do vencida. 

J a vimos, nos capftulos precedentes, diferentes aspectos desse processo. 
Agora, voltamos ao tema atraves de uma comparacao ampla entre diversas geracoes 
de cientistas que deram forma a comunidade cientffica brasileira. Para isto, buscamos 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 2 

organizar as informacoes sobre as carreiras profissionais de cinquenta e seis cientistas 
importantes que foram entrevistados para nosso estudo. 1 E sempre arbitraria a linha 
divisoria entre duas geracoes, mas esta amostragem divide-se naturalmente em tres 
grupos. O primeiro abarca os que nasceram na virada do seculo, que eu chamo de 
pioneiros. O segundo grupo e constituido sobretudo por aqueles que, nascidos dez a 
vinte anos depois, foram encaminhados para as ciencias pela geracao precedente e 
criaram as primeiras instituicoes cientfficas modernas no Brasil. No terceiro grupo, 
incluo os cientistas que estudaram nessas instituicoes e constituem a ponte entre a 
geracao idosa e os dias de hoje. 

Os Pioneiros 

Com poucas excecoes, os cientistas brasileiros da primeira geracao estudaram 
engenharia ou medicina no Rio dej aneiro. Nasceram em famflias educadas, da classe 
media. Seus pais eram pequenos comerciantes, medicos e professores, motivo por 
que a atividade intelectual nao Ihes era estranha. 

Dos quatro nomes nas ciencias ffsicas (ver Tabela 1), somente o primeiro, 
Lelio Gama, teve uma carreira cientffica, no sentido correto da expressao. Graduou- 
se em engenharia, na Politecnica do Rio de J aneiro, e parti cipou mais tarde do grupo 
de matematicos liderados por Otto de Alencar e Amoroso Costa. Lelio Gama 
trabalhou com Henrique Morize, como astronomo no Observatorio Nacional do Rio 
de Janeiro. Um outro membro desse grupo, Francisco Magalhaes Gomes, lecionou 
ffsica na Escola de M inas de Ouro Preto e posteriormente na Escola de Engenharia de 



1 Nao se trata, naturalmente, de uma amostra representativa. Deu-se preferencia a 
pessoas mais idosas, que poderiam dar seu testemunho pessoal sobre os acontecimentos que se 
desenrolaram na parte anterior do seculo. A faixa etaria compreende pessoas nascidas entre 
1892 e 1931 (foram exclufdos desta analise os mais jovens dentre os entrevistados). Existe 
ainda tendenciosidade biologica, uma vez que so pudemos entrevistar as pessoas que estavam 
vivas em 1977. Finalmente, nos preocupamos mais com as ciencias biologicas e ffsico-exatas, 
motivo por que foram exclufdas a matematica, engenharia, medicina, ciencias sociais e as 
humanidades. As tabelas contidas neste capftulo foram publicadas pela primeira vez em 
Schwartzman 1984 a , e suas limitacoes foram reveladas pelos comentarios que provocaram 
(Cruz 1985; Ladosky 1985; Mors 1985; M . da S. Pinto 1985). Por bons ou maus motivos, 
ficaram de fora algumas pessoas que deveriam ter si do inclufdas no estudo, e o mesmo se pode 
dizer do caso contrario. Qualquer listagem com respeito a ciencias biologicas deveria incluir os 
entomologistas Angelo da Costa Lima; os zoologos Ernst e Evenine Marcus, os botanicos 
Frederico Carlos H ohne, Felix Rawitscher e M ario Guimaraes Ferri, em Sao Paulo; J oao Geral 
Khulman, Kurt Brade e Carlos Toledo Rizini, no Rio de Janeiro; eAdolfo Duckeandjoao 
M urea Pires, em Belem. Deveria tambem ser inclufdo um grupo significativo de discfpulos de 
Carlos Chagas Filho, a comecar por Aristides Pacheco Leao. Frota Moreira, o mais jovem 
(tabela 4) fazia parte desse grupo e deveria talvez ter sido inclufdo entre os da geracao seguinte. 
Gottlieb a M ors (Tabela 5), embora um pouco mais velhos, consideram-se da mesma geracao 
que Wladislaw e Giesbrecht. M ors iniciou a sua carreira como pesquisador somente ao final 
dos anos 1940, no Institute de Qufmica Agrfcola do Rio de Janeiro, e Gottlieb tambem 
comecou algo tarde. A geracao mais jovem estaria melhor representada com a inclusao de 
Haiti M oussatche, Walter Oswaldo Cruz, J ohana Dobereiner, M oura Goncalves e Wilson 
Beraldo. De qualquer modo, mesmo essa lista melhorada ainda estaria incompleta. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 3 

Minas Gerais, mas nunca foi realmente um pesquisador, no sentido preciso da 
palavra. Exerceu grande influencia na orientacao de um pequeno grupo de renomados 
cientistas que receberam sua formacao em Sao Paulo e no exterior. Os outros dois, 
Othon Leonardos e M ario da Silva Pinto, foram sobretudo homens de acao e se 
envolveram na criacao de institutes estabelecidas pelo governo brasileiro com o 
proposito de explorar os recursos naturais do pafs. Leonardos foi tambem responsavel 
por uma obra importante na historia das ciencias brasileiras da terra . 

Silva Pinto nao sevea si proprio entre os verdadeiros pioneiros da geologia no 
Brasil, "tais como Glycon de Paiva ou Otavio Barbosa." Ele se descreve sobretudo 
como "tecnologista, gerente e particularmente um especialista em materias primas." 
Considera como secundario e de natureza incidental o seu trabalho em geologia 
aplicada, geografia economica, hidrografia e navegacao. Depois da Segunda Guerra 
Mundial, contudo, ele muito contribuiu para organizar o ensino da geologia e 
estabelecer esta atividade como profissao. Tambem auxiliou na negociacao de 
acordos de cooperacao ente o Brasil e os Departamentos norte-americanos de M inas e 
de Pesquisas Geologicas. 2 

Em comparacao, os biologos dessa geracao mostraram-se de modo geral muito mais 
definidos nas suas atividades cientfficas (ver Tabela 2). Todos estudaram medicina e 
quase todos passaram pelo Instituto Manguinhos, no Rio de \Janeiro, antes de 
prosseguir estudos mais avancados no exterior. Tiveram uma geracao anterior a servir- 
Ihes de modelo, que inclufa Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz e Ezequiel Dias. Sao Paulo 
tambem contava com seu proprio grupo de pesquisa nos campos de doencas tropicais e 
bacteriologicas. Contudo, em contraste com o exemplo de M anguinhos, este grupo nao 
desenvolveu uma tradicao propria de pesquisa nem se manteve atuante por muito 
tempo, embora tenha dado origem ao Instituto Butanta, em que Afranio do Amaral 
desenvolveu sua carreira cientffica e institucional. 

Embora o ensino e a pratica das disciplinas ffsicas e biologicas seguissem os 
moldes franceses, o campo da medicina tropical e da saude publica viram-se muito 
cedo sob a influencia norte-americana, implementada sobretudo pela Fundacao 
Rockefeller, que ja estava presente no Brasil em 1916. Tal influencia fez-se sentir 
nao so diretamente, em campanhas contra a febre amarela e a ancilostomfase, como 
mediante o apoio institucional a Faculdade de Medicina de Sao Paulo, que desde o 
infcio passou a adotar varias caracterfsticas do sistema americano de educacao 
medica, inclusive a Jornada de tempo integral para os professores e a exigencia do 
numerus clausus para a admissao de estudantes. Era estreita a cooperacao entre os 
especialistas em saude da Rockefeller e os de M anguinhos, alem da circunstancia de 
que, por meio deste canal, varios brasileiras da geracao seguinte continuariam a sua 
formacao nos Estados U nidos. 



2 M.daS. Pinto 1985. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 4 

Em resumo, a primeira geracao de cientistas brasileiros foi treinada em cursos 
convencionais de engenharia e medicina. Por algum motivo peculiar, os seus 
membros tinham ligacoes com uns dos pouqufssimos locais no pafs em que existia 
algum tipo de preocupacao cientffica -- o Observatorio Nacional, o Institute 
Manguinhos ou o seu equivalente em Sao Paulo. Embora limitada, ja existia um 
papel social NT de cientista para os biologos da epoca, mas nao para os demais. 
Percebe-se pouco, ou nenhum trabalho de continuacao emanando das velhas 
instituicoes imperiais, tais como o M useu Nacional ou o J ardim Botanico. 

E interessante contrastar esses pioneiros com o grupo de pesquisadores de 
origem estrangeira, da mesma faixa etaria, que aportaram ao Brasil na decada de 1930 
e viriam a exercer consideravel influencia nos meios cientfficos do pafs (ver Tabela 
3). Nascidos por volta da virada do seculo, todos se haviam formado nao nas 
profissoes liberais, mas numa ciencia propriamente dita. Haviam chegado ja com 
seus doutorados completos e alguns tinham mesmo iniciado uma carreira academica e 
cientffica. Sao varias as razoes por que vieram. Alguns tinham sido deslocados pelas 
tensoes na Europa de pre-guerra; outros se achavam insatisfeitos com suas 
perspectivas de carreira; outros, ainda muito jovens e aventureiros, aceitavam de bom 
grado uma longa estada num pafs distante e remote Alguns dos italianos contaram 
com o apoio do governo de M ussolini, no que era considerado como uma importante 
missao cultural da Italia para o Brasil. Algo de parecido sucedeu com alguns 
franceses, cujo governo se caracterizava por uma ativa polftica de disseminacao 
cultural. 3 

Dentre os que vieram, foram poucos os que ficaram no Brasil e aqui 
prosseguiram sua vida academica. As realizacoes dos que permaneceram podem ser 
explicadas nao somente pela circunstancia de que vinham com melhor formacao do 
que os brasileiros, mas tambem porque, tendo chegado mais tarde, podiam beneficiar- 
se de um meio institucional bem melhor, ainda que bastante limitado. U ma vez que ja 
haviam estabelecido as suas identidades profissionais, foi-lhes possfvel usa-las para 
dar forma as instituicoes que eles ajudaram a organizar. Wataghin e Brieger faziam 
parte do primeiro grupo de professores da Faculdade de Filosofia de Sao Paulo. 
Mingoia, que chegou em 1935 com um contrato para trabalhar numa instituicao 
privada, o Laboratorio Paulista de Biologia, foi contratado em 1945 como professor 



NT O conceito de "papel social", scientific role em ingles, tern um sentido sociologico 
preciso, como um a atividade socialmente reconhecida e dotada de criterios definidos de 
acesso, desempenho e permanencia. E um termo mais amplo, mas similar, ao de "carreira". A 
referenda principal para o uso deste conceito na sociologia da ciencia e Ben-David, 1971. 

3 Pyenson 1982 e 1984. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 5 

na Faculdade de Farmacia da Universidade de Sao Paulo. 4 Gross colaborou na 
implementagao do Institute Nacional de Tecnologia no Rio de Janeiro, participou na 
criacao da U niversidade do Distrito Federal e, com Joaquim da Costa Ribeiro, iniciou 
o ensino de ffsica na Universidade do Brasil Guido Beck chegou mais tarde, e sua 
influencia tambem foi importante. 

Tabela 1. Ffsicos e Geologos, Primeira Geracao (1892-1907). Primeiros 
D i plomados no B rasi I 



A no de nascimento 
e Nome 


E specializacao e E ducacao 


L ugar de Nascimento e 
A mbiente Familiar 


1892 LelioGama 


Astronomo e M atematico, 
Politecnica do Rio dej aneiro 


Rio dej aneiro, filho de 
engenheiro militar 


1899 Othon Leonardos 


Geologo, Politecnica do Rio de 
J anei ro 


M inas Gerais, filho de 
comerciante 


1906 Francisco 
M agalhaes Gomes 


Ffsico, Escola de M inas deOuro 
Preto e U niversidade de M inas 
G erai s 


M inas Gerais, filho de professor 
na Faculdade de M edicina 


1907 M ario da Silva 
Pinto 


Geologo e metalurgista, 
Politecnica do Rio dej aneiro, 
Departamento de Producao 
M i neral . 


Rio dej aneiro, filho de 
professor em escola de medicina 
e de professora primaria. 



Tabela2. Biologos, Primeira Geracao (1892-1907). Primeiros Diplomados no 
B rasi I 



A no de 

nascimento e 

Nome 


E specializacao e E ducacao 


L ugar de Nascimento e 
A mbiente Familiar 


1894 Afraniodo 
Amaral 


M edicina Tropical, Faculdade de 
M edicina do Rio dej aneiro, 
U niversidade de H arvard 


Para, filho deempresario (dono 
de plantacao de borracha) 


1895 Olimpioda 
Fonseca 


Parasitologo, Faculdade de M edicina 
do Rio dej aneiro, M anguinhos, 
EUA e Franca. 


Rio dej aneiro, filho de medico 


1904 Adolfo 
M artins Pen ha 


Faculdade de M edicina de M inas 
Gerais, M anguinhos. 


Interior de M inas Gerais, pais 
morreram cedo 


1905 Otto Bier 


Bacteriologista e Imunologista, 
Faculdade de M edicina do Rio de 
Janeiro e M anguinhos 


R i o de J anei ro, f i 1 ho de 
imigrantes europeus. 


1907 JoseReis 


Bacteriologista, Fac. de M edicina do 
Rio dej aneiro, M anguinhos, Inst. 
Biologico deSao Paulo e Instituto 
Rockefeller. 


R i o de J anei ro, f i 1 ho de pequeno 
comerciante. 


1907 AmflcarViana 
M artins 


Zoologo, Faculdade de M edicina de 
M inas Gerais e Rocky M ountain, 
EUA. 


M inas Gerais, filho de 
funcionario publico. 



4 M ors 1985. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 6 



Tabela 3. Cientistas educados no exterior, Primeira Geracao (1892-1907) 



A no de nascimento e 
Nome 


Especializacaoe 
E ducacao 


L ugar de Nascimento, 

Ambiente Familiar e Ano 

de C hegada 


1889 GlebWataghin 


Ffsico, Turin, Italia. 


Russia, filho de engenheiro, 
chegou em Sao Paulo em 1934 


1900 F. Brieger 


Geneticista, Universidade de 
Breslau, Alemanha 


Alemanha, filho de medico e 
professor, chegou em Sao Paulo 
em 1934 


1902 Quintino M ingoia 


Qufmico, Universidade de 
Pavia, Italia. 


Italia, chegou em Sao Paulo em 
1935. 


1903 Guido Beck 


Ffsico e M atematico, Viena, 
Cavendish Laboratory, 
Leipzig eoutros lugares 


C hegou ao R i o de J anei ro em 
1951. 


1904 Viktor Leinz 


Geologo, Universidade de 
H ei del berg 


Chegou ao Rio em 1933. 


1905 Bernhard Gross 


Ffsico, Stuttgart e Electric 
R esearch A ssoci ati on, 
Londres. 


C hegou ao R i o de J anei ro em 
1933. 



Segunda Geracao: Infciosda Profissionalizacao 

Os cientistas da segunda geracao tiveram todos carreiras semelhantes, 
seguindo de muito perto o caminho desbravado pelos primeiros. Os engajados nas 
ciencias biologicas graduaram-se todos, praticamente sem excecao, nas escolas de 
medicina no Rio de Janeiro e Sao Paulo e tiveram mais tarde acesso ao Instituto de 
Manguinhos ou o Instituto Biologico de Sao Paulo (ver Tabela 4). O padrao e 
semelhante: ainda como aluno na escola de medicina, o jovem estudante captava a 
atencao de um professor que trabalhava tambem em Manguinhos, e la iniciava seu 
aprendizado. O Instituto Biologico, estabelecido em Sao Paulo no ano de 1927, e 
dirigido por Arthur Neiva, da primeira geracao de Manguinhos, teve seus primeiros 
quadras de pessoal treinados no Rio dej aneiro. 

Em termos de conhecimentos e modelos cientfficos, havia muito pouco, 
naqueles anos, que um estudante pudesse angariar nas faculdades. Carlos Chagas 
Filho diz que a Faculdade de M edicina do Rio de J aneiro, na decada de 1920, nao 
contava com "cursos praticos, seminarios, contatos entre professores e alunos; so 
havia cursos de prelecoes magistrais, dadas com pontualidade e grande eloquencia." 5 
Em vista dessas condicoes, os cientistas costumavam ver as escolas profissionais com 
um certo desprezo, razao por que limitavam seus contatos a palestras e a um 
recrutamento eventual de alguns dos estudantes mais bem dotados. Para que um 
jovem estudante pudesse iniciar uma carreira cientffica era essencial que conseguisse 



Entrevista com Chagas Filho. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 7 

aproximar-se de um cientista de prestfgio, a fim de trabalhar sob sua orientacao. 
Lagos familiares tambem ajudavam: Walter e Oswaldo Cruz Filho eram filhos de 
Oswaldo Cruz; Evandro e Carlos Chagas Filho eram filhos de Carlos Chagas; 
Emanuel Dias era filho de Ezequiel Dias. Em outros casos, era costume recorrer a um 
amigo de famflia para conseguir-se uma apresentacao junto a um cientista. Essa foi a 
maneira como Olimpo da Fonseca Filho, Otto Bier e Jose Reis, entre outros, 
comecaram as suas carreiras. 6 

Estabelecido o contato com o patrono, a proxima etapa consistia em comecar a 
trabalhar no laboratorio dele, fora da universidade. Alem das poucas instituicoes 
publicas, tambem havia iniciativas privadas, das quais a mais famosa era o laboratorio 
mantido pelos irmaos Alvaro e M iguel Osorio de Almeida, no porao de sua casa, no 
Rio de Janeiro, que Chagas Filho descreve como sendo o local em que se iniciou a 
pesquisa em fisiologia no Brasil. 7 

O curso de aplicacao de M anguinhos, iniciado em 1909, constituiu o primeiro 
meio organizado para alcancar-se uma carreira cientffica no pafs. O ingresso era feito 
exclusivamente por meio de um convite, e a instrucao era transmitida mediante um 
sistema de estagio, sem cursos ou conferencias formais. Os estagiarios tinham que 
aprender procedimentos para esterilizacao e manuseio de frascos, tarefas geralmente 
confiadas a assistentes de laboratorio. Com a passagem do tempo, o curso se tornou 
mais formal, e foram ministradas palestras sobre microbiologia durante dezoito 
meses. Foram introduzidas novas modificacoes no periodo 1913-14, com a 
inauguracao da sede permanente do instituto: o curso tornou-se mais rfgido e 
formalizado, passou a durar quatorze meses, instituiu-se um sistema estrito de exames 
e avaliacoes, e passaram a ser alijados do curso os que tivessem faltado a dez aulas. 



6 Entrevistas com Otto Bier e Jose Reis. 

7 "Gracas a ajuda de Candido Gaffre, socio de Eduardo Guinle na organizacao da 
Companhia Docas de Santos [empresa particular que controlava as docas do porto de Santos, 

em Sao Paulo], Alvaro Osorio montou seu pequeno laboratorio, que se tornou um centra 

cultural de forte atracao para intelectuais de todas as origens, inclusive Amoroso Costa, o 
fundador da matematica moderna entre nos. Foi la que se preparou M iguel Osorio. Silva M elo 
e Tales Martins, entre outros, participavam de reunioes informais." Tal ambiente podia 
estimular a curiosidade intelectual, mas dificilmente bastaria para permitir o prosseguimento de 
uma carreira , como ficou revelado pelo que ocorreu com M iguel Osorio de Almeida. "M iguel 
Osorio, embora dotado de uma inteligencia excepcional, foi uma das vftimas das limitacoes do 
meio cientffico no Brasil. Foi vencido num concurso publico para a catedra deffsica biologica, 
oportunidade em que deu uma demonstracao extraordinaria de cultura e arrogancia ... Ele nao 
sabia com quern falar. M uito ligado a escola francesa, ele se perdia numa vaga infinda de 
correspondencia, cartas e longas viagens, sempre restritas a Sorbonne, embora eu tenha certeza 
de que, com sua capacidade de trabalho, com sua inteligencia e sua cultura, ele poderia ter 
exercido um impacto extraordinario num outro ambiente" (Entrevista com Chagas Filho). 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 8 

A cada ano, eram selecionados cerca de vinte estagiarios, embora geralmente so um 
terco ou metade conseguissem chegar ao final. 8 

Tabela4. Biologos, Segunda Geracao (1908-1920). Primeiros Diplomados no 
Brasil 



Ano de nascimento e 
Nome 


E specializacao e E ducacao 


L ugar de Nascimento 
e A mbiente Familiar 


1908 JoseRibeiro do 
Vale 


Bioqufmico, Faculdade de M edicina de 
Sao Paulo eEUA. 


M inas Gerais, filho de 
fazendeiro 


1909 Hugo de Souza 
Lopes 


Entomologista, Escola de Agricultura e 
Veterinaria, Rio de Janeiro. 


Rio dej aneiro 


1910 ZeferinoVaz 


Geneticista, Faculdade de M edicina de 
Sao Paulo e Institute Biologico deSao 
Paulo. 


Sao Paulo, filho de 
homem de negocios. 


1910 M aurfcio Rocha e 
Silva 


Bioqufmico, Faculdade de M edicina do 
Rio dej aneiro, Instituto Biologico de 
Sao Paulo, EUA elnglaterra. 


R i o de J anei ro, f i 1 ho de 
profissional liberal. 


1911 Carlos Chagas 
Filho. 


Bioffsico, Faculdade de M edicina do 
Rio dej aneiro, Instituto M anguinhos e 
U niversidade de Paris. 


R i o de J anei ro, f i 1 ho do 
biologo Carlos Chagas. 


1911 Herman Lent 


Entomologista, Faculdade de M edicina 
Rio dej aneiro e Instituto M anguinhos 


Rio dej aneiro, filho de 
pequeno comerciante 


1914 Wladimir Lobato 
Paraense 


Parasitologista, Faculdade de M edicina 
do Para e Pernambuco, e Faculdade de 
M edicina do Rio dej aneiro, 


Rio dej aneiro 


1914 M ario Viana Dias 


Neurofisiologista, Faculdade de 

M edicina do Rio dej aneiro e National 

Institute of Medical Health, EUA. 


Rio dej aneiro, varios 
medicos na famflia. 


1919 Crodowaldo Pavan 


Geneticista, Faculdade de Filosofia, 
USP eColumbia University, EUA. 


Sao Paulo, filho de 
empresario. 


1920 Manoel da Frota 
M orei ra 


M edico, Faculdade de M edicina do Rio 
dej aneiro eestudos nos Estados Unidos 
e Inglaterra. 


R i o de J anei ro, f i 1 ho de 
medico. 



Existiam algumas outras alternativas, embora menos organizadas. O M useu 
Nacional admitia "assistentes voluntarios", mas somente mediante convite. Apos um 
ano, o assistente voluntario poderia ser promovido a estagiario nao remunerado. 
Entao, na eventual idade, pouco habitual, de ocorrer uma vaga, o estagiario poderia ser 
contratado como natural ista -- termo vago que abarcava uma grande gama de 
atividades, desde a etnologia e etnografia ate a mineralogia ou petrografia, inclusive 
botanica, zoologia e lingufstica. 

Esse foi tambem o perfodo em que alguns indivfduos, inclusive varios que 
nem eram cientistas profissionais, exerceram um papel crucial na disseminacao de 
valores cientfficos, descobrindo talentos e estimulando as suas carreiras cientfficas. 
Dentre eles, Baeta Viana, em Belo Horizonte, constitui um exemplo assaz citado. 
M ais do que um estudioso ou especialista, ele era sobretudo um zeloso propagandista 
em prol de uma nova visao para a ciencia medica. Formou-se na escola de medicina 



8 Fonseca 1974: 13-14. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 9 

de Belo Horizonte e foi um dos primeiros brasileiros a beneficiar-se de uma bolsa da 
Fundacao Rockefeller. Trabalhou nos Estados Unidos durante dois anos, num 
perfodo de expansao rapida da bioqufmica. Ao regressar ao Brasil, entrou em conflito 
direto com a tradicao francesa entao dominante. Apesar disso, conseguiu granjear 
uma posicao importante na sociedade local e organizou uma das melhores bibliotecas 
medicas do pafs. Alguns de seus estudantes, inclusive M oura Goncalves e Wilson 
Beraldo, viriam a figurar entre os melhores especialistas em bioqufmica no Brasil. 9 
Andre Dreyfus, um dos fundadores da Faculdade de Filosofia de Sao Paulo, exerceu 
papel similar, embora em contexto muito distinto. 10 Desse modo, homens como Baeta 
Viana e Dreyfus personificaram o processo de transicao entre o velho professor -- 
retorico, livresco, auto-suficiente, por vezes conhecedor da materia, mas insensfvel e 
preconceituoso em relacao ao trabalho empfrico -- e o cientista moderno, formado 
para identificar um problema, defini-lo e resolve-lo. 

Segunda G era^ao: As C i end as E xatas 

Do mesmo modo como os biologos comecaram com a medicina e se 
encaminharam em direcao a Manguinhos, os engajados nas ciencias exatas, em sua 
grande maioria, iniciaram-se na escola de engenharia e se transferiram para a 
Faculdade de Filosofia da Universidade de Sao Paulo (ver Tabela 5). Apesar de 
serem escassas as informacoes disponfveis sobre o ambiente familiar, elas sugerem 
que os engajados nas ciencias exatas provieram de famflias menos privilegiadas que 
as dos biologos. Embora tanto a medicina como a engenharia gozassem de elevada 
posicao social na epoca, M anguinhos era uma instituicao de grande prestfgio, motivo 
por que seus cientistas podiam frequentar as elites do pais. No que diz respeito a 
Faculdade de Filosofia de Sao Paulo, tornou-se elegante e de bom torn, para um 
intelectual dos anos 30, assistir as palestras de professores estrangeiros na nova 



9 "E diffcil encontrar um bom bioqufmico no Brasil que nao esteja ligado, direta ou 
indiretamente, a escola Baeta Viana. E isso etanto mais importante, porque ele proprio nao era 
um grande pesquisador. Nao se pode atribuir-lhe qualquer trabalho importante de pesquisa." 
(Entrevista com Chagas Filho; Ladosky, 1985). 

10 Crodowaldo Pavan recorda como sua carreira de geneticista foi decidida depois que 
ele assistiu a uma conferencia de Dreyfus. "Ele era um professor incrivelmente estimulante. 
Apos as suas explicacoes, as coisas mais complicadas tornavam-se muito simples. Ele 
conseguia atingir o amago de um problema, explica-lo, e convencer a todos de que o mesmo 
fazia sentido, mesmo que alguem pudesse nao te-lo compreendido completamente. Suas 
palestras constitufam acontecimentos importantes para j ovens intelectuais. Ele associava 
genetica com histologia e ministrava aulas e cursos sobre psicanalise. Ao tornar-se professor 
em tempo integral na Faculdade de Filosofia, percebeu que todo o seu horario estava sendo 
gasto com aulas, fato que muito Ihe agradava. M as a sua base cientffica, sua base experimental, 
era bastante restrita para o tipo de programa que ele desejava implementar. (Entrevista com 
Crodowaldo Pavan). 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 10 

instituigao, mas sempre no entendimento de que sua carreira pessoal representava algo 
total mente distinto. 

A Escola Politecnica assemelhava-se a Faculdade de Medicina, no que diz 
respeito as suas limitacoes relativas a pesquisa cientffica. Gross relembra que a 
chama do ensino de ffsica era mantida viva gracas exclusivamente as aulas de um 
unico professor, Dulcfdio Pereira. 11 O Servico Geologico iniciou seu proprio sistema 
de estagio na decada de 20, sob a direcao de Eusebio de Oliveira. 12 M as a influencia 
pessoal permanecia como o caminho mais importante para o acesso a ciencia. Luis 
Freire, em Pernambuco, fazia pela ffsica e pela matematica algo similar ao que 
Dreyfus realizava pelas ciencias biologicas, e outras. E muito impressionante a lista 
de estudantes de Freire: os fisicos M ario Schenberg, Jose Leite Lopes, Fernando de 
Sousa Barros e Ricardo Ferreira; o matematico Leopoldo Nachbin. U m deles recorda: 

"Freire era muito estimulante, embora nunca se tenha tornado um cientista 
propriamente. Como professor, era muito competente e brilhante, incitante mesmo, 
embora nao tivesse condicoes para guiar alguem e formar os seus estudantes. ... Era 
uma estudioso do tipo que podemos encontrar em todos os pafses latinos. Trata-se de 
professores extremamente conhecedores de sua area de estudo, que recebem as mais 
recentes publicacoes e dispoem de uma incrfvel biblioteca em casa. Conhecem tudo, 
dao belas conferencias e estariam em condicoes de lecionar em qualquer universidade 
do mundo. Contudo, nao sao cientistas; nao condescendem em realizar um trabalho de 
pesquisa sobre uma area limitada. Freire foi um bom exemplo desse tipo. Nasceu em 
Recife em 1900, estudou engenharia, tornou-se professor de ffsica e escreveu uns 
quantos artigos que foram publicados nos Annates de la Physique, na Franca. Acredito 
que ele nunca setornou um cientista devido as circunstancias em que viveu. " 13 



11 M aurfcio Rocha e Silva recorda a sua expert encia: "Eu queria tornar-meffsico antes 
de estudar medicina, e por isso costumava ir ao laboratorio de Dulcfdio Pereira, na Politecnica. 
.... Tive uma pessima impressao do laboratorio. Era pior que o de medicina. Eles nao faziam 

coisa alguma Havia um espectrometro, coisa nova naqueles anos, em que so Dulcfdio 

Pereira podia tocar. Tudo o mais se destinava ao ensino de ffsica no nfvel ginasial. Qualquer 
um podia usar, mas ninguem usava ... Nada havia, em termos de ffsica teorica. O unico 
matematico famoso era Amoroso Costa, com quern eu gostava de ter contato. Todos os demais 
nao eram senao tecnicos que desejavam passar por matematicos." (Entrevista com Rocha e 
Silva). 

12 M ario da Silva relembra como funcionava o sistema no Laboratorio de Producao 
M ineral: "Querfamos nos nivelar o mais possfvel com as instituicoes de educacao superior. Na 
qufmica, com a Escola Nacional deQufmica. Na metalurgia, com a escola de engenharia e com 
Ouro Preto. Os estudantes de primeiro ano eram admitidos como estagiarios nao remunerados. 
Havfamos organizado um verdadeiro programa de aprendizado, e eles de passar por todas as 
secoes do laboratorio, desde a preparacao de amostras ateo processamentos dos minerals, bem 
com pelas secoes de qufmica ffsica e qufmica. Selecionavamos os que revel avam maior pendor 
para a producao e os convidavamos a submeter-se a um exame para a escolha dos que 
permaneceriam por mais um ano como estagiarios remunerados. Mais tarde, eles poderiam 
candidatar-se a um concurso publico e comecar sua carreira profissional". (Entrevista com 
Silva Pinto). 

13 Entrevista com Ricardo Ferreira. Vertambem M ota e Hamburger 1988. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 11 

J ose Leite Lopes foi menos entusiastico, mas confirma a influencia de Freire. 14 

Tabela 5. Cientistas Ffsicos e Qufmicos. Segunda Geracao (1908-1920). Primeiros 
Diplomados no Brasil 



A no de nascimento e 
Nome 


E specializacao e E ducacao 


L ugar de Nascimento e 
Ambiente Familiar 


1908 Simao Mathias 


Qufmico, Faculdadede Filosofia, 
USP e Universidadede Wisconsin, 
EUA 


Filho de pequeno 
comerciante. 


1909 Paulus A. Pompeia 


Engenheiro, Politecnica de Sao 
Paulo e Universidadede Chicago 


Sao Paulo, filho de 
engenheiro 


1914 M ario Schenberg 


Engenheiro e Ffsi co, Faculdadede 
Filosofia, USP.; Italia e EUA. 


Pernambuco, filho de 
imigrante 


1914 Marcelo Damy deS. 
Santos 


Ffsico, Universidades de Sao Paulo 
ede Cambridge, Inglaterra. 


Sao Paulo 


1917 Pascoal A. Senise 


Qufmico, Universidades de Sao 
Paulo e do Estado de Louisiana, 
EUA. 


Sao Paulo, filho de 
imigrantes. 


1918 J ose Leite Lopes 


Qufmico, Universidadede 
Pernambuco; Ffsico, Universidade 
deSao Paulo. 


Pernambuco, filho de 
pequeno comerciante. 


1920 Walter B. Mors. 


Qufmico, Universidades de Sao 
Paulo e de M ichigan, EUA. 


Sao Paulo, famflia de 
imigrantes 


1920 Otto Gottlieb 


Qufmico, Escola Nacional de 
Qufmica, Rio dej aneiro, Inglaterra 
e 1 srael 


Checoslovaquia, educacao 
secundaria na Europa; 
Chegou ao Brasil, com a 
famflia, antes da Segunda 
Guerra M undial. 


1920 J aimeTiomno 


Ffsico, Universidade do Distrito 
Federal e Faculdadede Filosofia do 
Brasil; Princeton 


Rio dej aneiro, filho de 
pequeno comerciante 
imigrante 



C ientistas M odernos: a Terceira G erac/ao 

A novidade, em relacao aos membros da terceira geracao, consistiu no fato de 
que, pela primeira vez, eles tiveram a oportunidade de ingressar diretamente num 
curso de ciencias, sem ter de cursar antes uma escola profissional. Os que nao viviam 
em Sao Paulo frequentavam alguns dos cursos efemeros de qufmica porventura 
existentes em sua regiao, antes de se transferirem para a Universidade de Sao Paulo 
ou viajar ao exterior. Durante a Segunda Guerra M undial, e por algum tempo em 
seguida, a Fundacao Rockefeller passou a conceder bolsas de estudo a cientistas 
brasileiros engajados em atividades estranhas a area de saude, o que beneficiou 
muitos estudiosos desta geracao. 



14 "Devido a influencia de Freire, comecei a estudar ffsica e matematica com mais 
seriedade. E claro que ele nao podia lecionar do mesmo modo como se faz na Europa, ou ate 
mesmo como um especialista que se acha em contato com grandes centros cientfficos. Recife 
era uma provfncia no Brasil, mas apesar dessas circunstancias, os professores eram capazes de 
abrir mentes, atrair estudantes, mostrar-lhes o caminho, e fornecer-lhes os princfpios basicos 
das ciencias". (Entrevista com Leite Lopes). 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 12 

A diferenca de tamanho entre a Tabela 6 e a Tabela 7 espelha uma 
amostragem imperfeita e nao significa necessariamente que o grupo dos engajados 
nas ciencias exatas fosse maior que o grupo dos biologos. M as revela tambem o fato 
de que, nas decadas de 30 e 40, a ffsica era tida como a disciplina cientffica de maior 
prestfgio, razao por que, tanto no Brasil como em outros lugares, ela atraiu um grupo 
extraordinario de mentes superiormente dotadas. A mera observacao dos ambientes 
familiares constantes das Tabelas 6 e 7 confirma que os empenhados nas ciencias 
exatas eram provenientes de famflias muito menos estabelecidas que as dos biologos. 
Enquanto estes ultimos, em sua grande maioria, se mantiveram ocupados em sua area 
profissional, muitos ffsicos ligaram-se a intelligentsia do pafs e vieram a tomar-se 
figuras reconhecidas publicamente, envoi vidas em discussoes gerais sobre o papel da 
ciencia, da tecnologia e da educacao no processo de desenvolvimento do Brasil. Era 
como se os biologos tendessem a permanecer nas suas ja conquistadas posicoes de 
prestfgio social, enquanto os ffsicos, num claro movimento de mobilidade social, 
assumissem um papel intelectual muito mais explfcito. De certo modo, eles 
reproduziam os movimentos cientfficos europeus do passado, ao buscarem ocupar os 
mais prestigiados campos de conhecimento de sua epoca, e, a partir daf, tentar 
influenciar a sociedade como um todo. 15 

A Faculdade de Filosofia de Sao Paulo iria introduzir no Brasil novos padroes 
de trabalho que eram praticamente desconhecidos ateentao. M arcelo Damy relembra 
os cursos oferecidos em 1934, quando os currfculos introdutorios da Escola 
Politecnica eram combinados com os da nova instituicao: 

"Tive a oportunidade de seguir os cursos de analise matematica com Luigi Fantappie; 
de geometria, com Giacomo Albanese; e de ffsica, com Gleb Wataghin. Entravamos 
num mundo completamente diferente. De acordo com o nosso sistema de educacao 
como futuros engenheiros, recebfamos entao o tipo de palestras mais comum na 
maioria das universidades brasileiras: o professor entra em sala, recita a sua prelecao e 
vai-se embora sem falar com os alunos, baseando-se frequentemente num livro 
obsoleto. Aqueles professores nada tinham de pesquisadores; geralmente exerciam 
outras profissoes e lecionavam somente algumas aulas por semana. Na maioria dos 
casos, a sua propria educacao fora muito deficiente. Havia uma forte dose de 
inseminacao intelectual dentro da escola, com um engenheiro formando um outro para 
ensinar as disci pi i nas basicas. Devi do a todos esses fatores, nos acreditavamos que 
disci pi i nas como matematica, ffsica e qufmica consistiam no estudo de coisas que 
haviam sido completamente resolvidas, cristalizadas, mortas. Para nos, a ffsica era 
algo que estava encerrado nos livros de ffsica; e o mesmo valia para matematica ou 
biologia. Constituiu a maior surpresa para nos assistir a aulas que, partindo de um 
enfoque total mente di verso, nos mostravam que essas ciencias nao so estavam muito 
vivas, como passavam por um perfodo de intensas modificacoes. Alias, tao profundas, 
que o volume de pesquisas nos anos recentes fora muito maior do que o total havido 
desde o infcio dessas ciencias....Entramos tambem em contato com algo que era 
totalmente desconhecido no Brasil -- os seminarios. Cada semana, os italianos e 
alemaes, que lecionavam qufmica, reuniam-se para apresentar o resultado de suas 
pesquisas ou as linhas basicas das pesquisas fundamentals em andamento no exterior. 



15 Schwartzman 1984a 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 13 



Em seguida, passava-se a um intercambio aberto de pontos de vista. Para nos -- jovens 
alunos habituados a ouvir sem fazer perguntas -- parecia muito estranho ouvir um 
professor levantar duvidas e criticar fortemente o trabalho de um colega. Embora, na 
maioria dos casos, a crftica fosse correta, isso nao significava que os pesquisadores 
deixariam de ser amigos, e que a vida prosseguiria normal mente. E assim aprendemos 
que a ciencia era uma coisa viva, que podia ser desenvolvida, estava sendo 
desenvolvida no resto do mundo, e essa possibilidade tambem estava aberta ao Brasil. 



Entrevista com Damy. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 14 



Tabela 6. Cientistas Ffsicos e Qufmicos. Terceira Geragao (1921-1931). 



A no de nascimento e 


Especializacab e 


L ugar de Nascimento e 


Nome 


Edu cacao 


Ambiente Familiar 


1921 Blanka Wladislaw 


Qufmica, Faculdadede 


Polonia; a famflia chegou ao 




Filosofia, USP 


Brasil em 1935. 


1921 Ernesto Giesbrecht 


Qufmico, Faculdadede 
Filosofia, USP 


Filho de engenheiro civil 


1922 Oscar Sala 


Ffsico, Faculdadede Filosofia, 


Italia; famflia de imigrantes; 




USP, e Illinois e Wisconsin, 


fez todos os seus estudos no 




EUA. 


B rasi 1 


1923 Alufsio Pimenta 


Farmaceutico, Universidade de 


M inas Gerais, filho de dono de 




M inas Gerais. 


farmacia 


1924 Jacques D anon 


Qufmico, Escola Nacional de 
Qufmica, Rio dej aneiro, e 
Paris. 


Filho de pequeno comerciante 


1924 C esar L attes 


Ffsico, Faculdade de Filosofia, 


Parana; filho de bancario; 




USP, e Princeton, EUA 


famflia de imigrantes italianos 


1925 Paulo Leal Ferreira 


Ffsico, Fac. de Filosofia, USP, 


Rio dej aneiro, filho de 




e Roma 


engenheiro 


1925 J ean M eyer 


Ffsico, Faculdadede Filosofia, 


Danzig; estudos secundarios na 




USP, e Ecole Polytechnique, 


Europa; famflia de imigrantes 




Paris 




1926 Sergio Porto 


Qufmico, Faculdadede 


Niteroi, Rio dej aneiro; filho 




Filosofia, USP; Ffsico, Johns 


de pequeno comerciante. 




Hopkins University e Bell 






Laboratories, EUA. 




1928 Roberto Sal meron 


Engenheiro, Faculdadede 
Engenharia, USP; Faculdade 
de Filosofia, Rio dej aneiro, e 
Manchester, Inglaterra. 


Rio dej aneiro 


1928 Jose Israel Vargas 


Qufmico, Universidade de 


M inas Gerais, filho de pequeno 




M inas Gerais; Ffsico, 


industrial 




U niversidade de Sao Paulo, e 






Cambridge U niversity. 




1928 JoseGoldemberg 


Ffsico, U niversidade de Sao 


Rio dej aneiro, filho de 




Paulo e estudos no Canada 


engenheiro 


1928 Ricardo Ferreira 


Qufmico, Pernambuco; Ffsico, 


Pernambuco, filho de pequeno 




U niversidade de Sao Paulo e 


comerciante 




California Institute of 






Technology , EUA 




1930 Gerhard Jacob 


M atematico e Ffsico, 


Alemanha, famflia de 




Faculdadede Filosofia, Rio 


imigrantes 




Grande do Sul 




1931 Rogerio Cerqueira 


Engenheiro, Institute 


Sao Paulo. 


Leite 


Tecnologico da Aeronautica; 
Ffsico, Bell Laboratories 





Tabela 7. Biologos, Terceira Geragao (1921-1931). 



A no de nascimento e 
Nome 


E specializacao e E ducacao 


L ugar de Nascimento 
e Ambiente Familiar 


1922 Warwick Kerr 


Geneticista, Escola Superior de 
Agricultura Lufs deQueiroz 


Sao Paulo, filho de 
trabalhador especial izado 


1923 Paulo Emilio 
Vanzolini 


Zoologo, U niversidade de Sao Paulo 
e H arvard U niversity 


Sao Paulo, filho de 
engenheiro ligado a 
Escola Politecnica, S.P. 


1925 Antonio Cordeiro 


Geneticista, Faculdadede Filosofia, 
U niversidade de Rio Grande do Sul 
e Columbia University. 


Rio Grande do Sul, filho 
de oficial militar 


1928 Francisco M . Salzano 


Geneticista, Faculdade de Filosofia, 
Rio Grande do Sul. 


Rio Grande do Sul, filho 
de medico. 



Capftulo 7 - A profissionalizagao da ciencia - 15 

Do grupo inicial de professores estrangeiros, surgiu um novo modelo de 
cientista, que passaria a ter um papel extremamente importante nos anos seguintes. O 
testemunho de Gleb Wataghin permite-nos acompanhar como sedeu este processo: 

"Eu vim da Italia com Fantappie. Recebemos da Faculdade de Filosofia um gabinete, e 
nos mandaram ensinar. Pedimos uma biblioteca... Tivesorte. Encontrei rapazes muito 
capazes e i nteressados, mas que nada estavam fazendo para progredir. Realmente, 
quern poderia garantir a um jovem, em 1934, que ele poderia tornar-se um ffsico 
profissional, se completasse um curso de tres ou quatro anos? No final das contas, eles 
queriam praticar ciencia e eu Ihes ensinei o que eles queriam. Entre eles, estavam 
M arcelo Damy de Sousa Santos, M ario Schenberg e, mais tarde, Paulus A. Pompeia. 
Na Escola Politecnica, onde eu lecionava, tentei explicar aos alunos que ninguem 
poderia fazer varias coisas ao mesmo tempo. Com isso, alguns decidiram deixar os 
cursos de engenharia para se dedicarem a ffsica. J a dominavam um pouco a 
eletricidade e sabiam montar radios, construir antenas... Por isso, foi-lhes facil 
trabalhar em ffsica experimental... Dentro do possfvel, tentei manda-los para a Europa, 
ao cabo de dois ou tres anos de estudo. Encaminhei M ario Schenberg ao meu amigo 
Dirac, que acredito ser o mais importante ffsico vivo nos dias de hoje. Viajei para a 
Europa com Schenberg, e passamos pela Italia a caminho da I nglaterra. Visitei Fermi e 
pedi-lhe que falasse com Schenberg. Foi nessa ocasiao que Fermi convenceu 
Schenberg a trabalhar com ele. Agi do mesmo modo com os ffsicos experimental s. 
Alguns, como Lattes, foram para Cambridge, na I nglaterra. Costumavam escrever-me, 
mostrando solugoes para problemas tecnicos -- como, por exemplo, melhorar um 
circuito que havfamos construfdo aqui. Aprendi muito com meus alunos, e formei-os 
com o auxflio de grandes ffsicos de toda a Europa, Alemanha, I nglaterra e Italia.... O 
contato com a Europa era essencial. A unica condigao que impus ao chegar aqui foi no 
sentido de que eu desejava passar dois ou tres meses de cada ano no Europa. Isso foi 
muito bom para mim e para o Brasil. 17 

Foi menos pronunciado o impacto dos professores estrangeiros nas ciencias 
biologicas, provavelmente porque ja havia uma tradicao muito mais desenvolvida de 
pesquisas nessas areas. A lem disso, os professores alemaes de zoologia e botanica -- 
Breslau, Marcus e Rawitscher -- pertenciam a consagradas tradicoes de pesquisa 
taxionomica que eram mais fortes, mas nao muito diferentes, das ja praticadas no 
Brasil. Por isso, nao continham o apelo da novidade que veio embutido na introducao 
da ffsica. Constituiu importante excecao o cientista Friedrich Brieger, que veio 
integrar a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e que, ao lado de Dreyfus, 
foi o responsavel pelo comeco da pesquisa genetica no Brasil. 

A criacao do Laboratorio de Bioffsica na Faculdade de Medicina do Rio de 
Janeiro, em 1937, sob a orientacao de Carlos Chagas, constituiu um passo muito 
importante no processo de introducao das atividades de pesquisas organizadas nas 
instituicoes academicas daquela cidade. Segundo Chagas, M anguinhos era entao uma 
instituicao quase imobilizada nao so por salarios baixos e limitada autonomia 
administrativa, como por uma deficiencia cronica de alunos a quern ensinar, no intuito 
de estimular os pesquisadores a manter-se trabalhando e estudando. A universidade, 
apesar de todas as suas limitacoes, era por ele vista como detentora de um potencial 



Entrevista com Wataghin. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 16 

mais promissor. Este laboratories depois chamado de Instituto de Bioffsica, 
juntamente com o Instituto Biologico de Sao Paulo, constitufram os dois principais 
frutos da proffcua tradicao de M anguinhos. 

F ontesde A poio Financei ro 

Atuando sob a fachada de todos os tipos de atividades aplicadas, lutando para 
conseguir espaco numas poucas instituicoes de educacao superior, apoiando-se 
sempre que possfvel na fortuna pessoal ou em amigos e parentes poderosos, os 
cientistas brasileiros da decada de 30 comecaram a buscar bases mais legftimas e 
estaveis, alem de fontes de apoio em que se apoiar. Indagar de que modo a ciencia e 
financiada corresponde de uma certa maneira a perguntar como a ciencia e 
institucionalizada e aceita como atividade legftima numa dada sociedade. 

As velhas instituicoes cientfficas eram custeadas pelos govemos federal e 
estaduais. Os testemunhos disponfveis tendem a caracterizar os salarios dos 
pesquisadores de entao como "decentes" e adequados para pessoas dispostas a manter 
um padrao de vida metodico e modesto. A esta singela compensacao, somava-se o 
sentimento de um certo privilegio oriundo de uma atividade que transformaria o 
Brasil num pafs civilizado, liberto da ignorancia e do atraso. Os especialistas em 
saude publica acreditavam firmemente que quase todos os problemas do pafs eram 
causados pela ma saude da populacao, motivo por que encaravam a sua missao como 
sendo muito mais ampla do que a mera batalha para conseguir progressos medicos. 

Esta crenca numa boa causa ajuda-nos a compreender as justificativas que 
teriam levado os diretores de M anguinhos a contornar a rigidez de seu orcamento, 
para financiar uma serie de atividades nao previstas expressamente nos seus estatutos. 
Durante cerca de trinta anos, o Instituto utilizou os lucros da venda de uma vacina 
veterinaria para constituir um fundo que era empregado livremente para criar postos 
avancados, financiar expedicoes cientfficas, contratar especialistas, bem como para 
comprar drogas e equipamentos cuja aquisicao nao podia ficar na dependencia dos 
lentos e tortuosos procedimentos da burocracia federal. Em 1938, entretanto, o 
governo tornou o Instituto completamente dependente das verbas federais, uma vez 
que Ihe foi retirada a autorizacao para produzir a vacina. A medida produziu um 
impacto nao so material como psicologico, pois tornou evidente que M anguinhos 
deixara de contar com uma situacao especial na sociedade brasileira. A retirada 
daquela fonte de renda apressou o processo de decadencia do Instituto. Daf em 
diante, so puderam manter seu trabalho normal os laboratories que mantinham uma 
fonte independente de apoio, isto e, os laboratories de helmintologia (chefiado por 
Lauro Travassos) e de hematologia (sob a direcao de Walter Oswaldo Cruz), ambos 
ligados ao Servico Especial de Grandes Endemias, de Evandro Chagas. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 17 

Eduardo Guinle, que amparava o Servico Especial com recursos privados, 
constitui o nome mais importante na breve historia da filantropia cientffica no Brasil. 
No final do seculo XIX, dois socios -- Candido Gaffree e Eduardo Guinle -- 
conseguiram um contrato para a exploracao comercial do porto de Santos, no Estado 
de Sao Paulo, pelo prazo de cem anos. Na medida em que o polo da economia 
brasileira se transferia para Sao Paulo, Santos passava a ser o porto de maior 
movimento do pafs, e a companhia de Gaffree e Guinle se tornou a sua mais rica 
empresa. Em 1906, a Companhia Docas de Santos solicitou a Carlos Chagas, pai de 
Evandro e Chagas Filho, que desenvolvesse um programa destinado a por fim as 
epidemias de malaria que grassavam em Itatinga, regiao do Estado de Sao Paulo em 
que a companhia estava construindo uma represa hidroeletrica. Esse foi o comeco da 
historia de uma longa associacao entre os empresarios e os cientistas. Em 1923, foi 
criada a Fundacao Gaffree Guinle, de finalidades filantropicas, e o filho de Eduardo 
Guinle, de nomeGuilherme, prosseguiu com a tradicao por um longo tempo. 

Um livro publicado em 1958 pelo Institute de Bioffsica do Rio de J aneiro, em 
honra de Guilherme Guinle, revela toda a amplitude de seu apoio. Ele ajudou a 
manter o laboratorio de Alvaro e Miguel Osorio de Almeida; junto com Carlos 
Chagas, criou um centro intemacional de leprologia; etambem fomeceu recursos para 
o Institute de Bioffsica de Chagas Filho, alem de varios laboratories em 
M anguinhos. 18 

Assis Chateaubriand, que foi por muitos anos o dono da maior cadeia de 
jornais e radioemissoras do Brasil, tambem ficou conhecido por ajudar jovens 
cientistas. Homem pitoresco e de temperamento absolutamente imprevisfvel, 
costumava ser uma fonte de surpresas. Lobato Paraense contava uma historia tfpica 
sobre umas bolsas que ele e tres outros colegas haviam recebido de Chateaubriand 
para se transferirem de Recife para Sao Paulo. Chegaram ao Rio de navio, gracas a 
um dinheiro emprestado por um professor, e foram ver o seu patrono, Chateaubriand, 
em seu gabinete na sede do J ornal. A prinefpio, Chateaubriand nao se lembrava de 
ter-lhes oferecido qualquer bolsa, mas, pouco depois, pegou o telefone e conseguiu 
persuadir a quatro ricos homens de negocio a financiar os estudantes durante o ano 



18 Instituto de Bioffsica 1951. No seu livro, Paulo de Goes descreve Guinle como 
"uma especie de conselho de pesquisas particular". Walter Oswaldo Cruz agradece a Guinle 
por ser "aquele que nos permitiu libertar a ciencia das mesquinhas restricoes de uma burocracia 
obsoleta, aquele que nos deu a possibilidade de comprar sem limitacoes o equipamento 
necessario para nosso trabalho, aquele que nos protegeu de administradores extravagantes e que 
nos proporcionou a oportunidade de fazer ciencia com alegria." 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 18 

seguinte. Em questao de poucos minutos, eles haviam conseguido suas bolsas e 
podiam final mente iniciar as suas carreiras. 19 

M anuel Frota M oreira, um dos biologos do grupo de Chagas, e que se tornaria 
uma figura central do Conselho Nacional de Pesquisas nas decadas de 1950 e 1960, 
explica as razoes por que os cientistas nao conseguiam obter um apoio mais forte 
naqueles anos: 

"A atividade cientffica era tida como uma atividade cultural. M uito poucas pessoas, 
tanto no Brasil como no exterior, acreditavam que a pesquisa cientffica pudesse vir a 
ser um instrumento de poder, riqueza e desenvolvimento. A contribuicao da pesquisa 
cientffica e do saber cientffico ao poder economico e militar constituiu uma novidade 
que so passou a ser reconhecida depois da producao da bomba atomica, alcancada com 
base no conhecimento adquirido em pesquisa basica e pura. Embora ja tivessemos 
muitos exemplos de como a pesquisa, o conhecimento e a tecnologia cientfficas podem 
ser uteis ao desenvolvimento de um pafs, e surpreendente que tal fato tenha sido tao 
raramente reconhecido. 20 

Assim sendo, os cientistas precisavam comprovar o seu valor pratico, se 
queriam obter algum apoio material. Em 1935, Arthur Neiva organizou uma Diretoria 
Geral de Pesquisas Cientfficas, que teve curta duracao, no ambito do M inisterio de 
Agricultura, Industria e Comercio, com o intuito de congregar organismos como o 
Instituto Nacional de Tecnologia, o Laboratorio Nacional de Produgao Mineral, um 
instituto de meteorologia, alem de um instituto de biologia animal, a ser chefiado por 
A I vara Osorio de Almeida. Era obvia a sua orientacao pratica. Essa Diretoria teria 
sido a primeira agenda federal responsavel diretamente pel as atividades cientfficas no 
pafs, mas ela na realidade jamais decolou. Apos um conflito entre Fonseca Costa, 
diretor do Instituto de Tecnologia, e o M inistro da Agricultura, o instituto teve de ser 
transferido para um outro ministerio e o projeto como um todo foi abandonado. No 
entanto, a ideia de planejamento cientffico ja estava capturando as mentes e, em 1938, 
Chagas foi a Paris, no intuito de informar-se sobre o Centre National de la Recherche 
Scientifique, dirigido por J ean Perrin e criado pelos Curie durante a epoca da Frente 
Popular. Chagas recolheu toda a documentacao relacionada com o CNRS e levou-a ao 
M inistro da Educacao, Gustavo Capanema, que se mostrou "extremamente 
interessado" pela ideia, como recorda Chagas, mas nao foi capaz de despertar a 
atencao do Presidente Vargas. So muito depois, ja em 1951, veio a ser criado um 
centra nacional de pesquisas, o CNPq. 



19 Entrevista com Paraense. 

20 Entrevistas com Frota M oreira. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 19 

A Fundacao Rockefeller no Brasil 

A terceira fonte de apoio a ciencia, alem do governo e do setor privado, era 
constitufda pelas fundacoes internacionais, entre as quais se salientou, como a mais 
importante, e por muitos anos, a Fundacao Rockefeller. Esta Fundacao foi criada em 
1909, como uma instituicao filantropica, "no intuito de fomentar a civilizacao, 
disseminar conhecimentos e reduzir sofrimentos" 21 , com uma dotacao de 50 mi I hoes 
de dolares dada pela Standard Oil Company de Nova Jersey. Ela foi precedida por 
tres instituicoes: o Instituto Rockefeller para Pesquisas Medicas, estabelecido em 
1901; a Junta Geral de Educacao, de 1903, destinada a desenvolver as ciencias 
naturais, agricultura, humanidades e antes, sobretudo nos estados sulinos norte- 
americanos; e a Comissao Sanitaria Rockefeller, de 1909, voltada para o controle da 
ancilostomfase nos estados sulinos dos Estados U nidos. 

Os bons resultados da Comissao Sanitaria influenciaram a decisao de conduzir 
as atividades da nova fundacao para o campo da medicina e saude publica, e estende- 
la a outros pafses. As atividades internacionais foram institucionalizadas em 1916, 
mediante o estabelecimento da J unta Intemacional de Saude (previamente chamada de 
Comissao Intemacional de Saude), ate entao responsavel por levar a outros pafses o 
trabalho de erradicacao de ancilostomfase, por estabelecer agendas de saude publica, 
e por disseminar modernas praticas cientfficas medicas. Tambem constitufam seus 
objetivos algumas outras epidemias, como a malaria e a febre amarela. Um outro 
programa era voltado para a melhoria da educacao medica e da saude publica, tanto 
nos Estados U nidos como no estrangeiro, por meio de bolsas e doacoes institucionais. 

No final da Primeira Grande Guerra, a Fundacao Rockefeller e a Junta de 
Educacao criaram um programa para custear escolas medicas na America Latina, no 
Oriente Medio e no Sudeste Asiatico. Duas comissoes foram enviadas para a 
America Latina em 1916: uma, para estudar o processo de disseminacao da febre 
amarela e suas fontes de contaminacao, alem de apresentar sugestoes para a respectiva 
erradicacao. A outra, para identificar centros de educacao medica e de saude publica 
a serem apoiados. 

As comissoes dirigiram-se ao Equador, Peru, Colombia, Venezuela e Brasil; e 
nesse mesmo ano foi negociado um acordo com a Faculdade de Medicina de Sao 
Paulo, entao dirigida por Arnaldo Vieira de Carvalho. Como resultado, duas novas 
catedras viriam a ser criadas na Faculdade, para serem custeadas conjuntamente pela 
Fundacao e pelas autoridades de Sao Paulo, pelo prazo de cinco anos. Dois 



Shaplen 1964:6. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 20 

professores americanos -- Oscar Klotz e Robert Lambert -- vieram para conduzir a 
nova cadeira de anatomia patologica, e dois outros -- S. T. Darling e Wilson Smilie -- 
chegaram para lecionar higiene. Dois medicos brasileiros, Geraldo Horacio de Paula 
Souza e Borges Vieira, foram enviados para estudar na Escola Johns Hopkins de 
Higiene e Saude Publica. A fundacao solicitou a adocao de um sistema de ensino em 
regime de tempo integral eo requisito de numerus clausus para a admissao dealunos. 
A Faculdade teve de alterar seus regulamentos e submeter tais modificacoes a 
aprovacao das autoridades estaduais. 

A I em dessas duas cadeiras, a Fundacao custeou ainda a construcao de 
laboratories de anatomia, fisiologia, qufmica, patologia e higiene, ao passo que o 
governo estadual se incumbiu de construir um hospital. M ais tarde, foi concedido um 
novo credito para a construcao de outro ediffcio. Em 1924, criou-se um Institute de 
Higiene, que viria a transformar-se, em 1945, na autonoma Faculdade de Higiene e 
Saude Publica. 22 Outras instituicoes receberam doacoes menores. A Faculdade de 
Medicina de Minas Gerais obteve auxflio para criar a sua cadeira de patologia, e 
Carlos Pinheiro Chagas recebeu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos, no 
entendimento de que assumiria a tal cadeira, quando de seu regresso. Acredita-se que 
elefoi o primeiro beneficiario de uma bolsa da Fundacao Rockefeller no Brasil. 23 

Houve tambem um acordo, entre o governo brasileiro e a Fundacao 
Rockefeller, para a erradicacao da febre amarela e ancilostomfase. De acordo com o 
mesmo, vinte e cinco estacoes deveriam ser criadas em onze estados, no perfodo de 
cinco anos. Os recursos deveriam provir dos estados, das cidades, dos proprietaries 
locais e da Junta Internacional de Saude. Em 1917, criou-se um servico para a 
prevencao da ancilostomfase, no ambito do Departamento Nacional de Saude Publica, 
que iniciou o fornecimento regular de tecnicos, facilidades materiais e transportes, 
enquanto que a Junta Internacional providenciava medicamentos e microscopistas. 
No final do ano de 1924, ja estava montada e em operacao uma rede de 122 estacoes, 
em vinte estados. A pesquisa sobre ancilostomfase era levada a efeito na Faculdade 
de M edicina de Sao Paulo, em cooperacao com aj unta Internacional de Saude. 

Um dos subprodutos dessa campanha foi a criacao de servicos de saude em 
varios estados, com o objetivo de melhorar as condicoes medicas e sanitarias das 
populacoes rurais, primeiro em Sao Paulo e M inas; e, mais tarde, em outras regioes. 
As equipes -- constitufdas de um doutor, uma enfermeira, um inspetor sanitario e um 



22 A. deA. Prado 1958:790,794-95. 

23 Entrevista com Braga. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 21 

assistente administrative -- tinham de inspecionar as condicoes sanitarias, realizar 
testes de laboratories tratar a ancilostomfase e aplicar injecoes. 

Todos os entendimentos entre a Fundacao Rockefeller e o governo brasileiro 
eram conduzidos por Carlos Chagas, que tambem era diretor da saude publica e 
Diretor do Instituto Oswaldo Cruz, anteriormente chamado M anguinhos. Um medico 
patologista do Hospital Bellevue, da cidade de Nova York, chamado Bowman C. 
Crowell, veio para orientar o trabalho dos patologistas de M anguinhos, que inclufam 
M argarinos Torres, Cesar Guerreiro, Osvino Pena e Carlos Burle de Figueiredo. Essa 
cooperacao tornou-se ainda mais intensa com o ocorrencia das epidemias de febre 
amarela de 1928. 24 Criou-seno Instituto Oswaldo Cruz, em 1937, um laboratorio para 
pesquisas sobre febre amarela, com o apoio da Fundacao Rockefeller, o qual so podia 
operar com problemas diretamente relacionados com a enfermidade. 25 

Outra epidemia a combaterfoi a malaria, transmitida pelo mosquito A nopheles 
gambiae, identificado pela primeira vez em 1937 no interior do Ceara. Em 1938, 
Evandro Chagas e sua equipe do Servico Especial de Grandes Epidemias verificou 
que a toda a populacao rural nos vales do Ceara ja estava contaminada. Num breve 
perfodo de tempo, eles puderam contar cerca de 14.000 mortes e mais de 100.000 
ocorrencias no Vale do Jaguaribe. Em outubro de 1938, uma equipe do Servico de 
Febre Amarela, composta de tecnicos brasileiros e da Junta Internacional de Saude, 
chegou ao Ceara, para iniciar a campanha. Em Janeiro de 1939, o governo brasileiro 
criou o Servico de Malaria do Nordeste, que assinou imediatamente um acordo de 
cooperacao com a Fundacao Rockefeller. 26 

Na decada de 1930, a mesma Fundacao ampliou sua lista de prioridades, 
passando a fornecer recursos materiais para pesquisa basica, ensino de pos-graduacao, 
educacao superior e desenvolvimento institucional. Para isto, trabalhava com cinco 
divisoes: saude internacional, que realizava campanhas sanitarias em ambito 
internacional; ciencias medicas, que cuidava particularmente de fisiologia, medicina 



24 Fonseca Filho 1974:73. A campanha contra a febre amarela comecara em 1923. 
Para esse fim, o pafs fora dividido em duas regioes: o Norte, a ser cuidado diretamente pela 
Fundacao Rockefeller, desde sua base em Salvador, e o Sul, sob a responsabilidade do 
Departamento Nacional de Saude Publica e do Instituto Oswaldo Cruz. No infcio dos anos 30, 
ja fora possfvel conseguir nfveis razoaveis de controle. Entretanto, em 1932, foi identificada 
uma forma selvagem de febre amarela -- que levou a conclusao de que o mosquito portador, o 
aedes aegypti , nao poderia ser totalmente eliminado. Com isso, as autoridades passaram a ver 
na inoculacao a unica alternativa disponfvel a ser aplicada as populacoes expostas (entrevista de 
Braga). 

25 E ntrevi sta com D i as. 

26 Sopere Wilson 1943:84-86; Picaluga, Torres & Costa 1977:79. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 22 

industrial e psiquiatria; ciencias naturais, para fisica e biologia; ciencias sociais, 
dirigida para os campos de relacoes internacionais, economia e administrate© publica; 
antes e humanidades, com enf ase em arqueologia e cultura classica. 27 

As atividades da fundacao na America Latina restringiam-se inicialmente a 
area da saude. Contudo, durante a Segunda Grande Guerra, urn de seus especialistas 
sediados na Europa, Harry M. Miller, foi enviado a America Latina, com a 
incumbencia de identificar cientistas potencialmente promissores em todos os campos 
do conhecimento humano, que devessem receber o apoio da fundacao. Os candidates 
teriam de ser intelectualmente qualificados e estar ligados a uma instituicao que 
pudesse ampara-los apos seu regresso ao pafs de origem. Tambem foram dados 
recursos materiais para a aquisicao de equipamento e para a manutencao de 
professores estrangeiros visitantes. A Faculdade de Filosofia da U niversidade de Sao 
Paulo foi as principal beneficiaria desses recursos, sobretudo nos campos de genetica, 
fisica equimica. 

Harry Miller, formado em biologia, mostrou-se eficiente na localizacao de 
talentosj ovens, e o auxflio da Fundacao Rockefeller revelou-se de grande importancia 
para a terceira geracao de cientistas brasileiros. Contudo, a principal preocupacao da 
Fundacao no Brasil jamais esteve concentrada no auxflio a ciencia basica (Tabela 8). 
Todos os recursos se dirigiam a saude publica ate o advento da Segunda Guerra 
M undial, quando a Escola de Sociologia e Polftica em Sao Paulo e as ciencias naturais 
passaram a receber uma ajuda limitada. Seguiu-se uma ampliacao desse auxflio para 
a agricultura e medicina. O apoio da Fundacao elevou-se durante o perfodo da 
Alianca para o Progresso (entre 1955 e 1960), para depois reduzir-se. Em 1970, ela 
auxiliava somente a U niversidade da Bahia, em Salvador, no campo de ciencias 
sociais aplicadas. 

Em resumo: alem de sua contribuicao direta para o controle de enfermidades 
tropicais, a Fundacao Rockefeller exerceu um grande impacto sobre a comunidade 
cientffica brasileira, mediante a exportacao da capacidade tecnologica e de modelos 
institucionais americanos, alem de ter permitido a um significativo grupo de 
brasileiros uma exposicao direta ao ambiente cientffico e educacional americano. Em 
termos mais espeefficos, ela serviu como instrumento fundamental no processo de 
substituir a Franca pelos Estados Unidos, como a meta para a qual se dirigem os 
cientistas brasileiros em busca de educacao, inspiracao e modelos. 



27 Nielsen 1972. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 23 

Pode-se indagar se, a longo prazo, foi positivo ou negativo o impacto desta 
influencia sobre a comunidade cientffica brasileira. Parecem estar acima de qualquer 
duvida a relevancia e os beneffcios das campanhas sanitarias. M ais questionavel, no 
final das contas, foi a adocao do modelo americano de educacao medica e de 
organizacao profissional, introduzidos quando foi reorganizada a Faculdade de 
M edicina de Sao Paulo, e quesetornaram o padrao para todo o pafs. 28 

Tabela 8. Contribuicoes da Fundacao Rockefeller a Ciencia, Pesquisa e Educacao no 
Brasil, 1932-1974 (em milhares dedolares) 



Pen'odo 


Saude 
Publica 


M edicina 


Ciaxias 

Naturais 


CiehciasSodais 


Agricultura 


Outros 


Total 


1930-35 


1.719 


- 


- 


- 


- 


- 


1.719 


1936-40 


1.117 


- 


- 


- 


- 


- 


1.117 


1941-45 


634 


- 


6 


10 


- 





661 


1946-50 


392 


- 


80 


5 


18 





537 


1951-55 


49 


224 


84 


- 


265 


76 


699 


1956-60 


190 


1.466 


592 


286 


955 


144 


3.634 


1961-65 


127 


411 


419 


8 


345 


49 


1.365 


1966-70 


319 


37 


235 


2 


168 


- 


611 


1971-75 


11 


- 


- 


450 


- 


- 


462 



Fonte: Calculada com base nos relatorios anuais da Fundacao Rockefeller (V. M . C. 
Pereira 1978). 

Em princfpio, teria sido possfvel adotar um modelo diferente de educacao 
medica e de protecao de saude sem sacrificar o conhecimento que poderia ser obtido 
por meio de contatos com os centres cientff icos mais avancados. N a pratica, contudo, 
a adocao de tal rumo teria de pressupor um conhecimento de modelos alternatives e 
um firme comprometimento com os mesmos por parte das autoridades brasileiras. Na 
falta deles, o padrao norte-americano foi simplesmentecopiado o mais proximamente 
possfvel, para servir de modelo a ser seguido. Este fenomeno nao ocorreu apenas no 
campo da medicina, mas tambem em outros campos cientfficos. Na medida em que 
os Estados Unidos se transformavam no maior centra cientffico do mundo, a adocao 
dos modelos americanos se tomou uma pratica general izada para a maioria das 
instituicoes cientfficas brasileiras. 



28 Pena 1977. 



Capftulo 7 - A profissional izacao da ciencia - 24 

Centralizagao administrativa ea Pesquisa C ientifica 

Estas tendencias para a profissional izacao da ciencia estavam fadadas a sofrer 
o impacto de uma tendencia geral a central izacao polftica e administrativa que se 
acelerou nos anos 30 e atingiu de modo particularmente intenso as novas instituicoes 
cientfficas e educacionais. M uitos foram os que viram com agrado esse processo de 
centralizacao e homogeneizacao dos sistemas educacionais e ad mini strati vos 
brasileiros, por considerarem tais movimentos como sinais de modemizacao. 
Fernando de Azevedo, que foi convidado a escrever um livro de introducao aos 
resultados do recenseamento do 1940, conhecia bem os dois lados da questao etentou 
chegar a uma posicao de equilfbrio: 

Agregar, reunir e fortalecer as similaridades dos estados federais no espfrito de 
comunhao brasileira nacional -- esta foi a principal tarefa institufda pelo governo sob o 
novo si sterna polftico, a comecar pelo fortalecimento da autoridade do poder central, 
pela expansao das fronteiras, pela eliminacao de diferencas locais, e pela fusao de 
estados e comunidades rurais e urbanos numa so nacao. A unificacao dos sistemas 
educacionais -- nao pelo emprego de estruturas de ensino identicas, mas pela adocao 
das mesmas normas basicas ou, em outras palavras, pela organizacao da educacao 
publica em obediencia a uma polftica geral e pianos unificados -- constitui um modo 
(certamente o mais poderoso e eficaz) com que o novo regime pretende alcancar a 
assimilacao ea reconstrucao nacional. 29 

O fato e que o fortalecimento das estruturas do governo central e as tentativas 
de colocar a burocracia estatal sob a egide de um gerenciamento racional e 
"administracao cientffica" tiveram o resultado inesperado de desorganizar uma boa 
parte da pesquisa cientffica que ainda existia na capital do pafs, sem deixar muita 
coisa em seu lugar. Em 1937, foi criado o Departamento Nacional do Servico Publico 
(DASP), sob a chefia de Lufs Simoes Lopes, que era um conselheiro muito ouvido por 
Getulio Vargas, com a missao de exercer o controle sobre a administracao publica do 
Brasil. Pela primeira vez, tomava o pafs conhecimento de ideias como sistema de 
progressao por merito, prof issional izacao, carreiras, treinamento tecnico de servidores 
publicos e utilizacao de metodos cientfficos na administracao. Havia o pressuposto de 
que o dirigismo estatal so teria a crescer nos anos seguintes, para o qual se fazia 
necessario um servico publico forte, centralizado orientado cientificamente. Embora 
jamais se tenham materializado as ambicoes mais ousadas, foi muito duradouro o 
impacto do Departamento na vida cotidiana das instituicoes publicas brasileiras. 30 

Uma das primeiras medidas tomadas pelo novo departamento consistiu na 
decisao de que os servidores publicos nao mais poderiam ter mais de um emprego 



29 F.de Azevedo 1963:689-90. 

30 Schwartzman (ed.) 1983: cap. I, pp. 15-70; Daland 1967. 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 25 

publico. Essedecreto, conhecido como a "lei de desacumulacao", teveconsequencias 
imediatas sobre as areas ligadas ao ensino e pesquisa. 31 Os cientistas, em sua maior 
parte, preferiram abandonar seus cargos academicos e permanecer nos institutes, onde 
a remuneracao era melhor e onde seria possfvel continuar com as pesquisas e o 
trabalho tecnico. O regime detrabal ho em tempo integral era entao algo praticamente 
desconhecido nas instituicoes de ensino superior no Brasil, exceto na Faculdade de 
Medicina de Sao Paulo, que recebia o apoio da Fundacao Rockefeller e, nessa 
qualidade, devia seguir os padroes que estavam entao sendo implementados nas 
escolas medicas americanas. Leinz recorda que o seu salario no Departamento 
Nacional da Producao M ineral, de cerca de tres "contos de reis", correspondia a dez 
vezes o que ganhava um professor catedratico na Escola de Engenharia. A aplicacao 
da lei de desacumulacao as atividades de ensino e pesquisa, feita de modo assim 
indiscriminado, nao levava em consideracao as peculiaridades da epoca. A 
implantacao de horarios de trabalho em regime de tempo integral trouxe a maior 
balburdia ao que tinha sido construfdo ate entao. Pelo fato de que exerciam 
simultaneamente cargos de pesquisa e de ensino, em instituicoes diversas, os 
membros da pequena comunidade cientffica brasileira vinham podendo maximizar a 
sua produtividade. E, desse modo, fora criada uma rede englobando cientistas dos 
institutes, colegios, reparticoes publicas e museus, circunstancia essa que tornava 
possfvel superar as limitacoes materiais etecnologicas decada grupo. 

Apartadas do mundo academico, esujeitas as regulacoes formais e aos salarios 
decrescentes do servico publico, quase todas as instituicoes de pesquisa aplicada 
entraram num perfodo de declfnio. Todas as atividades cientfficas e universitarias 
foram golpeadas duplamente pelo movimento central izador. Em primeiro lugar, 
foram vftimas da tentativa, executada pelo M inisterio de Educacao, de unir e controlar 
todos os cenarios culturais e de ensino, como um todo. Em seguida, como aconteceu 
em 1937, sofreram com o processo de unificacao administrativa, patrocinado pelo 
Departamento de Administracao do Servico Publico, em cuja visao o sistema 
cientffico e educacional nada mais era do que uma parte de um organismo 
administrative maior. O episodio de desacumulacao tomou evidente que a atividade 



31 "A 'desacumulacao' foi decretada la pelo final de 1937, comeco de 1938. ...[Ate 
entao,] um professor ou qualquer outro funcionario publico podia ter varios cargos 
simultaneamente.... E claro que tal circunstancia dava margens a muitos exageros, que 
provocavam fortes crfticas. Quando o Estado Novo assumiu o poder, a chamada acumulacao 
de cargos tornou-se proibida. Todo funcionario teve de optar por um cargo definido. Isso tudo 
foi feito, presumo eu, com a melhor das intencoes. Acho que cada empregado deveria 
realmente ter um so emprego. Mas acredito tambem que a 'desacumulacao' constituiu um 
desastre para o Brasil em certos casos. Ao mesmo tempo em que a 'desacumulacao' foi 
aprovada, algo deveria ter sido feito para melhorar substancialmente a situacao profissional de 
cada um. Muitos cargos eram frequentemente acumulados nao porque os empregados 
quisessem ter varios patroes, mas simplesmente porque eles precisavam de ganhar melhor" 
(Entrevista com Leinz). 



Capftulo 7 - A profissionalizacao da ciencia - 26 

cientffica nao tinha, por si propria, adquirido personal idade distinta ou autonomia 
suficiente para que as autoridades constitufdas admitissem a necessidade de conceder- 
Ihe um tratamento especial ou reconhecessem nela algo valioso que precisasse ser 
protegido das vicissitudes polfticas ou burocraticas. Segundo a visao oficial, quem 
quer que realizasse trabalho cientffico num dos institutes de pesquisa govemamental 
ou lecionasse numa universidade publica era, em primeiro lugar e acima de tudo, um 
funcionario publico, e nao um pesquisador ou cientista. A experiencia advinda da 
desacumulacao mostrou como era fragil a institucionalizacao da ciencia no Brasil. 
Revelou ainda ate que ponto o seu valor e seu carater especial eram totalmente 
desconhecidos pelas autoridades que implementavam as normas central izantes e 
burocraticas da administracao federal. 

So tiveram exito aqueles que, de um modo ou outro, conseguiram escapar a 
regra geral. Isso pode ser confirmado por dois casos notaveis, reveladores de 
maneiras distintas de lidar com a mesma situacao. O primeiro diz respeito a 
Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras de Sao Paulo, que foi apoiada pelo 
movimento do Estado de Sao Paulo em favor de um grau maior de autonomia 
regional. O segundo ocorreu com o laboratorio de bioffsica da Faculdade de 
Medici na do Rio de Janeiro, mais tarde nomeado Instituto de Bioffsica, onde Carlos 
Chagas Filho conseguiu a duras penas criar condicoes aceitaveis de pesquisa para seu 
grupo de auxiliares escolhidos a dedo. Em ambos os casos, ficou patente que as 
circunstancias tomavam impossfvel superar as dificuldades e obstaculos gracas 
somente ao prestfgio ou reconhecimento publico dos meritos cientfficos e academicos 
do orgao ameacado. Nas duas instancias, tornou-se inevitavel recorrer ao jogo da 
polftica ou utilizar conexoes pessoais ou familiares para superar formalidades 
burocraticas e compensar a falta de apoio mais amplo. No caso de Chagas Filho, 
tornou-se crucial contar com uma origem familiar aristocratica e dispor de conexoes 
pessoais com o topo da hierarquia administrativa -- condicoes que escapam a grande 
maioria dos cientistas. 32 O trabalho cientffico e academico ainda era raro, constitufa 
mais a excecao do que a regra, no momento em que o Brasil acreditava que estava 
entrando, final mente, no mundo da modernidade. 



3232 "Fui convidado para trabalhar em M anguinhos na area de doencas endemicas. Por 
isso, tive facilidade em entrar em contato com um ministro -- no caso, um muito importante 
ministro da cultura, o Ministro Gustavo Capanema -- e especialmente com um dos mais 
dedicados espfritos publicos que conheco, Lufs Simoes Lopes, diretor do Departamento de 
Administracao do Servico Publico, que era muito mais poderoso entao do que e hoje. Foi 
Simoes Lopes que me tornou possfvel contratar Herta M eyer, Veiga Sales de M oura Goncalves 
e varios outros, mediante a criacao de uma categoria especial de membros da equipe, 
designados tecnicos especiais. Esses empregados podiam trabalhar trinta e tres horas por 
semana e ganhavam mais que um professor catedratico -- nao muito mais, mas algo mais." 
(Entrevista com Chagas Filho). 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 8 
MODERNIZACAO DO POS-GUERRA 

Cientistas como parte da Intelligentsia 3 

Energia Nuclear e o Conselho Nacional de Pesquisas 6 

As novas universidades de elite 7 

Expansao da Educacao Superior 15 



As transformacoes na sociedade brasileira desde a Segunda Guerra M undial 
podem ser caracterizadas como uma marcha frenetica e muitas vezes desajeitada em 
direcao ao futuro -- e o ano 2000 era muitas vezes mencionado -, quando o pafs 
deveria finalmente entrar no grupo das nacoes modernas, ricas e civilizadas. A 
medida que nos aproximamos desse magico patamar, torna-se obvio que, se existe tal 
possibilidade, nao faltam tampouco sinais de crise, e que tal ocasiao poder ser 
perdida. 

Os acontecimentos relacionados com ciencia, tecnologia e educacao devem ser 
vistos dentro dessa otica, bem como no contexto das modificacoes que varreram a 
sociedade brasileira nas ultimas decadas, ao mesmo tempo em que concentraram em 
grandes centres rurais uma populacao que cresce rapidamente, elevaram o nfvel geral 
de educacao e substitufram a agricultura por uma economia industrial em expansao 
(Tabela9). 

Esse perfodo pode ser dividido em duas partes bem distintas, separadas pelo 
ano de 1968, a parti r de quando foram criados novos programas de pos-graduacao, em 
que a matrfcula nos cursos de graduacao se elevou a taxas altfssimas, e grandes somas 
de dinheiro foram destinadas a pesquisa. A decada de 1980 marca o infcio de um 
terceiro perfodo, muito diferente, caracterizado pela estagnacao, crise e duvidas 
crescentes sobre as realizacoes dos anos anteriores. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -2 



Tabela 9. M udancas Estruturais na Sociedade Brasileira, 1950 - 1980 





Cerca de 1950 ( 
%) 


Cerca de 
1980 (% ) 


Populacao em cidades com mais de 20.000 habitantes 


21,0 


46,0 


Emprego no setor primario 


60,0 


30,0 


Empregos tecnicos, administrativos e similares 


10,0 


19,0 


Empregos na industria 


13,0 


21,0 


Cafe, como percentagem do total de exportacoes 


60,0 


13,0 


Produtos industrial izados, como percentagem do total de 
exportacoes 


~- 


57,0 


Populacao alfabetizada (10 anos ou mais de idade) 


43,0 


74,5 


Populacao com 8 ou mais anos de educacao (19 anos ou 
mais de idade) 


1,9 
(1940) 


22,8 


M atrfculas em instituicoes de ensino superior (% do grupo 
etario) 


0,9 


10,0 



Em 1964, assumiu o poder um govemo militar politicamente conservador, 
cujo relacionamento com a comunidade cientffica e as universidades foi muito 
conflituoso, tendo culminado tal processo, no infcio da decada de 1970, com a perda 
do cargo para centenas de cientistas e professores, e o exflio para muitos. N ao chegou 
a se materializar, contudo, a previsao de que o novo regime seria completamente 
fechado a ideias novas em materia de ciencia e educacao. Em 1968, o ensino superior 
passou por uma profunda reorganizacao e entrou numa decada de rapida expansao. 
Ainda no final da decada, foram criados varios orgaos e comecaram a ser organizados 
fundos para a ciencia e tecnologia, processo de que resultou a expansao sem 
precedentes de instituicoes de ensino de pos-graduacao e de pesquisas. A contradicao 
entre estas polfticas e as simultaneas medidas de repressao refletia, em boa medida, a 
ausencia, por parte do govemo central, de qualquer polftica definida em questoes de 
ciencia e educacao, falha essa que conduziu a decisoes baseadas numa divisao de 
esferas de influencia dentro da burocracia do estado. A repressao polftica chegou a 
seu apogeu, quando no final de 1968, uma junta militar assumiu plenos poderes e deu 
plena liberdade de acao, durante varios anos, a grupos de militares das alas 
repressivas e da chamada area de inteligencia. Tal processo foi mitigado durante o 
perfodo presidencial de Ernesto Geisel, apos 1975, quando se iniciou um ambicioso 
projeto de crescimento nacional, e os grupos mais repressivos tiveram limitada a sua 
capacidadede acao. 



A participacao do Brasil na Segunda Guerra Mundial nao foi muito intensa, 
mas propiciou a oportunidade de tentar um primeiro programa de mobilizacao e 
planejamento economico na historia do pafs. Foram modificados muitos de seus 
padroes tradicionais de comercio, mas o Brasil acabou se tomando um fomecedor 
importante de materiais estrategicos para os Aliados Ocidentais -- diamantes, 
manganes, nfquel, tungstenio e, mais importante ainda, borracha. Com o intuito de 
garantir o suprimento regular desses produtos, o govemo americano providenciou o 
equipamento de laboratorios e auxiliou na organizacao da producao. Um dos passos 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -3 



mais importantes no processo de industrial izacao do pafs consistiu na criacao da usina 
siderurgica de Volta Redonda, com o auxflio tecnico e economico dos Estados 
Unidos, em decorrencia dos acordos que levaram o Brasil a entrar na guerra. 1 A 
reducao do volume das importacoes aumentou a demanda pelos produtos 
manufaturados de Sao Paulo, o que deu margem a um excesso de moeda estrangeira. 
Ao terminar a guerra, um governo constitucional baseado no sufragio universal 
substituiu o regi me de Vargas. 

O superavit economico ajudou a criar um mercado para os produtos 
industrializados. U ma vez que se esgotaram as reservas cambiais, as industrias 
brasileiras e de capital estrangeiro comecaram a produzir local mente para abastecer 
esse mercado numa sociedade urbana em plena expansao. 

C ientistas como parte da Intelligentsia 

Era muito grande, nos anos seguintes a Segunda Guerra M undial, o otimismo 
em relacao ao papel positivo que a ciencia e a tecnologia poderiam desempenhar para 
elevar os pafses latino-americanos a patamares socio-economico mais satisfatorios. A 
guerra, tendo demonstrado a forca da ciencia e da tecnologia para a destruicao, 
animou em todos a esperanca de que esse mesmo poder viesse a ter um impacto 
benefico, desde que orientado corretamente. Tal ideia parecia confirmar-se com a 
onda de inovacoes e transformacoes tecnologicas que ocorriam na industria e na 
agricultura. 

A visao de que a ciencia e as universidades poderiam exercer um papel 
positivo na conquista de transformacoes socio-economicas fazia parte da ideologia 
"desenvolvimentista", que emanara dos trabalhos da Comissao Economica da Nacoes 
Unidas para a America Latina (cepal). 2 Num documento publicado em 1970, Raul 
Prebisch enfatizara a necessidade de que fosse adaptado e reorganizado o 
conhecimento tecnologico internacional, para atender as condicoes especfficas da 
America Latina. Ele acreditava ser possfvel definir prioridades atraves do 
planejamento economico, e organizar programas de pesquisa para atender a essas 
prioridades. "Tudo isso mantem um estreito relacionamento com a educacao. Sera 
necessario promover programas educacionais que, alem da difusao de tecnologias, 



1 McCann 1973 

2 Para uma discussao mais extensa, ver Schwartzman 1984b e 1985 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -4 



tenham tambem entre seus principals objetivos o estfmulo da capacidade criadora 
nestecampo." 3 

O ativismo cientffico do pos-guerra era diferente do que prevalecera durante a 
organizacao da Faculdade de Filosofia da Universidade de Sao Paulo. Antes da 
guerra, a necessidade de contar com a ciencia era proclamada em nome da cultura, da 
civilizacao e da lideranca intelectual. Mais tarde, passou-se a ver na ciencia uma 
ferramenta importante para o processo de desenvolvimento e planejamento 
economicos, o que levou os cientistas a sustentar que Ihes cabia a responsabilidade de 
nao se limitarem a ter somente uma vida academica. Eles queriam participar de todas 
as decisoes relevantes da sociedade, e sentiam-se capacitados para tal missao. Eles 
haviam acompanhado atentamente o envolvimento de cientistas no esforco de guerra 
na Inglaterra, Estados Unidos e Uniao Sovietica. Eram bem conhecidas as ideias 
antecipadas nos anos precedentes por J . D. Bernal e Frederic J oliot-Curie. Tambem 
ajudaram as experiencias com pesquisa militar realizadas na Faculdade de Filosofia 
durante a guerra. 

Os proponentes dessas novas atribuicoes para os cientistas eram pessoas 
altamente qualificadas, em geral com trabalhos e experiencia de estudo na Europa e 
nos Estados Unidos. Tendo tido contato com outras culturas e outras mentalidades, 
nao aceitavam o sistema de hierarquias baseadas na influencia pessoal, que 
predominava em seu proprio pafs. Tinham confianca em sua capacidade de provocar 
mudancas e de liderar um moderno sistema educacional e de pesquisas, desde que 
Ihes fosse assegurado o suficiente apoio nacional e intemacional para porem a prova 
as suas ideias. Acreditavam que o enfoque cientffico deveria ser utilizado nao 
somente para desenvolver novas tecnologias ou controlar enfermidades tropicais, 
como tambem para implementar o planejamento social e polftico em seu nfvel mais 
elevado. A participacao polftica era vista como um canal necessario para atingir os 
nfveis de influencia e responsabilidade social que os cientistas julgavam precisar. Sua 
visao polftica tendia a ser racionalista, nacionalista e socialista. 

Foram varias as linhas de acao que partiram dessas premissas: a comunidade 
cientffica deveria ser organizada e mobilizada; o sistema educacional precisaria ser 
modificado; a ciencia e a tecnologia deveriam contar com orgaos poderosos de 
planejamento institucionalizado; deveriam ser enunciadas prioridades especfficas no 
campo da ciencia e da tecnologia, com vistas a reunir todo o apoio polftico que 
conseguissem angariar. 



Citado em Graciarena 1964 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -5 



primeiro passo para organizar e mobilizar os cientistas foi a criacao, em 
1948, da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciencia (SBPC), que passaria a ser 
a agenda brasileira responsavel pelo dialogo com as associacoes congeneres 
existentes em outros paises. Os principais organizadores foram Jorge Americano, 
Jose Reis, Paulo Sawaya, M aurfcio Rocha e Silva, Jose Ribeiro do Vale e Gastao 
Rosenfeld, todos originarios de instituicoes de pesquisa biologica do estado de Sao 
Paulo. Seu proposito inicial e de curto alcance era organizar a comunidade cientffica 
para defender-se das polfticas populistas do entao governador do estado, Ademar de 
Barros. M ais tarde, desenvolveu uma serie de atividades destinadas a reforcar o seu 
papel de orgao nacional representative dos cientistas brasileiros: promovia reunioes 
anuais em diferentes cidades brasileiras; publicava uma revista, intitulada Ciencia e 
Cultura, para distribuicao entre seus associados; apoiava a criacao de associacoes 
cientfficas especial izadas, que de modo geral faziam suas reunioes anuais juntamente 
com a SBPC; e promovia estreitos contatos entre os cientistas brasileiros e agendas 
de governo, autoridades Cientificas nacionais, e a comunidade cientffica 
internacional. 

Durante alguns anos, na decada de 1970, as reunioes anuais da SBPC 
representaram o unico foro aberto para discussoes de qualquer especie, em meio a um 
regime politico fortemente fechado e censurado. Nessa epoca, a associacao alcancou 
notoriedade publica e suas reunioes atrafam milhares de parti cipantes, alem de larga 
cobertura na imprensa. Enquanto isso, questoes estritamente cientfficas tendiam a ser 
discutidas em associacoes cientfficas especial izadas, o que levou a SBPC a 
concentrar-se em suas funcoes mais amplas de representacao e intermediacao. Nos 
anos 80, a SBPC comecou a publicar uma revista nova e de muito exito, Ciencia 
Hoje, baseada no Rio dej aneiro ededicada a disseminacao, entre as classes cultas, de 
materias ligadas a ciencia e ao trabalho de cientistas brasileiros. 4 

Outro acontecimento importante foi a institucionalizacao da Fundacao de 
Amparo a Pesquisa do Estado deSao Paulo (fapesp), orgao previsto pela constituicao 
estadual de 1946, mas organizado somente no infcio da decada de 1960. Dotada com 
0,5 % da arrecadacao dos impostos estaduais, obrigada por seus estatutos a despender 
a maior parte de seus fundos em projetos de pesquisa cientffica, e diretamente 
controlada pela comunidade cientffica estadual, a fapesp tornou-se a principal 
alternativa de financiamento a pesquisa no pafs, ao lado das agendas federais 
estabelecidas com final idades semelhantes nos anos 50 e 60. 



4 M . R. Silva 1960 e 1978; Botelho 1983. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -6 



Energia Nuclear eoConselho Nacional dePesquisas 

Em 1949, criou-se no Rio de Janeiro uma instituicao de pesquisa de direito 
privado, o Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas. Concebido com o proposito de 
conduzir o pafs no caminho da pesquisa atomica, sem as limitacoes tfpicas das 
instituicoes educacionais ou do servico publico, ele reuniu varios cientistas de alta 
qualidade, tais como Cesar Lattes, que voltara ao Brasil especial mente para estefim, e 
Jose Leite Lopes, Jaime Tiomno e Roberto Salmeron. Em 1951, dentro do mesmo 
espfrito de apoiar o desenvolvimento da ciencia, foi criado um outro orgao 
governamental, diretamente sob a supervisao do presidente da republica: o Conselho 
Nacional de Pesquisas (CNPq). Ambas as instituicoes surgiram gracas aos esforcos 
pessoais do Almirante Alvaro Alberto da M ota e Silva, militar que concebia a ciencia 
e a tecnologia sob o ponto de vista estrategico, alem de matematico e ffsico de algum 
prestigio. Previa-se ainda a criacao de uma Comissao de Energia Atomica, a ser 
organizada no ambito do conselho de pesquisas. Segundo o planejamento oficial, 
caberia a comissao o estabelecimento polfticas de longo alcance, ficando o conselho 
responsavel por garantir ao centra de pesquisas os recursos de que este precisasse para 
levar a cabo as suas atribuicoes. 

Em 1953, organizou-se o Institute de Pesquisas Radioativas de M inas Gerais, 
que a partir de 1956 passou a operar um reator experimental do tipo Triga, a base de 
uranio enriquecido. Em 1958, um grupo de ffsicos desse institute comecou a 
trabalhar com um reator nuclear, usando torio como combustfvel, mas o projeto nao 
foi adiante, a partir do momento em que o governo decidiu adquirir uma usina 
Westinghouse nos Estados Unidos, alimentada com em uranio enriquecido. No Rio 
dejaneiro, alem do Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas, a Universidade do Rio de 
Janeiro iniciou em 1954 o seu primeiro curso de engenharia nuclear, que formou 
menos de cem pessoas nos seus primeiros dez anos de atividade. Ela comecou a 
operar em 1965 o seu reator experimental de 10 quilowatts. Em 1956, no ambito da 
Universidade de Sao Paulo, organizou-se um Institute de Energia Atomica bem 
maior, dotado de um reator de piscina de 10 megawatts e servido por cerca de mil 
trabalhadores e tecnicos em pesquisas. Em 1971, instalou-se um acelerador de 
partfculas de 22 megawatts. 

A despeito desses prenuncios alvissareiros e da qualidade de seu trabalho em 
outras areas, o Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas jamais chegou realmente a 
operar no campo de energia atomica, e, apos alguns anos, foi vitimado por serios 
problemas de ordem institucional. Os esforcos originais do Conselho de Pesquisas no 
campo de energia atomica foram apoiados somente um breve perfodo, durante o 
segundo governo de Vargas, que terminou com seu suicfdio em 1954. Os Estados 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -7 



Unidos nao apoiaram essas operacoes porque insistiam em reter para si o controle do 
processo de enriquecimento. Em 1954 o governo americano impediu a entrega detres 
centrifugadoras para enriquecimento de uranio, que o Brasil havia comprado a 
Universidade de Gottingen, na Alemanha Ocidental. Alem deste obstaculo polftico, a 
escala limitada dos esforcos de pesquisa iniciados pelo Brasil naqueles anos faz 
suscitar duvidas sobre se o pafs poderia de fato ter realizado algo de maior 
significacao. 

U ma vez estabelecido, embora afastado de seu objetivo inicial, o Conselho 
Nacional de Pesquisas tornou-se um orgao distribuidor de recursos limitados a 
cientistas individuals engajados nas areas biologicas, ffsicas e de outras ciencias 
naturais. Com o apoio CNPq foi possfvel desenvolver trabalhos de pesquisas 
independentes e de pequena escala em alguns centres, mesmo quando a propria 
universidade do cientista -- em geral mais preocupada com os problemas de educacao 
profissional ou com investigates tecnicas de escopo limitado e curto prazo -- 
oferecia apoio limitado. Alem de amparar pesquisas, o Conselho oferecia, como 
ainda oferece, auxflio para viagens e bolsas para estudos avancados e de pos- 
graduacao no exterior, numa operacao conjunta com a Coordenacao de 
Aperfeicoamento de Pessoal de Nfvel Superior (capes), que eum orgao do M inisterio 
da Educacao. Dotado de um reduzido numero de funcionarios, o CNPq baseava suas 
decisoes em pareceres da comunidade cientffica, que assegurava a utilizacao correta 
de suas limitadas dotacoes. No final de decada de 1970, o CNPq teve o seu nome 
alterado para Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientffico e Tecnologico, e 
passou para a jurisdicao do M inisterio de Planejamento. 5 

As novas universidades de elite. 

Uma das caracterfsticas importantes do perfodo de pos-guerra foi a criacao de 
algumas instituicoes de elite nos campos de pesquisa e ensino, que, embora tenham 
afetado somente uma pequena parte do crescente sistema de educacao superior, 
serviram de modelo e inspiracao para reformas mais amplas que seriam tentadas nos 
anos subsequentes. O exame cuidadoso de algumas dessas experiencias revela 
caracterfsticas comuns. Todas contaram com lideranca pessoal bem definida. Suas 
origens e inspiracao podem ser ligadas a alguns dos grupos, tradicoes ou instituicoes 
mais significativos dos anos 30. Todas, do mesmo modo, conseguiram proteger-se 
das pressoes igualizadoras que partiam do M inisterio da Educacao. Finalmente, eram 



Romani 1982; Albagli 1987 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -8 



todas instituicoes novas, e nao reformadas, e por isto nao tiveram de disputar espacos 
com interesses estabelecidos e rotinas institucionais. 

A primeira dessas instituicoes foi o Institute Tecnologico de Aeronautica 
(ita), criado para fazer parte de um centra tecnologico mais amplo instituido pela 
forca aerea brasileira. Ele foi concebido desde o infcio como uma instituicao de 
engenharia militar, destinado a fornecer apoio tecnico e profissional a aeronautica 
brasileira, que fora criada como um servico independente em 1941. O projeto, 
aprovado pelo governo brasileira em 1945, inclufa uma escola de engenharia (o 
Instituto Tecnologico de Aeronautica) e um centra de pesquisas (o Instituto de 
Pesquisas e Desenvolvimento), que tiveram como modelos instituicoes semelhante 
norte-americanas. A historia oficial do centra menciona como modelos apropriados 
alguns orgaos como o M assachusetts Institute of Technlogy (m.i.t.), o California 
Institute of Technology , alem de diversas outras instituicoes de pesquisas 
pertencentes ao estabelecimento norte-americano que congrega o exercito, a marinha 
e forca aerea, bem como a aeronautica civil. 6 

Instituto foi organizado em regime de estreita cooperacao com o M .IT., que 
enviou um de seus professores, Richard H. Smith, para coordenar a execucao do 
projeto. Na decada de 1950, o Instituto tornou-se conhecido como a melhor escola de 
engenharia do Brasil e recrutava estudantes de todas as partes do pafs, por meio de 
exames de admissao extremamente competitivos. Devido a sua localizacao -- em Sao 
Jose dos Campos, proximo a Sao Paulo --, os estudantes tinham de viver no campus, 
fato que so ocorria em algumas escolas de agricultura. O ita nao era organizado como 
um estabelecimento militar, sendo aberto aos civis. A circunstancia de estar 
subordinado ao M inisterio da Aeronautica livrou-o dos regulamentos burocraticos do 
M inisterio da Educacao e permitiu-lhe contar com mais recursos do que qualquer 
outra instituicao de ensino no pafs. A cooperacao estreita com o M .IT. garantiu-lhe 
um fluxo permanente de pessoal entre o instituto e varias instituicoes norte- 
americanas, bem como propiciou aos seus melhores estudantes a possibilidade de 
continuar seus estudos nos Estados U nidos. 

O departamento de Ffsica do novo instituto era chefiado por Paulus A. 
Pompeia, antigo assistente de Wataghin. Pompeia recorda-se dos nomes das pessoas 
vinculadas ao projeto: Ernesto Lufs de Oliveira Junior, que trabalhara como Luigi 
Fantappie; o coronel da Aeronautica Casimiro M ontenegro Filho, o Ifder do projeto; e 
Richard Smith, o primeira reitor. Foram as inovacoes do projeto que atrafram 



6 Paim 1987:13-14 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -9 



Pompeia a integrar o instituto: docentes e alunos em regime de tempo integral; 
perspectivas de uma caseira para os professores; recursos para pesquisas. No inicio, 
a maioria dos professores vinham dos Estados Unidos. Apos os primeiros dez anos, o 
departamento de ffsica ja contava com cerca de cinquenta professores e havia uma 
forte enfase em pesquisa experimental. 

grupo central do departamento -- Walter Baltensberger (de origem sufca), 
Sergio Porto, Lufs Valente Boff, Mario Alves Guimaraes e Jose Israel Vargas -- 
retomou uma tradicao de ffsica de estado solido que so existira antes no Brasil gracas 
ao trabalho de Bernhard Gross. Foi o comeco de uma nova geracao, e a lista dos 
antigos alunos inclui Jose Ellis Ripper, Rogerio Cerqueira Leite, Heitor Gurgulino de 
Souza, Joao Bosco de Siqueira, Geraldo Aurelio Tupinamba e Anisio dos Santos. 
Segundo Sergio Porto, tratava-se de uma mudanca radical e ha muito necessaria em 
relacao a tradicao da ffsica de partfculas inaugurada por Wataghin. 7 

A nova instituicao nao foi aceita com facilidade, mas o apoio militar ajudou 
bastante. Pompeia se lembra: 

"O primeiro problema quetivemos foi com o M inisterio da Educacao, que nao entendia 
como uma escola de engenharia pudesse estar fora de sua supervisee. E eu era o 
encarregado das negociacoes com o M inisterio. Um dos primeiros objetivos consistiu 
em criar uma escola de engenharia moldada nos padroes americanos, isto e, uma escola 
destinada a formar engenheiros praticos, e nao teoricos. A Politecnica sofria uma forte 
influencia francesa, e a Politecnica na Franca era mais uma escola de ciencia de que 
uma escola de engenharia". 

Uma vez que nao havia acordo, os diplomas expedidos pelo Instituto eram 
registrados somente pelo Instituto de Aeronautica, o que, no final de contas, jamais 
causou qualquer dificuldade para seus alunos. 

Tambem houve resistencia por parte das altas patentes militares, que nao 
aceitavam com facilidade a ideia de que sua escola pudesse formar engenheiros civis. 
Nos termos do projeto original, o estabelecimento deveria ter tido natureza puramente 
militar. 

"Richard Smith enviou um memorando ao Brigadeiro Montenegro e ao Ministro [da 
Aeronautica] Trompowsky, mostrando que isso representaria um desperdfcio de 
recursos, que o M inisterio da Aeronautica era responsavel pelo desenvolvimento da 
industria brasileira; eque eles tambem precisavam de civis porque nao poderiam contar 
somente com oficiais militares. Uma vez que eles estavam investindo tantos recursos 



7 "Uma sociedade nao pode ter somente poetas. Ela necessita tambem de pessoas 
preocupadas com suas necessidades nacionais ... Eu formei somente ffsicos do estado solido, 
pessoas ligadas a espectroscopia ... A batalha foi longa, mas hoje voce pode ver que a ffsica de 
estado solido, a minha ffsica, domina o pafs inteiro". (entrevista com Porto). 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -10 



para construir a escola, o correto seria que tivessem entre os estudantes 90 por cento de 
civis contra 10 por cento de militares, o que Ihes daria a vantagem de que esses oficiais 
militares, destinados a exercer posicoes importantes no futuro, teriam a oportunidade 
de conhecer os civis com os quais tinham estudado. 8 

O fato de que tenha prevalecido esta concepcao ajuda a explicar o contraste 
existente entre o ita e a escola a ele correspondente no exercito, o I nstituto M ilitar de 
Engenharia do Rio de Janeiro, que permaneceu como estabelecimento puramente 
militar. Segundo Pompeia, contudo, as autoridades aeronauticas, em sua grande 
maioria, eram contra essa concepcao da escola. J a em 1960 houve uma tentativa de 
organizar o institute como uma fundacao independente, segundo um projeto inspirado 
no que estava sendo proposto para a Universidade de Brasilia. Esse proposito foi 
bloqueado pelos militares, o que levou Pompeia a pensar em deixar instituicao. 9 A 
tendencia para a militarizacao tomou-se irresistfvel apos 1964, o que levou Pompeia 
a se transferir definitivamente para o Institute de Pesquisas Tecnologicas de Sao 
Paulo. 

Desde o infcio, a escola de engenharia foi imaginada como parte de um centra 
tecnologico mais amplo, cujo institute de pesquisa e desenvolvimento era chefiado 
pelo Brigadeiro Aldo Vieira da Rosa. Em 1971 o Centra Tecnologico teve seu nome 
alterado para Centra Tecnico Aeroespacial (cta), e a pesquisa tecnologica contribuiu 
para a sua maior importancia. Em meados da decada de 1980, o centra contava com 
cerca de 5.400 empregados, dos quais 1.100 eram detentores de graus universitarios. 
Suas atividades de pesquisa inclufam foguetes e satelites artificiais. Alem de suas 
atividades proprias de ensino e pesquisas, o cta propiciou as condicoes necessarias 
para a criacao da embraer, empresa estatal construtora de avioes. Em sua 
vizinhanca, foram criadas varias instituicoes de alta tecnologia, publicas e privadas, o 
que deu origem ao que o Brasil apresenta de mais proximo do fenomeno do "Vale de 
Silfcio". A propria escola de engenharia, apos uma crise muito severa e a safda de 
muitos de seus funcionarios civis, perdeu parte do brilho que tivera nas decadas de 
1950 e 1960. 

Uma segunda experiencia envolveu a Faculdade de Medicina de Ribeirao 
Preto, fundada e dirigida por Zeferino Vaz, numa pequena cidade situada no coracao 
da terra do cafe, no estado de Sao Paulo (10) , e que iria tornar-se uma das melhores 



8 Entrevista com Pompeia 

9 Entrevista com Sergio Porto 

<10) Zeferino Vaz, nascido em 1908, graduou-se em medicina pela Faculdade de 
M edicina de Sao Paulo e estudou parasitologia com Lauro Travassos, biologia geral e genetica 
com Andre Dreyfus, e zoologia com Hermann von Ihering. Trabalhou como pesquisador no 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -11 



escolas de medicina do Brasil. Crescia a demanda por educacao medica e a 
tradicional Faculdade de Medicina da Universidade de Sao Paulo nao queria 
expandir-se. Vaz foi o diretor da nova instituicao ate 1964, quando se transferiu para 
a U niversidadede Brasflia. 

E o proprio Vaz quem explica o seu sucesso, por meio do que ele chama de 
"urn segredo aberto": 

"Sei como atrair um cientista, coisa que aprendi cedo, enquanto trabalhava no 
laboraterio de Travassos e no Institute Biologico, sob condicoes terrfveis. Podemos 
atrair cientistas quando Ihes prometemos um novo ideal cientffico. O que eu Ihes 
oferecia representava uma completa revolucao em termos de educacao medica. Por 
que revolucao?.. Porque, naqueles dias, os ffsicos tinham criado instrumentos muito 
sofisticados para analisar fenomenos biologicos... Essa revolucao, contudo, ainda nao 
havia sido incorporada ao ensino de medicina, que permanecia quase que totalmente 
morfologica e estatica, e baseada num curso de anatomia com a duracao de tres anos. 
Era o culto do cadaver." 

Os ingredientes utilizados por Zeferino Vaz em seu ambicioso projeto 
inclufam uma nova enfase em bioqufmica, fisiologia e farmacologia; a organizacao de 
disciplinas em departamentos academicos; recrutamento ativo de pessoas talentosas. 
Nova disciplinas foram introduzidas no currfculo; outras perderam a sua relevancia. 
O estudo de anatomia foi reduzido a um ano, enquanto que a pediatria, ginecologia e 
obstetrfcia tiveram sua carga aumentada. Foram inseridas a medicina preventiva e a 
psicologia medica. 

" Introduzi tambem a bi oestatfsti ca no curso medico. Por que?... Porque esta 
contribuicao basica da ffsica tornou possfvel quantificar os fenomenos biologicos 
...Estudar as variacoes de normalidade e de enfermidade sob condicoes diferentes -- ea 
isso que chamo de era de Galileu nas ciencias biologicas, por meio de um processo de 
matematizacao. Desse modo, as ciencias biologicas, que eram principalmente 
descritivas, estao se tornando parecidas com as ciencias exatas. <n) 

Para poder avancar com seus projetos, Zeferino Vaz teve de confrontar-se com 
as autoridades do M inisterio de Educacao. "Levei meu novo piano a J urandir Lodi, 
que era o diretor de educacao superior. "Ah, voce nao pode fazer isso." "Por que 
nao?" "Porque voce tern de seguir o modelo da Faculdade Nacional do Rio de 
Janeiro" "E por que tenho de seguir um modelo que ja esta obsoleto ha cinquenta 
anos?" "Porque esta escrito nos estatutos que essa e a escola modelo para a educagao 
medica no Brasil. " (12) Para conseguir aprovar os seus pianos, foi-lhe necessario fazer 



Institute Biologico, entre 1929 e 1937; e foi professor de parasitologia na Universidade de Sao 
Paulo apos 1935. 

(11) Entrevista com Zeferino Vaz 

<12) Entrevista com Zeferino Vaz. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -12 



um trabalho de convencimento junto aos membros do Conselho Federal de Educacao. 
Foi decisiva a circunstancia deque a nova escola nao dependia de apoio federal. 

G racas a seu prestigio pessoal, as condicoes de trabalho por ele oferecidas e as 
novas perspectivas profissionais e de pesquisas assim abertas, Zeferino Vaz conseguiu 
atrair um grupo de professores eminentes do Brasil e do exterior.' 13 ' O apoio veio nao 
somente do orcamento estadual, como tambem da Fundacao Rockefeller e outras 
fontes. Bern concebida, dotada de recursos adequados e limitada em suas ambicoes, a 
Faculdade de M edicina de Ribeirao Preto manteve sua qualidade e prestfgio mesmo 
apos a partida de Zeferino Vaz. Suas qualidades de resistencia e estabilidade fazem 
dela um contraponto positivo a vida produtiva geralmente curta das instituicoes 
academicas brasileiras. 

A terceira experiencia envolveu a U niversidade de Brasflia. Esta universidade 
fazia parte de um projeto integral para a nova capital do pafs, e sua organizacao foi 
confiada a Darcy Ribeiro' 14 ' O primeiro grupo de estudo designado para organizar a 
nova universidade era formado por Darcy Ribeiro; por seu grande amigo e escritor, 
Ciro dos Anjos, chefe da casa civil do Presidente J uscelino Kubistschek; e pelo 
arquiteto Oscar N iemeyer. A nfsio Teixeira tambem participou do projeto desde o seu 
infcio. 

As ambicoes eram extremamente elevadas. Para Darcy Ribeiro, o passado, 
tanto no Brasil como em qualquer outra parte, era simplesmente tabula rasa. Ele 
descreve a nova universidade como sendo 

" o mais ambicioso projeto dos intelectuais brasileiros -- um projeto destinado a rever 
a cultura do mundo, o conhecimento, a ciencia, o grau de conhecimento, com o 
proposito de descobrir o que a erudicao, o conhecimento e a ciencia poderiam nos dar. 
Brasflia constitufa uma tentativa radical de repensar de cabo a rabo a universidade, essa 
velha, arcaica e milenar vaca sagrada ...Eu so convidava para trabalhar no projeto as 
pessoas que se mostrassem insatisfeitas, aquelas desejosas de que a universidade fosse 
o que deveria ser, e nao aquelas que queriam reproduzir o que ja existia, aqui ou em 
qualquer outra parte do mundo. (15) 



<13) Inclusive J. M oura Goncalves, Maurfcio Rocha e Silva, Lucien Lison, Miguel 
Covian, Fritz Koberle, J . L. Pedreira de Freitas, M auro Pereira Barreto e J . Oliveira Almeida 

<14) Darcy Ribeiro era um antropologo nascido em M inas Gerais que havia estudado na 
Escola de Sociologia e Polftica de Sao Paulo, com Emflio Wilhems e Herbert Baldus. Na 
decada de 1950, juntou-se a Anfsio Teixeira no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais , 
no Rio dej aneiro. Nos anos 60, foi Chefe do Gabinete Civil do Presidente Jo ao Goulart e, na 
decada de 1980, apos varios anos de exflio polftico, tornou-se vice-governador do estado do Rio 
dejaneiro, subordinado a Leonel Brizola . Mais tarde, candidate de Brizola para a eleicao de 
1986 ao cargo de governador daquele estado 



(15) 



Entrevista com Darcy Ribeiro. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -13 



A esta nova universidade estavam reservados papeis diferente. Em primeiro 
lugar, ela teria defornecer substancia cultural a Brasflia, cidadeconstrufda no meio do 
nada; depois, deveria tornar-se uma "agenda su per- consul to ra do governo, nada 
subserviente, sem se limitar a constituir um grupo de servidores do governo. Ao 
contrario, tinha de conservar sua autonomia como instituicao cultural ..Deveria ser a 
grande agenda consultora." Em terceiro lugar, cabia-lhe fomecer a Brasflia o seu 
espfrito, sua criatividade. E, porfim, 

"Esta universidade deveria proporcionar ao Brasil sua primeira oportunidade de 
alcancar excelencia em todos os ramos do conhecimento.... Todas as areas de 
conhecimento teriam de ser cultivadas e submetidas a fertilizacao cruzada. Caso 
pudessemos ter uma boa qufmica lado a lado com uma boa matematica e ffsica, 
poderfamos produzir um povo capaz de empregar o modo cientffico de pensar ao lidar 
com os problemas do pafs, ao inves do tipo de pensamento ancilar desses assistentes de 
segunda classe que costumavamos preparar no pafs. <16) 

O tratamento teria de ser radical: 

"Uma importante decisao no campo da polftica cientffica consistia em proibir a 
Fundacao Ford decontinuar operando com a ciencia brasileira do modo como ela vinha 
fazendo. A Fundacao dava algum dinheiro a cada cientista brasileiro para contratar 
alguns assistentes. Dava-lhe recursos para comprar equipamento ou suplementar seu 
salario. Dessa maneira, ele se tornava um apendice, pois estaria doravante ligado a 
algum professor estrangeiro, geralmente norte-americano (embora tambem pudesse ser 
ingles), que viria aqui de vez em quando... Nao significa isso dizer que a fundacao 
quisesse colonizar o Brasil desse jeito; ela simplesmente achava este o melhor meio de 
ajudar. Em Brasflia, logo de comeco, proibimos a Fundacao Ford ou qualquer outra 
organizacao de lidar diretamentecom os professores. Todo e qualquer apoio financeiro 
teria de ser tratado diretamente com a reitoria; nao permitfamos ao professor 
empresario ficar procurando seu dinheiro aqui e acola, coisa que as vezes deforma as 
instituicoes. Nao obstante, tive uma ajuda financeira muito importante da Fundacao 
Ford - mais de dois milhoes de dolares para adquirir uma biblioteca de ciencias 
basicas de mais de 150.000 volumes. 117 ' 

A universidade era organizada em torno de uma serie de institutes centrais 
divididos com base em linhas de disciplinas, cada qual responsavel pelo ensino e pela 
pesquisa nos nfveis de graduagao e pos-graduacao. N ao se adotaria o sistema de 
catedra, e os institutes teriam uma organizacao de tipo colegiado. O poder formal, 
contudo, era concentrado na cupula. Sob o ponto de vista legal, a universidade foi 
criada como uma fundacao autonoma para cujo acervo foi transferida uma parcela 
consideravel de bens imoveis e participacao acionaria em companhias de propriedade 
publica. 



<16) "Ciencia ancilar" era um anatema a ser evitado a todo custo. Nas velhas 
universidades do Brasil, como tambem em outros pafses subdesenvolvidos, "voce poderia ter 
uma bioqufmica de boa qualidade, mas ela estava associada a um determinado grupo na 
Alemanha ou Inglaterra. Era, portanto, um apendice, um escravo trabalhando aqui sobre 
problemas decididos la fora. Era uma bioqufmica alienada" (Entrevista com Darcy Ribeiro). 



(17) 



Entrevista com Darcy Ribeiro. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -14 



N ao houve oportunidade para verificar como essas ideias iriam funcionar na 
pratica. No infcio, Brasflia atraiu muitos jovens professores e cientistas que se 
achavam, como indicou Darcy Ribeiro, insatisfeitos com as instituicoes academicas 
brasileiras. Durante algum tempo, todo o grupo de ffsicos do ita chegou a considerar 
a possibilidade de transferir-se para a nova universidade. O proprio Darcy Ribeiro, no 
entanto, deixou a Universidade de Brasflia em 1962 para integrar o governo dejoao 
Goulart como ministro de educacao e, mais tarde, como chefe da casa civil. Foi 
substitufdo por Anfsio Teixeira, que la permaneceu ate o golpe militar de 1964, 
ocasi ao em que foi substitufdo por Zeferi no V az. 

Em 1964, Zeferino Vaz havia deixado Ribeirao Preto para tomar-se o 
secretario estadual de saude do estado de Sao Paulo, "nos estagios preparatories da 
revolucao de 1964". Seus pontos de vista conservadores, combinados com suas 
impecaveis credenciais academicas, fizeram dele um valioso aliado do regime militar, 
motivo por que, em abril do referido ano, o Presidente Castelo Branco o convidou 
para ser reitor da U niversidade de Brasflia. Vaz descreve essa experiencia como uma 
guerra em duas f rentes: em defesa da qualidade e contra a intervencao externa. Ele 
reconhece ter demitido "dezessete ou dezoito elementos" -- em sua maioria, cientistas 
sociais recrutados por Darcy Ribeiro na Universidade de M inas Gerais -- nao porque 
eles fossem comunistas , mas por "mediocridade". Ele sustenta ter resistido a 
pressoes extemas contra funcionarios competentes e ter apoiado o trabalho de pessoas 
como o musico CI audio Santoro, o arquiteto Oscar Niemeyer , o vice-reitor Almir de 
Castro e o matematico Elon Lages de Lima. Entre os professores recem-convi dados, 
incluem-se Roberto Salmeron, para ffsica; Otto Gottlieb, para qufmica; e Antonio 
Cordeiro, para biologia. 

Em 1965, Zeferino Vaz deixou Brasflia para trabalhar na organizacao da 
Universidade de Campinas, provavelmente porque ja antecipava a tormenta que 
estava por eclodir. A despeito de sua firme intencao de manter a Universidade de 
Brasflia livre de confrontacoes ideologicas e de interferencias extemas, o fato e que 
uma serie de demissoes e de pedidos de exoneracao levaram a universidade a perder 
mais de duzentos de seus professores. Pior que isto, a Universidade de Brasflia 
perdeu sua credibilidade entre a comunidade academica brasileira. Embora tenha 
permanecido como uma das melhores da rede de instituicoes federais -- gracas a suas 
instalacoes ffsicas, organizacao inovadora, situacao financeira e qualidade de parte do 
que restou de seu pessoal --, ela nao voltaria a recuperar sua mfstica e prestfgio 
iniciais. 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -15 



Expansao da Educacao Superior 

M uitos estavam convencidos de que as universidades de elite eram as 
precursoras de uma profunda modificacao da educacao em nfvel superior. Para isto, 
contudo, seria necessaria uma transformacao dramatica na maioria das instituicoes de 
educacao superior do pafs. Ela se opunha a uma tendencia de expansao crescente da 
educacao superior de massas, e exigiria quebrar o poder das velhas faculdades; impor 
padroes academicos mais exigentes para alunos e professores dar mais valor ao 
trabalho de pesquisa do que as atividades profissionais, e estabelecer criterios de 
avaliacao que permitissem distinguir entre boas e mas universidades, departamentos, 
grupos de pesquisas e cursos em geral. Significava tambem dividir os alunos entre os 
que seriam orientados para as pesquisas e os que se limitariam a uma educacao 
convencional para as profissoes liberais. 

O rapido processo de urbanizacao, bem como as comunicacoes e consumo de 
massa, contudo, estavam conduzindo as universidades numa direcao diferente. As 
pessoas agora queriam mais educacao e os privilegios a ela associados, sem 
necessariamente estarem dispostas a seguir mais cursos. Havia, naturalmente, uma 
demanda efetiva por mais engenheiros, advogados, doutores e professores. M enos 
reconhecido, embora talvez mais importante, era o desejo das classes medias de 
alcancar prestfgio social e os beneffcios decorrentes de uma boa situacao profissional. 
Um tftulo universitario prometia um certo nfvel de prestfgio social e renda, 
independentemente da qualidade da educacao recebida. Com o correr do tempo, 
foram-se criando privilegios legais para os detentores de diplomas, nao somente em 
relacao as profissoes tradicionais -- medicos, advogados e engenheiros --, mas 
tambem para ocupacoes novas, como economistas, estatfsti cos, administradores, 
jornalistas, bibliotecarios e psicologos. Para poder satisfazer a essas demandas, o 
governo federal construiu uma rede de universidades federais que muitas vezes 
absorveram as velhas instituicoes estaduais e municipais, tornadas incapazes de se 
manter e expandir com seus proprios recursos. Afora pequenas excecoes, somente o 
estado de Sao Paulo pode conservar suas proprias instituicoes de educacao superior. 
Surgiram tambem instituicoes privadas -- primeiro, as universidades catolicas, 
organizadas pela Igreja e, depois, uma variedade de estabelecimentos religiosos, 
laicos, comunitarios, municipais, ou de propriedade particular -- todas sob a 
supervisao nominal do M inisterio da Educacao e seu Conselho Federal de Educacao. 
As universidades eram supostamente autonomas, ao passo que estabelecimentos 
isolados deviam ficar sob a supervisao federal. Entretanto, as universidades estavam 
adstritas aos currfculos estabelecidos por legislacao para os distintos graus 
profissionais, e os orcamentos dos estabelecimentos federais eram estritamente 
controlados pelo M inisterio da Educacao, enquanto que seus professores se 



Capftulo 8 - M odernizacao do Pos-Guerra -16 



enquadravam nos estatutos do servico publico. O sistema de catedra garantia que os 
professores nao podiam ser demitidos e podiam lecionar livremente sem qualquer 
interference a. Em cada escola, uma congregacao de professores, constitufda de 
catedraticos, tinha a palavra final sobre quaisquer assuntos que nao entravam em 
conflito com as leis e regulamentos federals. As congregacoes tambem elaboravam as 
listas de nomes com base nas quais o governo selecionava os diretores de escolas, 
enquanto os conselhos universitarios preparavam as listas de nomes dentre os quais o 
governo iria nomear os reitores. Num sistema desses, a maior parte do poder 
permanecia nas escolas, visto que os reitores tinham em sua maioria um papel 
si mplesmente ceri monial . (18) 

Esse sistema de educacao superior matriculou no ano de 1968 cerca de 
278.000 estudantes, isto e, menos que cinco por cento do grupo etario compreendido 
entre 20 e 24 anos de idade. (A populacao estimada para o Brasil desse ano era de 87 
milhoes). A matrfcula para o nfvel secundario chegava a cerca de 800.000, e no nfvel 
primario (ate a oitava serie) a algo em torno de 14 milhoes de alunos, a maioria dos 
quais concentrados nos quatro primeiros anos de ensino. Cinquenta e quatro por 
cento dos alunos frequentavam instituicoes publicas, gratuitas, em sua maioria 
pertencentes a uma universidade. Os restantes 45 por cento iam a estabelecimentos 
particulares, quase sempre escolas isoladas sem status universitario. 19 Em termos de 
temas de estudo, cerca de 25 por cento correspondiam a areas "suaves", tais como 
humanidades, literatura ou ciencias sociais (principalmente nas escolas de filosofia, 
ciencias e letras); cerca de 20 por cento se dirigiam ao direito; 10 por cento, a 
medicina; e outros 10 por cento a engenharia. A admissao ao ensino superior se fazia 
por meio de exames publicos aplicados por cada instituicao e abertos aos portadores 
de diploma de nfvel secundario. Havia 2,4 candidates para cada vaga em 1968, com 
taxas muito mais elevadas para as profissoes ja consagradas em universidades 
publicas. 

Sobre essa base, foi tentado um ambicioso projeto de saltar etapas e conduzir o 
Brasil diretamente ao seculo vinte e um. Nos dois ultimos capftulos examinaremos 
esse "grande salto para f rente" e suas conseq Ciencias. 



<18) Para uma discussao mais ampla, ver Schwartzman 1988a. Ver Levy 1986, para uma 
visao comparativa da educacao superior no Brasil e outros pafses latino-americanos 

<19> Contudo, os graus conferidos por universidades ou escolas isoladas sao equivalentes 
e, em ambos os casos, considerados tftulos "universitarios." As unicas diferencas sao natureza 
institucional : as universidades sao supostamente mais livres de supervisee ministerial e podem 
ter burocracias maiores. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 9 
O GRANDE SALTO A FRENTE 

Ciencia eTecnologia para o Desenvolvimento Economico 1 

A reforma de 1968 da educacao superior 5 

Os Novos Programas de Pos-Graduacao 7 

Institutes de AltaTecnologia 10 

"Big Science" e Alta Tecnologia 18 



Ciencia eTecnologia para o Desenvolvimento Economico 

O envolvimento do maior banco de investimento do Brasil --- o Banco 
Nacional de Desenvolvimento Economico (mais tarde tambem "Social", BNDES), de 
propriedade do governo --- no campo da ciencia e da tecnologia constitui o traco mais 
interessante do novo perfodo. Pela primeira vez em toda a historia do Brasil, havia 
um esforco organizado no sentido de colocar a ciencia e a tecnologia a servico do 
desenvolvimento economico, mediante o investimento de recursos substanciais. Em 
1964, o banco criou um programa para o desenvolvimento tecnologico, conhecido sob 
o nomede Fundo Nacional de Tecnologia, que nos seus primeiros dez anos despendeu 
cerca de 100 milhoes de dolares para pesquisa e ensino, em nfvel de pos-graduacao, 
nos ramos de engenharia, ci end as exatas ecampos afins. 

Esse Fundo Nacional foi constitufdo na esperanca de que incentivos 
economicos levari am os investidores privados a desenvolver suas proprias 
tecnologias, ao inves de importa-las do exterior. Pouco mais tarde, o Fundo comecou 
a apoiar tambem programas selecionados de ensino e pesquisa: com importante apoio 
do Fundo, a Universidade de Sao Paulo pode adquirir seu acelerador eletrostatico 
Pelletron, em 1971; um consorcio de instituicoes comecou a desenvolver um 
minicomputador brasileiro; o Centra Tecnologico da Aeronautica obteve ajuda para 
prosseguir seu trabalho com motores de aviacao; o Institute Militar de Engenharia 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 2 

iniciou programas de pos-graduacao em varios ramos de engenharia e qufmica; e a 
recem-criada U niversidade de Campinas passou a receber doacoes consideraveis para 
uma variedade de projetos. Constituiu importante iniciativa a criacao de um complexo 
sistema de cursos de pos-graduacao em engenharia, na U niversidade Federal do Rio 
de Janeiro, que se tomou conhecido pelo acronimo coppe. As atividades do Fundo 
foram transferidas mais tarde para um orgao novo e especial izado, a Financiadora de 
Estudos e Projetos, que opera como um banco de desenvolvimento para estudos 
tecnologicos e de viabilidade, e administra um fundo nacional para ciencia e 
tecnologia, hoje parte integrante do orcamento federal, e que substituiu o fundo do 
banco de desenvolvimento. Em 1975, o velho Conselho Nacional de Pesquisas foi 
transformado num novo e bem maior Conselho Nacional de Desenvolvimento 
Cientffico eTecnologico, sob a jurisdicao do M inisterio de Planejamento. 

As rafzes ideologicas desse programa podem ser localizadas numa combinacao 
de duas tendencias aparentemente opostas. Em primeiro lugar, haviam as ideias a 
respeito da dependencia economica e tecnologica, como da consequente necessidade 
de planejamento cientffico como forma de supera-la. Essas concepcoes eram vitais 
para a busca de um novo papel para os cientistas brasi lei ros. J ose Pelucio Ferreira — 
economista que organizou o Fundo de Desenvolvimento, finep, e mais tarde se tomou 
vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisas --- reconhece o papel 
desempenhado pelo ffsico Jose Leite Lopes na formacao de seus pontos de vista. 
Segundo Adler: 

[Pelucio Ferreira] disse que, embora cada ffsico e economista tivesse desenvolvido as 
suas ideias separadamente, la pela metade da decada de 1960 eles parecem ter 
convergido as suas conviccoes e se conscientizado da dependencia em que se 
encontravam a ciencia e a tecnologia. Era parti cularmente importante, nesse contexto, 
a enfase dada pelos economistas as ligacoes entre tecnologia e desenvolvimento 
economico. Pelucio admitiu que seu trabalho no campo da ciencia e da tecnologia 
sofreu um impacto consideravel das ideias cepalinas e do iseb [Institute Superior de 
Estudos Brasileiros, organizacao constitufda no Rio de Janeiro, com o intuito de 
realizar pesquisas interdisciplinares, e que foi fechada pelos militares em 1964]. : 

A outra tendencia eram as ambicoes nacionalistas do governo militar, que 
comecaram a tomar forma na decada de 1960 e chegaram ao seu auge em meados dos 
anos 70. Os regimes militares sul-americanos foram mais conhecidos, nos anos 60, 
por sua aproximacao ideologica e doutrinaria com os Estados Unidos, por seu 
liberalismo economico e por sua suposta preocupacao em reduzir o papel do estado 
em todas as esferas de atividade — exceto, e claro, no que diz respeito ao controle da 
participacao e da expressao polfticas. Nesse sentido, eram opostos a tendencia 
representada pela cepal ou por cientistas como Leite Lopes, que defendiam a tese da 



1 Adler 1987:210; Lopes 1978. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 3 

intensificacao do planejamento e da intervencao estatais, como forma de corrigir os 
efeitos da dependencia. O exemplo mais extremo e provavelmente o do Chile, que se 
tornou o campo de provas do receituario da ortodoxia economica da chamada escola 
de Chicago. O liberalismo economico tambem foi fundamental para o primeiro 
regime militar brasileiro, chef i ado pelo General Castelo Branco apos o movimento de 
1964. As polfticas economicas ortodoxas daqueles anos foram eficazes no esforco de 
controlar a inflacao, aumentar o volume da arrecadacao fiscal, modemizar os 
instrumentos do governo para fixacao de polfticas economicas e para atrair capital 
externo. 

O liberalismo economico foi seguido logo depois por uma paralela (e, por 
vezes, oposta) tendencia a expansao e ao fortalecimento do setor publico. U ma clara 
divisao do trabalho comecou a ganhar na decada de 1970. Os economistas liberais 
continuavam a gerir a economia do pafs; a participacao polftica se mantinha sob 
controle; enquanto isto os militares, engenheiros e mais os cientistas, levavam a 
frente seus projetos de longo alcance, com base na expansao do estado. A lista de 
projetos impressiona: o programa nuclear, as imensas represas hidreletricas, varios 
projetos ambiciosos de construcao de rodovias e ferrovias; a expansao das fronteiras 
na regiao amazonica. Ainda estao sendo avaliadas as consequencias, tanto positivas 
como negativas, de tudo isso. No lado positive ficaram a modemizacao do parque 
industrial do pafs e o crescimento efetivo da renda nacional. Do lado negativo, os 
nfveis excessivos de concentracao de renda, a destruicao do meio ambiente, o 
esvaziamento das regioes interioranas, a deterioracao das cidades, o inchaco do 
estado, o desperdfcio trazido pelos projetos nao conclufdos ou demasiadamente 
extra vag antes, e o crescimento da dfvida externa, que levou a crise dos anos 80. 2 

O que fez convergir os intelectuais e cientistas da esquerda com os militares da 
direita foi o nacionalismo e a crenca compartida nos poderes da ciencia e da 
tecnologia. Nao foi paeffica tal coexistencia. M uitos intelectuais perderam seus 
cargos academicos e se viram forcados ao exflio. A construcao de novas instituicoes 
cientfficas e de pesquisas, bem como a participacao de cientistas talentosos que nao se 
submetiam facilmente ao autoritarismo militar, exigiam constantes e diffceis 
negociacoes com oficiais de seguranca, as quais eram realizadas, nem sempre com o 
exito desejado, sob a chancela do Ministro de Planejamento, Joao Paulo dos Reis 
Velloso, ou por pessoas como Zeferino Vaz. Havia tambem uma contradicao muito 
clara entre, por um lado, as polfticas economicas entao sendo implementadas pelo 
M inisterio da Fazenda, orientadas no sentido da internacionalizacao da economia e da 
admissao de capitais e tecnologias estrangei ros, e, do outro, os projetos voltados para 



2 Lessa 1978; F. M . deO. Castrol985; Schwartzman 1980. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 4 

a autonomia tecnologica, sob a egide do M inisterio do Planejamento. Devido a essa 
dicotomia, os i nvesti mentos voltados para a tecnologia eram raramente baseados em 
consideracoes macroeconomicas de maior escopo, enquanto que as polfticas 
economicas jamais tomaram em consideracao o desenvolvimento de tecnologias 
nacionais. 

A entrada das agendas de desenvolvimento e planejamento economico no 
campo da ciencia e do ensino de pos-graduacao intensificou a tendencia historica no 
sentido defavorecer a tecnologia aplicada em detrimento da ciencia basica, inclinacao 
essa ja dramatizada pela mudanca de nome do Conselho Nacional de Pesquisa, 
expressao que estava longe de encerrar somente um sentido nominal. As agendas de 
apoio a ciencia, como a finep, e o CNPq se inchando com centenas e depois e 
final mente mi I hares de funcionarios, e os cientistas passaram a ter de negociar com 
economistas e administradores, a cada dois ou tres anos, a renovacao de suas 
dotacoes, numa base de projeto por projeto. Em 1973, e depois tambem em 1975, foi 
promulgado um piano nacional bianual para ciencia e tecnologia, projetando gastos 
anuais que variavam de 323 a 824 milhoes de dolares. 3 Esses pianos representavam 
pouco mais do que um agrupamento de por despesas previstas pelo setor, a maioria 
das quais --- 65 por cento para o perfodo 1973-75 --- se encontravam completamente 
fora da esfera de influencia das autoridades de planejamento, ou de orgaos como o 
finep, o Conselho Nacional de Pesquisa ou o Banco Nacional de Desenvolvimento. 
A expectativa para o perfodo 1976-77 era de que os gastos por conta dessas agendas 
seriam aumentados levemente. U ma parcela entre 21 e 27 por cento de todos os 
dispendios seria destinada a formacao de graduados, bolsas de estudo e 
"desenvolvimento cientffico" em geral; entre 20 e 29 por cento iriam para a 
tecnologia industrial; entre 11 e 15 por cento, para pesquisa agrfcola; e entre 5 e 10 
por cento, para projetos ligados a energia atomica. Nao existe qualquer avaliacao 
conhecida de como os pianos foram implementados ou de como foram realizadas as 
despesas. O terceiro piano, para os anos 1978-79, ja sob o Presidentejoao Batista de 
Figueiredo, consistia numa ampla declaracao de propositos, sem indicacao de 
quaisquer cifras. Nessa altura, Joao Velloso e Jose Pelucio Ferreira ja haviam 
deixado seus postos, e Delfim Neto, o antigo M inistro da Fazenda, conduzia a 
economia na qualidade de M inistro de Planejamento. Pela primeira vez, as polfticas 
macroeconomicas e tecnologicas se encontravam sob o poder da mesma autoridade, 
que dedicou as segundas uma prioridade muito baixa. 



Schwartzman 1978:574 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 5 

A reforma de 1968 da educacao superior 

Em 1968, foi introduzida uma nova legislacao destinada a realizar uma 
profunda reorganizacao no sistema de educacao superior. Aumentava o numero de 
candidates a admissao, e se tornava impossfvel manter as pequenas dimensoes do 
sistema. Era a epoca tambem de intensas manifestacoes de rua contra o governo 
militar, prenunciando varios anos de atividades de guerrilha urbana, com base em 
movimentos estudantis, e de violenta repressao govemamental, que inclufa um rfgido 
controle sobre atividades polfticas nas universidades. A decada compreendida entre 
1968 e 1978 tambem correspondeu a um perfodo de rapido crescimento economico, 
acompanhado da criacao de muitos postos de trabalho e intensificacao da mobilidade 
social. Quando combinados, esses fatores provocaram uma completa reformulacao do 
sistema vigente de educacao superior do pafs, embora nao necessariamente nas 
direcoes prescritas na legislacao de 1968. 

Essa reforma de 1968 adotava as ideias desenvolvidas em meados dos anos 
1960 pela Universidade de Minas Gerais -- as quais, por sua vez, se baseavam na 
experiencia da Universidade de Brasflia, no infcio da decada --- e buscava atender a 
aspiracao de grupos altamente educados no sentido de adotar o modelo de 
universidade americana de pesquisa. 4 E possfvel estabelecer um vfnculo direto de 
ascendencia entre essas ideias e as suscitadas durante a experiencia frustrante da 
Universidade do Distrito Federal: Anfsio Teixeira fazia parte de ambas, e Darci 
Ribeiro, que organizara a Universidade Brasflia, estivera ligado ao Centra Brasileiro 
de Pesquisas Educacionais, durante os anos 1950. 5 Havia tambem uma presenca 
americana mais direta, consubstanciada nas recomendacoes de uma comissao mista 
estabelecida entre a Agenda norte-americana de Desenvolvimento Intemacional 
(USA ID) eo M inisterio da Educacao do Brasil. 6 Sob o ponto de vista organizacional, 
a reforma de 1968 introduziu muitos elementos extrafdos das universidades de 
pesquisa norte-americanas: os departamentos, que levaram a eliminacao do 
tradicional sistema de catedras; o sistema de creditos, que acabou com os programas 
de cursos seriados e anuais; as instituicoes de pesquisas; os programas de pos- 
graduacao que conferem graus de mestrado e doutorado; e um "ciclo basico" nas 
universidades , que foi concebido com o intuito de prover uma especie de educacao 
geral, de tipo "colegial", nos dois primeiros anos de aulas. Todas as instituicoes de 



4 Pimenta 1984:24 

5 Mariani 1982 a . 

6 Carneiro e outros 1969 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 6 

ensino superior deveriam convergir para esse modelo; nao se previa diferenciacao 
institucional ou de papeis. 

A implementacao da reforma levou a resultados nao previstos, em parte 
porque os reformadores de 1968 nao haviam antecipado a explosao na demanda por 
educacao superior, que estava ganhando velocidade precisamente naqueles anos (ver 
Tabela 10). O numero de pedidos de inscricao em instituicoes de ensino superior 
aumentou mais de cinco vezes entre 1970 e 1980, em parte devido a expansao da rede 
de ensino secundario e em parte porque contingentes dos novos grupos sociais 
(mulheres, idosos) estavam tentando ingressar no sistema. As autoridades 
governamentais responderam a pressao, permitindo que instituicoes particulares de 
ensino superior viessem a proliferar sem muito controle de qualidade, e desse modo 
afastando-se cada vez mais do modelo de universidade de pesquisa que, pela 
legislacao, deveria ser adotado portodos. 7 

tabela 10. Crescimento do Sistema Educacional no Brasil, 1965-1980 [1970=100] 





1965 


1970 


1975 


1980 


Populacao 


87,3 


100 


115,0 


127,8 


Conclufram o nfvel secundario 


49,3 


100 


163,1 


239,6 


Vagas para o nfvel superior 


39,7 


100 


240,1 


279,3 


Candidates a instituicoes de nfvel superior 


33,7 


100 


237,5 


548,5 


M atrfculas nos cursos de pos-graduacao 


34,2 


100 


212,0 


294,9 


M atrfculas em instituicoes particulares 


28,3 


100 


245,3 


353,7 


M atrfculas em universidades publicas 




100 


164,0 


238,2 



Fonte: Dados educacionais do Ministerio da Educacao, Servico de Estatfstica da 
Educacao e Cultura; dados sobre populacao colhidos em recenseamentos brasileiros. 

As novas regras foram aplicadas sobretudo ao setor publico, mas, mesmo af, 
os resultados se mostraram diferentes do que se esperava. Ate entao, o poder 
academico residira sobretudo nas congregacoes das faculdades, e as velhas escolas 
profissionais, sob o ponto de vista sociologies eram as unicas instituicoes reais 
dentro das universidades ou isoladas. O novo arranjo buscou transferir o poder para 
os departamentos e institutes de pesquisa, bem como transformar os velhos cursos 
profissionais numa soma de creditos a serem obtidos pelos estudantes nos diferentes 
departamentos. As escolas mais estabelecidas e tradicionais se opuseram a essa 
mudanca e implementaram somente dentro de seus muros a organizacao do instituto- 
departamento. As areas novas e mais fracas encontraram-se mais abertas a inovacao, 
mas sua propria fraqueza provocou a concentracao do poder nas respectivas reitorias. 



Schwartzman 1988 a 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 7 

As escolas que mantiveram sua integridade institucional foram as que melhor 
conseguiram manter ou melhorar a sua qualidade, no correr dos anos seguintes. 

Duas outras inovacoes --- o ciclo basico e o sistema de creditos --- tiveram 
tambem resultados duvidosos. Os alunos que terminavam a escola secundaria tinham 
de submeter-se a exames competitivos para conseguir a carreira e a escola de sua 
preferencia, sendo que os aprovados eram automaticamente destinados a essas 
carreiras. O ciclo basico ficou assim imprensado entre os exames de admissao e os 
cursos profissionais, motivo por que passou a ser visto pela maioria como uma tediosa 
perda de tempo. O sistema de creditos esbarrou contra os conteudos fixos e regulados 
da maioria das carreiras e colidiu com os recursos limitados de que dispunham as 
instituicoes para oferecer escolhas de cursos. Como resultado, tanto o sistema de 
creditos como os cursos basicos se transformaram, na melhor das hipoteses, em 
maneiras novas e mais complexas de fazer as mesmas velhas coisas; e, na pior, em 
pesadelos ad mini strati vos e pedagogicos. 

As autoridades educacionais criaram tambem condicoes legais e orcamentarias 
que permitiram as universidades contratar professores em regime de tempo integral. 
Ate entao, os salarios nas universidades eram muito baixos e nao podiam competir 
com o montante que um profissional liberal de exito poderia receber de seus clientes. 
A medida que as universidades se expandiam, foram sendo introduzidos cursos novos 
e nao tradicionais; criaram-se programas de pos-graduacao e pesquisas, e comecou a 
surgir um novo estrato de professores universitarios de tempo integral. Em parte, 
professores antigos eram convocados a lecionar nos novos programas de pos- 
graduacao, mas poucos eram os que detinham as qualificacoes necessarias para 
trabalhar nesse nfvel, ao mesmo tempo que o novo ciclo basico, acrescido dos 
problemas acarretados pela expansao das matriculas, exigia que um grande numero de 
professores novos fossem admitidos sem demora. O resultado foi que, em poucos 
anos, a maioria dos professores das universidades publicas brasileiras passaram do 
regime de tempo parcial para o de tempo integral, sem ter necessariamente melhorado 
as suas qualificacoes academicas. 

Os Novos Programas de P6s-G radua^ao 

A reforma teve muito mais exito no que diz respeito a criacao de 
departamentos academicos, de institutos de pesquisa e de programas de pos- 
graduacao. Instituicoes como as universidades de Sao Paulo, Rio de Janeiro, M inas 
Gerais e Rio Grande do Sul --- que se haviam beneficiado, em graus diversos, das 
tradicoes cientfficas acumuladas, de presenca de visitantes estrangeiros e de 
oportunidades de intercambio intemacional --- puderam adaptar-se com mais 
facilidade aos novos formatos organizacionais, e ganhar com a introducao dos 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 8 

mesmos. Cursos pequenos de pos-graduacao, caracterizados por sua alta qualidade, e 
que ate entao existiam como fruto de um empenho organizado, foram reunidos sem 
dificuldade por essas mesmas pessoas e instituicoes. 

Essa tendencia foi reforcada por novas fontes de financiamento e pela 
f lexibi I idade institucional causada pelo surgimento de agendas de planejamento 
economico no campo de ciencia e tecnologia. De uma hora para outra, e durante 
varios anos, o montante de dinheiro disponfvel para ciencia e tecnologia excedia em 
muito a capacidade de gasta-lo. Eram modemas e flexfveis as novas agendas de 
ciencia e tecnologia criadas para gerir esses recursos. Livres das limitacoes 
orcamentarias e burocraticas tfpicas do servico publico brasileiro, elas viam com 
desdem as instituicoes universitarias tornadas complexas, conflituosas e 
burocratizadas. Inicialmente, procuraram incentivar a pesquisa em empresas publicas 
e privadas brasileiras, concedendo-lhes emprestimos a juros baixos e servicos de 
assistencia tecnica. M ais tarde verificaram que a maioria das pessoas competentes ja 
se encontravam em instituicoes academicas, motivo por que Ihes transferiram uma 
consideravel parte de seus recursos. 

A estrategia adotada pelas agendas de ciencia e tecnologia consistia em 
identificar os grupos de pesquisa que elas consideravam bons ou promissores e 
fornecer-lhes apoio direto, frequentemente contornando normas estabelecidas para 
firmar contratos de trabalho, procedimentos contabeis e ate mesmo o processo de 
decisao internos as universidades. Tudo o que Ihes interessava eram as consideracoes 
de natureza substantiva. Para os pesqui sad ores, passava a haver um novo mercado, 
que se mostrava sensfvel as suas qualificacoes e aspiracoes. Novos recursos se 
tomaram disponfveis para as universidades, mas flufam completamente fora de seu 
controle. Comecaram a coexistir departamentos bem mantidos e bem pagos, dotados 
de pessoal qualificado, ao lado de programas deficientes — os primeiros, mais 
preocupados com pesquisas e ensino de pos-graduacao; os ultimos, ligados a escolas 
e cursos tradicionais em nfvel inferior ao de pos-graduacao. Estabeleceu-se assim um 
sistema de dois patamares, nao somente entre instituicoes de educacao superior, mas 
tambem dentro de cada uma del as, circunstancia essa responsavel por tensoes e 
ambiguidades que iriam se intensificar nos anos seguintes. 

As autoridades educacionais tinham seus pianos proprios para a elevacao do 
nfvel dos professores universitarios e para o ensino de pos-graduacao. A nova 
legislacao exigia que os professores so poderiam ser contratados e promovidos se 
tivessem as necessarias qualificacoes academicas, e as universidades eram 
incentivadas a criar e expandir seus programas de pos-graduacao. O nfvel de 
qualidade deveria ser regulado por meio de um Conselho Federal de Educacao e um 
orgao do Ministerio de Educacao, a capes (Coordenacao de Aperfeicoamento de 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 9 

Pessoal de Nfvel Superior), que era anterior a reforma e se encarregava de conceder 
bolsas de estudo para professores e alunos de pos-graduacao, dentro e fora do pais. 

Para as agendas de planejamento, a estrategia parece ter funcionado muito 
bem. Em 1970, existiam nas universidades brasileiras cerca de 57 programas de 
doutorado; em 1985, havia mais de 300, com cerca de uns outros 800 para formacao 
em nfvel de mestrado. 8 Cerca de 90 por cento desses cursos funcionavam em 
universidades publicas. Combinados, os dois niveis estavam graduando cerca de 
5.000 estudantes a cada ano. Segundo o consenso geral, o Brasil comecara a construir 
uma comunidade significativa. 

As polfticas dos orgaos educacionais com as dos de ciencia e tecnologia nao 
coincidiam totalmente. O alto valor atribufdo aos diplomas academicos levou a uma 
rapida proliferacao de programas de pos-graduacao em todo o pafs. As universidades 
tinham liberdade de cria-los, o que levou os professores a solicitar licenca remunerada 
para frequentar os novos cursos. U ma vez que os estudantes, em sua grande maioria, 
se distribufam em areas ditas "suaves", nao tecnicas, o ensino em nfvel de pos- 
graduacao se expandiu sobretudo nesses campos (ver Tabela 11). Como resultado, a 
qualidade geralmente veio a sofrer durante o processo. O Conselho Federal de 
Educacao, ao qual cabia dar o necessario credenciamento, mostrou-se extremamente 
lento e quase sempre nao muito qualificado para exercer essa tarefa. As agendas 
apoiavam os programas de sua preferencia, principalmente nos campos basicos e 
tecnologicos, sem dar importancia aos mecanismos de credenciamento imaginados 
pelo Conselho. No final, a capes estabeleceu um mecanismo de revisao por pares dos 
programas de pos-graduacao que se tornou o mecanismo de credenciamento de fato, 
do sistema aceito pelos dois lados. Segundo essas avaliacoes, somente cerca de um 
quarto dos novos programas de pos-graduacao revelaram qualidade razoavel ou 
indicaram possibilidades de melhoria. Esse sistema foi util no processo de concessao 
de subvencoes e bolsas, mas nao podia forcar uma universidade a liquidar um 
programa que nao preenchesse os requisites. 9 



8 Paulinyi e outros 1986. 

9 Castro eSoares 1986. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 10 



tabela 10. Estudantes matriculados em programas de pos-graduacao, por areas (1975-1983) 
(M il hares) 


A no 


Ciencias 
"Duras" 


Biologicas 


Engenha- 
ria 


Saude 


Agricultura 


Sociais, 
aplicadas a 


Sociais, 

Humani- 

dades 


Total 


1975 


2.898 


2.196 


2.421 


2.111 


1.811 


10.808 


- 


22.245 


1976 


3.751 


2.172 


3.491 


3.028 


1.942 


11.871 


- 


26.255 


1977 


4.362 


2.405 


3.969 


3.370 


2.374 


15.052 


- 


31.532 


1978 


4.829 


2.761 


5.442 


3.612 


2.857 


14.130 


- 


33.631 


1979 


4.755 


2.951 


5.459 


3.771 


3.018 


16.654 


- 


36.608 


1980 


4.936 


3.054 


5.644 


4.216 


3.145 


17.611 


- 


38.606 


1981 


5.170 


3.137 


5.715 


4.677 


2.709 


18.776 


- 


40.184 


1982 


4.385 


2.852 


5.391 


4.658 


2.728 


6.479 


12.737 


39.230 


1983 


4.264 


2.913 


4.990 


4.561 


2.709 


6.452 


9.961 


35.850 



fonte: Paulinyi eoutros 1986 

a Ciencias Sociais e Humanidades foram contadas juntas ate 1981. Daf em diante, foram 
contadas em separado as ciencias sociais aplicadas (trabalho social, administracao, 
comunicacoes, etc.). 

I nstitui^oes de A Ita Tecnologia 

A culminagao desse impulso consistiu no estabelecimento de institutes 
totalmente novas, que seriam livres das limitacoes do passado. Deviam ser o mais 
libertas possfvel de entraves e restricoes institucionais ou burocraticas. Passariam a 
receber grandes somas de dinheiro das agendas de planejamento cientffico, a serem 
geridas por pessoas bem qualificadas. Cabia-lhes trabalhar na fronteira das 
tecnologias modemas, que o pais,, segundo se supunha, necessitava para prosseguir 
em seu crescimento economico e industrial. Mais do que quaisquer outras, foram 
duas as instituicoes que satisfizeram esses requisites: a Universidade de Campinas e o 
programa deengenharia da U niversidade do Rio de Janeiro, a coppe (Coordenadoria 
dos Programas de Pos-Graduacao em Engenharia). 

Em 1965, Zeferino Vaz deixou a U niversidade de Brasflia para organizar uma 
nova universidade estadual na cidade de Campinas, Sao Paulo. A princfpio, a nova 
universidade se destinava principalmente a constituir uma alternativa institucional a 
U niversidade de Sao Paulo, que ja se mostrava abarrotada de estudantes e de pessoal. 
Gragas contudo a Zeferino Vaz e um solido apoio federal, ela se transformou num 
projeto de uma nova e moderna universidade de pesquisa. 

Era romantica a sua concepcao para a nova universidade. Como o novo 
campus ainda devesse ser construfdo, Zeferino Vaz pediu ao arquiteto que edificasse 
"uma grande praca central com 300 metros de di ametro" e disse 



" Farei um jardim maravilhoso, com a beleza natural deflores, arvores, pedras e agua. 
Sera uma agora grega, em direcao a qual convergirao todas as unidades. A agora sera 
atraente, e os estudantes e professores la se encontrarao para discutir e trocar ideas e 
concepcoes. L a se podera ver o geneticista, o f fsico, o medico, o botanico, o qufmico e 
a Faculdade de Engenharia de Alimentos. Os programas multidisciplinares emergem 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 11 

em qualquer lugar, estimulados pel a disposicao dos elementos componentes — porque 
o cfrculo nos apresenta o conceito de unidade: sem lados ou posicoes privilegiadas. 
Tudo converge para essa praca, que simboliza o bem estar da humanidade... Eu queria 
criar uma universidade que fosse como um organismo, em que os diferentes orgaos — 
ffsicos, matematicos, naturalistas, filosofos, artistas — trabalhassem todos juntos para a 
preservacao do bem estar ffsico, mental e espi ritual da comunidade. 10 

Na pratica, ele era menos romantico. Baseado em sua reputacao, e dispondo 
de apoio financeiro dos govemos estadual e federal, Zeferino Vaz iniciou um grande 
esforco no sentido de trazer de volta ao Brasil os cientistas que haviam deixado o pais 
no correr dos anos anteriores. Durante sua entrevista, ele falou de seus contatos 
pessoais e da ajuda recebida do Secretario de Financas Dilson Funaro, em nfvel 
estadual, e de nomes poderosos nos orgaos federals economicos e de planejamento, 
tais como o M inistro da Fazenda Delfim Neto; M arcos Viana, no Banco Nacional de 
Desenvolvimento Economico; Jose Pelucio Ferreira, na Financiadora de Estudos de 
Projetos, ejoao Batista Vidal, na Secretaria deTecnologia Industrial. 

A Ffsica estava reservado um papel fundamental, motivo por que M arcelo 
Damy de Souza Dantas foi convidado a organizar o institute que veio a ser batizado 
com o nome de Gleb Wataghin. Um outro lugar foi oferecido a Cesar Lattes, que 
deixara o Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas. Em seguida, veio Sergio Porto, 
seguido de Rogerio Cerqueira Leite, J ose Ripper e varios outros. Essegrupo tinha em 
comum antigos vfnculos com o Institute Tecnologico da Aeronautica, bem como seus 
anos de trabalho nos Laboratories Bell, nos Estados U nidos. 

Caberia a Sergio Porto desempenhar um papel central no novo projeto. Ele 
havia nascido em 1926, estudado qufmica na Faculdade de Filosofia no Rio de 
Janeiro, e conclufra o doutorado em Ffsica na Universidade de Johns Hopkins, em 
1954. Entre 1954 e 1960, ele atuou no departamento de ffsica do Institute 
Tecnologico da Aeronautica, ano em que passou a integrar o pessoal tecnico dos 
Laboratories Bell, ate 1965. Daf, ele se mudou para a Universidade da California do 
Sul. Uma serie de estudos sobre o efeito Raman baseado na utilizacao de laseres 
levaram-no a muitas publicacoes e a merecer uma reputacao intemacional. 

Apesar de todos esses exitos nos Estados U nidos, Sergio Porto comecou, em 
meados da decada de 1960, a considerar as condicoes sob as quais poderia regressar 
ao Brasil. Em 1970, veio a Brasflia, para depor perante uma comissao parlamentar de 
inquerito sobre a drenagem intelectual [brain drain] de cientistas brasileiros. "Eu 
disse a eles: O povo brasileiro nab nos quer. Nos nab fugimos; voces e que nos 
expulsaram." No seu entender, foram as condicoes improprias de trabalho, e nao a 



Entrevista com Zeferino Vaz. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 12 

polftica, o motivo que levara tantos cientistas brasileiros a viver no exterior (e sua 
lista inclufa Sergio M ascarenhas, Lufs Valente Boff, Rogerio Cerqueira Leite, Jose 
Ripper, Roberto Salmeron e Fernando de Souza Barros). Seguiram-se varios contatos 
com o M inistro de Planejamento Reis Velloso. Em 1972, Sergio Porto concordou em 
voltar ao Brasil, com base numa garantia de que poderia contar com 2 mi I hoes de 
dolares para a execucao de seus projetos. 11 

Havia o entendimento de que Sergio Porto seria o diretor do institute de ffsica. 
Contudo, ao chegar, ele descobriu que a posicao ja estava ocupada por Rogerio 
Cerqueira Leite. 12 As desavencas em torno da chefia e orientacao provocaram a 
demissao de Damy; Sergio Porto e Cerqueira Leite dividiram o comando da nova 
instituicao com Zeferino Vaz. Com o correr do tempo, o Instituo de Ffsica se 
transformou no que Cerqueira Leite veio a descrever como "o maior institute de ffsica 
numa universidade em todo o mundo --- alias, muito bom em termos de qualidade ---, 
operando em todas as areas relacionadas com semicondutores, desde o crescimento de 
cristais ate as aplicacoes praticas. Sergio Porto prosseguiu com suas pesquisas sobre 
laseres, e trabalhou com maneiras de utiliza-los numa grande variedade de tarefas, 
desde a cirurgia do olho a fusao atomica. Criou-se ainda uma companhia para 
parcerias empresariais com o setor industrial, chamada codetec, sob a chefia de Aldo 
Vieira da Rosa, oficial da forca aerea ecientista originariamente tambem do ita. 

Enquanto Zeferino Vaz esteve no comando, a Universidade de Campinas foi 
tida como atravessando uma fase provisoria, circunstancia essa que, na pratica, 
significava que Zeferino Vaz e seus companheiros mais proximos dispunham de 
plenos poderes para contratar professores e designar as autoridades da universidade. 
Esta situacao, combinada com a proporcao extremamente elevada de soft money, que 
se transformara em parte de seu orcamento, fez com que a U niversidade de Campinas 
se transformasse numa instituicao instavel, ambiciosa e inovadora, o mais proximo 
queo Brasil jatevedeuma verdadeira universidade de pesquisa. 



11 "Esta foi a sua promessa, bem la junto a piscina [na casa de Sergio, em Los 
Angeles]. Ele [Velloso] ficou de dizer a Zeferino Vaz que providenciasse um imovel e me 
garantiu que contrataria trinta cientistas com o grau de doutorado. Essas foram as minhas 
condicoes para regressar: trinta doutores, um ediffcio e dois milhoes de dolares. E eu os 
consegui. Infelizmente, fui muito ingenuo, e os dois milhoes se transformaram num so. A 
fapesp me prometera 300.000 dolares, mas so me deu 400.000 cruzeiros (cerca de 67.000 
dolares), o que significa que infelizmente nao pude completar o meu laboratorio". (Entrevista 
com Sergio Porto). 

12 Rogerio Cerqueira Leite tinha sido aluno de Sergio Porto no ITA efora trabalhar nos 
Laboratories Bell, em 1962, depois de ter-se diplomado num curso de ffsica na U niversidade de 
Paris. Seu regresso ao Brasil fazia parte da mesma iniciativa relatada por Sergio Porto, e 
tambem inclufa a promessa deequipamento eapoio financeiro. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 13 

Diferentemente do caso de Campinas, que fora planejada como uma 
universidade classica, a que estava ligada uma alta dose de tecnologia, a coppe 
representava precisamente o oposto --- a saber, uma tentativa de enxertar um 
programa de ensino e pesquisa de alta tecnologia numa universidade brasileira 
tradicional, a U niversidade Federal do Rio dej aneiro. 13 

A historia da coppe e inseparavel da biografia de seu fundador e primeiro 
diretor, Alberto Lufs Coimbra. 14 Gracas aos esforcos de Coimbra, no infcio da decada 
de 1960, o seu antigo professor na U niversidade de Vanderbilt, Frank Tiller (ja entao 
trabalhando na Universidade de Houston), foi convidado a lecionar na Escola 
Nacional de Qufmica. Seguiu-se uma serie de visitas de engenheiros qufmicos 
brasileiros aos Estados Unidos, com o proposito de criar um programa de pos- 
graduacao em engenharia qufmica no Rio de J aneiro. Esse intercambio foi apoiado 
em parte, respectivamente, pela Escola de Qufmica, por instituicoes americanas e pela 
Organizarao dos Estados Americanos. Em 1962, Alberto Coimbra voltou aos Estados 
Unidos para se familiarizar melhor com o modelo americano de ensino de pos- 
graduacao. Nos anos seguintes, mandou varios de seus melhores alunos --- Giulio 
Massarani, Afonso da Silva Teles, Carlos Augusto Perlingero --- para estudar em 
Houston. 15 

projeto da nova instituicao ja estava sendo esbocado, e no infcio de 1964, 
comecou o relacionamento com o recem-criado Fundo Nacional de Tecnologia e do 
Banco Nacional de Desenvolvimento Economico, o que contribuiu tambem para a 
orientacao do proprio Fundo: 



13 Para um relato mais completo, ver Nunes, Souza & Schwartzman 1982. 

14 Alberto Lufs Coimbra formou-se na Escola Nacional de Qufmica do Rio dej aneiro, 
em 1946. Estudou para um mestrado em engenharia qufmica na Universidade de Vanderbilt e, 
entre 1949 e 1953, trabalhou na Escola de Engenharia Industrial de Sao Paulo, instituicao 
privada. Voltou ao Rio dej aneiro em 1953, para disputar uma cadeira na Escola de Qufmica. 
A seguir, durante varios anos, "lecionou na Escola de Qufmica, na Petrobras (companhia 
petrol ffera estatal brasileira), operou como consultor para duas firmas americanas, ensinou na 
Universidade Catolica e lidou com engenharia qufmica e mecanica defluidos" (Entrevista com 
Alberto Coimbra). 

15 "Era como uma ordem direta vindo de Coimbra. Elefoi um professor muito bom na 
Escola de Qufmica. As pessoas gostavam de suas aulas, e constitufa um privilegio ser bem 
tratado por ele. Lembro-me de que ele apareceu uma vez na biblioteca e fez um gesto para 
mim: 'Vem ca. Voce vai para Houston". Acreditavamos tanto nele que nem pensavamos duas 
vezes.. Nao tfnhamos a menor ideia do que famos fazer nem do que significava realmente um 
ensino de pos-graduacao. (Entrevista com Giulio Massarani). Massarani e Afonso da Silva 
Teles viajaram aos Estados Unidos, para "completar os seus mestrados e voltar para fazer so 
Deus sabe o que. Se o projeto de um novo programa de graduacao desse certo, eles teriam um 
emprego e uma carreira no ensino de pos-graduacao da universidade. Em caso negative 
poderiam trabalhar na industria, onde, naquela epoca, poderiam realizar muito pouco com os 
conhecimentos que teriam obtido com os seus graus de mestrado" (Entrevista com Carlos 
Perlingero). 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 14 

"Criou-se um relacionamento amistoso entre os professores e os altos funcionarios do 
bnde, alias muito agradavel e gratificante. Eles compartilhavam dos problemas da 
universidade e procuravam ajudar, sempre que o pagamento atrasava por algum 
motivo. Os primeiros estatutos do fundo foram redigidos na coppe. No infcio, so se 
contemplava a engenharia, mas fomos incluindo ffsica, matematica e qufmica, uma vez 
que nao se pode ter ensino de pos-graduagao em engenharia sem as ciencias basicas... 
Ajudamos tambem a criar o programa de pos-graduagao em matematica no Instituto de 
M atematica Pura e Aplicada. 16 

O dinheiro comecou a fluir em 1967 e chegou a seu maximo em 1973. A 
coppe criou uma grande variedade de acordos de cooperacao com pessoas e entidades 
no mundo inteiro. Seu catalogo relativo a 1971 menciona a Organizacao dos Estados 
Americanos, a Comissao Fulbright, a Fundacao Rockefeller, a Agenda Americana 
para o Desenvolvimento Internacional (USaid), alem dos govemos da Franca, Reino 
U nido, Pafses Baixos, U niao Sovietica, A lemanha Ocidental. 

Atraves desses acordos, foram convidados professores estrangeiros para vir ao 
Brasil, alguns alunos brasileiros viajaram ao exterior para conseguir o seu doutorado, 
e tiveram infcio muitos projetos conjuntos de pesquisa. 17 Partindo da qufmica, a 
coppe expandiu-se pelos terrenos da engenharia biomedica, engenharia mecanica, 
metalurgia, engenharia civil, engenharia da producao e administracao de negocios. 
V arias centenas de professores foram contratados com salarios e condicoes de 
trabalho melhores do que as entao existentes na Escola de Engenharia, a qual a coppe 
formalmente pertencia. Na qualidade de coordenador geral do programa, Alberto 
Coimbra enfeixava em suas maos a maioria das decisoes. "Tfnhamos de criar como 
que uma ilha para nos proteger contra o molde que nos circundava. Tivemos de 
crescer, e crescer muito rapidamente --- como um balao que subisse tao rapido, que 
nenhuma pedra nos poderia alcancar ---, ser fortes e imunes as deficiencias da 
universidade.... Tivemos as vezes de recorrer a meios nao ortodoxos para conseguir 
tudo isso. E claro que, para tanto, nao agfamos de acordo com a burocracia da 
universidade. 18 

A burocracia reagiu. Alberto Coimbra foi acusado de malbaratar recursos 
publicos e, em 1973, deixou seu posto, amargurado. Em 1977, a U niversidade do Rio 



16 E ntrevi sta com A I berto C oi mbra. 

17 "O Alberto Coimbra estava realmente interessado em expor sua entidade a todas as 
tendencias. Por vezes, os americanos se mostravam prepotentes nas organizagoes que eles 
ajudavam a financiar — como a oea e outras — e ele nao gostava disso, porque achava que 
isso restringia sua liberdade ... Hoje, a coppe sofre influencias mais europeias que americanas. 
Em algumas areas, contudo, os americanos sao mais fortes — como em engenharia de sistemas, 
por exemplo. A Europa e os Estados sao semelhantes em termos de conhecimentos, mas os 
Europeus se mostram mais fortes em qufmica. Entretanto, ediffcil dizer; nao e nada claro." 
(Entrevista com Giulio M assarani). 

18 E ntrevi sta com A I berto C oi mbra. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 15 

de Janeiro aprovou um novo estatuto para a coppe, que a colocou sob a autoridade 
direta do reitor da Universidade. Apos os primeiros anos de forte lideranca 
empresarial, chegara a vez da fase de gerenciamento, gracas a qual a coppe se tornou 
um componente importante e permanente da universidade. 

Em que medida a coppe realizou suas metas iniciais? Ainda de acordo com 
Alberto Coimbra, "a coppe foi criada para formar uma especie de profissional que o 
Brasil ainda nao conhecia, com uma qualificacao de nfvel de mestrado ou doutorado. 
Acreditavamos que pessoas com esses requisites eram necessarias para conseguir-se o 
desenvolvimento tecnologico do pafs. J a contavamos com pessoal de nfvel medio, 
com engenheiros, mas ainda carecfamos de indivfduos formados, que pudessem criar 
nova tecnologia". 19 E isso era exatamente o que o Fundo deTecnologia definia como 
seu objetivo. De acordo com o s economistas do banco, o Brasil mostrava um claro 
descompasso entre i nvesti mentos em setores basicos da economia do pafs e 
i nvesti mentos em educacao. Ora, o desenvolvimento industrial dependia das 
qualificacoes dos indivfduos, do fortalecimento da competencia cientffica e 
tecnologica do pafs e da reducao do montante gasto no pagamento de tecnologia, 
know how, assistencia tecnica e patentes estrangei ras. Esperava-se que o fundo 
investisse nao so para implantar um bom ensino de pos-graduacao, como para prover 
incentivos e assistencia tecnica, a fim de estimular as companhias brasileiras a melhor 
utilizar tecnologia moderna na sua luta contra a concorrencia das filiais locais das 
corporacoes estrangei ras. 20 

O saldo nao foi muito positive Alberto Coimbra, no que Ihe diz respeito, 
mostrou sua f rustracao: 

"Criamos programas de pos-graduacao para um Brasil que nao existia e que ainda nao 
existe, que nao correspondeu ao que esperavamos que acontecesse. Estavamos 
lancando ao mercado um produto sofisticado, dirigido ao desenvolvimento tecnologico 
do pafs. Imaginavamos que, se fizessemos a nossa parte, formando pessoas em 
engenharia, el as seriam absorvidas por um pafs que realmente queria criar a sua propria 
tecnologia. Contudo, isso jamais aconteceu .... O Brasil nao precisa mestres edoutores, 
nem sequer de engenheiros com cinco anos de formacao. Bastam engenheiros 
operacionais, uma vez que continuaremos para sempre operando em fabricas 
importadas. 21 " 

Haviam opinioes mais equilibradas, mas apontando na mesma direcao: 



19 Entrevista com Alberto Coimbra. 

20 BNDE 1974. 

21 Entrevista com Alberto Coimbra 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 16 

" Tenho quase certeza de que a coppe esta cheia de defeitos, no sentido de que ela 
avanca longe demais na frente da realidade brasileira, alem de ser, em muitos campos, 
sofisticada demais quanta ao I ado pratico das atividades produtivas... As industrias 
eram totalmente resistentes a qualquer participacao desse tipo, agora ou no passado. 
Nosso desenvolvimento industrial era baseado exclusivamente na importacao de 
tecnologia estrangeira, nas corporacoes multinacionais ou na aquisicao de patentes 
estrangeiras por companhias brasileiras". 22 

Podemos compor um quadra mais preciso da situacao atraves dos dados sobre 
os estudantes de pos-graduacao e seu trabalho posterior (verTabela 12). Entre 1964 e 
1978, somente vinte e tres estudantes receberam o grau de doutor; apenas cerca de 20 
por cento dos alunos de mestrado conseguiram concluir o curso, e 50 por cento 
abandonaram as classes sem conseguir os respectivos creditos. Essas baixas taxas de 
conclusao e de graduacao sao semelhantes ao que se costuma encontrar na maioria 
dos cursos de pos-graduacao pelo Brasil afora. Nesse sentido, a coppe nao constitui 
qualquer excecao, circunstancia que, evidentemente, nao deixa de ser menos 
preocupante. 

Se desconsiderarmos os cursos mais recentes, torna-se obvio que as taxas de 
desercao mais altas ocorreram nas areas em que a matrfcula tambem era a mais 
elevada. Tais cifras parecem indicar que, para um grande numero de alunos, o ensino 
de pos-graduacao representava somente um jeito a mais de prolongar sua vida de 
estudante, quase sempre gracas a uma bolsa, enquanto esperavam uma vaga no 
mercado de trabalho. Mas tambem e possfvel interpretar tais numeros como 
indicando que os estudantes da coppe eram objeto de uma demanda tao elevada, que 
nao eles tinham tempo para concluir seus cursos e receber seus diplomas. 



Entrevista com Pinguelli Rosa. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 17 



tabela 12. coppe: Pos-graduacao, M atrfculas, Desercao e Destino dos Estudantes, 1965-1978 



Area de estudo 


Grau de 
doutorado 


Grau de 
M estrado 


M atrfculas 
M estrado 


D esercao 
(%) 


Destino <a) 


Engenharia qufmica (1963) 


4 


124 


437 


52,6 


Ensino, 

empresas 

publicas 


Engenharia mecanica (1966) 


3 


66 


268 


48,5 


Ensino 

empresas 

privadas 


Engenharia eletrica (1966) 


1 


86 


699 


60,9 


Ensino , 

empresas 

publicas 


Metalurgia (1966) 


2 


59 


368 


30,2 


Ensino 

.empresas 

publicas 


Engenharia civil (1967) 


6 


139 


942 


65,5 


Ensino, 
programa de 
doutorado 


Engenharia de Producao 


3 


140 


852 


68,9 


Ensino, 

empresas 

publicas 


Naval (1967) 


- 


25 


97 


43,3 


Ensino 


Nuclear (1968) 




87 


329 


44,3 


Ensino, 
programa de 
doutorado 


Engenharia de sistemas 
(1971) 


6 


109 


660 


49,1 


Ensino, 
programa de 
doutorado 


Biomedicas (11971) 


- 


21 


120 


33,3 


Ensino 


Administracao de negocios 
(1975) 


- 


12 


160 


20,6 


E mpresas 
publicas 



fonte: Nunes, Souza & Schwartzman, 1982:24-42. 



<a) Principal ocupacao dos que obtiveram o grau de mestrado. Aparecem duas ocupacoes quando 
os numeros respectivos sao proximos 

Seja como for, fica patente que o nfvel de educacao oferecido pela coppe era 
muito mais elevado do que o requerido pelos estudantes que nao conseguiam os seus 
diplomas ou pelas companhias queos empregavam. A coppe poderia obter resultados 
iguais ou melhores, se estivesse preparada para dar nfveis de treinamento mais 
modestos para o grosso de seus estudantes, ou se concentrasse seus esforcos no ensino 
de pos-graduacao dos cerca de 20 por cento que conseguiam diplomar-se. Para os que 
concluem seu mestrado, o destino ea propria universidade (37 por cento) ou o servico 
publico (21 por cento). Somente 13 por cento ingressam no setor privado, enquanto 
19 por cento continuam sua vida estudantil em nfvel de doutorado. Os que se 
tornaram professores apos terem alcancado o diploma de mestre provavelmente 
trabalharam com alunos de nfvel de graduacao e nao tiveram condicoes para 
prolongar uma vida profissional voltada para a pesquisa e o desenvolvimento 
tecnologico. As taxas de desercao para os que trabalham na obtencao de seus tftulos 
de doutor foi maior do que a relativa ao nfvel de mestrado. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 18 

Em resumo, a coppe pareceu transformar-se num bom programa de 
especial izacao nas areas da engenharia mais tradicionais e operacionais: engenharia 
civil, eletrica, de sistemas e de producao. Suas metas originais --- desenvolver uma 
capacidade de engenharia verdadeiramente competitiva nacional e intemacionalmente 
--- foram frustradas em sua maior parte. Os ideais de pesquisa, o trabalho academico 
que se concretiza em dissertacoes, o fluxo constante de professores para propiciar os 
mais altos nfveis de competencia tecnica e cientffica, o intercambio permanente com a 
Europa e os Estados U nidos — todas essas ideias, que muitos chamam "o espfrito da 
coppe" ---, contrastam vivamente com a realidade, isto e, com uma desercao de 80 
por centra de seus estudantes e os padroes de emprego dos demais. 

"Big Science" e Alta Tecnologia 

Toda a razao de ser do investimento em tecnologia deve residir na sua 
utilizacao pratica. Um sumario das experiencias brasileiras nesses anos teria incluir 
todo o campo de pesquisas agrfcolas, avancos recentes em biotecnologia, a industria 
belica e aeronautica, a tecnologia para a siderurgica 23 e o papel de algumas 
instituicoes como o Institute de Pesquisas Tecnologicas de Sao Paulo. Tal sumario, 
contudo, estaria alem do escopo deste estudo. Dois casos extremos de alta tecnologia - 
-- energia atomica e computadores --- ressaltam do conjunto dos demais, devido em 
parte a sua proximidade com as ciencias basicas, e por isso demandam um exame 
mais detido. 

J avimos como a pesquisa em fisica avancada, queforneceu a base para alguns 
trabalhos aplicados durante a guerra, nao pode, mais tarde, realizar o mesmo feito no 
campo da tecnologia nuclear,, sabidamente muito mais complexo, oneroso e 
politicamente delicado. Confrontado com a necessidade de escolher entre duas 
possibilidades --- tentar desenvolver a sua propria tecnologia com o auxflio da 
comunidade cientffica existente ou adquirir a tecnologia estrangeira ---, o governo 
brasileiro optou pela segunda. Em 1975, foi assinado com a Alemanha Ocidental um 
ambicioso acordo de cooperacao nuclear que pressupunha a construcao de varias 
usinas para fomecimento de energia, e a transferencia da tecnologia do uranio 
enriquecido. Esse acordo provocou forte oposicao dos cientistas brasileiras, porque 
ele consistia principalmente na transferencia da tecnologia de engenharia e nao 
incorporava a competencia, adquirida ou presumida, dos cientistas brasileiras. Com o 
passar do tempo, verificou-se que o acordo fora por demais ambicioso, tanto que ele 
hoje se limita, no maximo, a construcao de duas usinas energeticas, nenhuma das 
quais ainda esta prestes a ser conclufda, no momento em que escrevo. Enquanto isso, 



23 Dahlman eFonseca 1987. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 19 

a usina da Westinghouse continua viciada por sucessivas dificuldades tecnicas, e 
talvez tenha de ser abandonada antes de entrar em operacao normal. NT 

Os militares brasileiros tambem empreenderem um outro programa de 
pesquisa atomica, chamado programa paralelo, fora das restricoes embutidas no 
acordo firmado com a Alemanha. Jamais foram confirmados os boatos de que o 
Brasil estaria procurando produzir a sua propria bomba atomica. No entanto, o 
governo admitiu estar desenvolvendo motores nucleares para navios e submarinos. 
Em setembro de 1987, o Brasil anunciou formal mente ter desenvolvido toda a 
tecnologia necessaria para a producao de combustfveis nucleares utilizaveis para fins 
pacfficos. Foi revelado que o metodo de ultracentrifugacao era semelhante ao usado 
pelo consorcio europeu urenco, e que o grau de enriquecimento (entao anunciado 
como sendo de 1,2 por cento) deveria ser elevado ate 20 por cento, no perfodo de um 
a dois anos, quando a usina industrial estaria comecando a operar. 24 O trabalho vinha 
sendo desenvolvido ha oito anos no Institute de Pesquisas Nucleares na Universidade 
de Sao Paulo, com o apoio dado pela marinha, a um custo declarado de 37 milhoes de 
dolares. O anuncio foi recebido com ceticismo geral pela imprensa brasileira e pela 
comunidade cientffica do pafs. O nfvel de enriquecimento, como foi declarado, era 
tido como demasiadamente baixo para quaisquer propositos praticos e as despesas, 
excessivamente elevadas, em vista da profunda crise economica e das demais 
necessidades das instituicoes cientfficas. Era visto como uma tendencia preocupante a 
concentracao de recursos em pesquisas militares, as expensas de instituicoes civis. 25 

Enquanto, por um lado, a caraterfstica principal dos programas nucleares 
residia na exclusao de cientistas baseados em universidades e na criacao de 
burocracias enormes, controladas pelo estrado, a industria de computadores, pelo 
outro, comecou com pessoas oriundas das universidades e deu lugar ao nascimento de 
um grande numero de companhias de propriedade particular. As origens remotas 
dessa industria podem ser localizadas nos ffsicos e engenheiros treinados pelo 
Instituto Tecnologico da Aeronautica. M ais tarde, passou a empolgar os formados ou 
pesquisadores provenientes de diversas entidades, como a U niversidade de Campinas, 



NT - Em 2001, a Usina Angra I, construfda pela Westinghouse, funcionava normalmente, 
enquanto que a usina Angra II, a unica construfda com tecnologia alema, comecava tambem a 
funcionar. 

24 Todo o programa nuclear foi profundamente abalado pela crise economica do final 
dos anos 80, motivo por que a usina de enriquecimento nunca chegou a funcionar. Em 1990, o 
governo de Fernando Collor selou um fosso profundo, que havia sido escavado pelos militares 
para realizar provas subterraneas, e assinou um acordo de inspecao mutua com a Argentina, de 
modo a assegurar o encerramento da faceta militar do programa de expert encias nucleares. 

25 Guilhermel957; Sales 1958; H. G. Carvalho 1973; Gall 1976; Leite 1977; Morel 
1979; Adler 1987; J ornal do Brasil 1987. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 20 

Escola Politecnica da Universidade de Sao Paulo, Universidade Catolica do Rio de 
Janeiro e a coppe. No final da decada de 1960, o Banco Nacional de 
Desenvolvimento Economico comecou a apoiar os trabalhos de pesquisa e 
desenvolvimento em ciencias de computacao e em microeletronica. Em 1971, a 
marinha contratou com a U niversidade de Sao Paulo e a U niversidade Catolica do Rio 
de Janeiro "o planejamento, desenvolvimento e manufatura de um prototipo de 
computador adequado para operacoes navais, de preferencia em associacao com 
Ferranti", companhia inglesa. 26 Em 1972, o governo criou um orgao destinado a 
coordenar toda a area de aquisicao de computadores e processamento de dados para o 
setor publico, mas com poderes para controlar as importacoes para toda a industria. 
Essa comissao levou a criacao da Secretaria Especial de Informatica, institufda sob a 
jurisdicao do Conselho de Seguranca Nacional, com plenos poderes para decidir sobre 
qualquer materia relacionada com computadores e microeletronica, desde importacoes 
ate o estabelecimento de firmas manufatureiras ou a aquisicao de equipamento de 
processamento de dados por universidades ou empresas estatais. Em 1973, foi criada 
uma empresa holding estatal, de nome de Digibras, baseada em capitals provenientes 
de empresas estatais, com o proposito de promover a industria brasileira de 
computadores. Em 1975, ela deu lugar a firma Cobra S.A. Contando com tais 
instrumentos, estabeleceu-se uma politica de reserva de mercado para a producao de 
microcomputadores para firmas brasileiras. No que diz respeito aos 

minicomputadores, a estrategia consistia em estimular a formacao de joint ventures 
sob o controle de firmas brasileiras, e na previsao de uma transferencia completa de 
tecnologia. O mercado de grandes unidades [main frames] permaneceu aberto para a 
IBM e outras firmas multinacionais, mas todas as suas acoes passaram a ser 
examinadas acompanhadas. 

A fixacao desta polftica coincidiu com a explosao da industria de 
microcomputadores em todo o mundo. No Brasil, ela comecou com base em 
componentes importados e se modelou em produtos muito conhecidos, manufaturados 
por empresas como Sinclair, Tandy Corporation, Apple, IBM e respectivos clones. A 
pesquisa centrava-se sobretudo em processos de engenharia reversa, adaptacao de 
programas e aplicativos, desenvolvimentos de pecas e de circuitos menos complexos. 
Em 1983, as firmas brasileiras fabricantes de computadores, que mal existiam cinco 
anos antes, estavam empregando cerca de 16.000 pessoas e vendendo algo como 690 
milhoes de dolares de equipamento, ao passo que as empresas multinacionais 



26 A dler 1987:245 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 21 

estabelecidas no pafs tinham cerca de 10.000 funcionarios e suas vendas atingiam ao 
redor de 800 mi I hoes de dolares. 27 

No final de 1984, foi aprovado pelo Congresso Brasileiro, por larga maioria de 
votos dos partidos do governo e da oposicao, urn projeto que definia uma "polftica 
nacional de informatica". Tal aprovacao fora precedida por um debate muito vivo que 
recordava uma acalorada discussao anterior, da qual surgira a aprovacao do 
monopolio estatal do petroleo, no infcio dos anos 1950. Mais uma vez, o tema era 
apresentado como constituindo um dilema entre, por um lado, a autonomia e 
autodeterminacao nacionais e, por outro, o controle dos recursos economicos do pais 
por companhias internacionais e seus socios locais. M ais uma vez, a polftica proposta 
repousava no apoio intenso nao so de grupos militares nacional istas, como de 
intelectuais, estudantes, sindicatos e polfticos. 28 

As caracterfsticas inusitadas nesta polftica provocaram varios estudos, uma 
ampla cobertura da imprensa intemacional e ameagas de retaliacao por parte do 
governo Reagan. A principal novidade consistia em ser esta a primeira tentativa, na 
historiado Brasil, de desenvolver uma polftica industrial baseada natecnologia local e 
em firmas estritamente brasileiras. J a existia ha muitos anos, por exemplo, a protecao 
de mercado em favor de um pequeno grupo de empresas multi nacionais no campo da 
industria de automoveis. O proprio monopolio estatal do petroleo tambem vinha de 
longa data, mas baseado em tecnologias disponfveis intemacional mente. Desta vez, 
contudo, ja se pudera construir um certo grau de competencia tecnologica, que iria 
servir de alicerce para a nova polftica. 

A polftica brasileira de computadores constituiu um caso extremo de 
"integracao da frente para tras", backward integration. Segundo esse modelo, a 
producao comeca com a montagem das pegas importadas para a formacao do produto 
final, na expectativa de que este, com o correr do tempo, ira incorporando uma 
parcela cada vez maior de componentes produzidos no pafs. 29 . Tal polftica requer, 
entre outras coisas, um investimento correspondente em pesquisa e desenvolvimento, 
fatores que nao parecem ter existido no caso do Brasil. 

E possfvel obter um panorama do estagio das pesquisas feitas em 
universidades na epoca, na area de ciencias de computacao (o que nao inclui os 

27 Secretaria Especial de Informatica 1984. 

28 O que se segue e baseado em Schwartzman 1988b. Ver tambem Tigre 1983; 
Piragibel985; Frischtak 1986; Evans 1986; Adlerl987. 

29 Nau 1986. 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 22 

campos a elas relacionados de eletronica e automacao), mediante o exame de um 
piano trienal elaborado conjuntamente pela Sociedade Brasileira de Computacao (que 
euma associacao cientffica), e pelo Centra Tecnologico de Informatica (instituicao de 
pesquisa criada pela Secretaria Especial de Informatica proximo a cidade de 
Campinas). Haviam cinco instituicoes que outorgam graus de doutor a cerca de dez 
pessoas por ano; era de 108 o numero total de pesquisadores com grau de doutor. 
Existiam ainda quinze entidades que concediam graus de mestrado, alem de um 
pequeno numero de pessoas sendo formadas no exterior ou de regresso ao pais. Na 
melhor da hipoteses, a previsao era de, a cada ano, serem formados quinze novos 
pesquisadores com nfvel de doutorado. O numero total de pesquisadores fora das 
industrias era estimado em 750, dos quais cerca de 500 trabalhavam com software. O 
piano de pesquisa projetava um acrescimo no numero de doutores, de modo a atingir 
750 ate o ano de 1997, contra os 300 que existiriam se fosse mantida a atual taxa de 
crescimento. Para tanto, seriam necessarios aumentos proporcionais em termos de 
pessoal e equipamento tecnico , instalacoes de biblioteca, e outros semelhantes. O 
custo global para o conjunto dos projetos de pesquisa, infra-estrutura, intercambio e 
monitoramento posterior foi estimado em cerca de 40 mi I hoes de dolares, a serem 
despendidos em tres anos, o que representa uma quantia muito pequena, se comparada 
com o que estava sendo investido nos pafses desenvolvidos, e bastante proxima do 
valor do equipamento que a ibm estava disposta, no mesmo perfodo, a fornecer as 
universidades brasileiras. 

Tambem foi elaborada uma lista de projetos de pesquisas de alta prioridade, 
que inclufa: o desenho de sistemas digitais, sistemas em regime de tempo 
compartilhado, engenharia de software, bancos de dados, cad/cam, inteligencia 
artificial, processamento de sinais, matematica aplicada a computacao e teoria de 
computacao. No total, foram identificados sessenta e cinco projetos. O piano de 
pesquisas resultou da incorporacao dos projetos de pesquisa entao existentes, sem 
clara ordem de prioridades. Tal como apresentado, o piano jamais foi financiado. 

Embora nao se disponha de informacao equivalente quanta ao conjunto da 
pesquisa nas industrias, e possfvel inferir sua escala pela existencia de cerca de 4.000 
empregados detentores de diplomas universitarios em todas as companhias brasileiras, 
a maioria dos quais operando em vendas, manutencao, controle de quantidade e 
administracao. O Centra Tecnologico de Informatica pretendia se constituir no ponto 
de partida de um amplo estabelecimento de pesquisa e desenvolvimento, a ser 
mantido gracas a um imposto especial e a ser colocado diretamente sob a autoridade 
da Secretaria de Informatica. O imposto foi vetado pelo Presidente Joao Figueiredo 
na assinatura da lei de 1985, e o Centra permaneceu como uma instituicao limitada, 
com cerca de 300 pessoas e um orcamento da ordem de um milhao de dolares por 
ano. N ao se tomou uma instituicao dedicada exclusivamente a pesquisa, buscando 



Capftulo 9 - O grande salto a frente - 23 

vender seus servicos ao setor privado, fornecer assistencia tecnica e desenvolver 
projetos conjuntos com as universidade. Ele tambem foi responsavel por 
supervisionar a consecucao das metas de nacionalizacao na fabrica de computadores 
de grande porte da ibm na sua vizinhanca, voltada somente para o mercado externo, 
alem der em seu mandato o desenvolvimento de padroes e a provisao de certificates 
para a industria nacional de computadores. 

A tibieza do esforco de pesquisa constitui uma das razoes de por que a polftica 
brasileira de informatica foi alvo de severa crftica, nao somente de competidores 
estrangeiros que gostariam de vender nos mercados brasileiros, mas tambem de 
usuarios e produtores no Brasil que consideram essa polftica como um obstaculo 
crescente ao seu acesso as tecnologias de ponta. Na area dos computadores, assim 
como na de energia atomica e outros campos aplicados similares, o grande salto para 
frente foi muito mais curto do quefora original mente previsto. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



CAPITULO 4 
O AUGE E O DECLINIO DA CI ENCIA APLICADA 

Da V el ha Republica a revolucab de 1930 2 

A "ilustracab brasileira" 4 

Da astronomia tradicional a matematica moderna 8 

Da medicina sanitaria a pesquisa biomedica 12 

A pesquisa geologica e o nacionalismo economico 20 

Sao Paulo assume a lideranca 26 



Podemos ver o desenvolvimento da ciencia, da tecnologia e da educacao 
superior no Brasil, durante as primeiras decadas do seculo vinte, como a interacao 
entre duas tendencias polares, uma visando a aplicacao de princfpios cientfficos, com 
resultados a curto prazo, a outra, mais academica, voltada para nocoes mais europeias 
do papel da ciencia e da educacao academica. A medida em que decafam as antigas 
instituicoes cientfficas, a primeira tendencia era a mais facil de se materializar e a que 
contava com maior apoio, levando a criacao de centros de pesquisa e institutes 
dedicados a agricultura, biologia aplicada, medicina tropical, geologia eengenharia. 

O componente academico surgiria muitas vezes como uma atividade 
"clandestina" dentro das instituicoes de pesquisa aplicada, e so se institucionalizaria 
com a criacao das primeiras grandes universidades brasileiras, na decada de 1930. Em 
conseq Ciencia, o trabalho cientffico raramente contava com o clima e espaco 
favoraveis a iniciativa e com o estfmulo intelectual que caracteriza quase sempre as 
situacoes onde existe um forte componente academico. Neste Capftulo 
acompanharemos os desenvolvimentos e a transformacao da ciencia aplicada em 
pesquisa bacteriologica e geologica, para concluir com o infcio da matematica e das 
ciencias ffsicas. No Capftulo seguinte trataremos da criacao das primeiras 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 2 

universidades brasileiras. Mas e necessario tracar primeiramente um quadra mais 
amplo desse perfodo. 

Da Velha Republica a revolucao de 1930 

Em 1889 um golpe militar incruento pos fim ao regime imperial e ao reinado 
de Dom Pedro II, que se tinha estendido por quase cinquenta anos. Imperio estava 
centralizado no Rio de Janeiro, com o apoio das aristocracias tradicionais do 
Nordeste, e se identificava com a agricultura baseada no braco escravo. A Republica 
demonstrou ser um regime mais decentralizado, associado ao desenvolvimento de 
uma nova economia agrfcola fundamentada no trabalho livre e na imigracao europeia 
para as provfncias meridionals, que eram agora estados federados. Destes, Sao Paulo 
despontava como o centra da economia brasileira, gracas a expansao contfnua da 
cafeicultura, a imigracao europeia e japonesa e, mais tarde, da industrial izacao. 

O perfodo da Primeira ou Velha Republica, iniciado em 1889, durou ate 1930, 
e ficou conhecido como a "Republica do Cafe com Leite", ou da "polftica dos 
governadores". As duas denominacoes refletem a extraordinaria influencia polftica 
das oligarquias regionais dos estados de Sao Paulo, centra da producao cafeeira, e 
M inas Gerais, com sua pecuaria. M as elas nao refletem a forca polftica dos militares, 
que derrubaram o regime imperial e elegeram mais de um Presidente da Republica; e 
os lacos historicos entre estes ultimos e a oligarquia positivista que controlava a vida 
polftica do Rio Grande do Sul. E nao refletem tambem a importancia da classe media 
das maiores cidades do pafs, especialmente Rio de Janeiro e Sao Paulo, que 
aumentava cada vez mais, imbufda de valores urbanos e com aspiracoes crescentes. 

Em 1930 os setores exclufdos da "polftica dos governadores" puseram fim a 
"Republica do Cafe com Leite" e inauguraram um perfodo de quinze anos em que o 
Brasil seria govemado por Getulio Vargas, um produto direto da oligarquia gaucha. 
Entre 1930 e 1937 Vargas se envoi veu em um complicado jogo de poder com os 
militares, as oligarquias polfticas dos estados, a Igreja, os intelectuais deesquerda eos 
integralistas --- representantes do fascismo brasileira. Em 1937 Vargas suspendeu 
todas as atividades polfticas passando a atuar como ditador sob uma nova carta 
constitucional que supostamente deveria inaugurar o "Estado Novo". Os anos do 
governo de Getulio Vargas correspondem a um divisor de aguas na historia do Brasil 
contemporaneo. 1 O poder voltou a se concentrar no governo federal, e houve algumas 



Skidmore 1967; Schwartzman 1982. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 3 

tentativas sistematicas de modernizar a administracao publica, 2 criar um sistema 
educacional abrangendo todo o pafs, 3 e promover a industrializacao 4 

E impossfvel avaliar esses desenvolvimentos sem entender o hiato cada vez 
maior entre as autoridades polfticas centrais e o polo economico do pais, Sao Paulo. 5 
Desde os seus primeiros tempos a antiga capitania de Sao Vicente se desenvolveu de 
forma independente, longe da administracao central da colonia, sediada a princfpio 
em Salvador e depois no Rio de Janeiro. Os viajantes do seculo dezessete 
costumavam descreve-la como uma "republica de bandidos". Sao Vicente foi o 
primeiro centra habitado longe da costa, contradizendo o padrao geral da colonizacao, 
que acompanhava o literal. A historia da expansao de Sao Vicente esimbolizada pel as 
"bandeiras", as expedicoes de caca aos fndios que penetravam cada vez mais para o 
Sul, chegando a participar de choques com as missoes jesuftas espanholas. As vezes 
eram expedicoes em busca de ouro e pedras preciosas, que se chocavam com outros 
imigrantes a proposito das areas de mineracao patrocinadas e estimuladas pela Coroa. 
No palco dos acontecimentos nacionais houve uma ausencia conspfcua da provfncia 
de Sao Paulo ate a explosao da cafeicultura, no seculo dezenove. 

Por volta de 1860 cerca de oitenta por cento da producao brasileira de cafe 
vinha da provfncia do Rio de Janeiro; no fim do seculo Sao Paulo representava mais 
de sessenta por cento de uma producao muito maior. Essa mudanca dramatica pode 
ser explicada em grande parte pelo desenvolvimento de uma forte mental idade 
empresarial nas elites paulistas, que inclufa um grande esforco para abrir a regiao aos 
imigrantes europeus, em substituicao ao trabalho escravo, e para desenvolver uma 
polftica intemacional de sustentacao dos precos, que se tomou conhecida como 
"polftica de valorizacao do cafe". 6 Enquanto isso, as antigas elites agrfcolas do Rio de 
J aneiro e de outras regioes se deslocavam da economia para a polftica, com o objetivo 
de preservar sua posicao tradicional em termos de status e de poder. Em 1889 as elites 
paulistas tiveram um papel muito ativo na queda do Imperio, e durante a Primeira 
Republica, pela primeira vez na historia do Brasil, compartilharam o poder com 
outros estados importantes e com os militares. Em 1930 porem elas ficaram entre os 



2 Schwartzman (ed.) 1983. 

3 Schwartzman, Bomeny e Costa 1984. 
4 Wirth 1970. 

5 Schwartzman 1975 e 1982. 

6 Delfim Neto 1959; E. P. Reis 1979. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 4 

perdedores no conflito com um grupo de jovens militares e as oligarquias polfticas do 
Rio Grande do Sul, de M inas Gerais e do Nordeste. Em 1932 o Estado brasileiro foi 
sacudido por uma tentativa armada, que nao teve exito, de por fim as polfticas 
intervencionistas do regime Vargas. Como resultado, os principais membros da elite 
paulista foram exilados na Europa, tendo retomado ao Brasil em 1933 e 1934, um 
perfodo de reconci Macao, quando se esperava que uma nova Assemble a Constituinte 
trouxesse ao pafs a descentralizacao e a democracia polftica. Foi precisamente em 
1934 que foi criada a U niversidadede Sao Paulo. 

A "ilustracao brasileira" 

Alguns autores caracterizam as ultimas decadas do seculo dezenove e as 
primeiras do seculo vinte como a fase da "ilustracao brasileira". 7 Foi uma epoca de 
contatos intensos com a Europa, especial mente a Franca, introduzindo no Brasil os 
conceitos de evolucao, do darwinismo biologico e social, do positivismo e do 
materialismo filosofico e polftico. As elites polftica, cultural e intelectual aceitavam 
essas ideias, cada grupo adotando o aspecto que mais Ihe interessava. O positivismo 
reinava nos cfrculos militares, e o proprio Imperador difundia com entusiasmo as 
novas tecnologias. 

So sumariamente podemos analisar como e em que medida a Europa 
influenciou o desenvolvimento intelectual, institucional e polftico do Brasil, que 
recebeu o transplante de versoes muitas vezes distorcidas de modelos institucionais e 
intelectuais franceses e alemaes, quase sempre atrasados. A elite intelectual brasileira 
ia estudar no exterior, especial mente na Franca. M uitos cientistas e pesquisadores que 
deveriam chefiar as instituicoes de pesquisa brasileiras vinham da Franca e da 
Alemanha. A cultura inglesa nao tinha muita influencia, embora a Gra-Bretanha fosse 
o principal parceiro economico do Brasil. Com efeito, a economia e a cultura nao 
caminhavam juntas. 8 

Devido a importancia fundamental que atribufa a ciencia, rejeitando a visao 
especulativa ou contemplativa da realidade, o positivismo encorajou os brasileiros a 
aceitar as novas tecnicas e os novos conhecimentos que dominavam o cenario 
intelectual europeu durante tanto tempo. Ao mesmo tempo, o positivismo trouxe 
consigo uma perspectiva que pouco tinha que ver com a realidade brasileira e 



7 Barros 1959. 

8 M anchester 1933; R. Graham 1968; Needell 1987. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 5 

contrariava tambem a forma como as atividades cientfficas se desenvolveram na 
Europa. 

Na Franca, o positivismo foi aceito so por alguns filosofos sociais 
evolucionistas; a maioria dos cientistas da natureza nao o aceitaram. E nas ciencias 
sociais os positivistas tiveram que enfrentar novas tendencias e novas teorias, tais 
como o marxismo, as ideias de Spencer e o historicismo. Dentro das ciencias ffsicas o 
positivismo conflitava com a posicao teorica seguida na ffsica desde que Alessandro 
Volta e Luigi Galvani revelaram a existencia de forcas nao-newtonianas, depois do 
seculo dezoito. O positivismo encontrou tambem uma barreira na ciencia matematica, 
que tinha sido influenciada pelos estudos sobre a geometria nao-euclidiana 
desenvolvidos por Carl Gauss, Nicolay Lobachevsky e Georg Bernhard Riemann no 
fim do seculo dezenove. Auguste Comte e seus discfpulos acreditavam que os 
conceitos derivados da analise nao-euclidiana nao passavam de abstracoes originadas 
na fase metaffsica do pensamento humano, e nao deviam ser ensinados nas escolas. 
Totalmente exclufdo da comunidade academica, Comte comecou a pregar para 
audiencias leigas, e assim, nasceu o ramo religioso do positivismo, cujo porta-voz foi 
Emile Littre 

O positivismo religioso chegou ao Brasil com plena forca. Para Benjamin 
Constant Botelho de M agalhaes, militar que foi um dos fundadores da Republica, 

"O positivismo euma nova religiao — a mais racional, a mais filosofica, ea unica que 
emana das leis da natureza. Nao poderia ter sido a primeira religiao porque exige o 
conhecimento das leis da natureza, e e uma consequencia espontanea desse 
conhecimento. Assim, nao poderia ter surgido durante a infancia da razao humana, ou 
mesmo quando as ciencias ainda estavam em embriao; e mesmo hoje nao teria surgido 
nao fosse por esse genio notavel, Auguste Comte, cuja grande inteligencia Ihe permitiu 
dar um salto de seculos na direcao do futuro, colhendo a ciencia em sua forma definida 

e nos dando, com sua religiao cientffica, a religiao definitiva da humanidade." 

Para o positivista a ciencia era uma meta ja atingida e o mundo havia sido 
completamente compreendido. Assim, nao podia haver mais espaco para 
questionamentos, duvidas ou experiencias. So restava a necessidade de levar a acao, 
de convencer os incredulos. Dentro desse quadro, onde se coloca a ideia de um 
laboratorio, um centra de pesquisa, uma universidade interessada em ampliar as 
fronteiras conhecimento? 

Enquanto no Brasil se via a ciencia como terminada e pronta para usar, na 
Europa e nos Estados Unidos a excitacao da pesquisa cientffica mal comecava. 
Culturalmente isolado do mundo anglo-saxao, os brasileiros seguiam a distancia a 



9 Carta enviada para a sua esposa do teatro de operacoes da guerra do Paraguai, na 
decada de 1870, conformecitada por Lins 1967:39. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 6 

maior parte do que acontecia na engenharia, mas pouco do progresso na ffsica. U ma 
testemunha maisjovem relembra: 

"Na epoca da nossa formacao, todos nos, inclusive os que estudaram na velha Escola 
Politecnica, fomos fortemente influenciados pela ffsica francesa dos seculos dezenove 
e vinte. ... [Na Franca,] figuras importantes como Poincare e Madame Curie 
certamente deram uma enorme contribuicao. M as a ffsica francesa se cristalizou em 
alguns manuais e tratados tais como o Ganon M anouvrier, o Tourpin e outros, datados 
quase do princfpio do seculo, e que tratavam muito pouco da ffsica moderna. A ffsica 
que estudamos estava dirigida para os engenheiros: forcas, equilfbrio, gravidade, 
fluidos — em outras palavras, o que econhecido como ffsica classica, e muito pouco 

da ffsica moderna." 

O comeco desse perfodo foi marcado pela criacao de varias instituicoes, 
principalmente em Sao Paulo, algumas das quais sobrevivem ate hoje: o Instituto 
Agronomico de Campinas, para pesquisa agrfcola (1887); o Instituto Vacinogenico, 
para o desenvolvimento de vacinas (1892); o Instituto Bacteriologico (1893); o M useu 
Paulista (1893); o M useu Paraense (1894); e o Instituto Butanta, urn centra para 
pesquisa de venenos e producao de antidotos (1899). Em 1900 foi criado no Rio de 
Janeiro o Instituto de Manguinhos, para a pesquisa biomedica. Com excecao do 
Instituto Vacinogenico (incorporado ao Butanta, em 1925, juntamente com o Instituto 
Bacteriologico), essas organizacoes foram responsaveis por muito do que foi 
produzido pela ciencia brasileira ate a decada de 1930. 

Surgiram tambem novas instituicoes dedicadas a educacao. Em Sao Paulo, a 
Escola Politecnica foi fundada em 1893; em 1896 foram fundadas a Escola de 
Engenharia M ackenzie, em Sao Paulo, e a Escola de Engenharia de Porto Alegre; em 
1898 a Escola Livre de Farmacia de Sao Paulo e a Escola Superior de Agricultura e 
Medicina Veterinaria do Rio de Janeiro; em 1901 a Escola Superior de Agricultura 
Luiz de Queiroz, na cidadede Piracicaba; em 1902, as Escolas de Comercio do Rio de 
J aneiro e de Sao Paulo. 

Em 1940 o Brasil contava com dez escolas de engenharia, onze escolas de 
medicina, catorze de farmacia e odontologia, cinco de agronomia e veterinaria --- 
alem de vinte escolas dedireito, tanto publicas como particulares, todas inspecionadas 
pelo governo. 11 Na escolha de carreira dos estudantes brasileiros no exterior sentia-se 



10 Entrevista com J acques Danon. 

11 F. de Azevedo 1963:288. Para Fernando de Azevedo o regime republicano "nem 
contemplou nem optou por fazer uma mudanca radical no si sterna educacional, para promover a 
renovacao intelectual das elites culturais e polfticas necessaria dentro das novas instituicoes 
democraticas. M antendo seu carater quase puramente profissional, a educacao superior 
brasileira nao se fortaleceu com a criacao de institutos culturais como escolas de filosofia e 
letras ou de ciencias, que pudessem associar a pesquisa teorica ao ensino. Como tambem nao 
houve qualquer esforco para promover um espfrito cientffico, criando novas bases para 
reorientar a educacao secundaria, base sobre a qual normalmente repousa a superestrutura da 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 7 

uma certa tendencia em favor das profissoes tecnicas. Os que iam estudar na Belgica, 
por exemplo, preferiam a engenharia e a medicina a qualquer outra profissao. A 
Belgica tinha adotado um sistema de institutes politecnicos, em conformidade com o 
modelo frances mas sem as tendencias militar e elitista prevalecentes na Franca, e 
com enfase no aprendizado pratico, o que facilitava o acesso dos seus graduados ao 
mercado profissional. Assim, a Belgica proporcionava aos brasileiros uma altemativa 
atraente, comparativamente as grandes ecoles francesas, que normal mente nao eram 
acessfveis aos estrangeiros. 12 

As instituicoes cientfficas criadas nos primeiros anos da Republica 
focal izavam principal mente a aplicacao dos seus resultados ao que era visto como as 
necessidades mais prementes do Brasil: a exploracao dos recursos naturais, a 
expansao da agricultura e o saneamento dos principais portos e cidades. Essas 
instituicoes eram estimuladas pelo crescimento da industria e o desenvolvimento 
promovido no Brasil pela abertura de novas opcoes de transporte (especial mente as 
ferrovias) e o aumento de novas colheitas. A medida que crescia a economia nacional, 
surgiam obstaculos inesperados a consolidacao e continuidade desse crescimento — 
pragas agrfcolas e doencas do gado; molestias endemicas que reduziam a capacidade 
produtiva da mao de obra e fechavam os portos do pafs a navegacao internacional; a 
falta de uma rede eficiente de estradas, portos e estradas de ferro; a deficiencia 
energetica; a peste bubonica nos portos do Rio de Janeiro e de Santos; os ataques da 
broca do cafe; a malaria que atingia os trabalhadores empenhados em abrir estradas. 
Eram problemas que exigiam para a sua solucao um esforco concentrado, e que eram 
tratados com mais eficiencia do que se poderia esperar de uma servico publico 
precario, herdado do Imperio. Em um perfodo de cinco anos a taxa de mortal idade na 
cidade de Sao Paulo caiu pela metade, em uma epoca de grande crescimento 
demografico. 13 E como veremos, no Rio dej aneiro o Institute de M anguinhos estava 
conseguindo resultados semelhantes, ou ainda melhores. 

Foi com esse pano de fundo de descentralizacao polftica, emprestimos 
culturais e urgencias praticas que a ciencia brasileira entraria no seculo vinte. 



educacao superior — aplicada ou nao, profissional ou nao." (Azevedo 1963:626). Escritos em 
1940, esses comentarios refletem a parti cipacao do autor nos movimentos em favor da reforma 
educacional e na criacao da U niversidade de Sao Paulo, nos anos 1930. 

12 Uma pesquisa relaciona 217 estudantes brasileiros na Universite de I'Etat de Gand, 
entre 1817 e 1914, dos quais 183 em engenharia. O total de estudantes brasileiros na Belgica, 
durante esse perfodo, foi de 613, a maioria deles em campos tecnicos (Stols 1974:657). 

13 Stepan 1976:140. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 8 

Da astronomia tradicional a matematica moderna 

A pesquisa cientffica no campo da matematica e das ciencias ffsicas teve infcio 
no Brasil no Observatorio Imperial do Rio de Janeiro, criado formalmente em 1827 
mas que so comecou a funcionar depois de 1845. Durante todo o seculo dezenove o 
Observatorio foi chef i ado por cientistas nascidos ou treinados na Franca, que 
normalmente ensinavam tambem na Escola Politecnica. 14 A princfpio o Observatorio 
se dedicou quase exclusivamente a calculos astronomicos, regulagem de cronometros 
e observacoes meteorologicas. Em 1858 e 1865 foram organizadas expedicoes 
cientificas para observar eclipses sol ares, o que marcou o princfpio da colaboracao 
com cientistas franceses. Um destes, Emmanuel Liais, observou cometas no Brasil 
desde 1858, utilizando equipamento fotografico. Em 1874, como diretor do 
observatorio, importou novos equipamentos oticos de Paris e comecou a trabalhar em 
dois projetos importantes: a preparacao de um mapa preciso do Brasil e o estudo das 
orbitas de V enus, M arte e M ercurio. 15 

Nessa epoca a pesquisa astronomica do Observatorio tinha pouco a ver com o 
ensino praticado na Escola M ilitar, e para o astronomo e matematico Lelio Gama a 
culpa cabia em parte ao estilo literario das aulas: 

"Naqueles anos o ensino da astronomia sofria a influencia encantadora das obras de 
Camille Flammarion. A influencia de Flammarion na astronomia do seculo dezenove 
lembra a influencia exercida por Auguste Comte na matematica, embora a natureza 
limitada da obra de Comte contraste com o estilo altamente literario da astronomia de 
Flammarion. Os dois eram escritores fascinantes, e uma torrente de amadorismo 
astronomico teve sua origem nas paginas de Flammarion. A linguagem colorida usada 
para descrever o espetaculo celestial terminava estimulando uma orientacao didatica 
inadequada, divorciada da realidade cientffica. O astronomo nao pode deixar-se 
fascinar pelo panorama do espaco exterior, mas deve medi-lo em um contexto ffsico- 

matematico." 



14 Em 1845 o Observatorio era dirigido por um professor da Escola M ilitar, Soulier de 
Sauvre, e de 1850 a 1870 foi dirigido por militares (Antonio Manuel de Melo, ex-ministro da 
Guerra e comandante geral da artilharia durante a guerra do Paraguai, e Curvelo d'Avila, ex- 
comandante da Marinha). Em 1870 foi nomeado como Diretor Emmanuel Liais, membro da 
expedicao francesa que veio observar o eclipse solar de 1858, sucedido em 1881 por Louis 
Cruls. Nascido na Belgica, este ultimo estudou engenharia civil em Gand ate 1868, e mais tarde 
engenharia militar. Tendo feito amizade com estudantes brasileiros, veio para o Brasil onde 
trabalhou na comissao cartografica entre 1874 e 1876. Depois de Cruls o Observatorio foi 
dirigido por Henrique Morize. Embora nascido na Franca, Morize se graduou em engenharia 
industrial na Escola Politecnica do Rio de Janeiro, onde ate 1925 desempenhou um papel 
importantecomo professor deffsica (Ribeiro 1955). 

15 Moraisl955. 

16 Lelio Gama trabalhou no Observatorio Nacional desde 1917 ate aposentar-se, em 
1977, tendo sido seu diretor entre 1951 e 1967. A citacao acima foi extrafda de um documento 
escrito preparado para este projeto em 1977. Para referencias biograficas mais amplas e outras 
fontes primarias vide M useu de Astronomia e Ciencias Afins 1988. 



Capftulo 4-0 augeeo declfnio da ciencia aplicada - 9 

O outro lado dessa visao romantizada da astronomia foram as acoes 
extremamente pragmaticas do govemo com respeito a essa ciencia. "A astronomia 
nao tinha um lugar proprio; nao era inclufda em nenhum lugar, porque era impossfvel 
defini-la em termos de servico publico. Durante setenta anos o Observatorio pulou de 
galho em galho sem que se pudesse identificar a caracterfstica com que se pudesse 
incluf-lo no esquema das atividades publicas." 17 Sob Morize a situacao chegou a um 
ponto extremo: o Observatorio teve seu nome mudado para Diretoria de M eteorologia 
e Astronomia, sendo transferido para o Ministerio da Agricultura, Industria e 

r~ -18 

Comercio. 

Com todas as suas deficiencias, o Observatorio proporcionou um contraponto 
importante ao clima intelectual prevalecente na epoca na Escola Politecnica. Assim, o 
ffsico Costa Ribeiro escreveu: 

"A importante contribuicao de Henrique M orize a historia da pesquisa ffsica no Brasil 
nao pode ser avaliada exclusivamente pel as suas obras publicadas, que sao poucas; e 
preciso levar em conta a grande influencia que teve sobre os estudantes brasileiros, 
despertando a sua curiosidade e interesse pelo trabalho experimental que ateentao 
tinha sido relegado a um segundo piano, e convencendo o governo da necessidade de 
criar laboratories de pesquisa eensino ede reorganizar muitos servicos oficiais em 

bases mais cientfficas." 

O estilo entao predominante pode ser visto em um artigo escrito por Licfnio 
Cardoso, positivista declarado, responsavel pelo curso de mecanica racional da 
Escola, no primeiro numero da Revista da Escola Politecnica, publicada em 1897. A 
proposito da Geometrie Analitique ele escreveu: 

"Auguste Comte nos oferece como um exemplo digno de estudo o duplo conjunto de 
curvas que o grande geometra Descartes descobriu que pode ser derivado de um 
cfrculo. Com a sua notavel e caracterfstica profi ciencia, quefelizmentealcancou 
reconhecimento mundial, nosso mestre incomparavel nos dasucintamente uma idea 
clara e positiva de como sao geradas essas curvas — nesse livro que etalvez o 
compendio mais formidavel que existe. No entanto, como dissemos acima, tendo 

proposto esse exemplo ele nao desenvolveu os seus estudos sobre ele." 20 



17 Lelio Gama, documento preparado pelo autor. 

18 Em 1933 o Observatorio recuperou o seu nome, sendo transferido para Sao 
Cristovao, sem contudo manter-se atualizado a evolucao cientffica. Nos anos 1920, tanto na 
Europa como nos Estados Unidos a astronomia tradicional, descritiva e posicional, estava sendo 
substitufda pela astroffsica. Em 1937 Domingos Costa foi escolhido para superintender a 
construcao de um observatorio astroffsico regional na regiao montanhosa do estado do Rio de 
J aneiro, projeto que foi arquivado porque a ameaca da Segunda Guerra M undial impediu a filial 
brasileira da Zeiss de assumir a responsabilidadecomercial pela manutencao dos equipamentos. 
Morais 1955:126-42. 

19 Ribeiro 1955:171. 

20 Citado em Paim 1974:111-2. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 10 

Foi nesse contexto que Otto Alencar comecou a publicar a sua obra. Ele ja era 
um matematico conhecido, e a publicacao do seu artigo de 1898 contra a matematica 
de Comte 21 deu inicio a um prolongado debate. Segundo Amoroso Costa, o discipulo 
mais conhecido de Alencar, "os seguidores do positivismo consideraram o seu artigo 
um sacrilegio, e as crfticas que se seguiram talvez se inspirassem mais na fedo que no 
raciocfnio, mas tratava-se de uma questao de geometria, e as suas objecoes eram 
irrefutaveis." 22 Otto de Alencar foi responsavel por introduzir na Escola Politecnica 
do Rio de Janeiro as obras de Alfred Clebsh, George Salmon, Gabriel Konings e 
Gaston Darboux; os tratados sobre analise escritos por Charles Hermite, C ami lie 
J ordan e Emile Picard; o calculo de probabilidade; e os livros do ffsico e matematico 
Henri Poincare 

O principal discfpulo de Alencar foi M anoel Amoroso Costa, que deu 
continuidade a sua obra matematica e se manteve na lideranca do movimento contra o 
positivismo. 23 Nessa campanha juntaram-se a Amoroso Costa Leho Gama (que mais 
tarde, em 1952, dirigiria o Observatorio Nacional), Teodoro Ramos (que teria um 
papel importante na organizacao da U niversidade de Sao Paulo), Roberto M arinho de 
Azevedo (mais tarde diretor da Faculdade de Ciencias na U niversidade do Distrito 
Federal) e Felipe dos Santos Reis (depois professor da Escola Politecnica). Esses 
cientistas atacavam o positivismo nao so por seus erros matematicos mas tambem pela 
forma como via o papel da ciencia na sociedade. Em 1923 Amoroso Costa escreveu 
contra o fascfnio com que o progresso material tinha levado as pessoas a ignorar "a 
existencia de um ideal cientffico superior, mais elevado do que a capacidade do 
homem de construir mil carros por dia, ou de praticar uma apendectomia em dez 



21 "Alguns Erros de Matematica na Sfntese Subjetiva de Augusto Comte", na Revista 
da Escola Politecnica, reproduzido em 1903 pelo jornal frances L'Enseignement Mathematique 
como "Quelques Erreurs de Comte". 

22 Costa 1971:71. 

23 Em 1990, com apenas quinze anos, Amoroso Costa ingressou na Escola Politecnica, 
tendo completado seu estudo de humanidades no Instituto Henrique Kopke, na epoca uma das 
melhores escolas secundarias do Rio de Janeiro. Em 1919 preparou uma dissertacao sobre a 
estrelas binarias e no mesmo ano assumiu o ensino da secao de topografia e astronomia da 
Escola. Em 1924 foi nomeado professor chefe de trigonometria esf erica, astronomia teorica e 
geodesia. Entre 1920 e 1925 Amoroso Costa completou tres cursos na Faculte de Lettres de 
Paris: introducao afilosofia das ciencias, dado por Abel Rey; teoria do conhecimento, por Leon 
Brunschvig; e teoria do movimento da lua, por H. Andoyer. Sob a influencia dos dois 
primeiros, Amoroso Costa comecou a dedicar-se a filosofia da matematica, assim como a 
problemas de cosmogonia. Em 1928, aos quarenta e tres anos, morreu em um acidente de 
aviacao, quando participava das comemoracoes do retorno de Santos Dumont ao Brasil, 
acidente em que morreram varias outras figuras importantes da comunidade cientffica do Rio 
de Janeiro. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 11 

minutos." 24 Esse conflito de pontos de vista ultrapassou os cfrculos cientfficos e 
tecnicos, invadindo os jornais. Em 1925, reagindo a artigos de Roberto marinho de 
Azevedo sobre a teoria da relatividade, por ocasiao da visita de Albert Einstein a 
Academia Brasileira de Ciencias, em 6 de maio de 1925, onde falou sobre a teoria da 
luz, Licfnio Cardoso escreveu uma artigo intitulado "Relatividade Imaginaria", que 
gerou um debate acerbo nas paginas de J ornal, um dos principais periodicos do Rio 
de Janeiro. 25 

Fundada em 1893, a Escola Politecnica de Sao Paulo nunca se envolveu muito 
nesses debates. Como no Rio de Janeiro, o objetivo da Politecnica paulista era formar 
engenheiros. A pouca pesquisa academica realizada era feita por alguns professores 
autodidatas, e nao refletia uma atividade cientffica institucionalizada. No entanto, 
havia um certo esforco de aplicacao. Desde o princfpio, a enfaseda Politecnica de Sao 
Paulo se relacionava com a construcao de ferrovias. Vfnculos estreitos eram mantidos 
com as firmas responsaveis nao so por essa atividade mas tambem pela geracao de 
energia eletrica e o sistema de bondes da cidade. O Laboratorio de Resistencia de 
Materiais da Escola era usado para testar equipamentos e materiais, tanto para as 
ferrovias como para o setor de energia eletrica. 26 

Teodoro Augusto Ramos foi o matematico mais preeminente da Politecnica de 
Sao Paulo 27 Desde estudante, ainda na Politecnica do Rio de Janeiro, liderou seus 



24 "Pela Ciencia Pura", texto inclufdo em Costa 1971:150-2. Na sua introducao ao livro 
de Costa, Lelio Gama escreve: "Amoroso Costa teve o privilegio que nos tornar conscientes de 
que assim como ha beleza na arte, ela tambem existe na filosofia das ciencias puras. Em suma, 
ele nos fez compreender que os sentimentos e a inteligencia sao as duas liras secretas das quais 
o homem extrai as melodias que dedica a natureza" (Gama 1971:29-30). 

25 Sempre houve grande curiosidade em torno do motivo dessa visita, que poderia 
significar que Einstein tinha colegas no Rio de Janeiro, que respeitasse e com quern pudesse 
conversar. Na realidade, porem, sua passagem pelo Brasil nao passou de uma escala de viagem 
a Buenos Aires. Sobre a ffsica na Argentina dessa epoca vide Pyenson 1984. 

26 O primeiro trabalho importante de pesquisa da Politecnica de Sao Paulo foi realizado 
por Francisco Ferreira Ramos, que como professor de ffsica usou raios-X ja em 1896, apenas 
um ano depois da sua descoberta por Roentgen. Sucedeu-o em 1897 o engenheiro industrial 
Constantino Rondelli, e este por sua vez foi sucedido em 1911 por Afonso d'Escragnole 
Taunay. Em 1912 Lufs Adolfo Vanderley foi nomeado professor de ffsica e deu infcio a 
algumas investigates no campo da ffsica aplicada. Trabalhando com Geraldo H. de Paula 
Souza (responsavel pela criacao do Laboratorio de Ensaios Materiais da Escola, que em 1925 
se transformaria no Instituto de Pesquisas Tecnologicas), Adolfo Vanderley determinou o valor 
energetico de duzias de diferentes alimentos, fez experiencias com combustfveis vegetais e 
realizou estudos sobre a radioatividade de fontes de agua mineral. Vide D'Alessandro 1943; 
Miller eSilva 1949. 

27 Nascido em Sao Paulo em 1896, Teodoro Ramos fez seus exames finais do curso 
secundario no Ginasio Petropolis, em 1911. No ano seguinte ingressou na Escola Politecnica do 
Rio de Janeiro, onde em 1916 se graduou em engenharia civil. Em 1933 foi responsavel pela 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 12 

colegas e foi talvez o mais conhecido dos discfpulos de Amoroso Costa. Em 1918 
defendeu uma tese sobre as fungoes das variaveis reais em que propos, nas palavras 
de Francisco M endes de Oliveira Castro, 

"basear a teoria das funcoes das variaveis reais na simples nocao dos polinomios ... 
Com esse trabalho a matematica do seculo vinte chegou ao Brasil ... O trabalho 
comeca com um excelente sumario da teoria dos conjuntos e dos principais resultados 
ja atingidos no campo das funcoes de variaveis reais, de Cauchy a Cantor, Borel, Baire 
e Lebesgue. Escrita quando o Brasil ainda nao tinha apreendido os rigores da 
matematica moderna, sua tese foi indubitavelmente a contribuicao mais importante que 
a pesquisa matematica brasileira poderia ter feito antes de fundada a Faculdade de 

Filosofia de Sao Paulo." 

Em 1919 Teodoro Ramos foi nomeado professor substituto da Politecnica de 
Sao Paulo. Segundo F. M . de Oliveira Castro, "com os esforcos feitos por Teodoro 
Ramos a Escola Politecnica de Sao Paulo tornou-se o centra da matematica moderna 
no Brasil." 29 

Da medicina sanitaria a pesquisa biomedica 

Durante o Segundo Imperio e a primeira decada da Republica, a medicina 
brasileira era principalmente clfnica e sanitaria. Os recursos diagnosticos e 
terapeuticos do seculo dezenove eram pouco abundantes. Os esforcos dos higienistas - 
-- os epidemiologistas da epoca --- se concentravam na correlacao entre certas 
doengas e as condicoes de solo, clima e outros fatores ambientais. Os medicos eram 
consultados sobre a organizacao urbana, a abertura de entradas, a secagem de 
pantanos, a construcao de esgotos e as normas fundamentals aplicadas as residencias, 
escolas, hospitais e alojamentos, e opinavam sobre todos esses temas. 30 

A moderna medicina e a pesquisa bacteriologica e sanitaria comecou em Sao 
Paulo, em parte devido ao impeto dado as iniciativas educacionais, cientfficas e 
tecnologicas naquele estado, nos primeiros anos do regime republicano. Um fator 
adicional foram as condicoes precarias da cidade de Santos, que passava a ser o porto 
mais movimentado do Brasil, embora os navios estrangeiros muitas vezes o evitassem 



contratacao de professores na Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade de Sao 
Paulo, e morreu em 1936, com apenas quarenta anos. 

28 F. M. de O.Castro 1955:68. 

29 F. M. de O.Castro 1955:69. 

30 A principal fonte de informacao sobre essa epoca sao os Anais da Academia Imperial 
de Medicina, 1870-90, mais tarde intitulados Anais da Academia de Medicina. Para um estudo 
abrangente da pesquisa medica no Brasil, no fim do seculo dezenove, vide Stepan 1976, e 
tambem M achado, Loureiro, Luz e M uricy 1978. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 13 

por razoes sanitarias. A febre amarela e outras doencas eram comuns entre os 
imigrantes que chegavam aquela cidade em grandes numeros, fomecendo mao de 
obra para a expansao economica do estado. 31 

A primeira iniciativa nesse campo foi a criacao do Institute Vacinogenico de 
Sao Paulo, em 1892, para produzir vacinas e proteger a nacao contra repetidas 
epidemias de varfola. Na epoca o servico de saude publica de Sao Paulo tinha sido 
reorganizado, sendo implantada a vacinacao obrigatoria, com programas de reforco a 
imunizacao e a criacao de postos de aplicacao da vacina em toda a provfncia. 32 A lei 
que criou o Institute dispunha tambem sobre a organizacao de tres laboratories 
diferentes, para analises clfnicas (ainda inexistentes ate mesmo no setor privado), 
bacteriologia e pesquisa farmaceutica --- mas so o segundo setornou uma realidade. 33 

A criacao do Institute Bacteriologico, em 1893, estava prevista na mesma lei 
que criou o Institute Vacinogenico. Seu objetivo era "dedicar-se especialmente a 
microscopia e bacteriologia em geral, com sua aplicacao ao estudo das doencas 
epidemicas, endemicas e as epizootias que ocorrem no nosso meio e se tornam cada 
vez mais serias." 34 Dada a magnitude da tarefa e a falta de experiencia local, foi 
necessario seguir um caminho diferente do utilizado no caso do Institute 
Vacinogenico, e recorrer a capacidade academica e organizacional de um especialista 
estrangeiro. O proprio Louis Pasteur foi consultado, tendo sugerido para essa tarefa 
Felix Le Dantec. 35 Le Dantec permaneceu no Brasil poucos meses, retornando a 



31 Nos primeiros anos da Republica um grupo privado, a Companhia Docas de Santos, 
recebeu uma concessao para operar o porto de Santos pelo perfodo de cem anos. Seus 
proprietaries, Candido Gaffree e Eduardo Guinle, criaram a Fundacao Gafree-Guinle, que nas 
decadas seguintes deu amplo apoio a maioria das iniciativas relacionadas com a pesquisa 
medica no Brasil. 

32 A preparacao da vacina contra a varfola de Jenner nao era um segredo, e o 
procedimento tecnico tinha permanecido basicamente o mesmo, com alguns aperf ei coamentos, 
desde a sua invencao, no fim do seculo dezoito. No entanto, antes de criado o Instituto 
Vacinogenico o Brasil vinha recorrendo aimportacao da vacina. 

33 Blount 1971. 

34 Amaral 1958:381. 

35 Gabriel Pisa, Embaixador do Brasil na Franca, foi incumbido de fazer contato com 
Pasteur, e relatava: "Em resposta a minha carta, o ilustre cientista Pasteur recomendou seu 
disefpulo Felix Le Dantec para chefiar o Instituto Bacteriologico, considerando que o Senhor 
Le Dantec esob todos os aspectos digno desse posto: formado pela Ecole Normale Superieure, 
Doutor em Ciencias Naturais, assistente de laboratorio do Instituto Pasteur" (Campos 
1954:518). 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 14 

Franca com os materials que tinha coletado para estudar a febre amarela, e foi 
substituido por Adolf o Lutz. 36 

Assim, na verdade foi Lutz, e nao Le Dantec, que montou o primeiro 
laboratorio bacteriologico moderno do Brasil e da America Latina, introduzindo as 
tecnicas mais avancadas da epoca. O Laboratorio nao so identificava a doenca e 
promovia outros estudos de apli cacao mas apoiava atividades de rotina como a analise 
de sangue e urina e a producao de vacina e soro fisiologico. 37 J a em agosto de 1893 
Lutz pode demonstrar a utilidade pratica dos seus conhecimentos, diagnosticando em 
um so dia a epidemia desconhecida que varria um abrigo de imigrantes, em Sao 
Paulo: a colera asiatica. 

Em 1894 e 1895 o Institute reagiu com rapidez e eficiencia as epidemias de 
colera. O Institute Bacteriologico, e Lutz em particular, ganhariam fama com as 
campanhas de saude publica contra a febre amarela e a peste bubonica. Essas 
campanhas serviram como um teste da interacao entre cientistas, a administracao 
publica e a populacao em geral, funcionando como um ensaio para as grandes 
campanhas nacionais propostas e executadas pelo Institute de Manguinhos alguns 
anos mais tarde. Foi tambem uma oportunidade para que os grandes nomes das 
ciencias biologicas se encontrassem, colaborassem etrocassem experiencias. 

A despeito das suas realizacoes anteriores, no princfpio dos anos 1900 as 
atividades e o prestfgio do Institute Bacteriologico comecaram a declinar. Seu 



36 Nascido no Rio de Janeiro, de pais sufcos, Adolfo Lutz estudou medicina na 
Universidade de Berna, pela qual se graduou em 1877. Depois disso visitou varios centros 
medicos na Europa, contatando J . Lister em Londres e Louis Pasteur em Paris, e trabalhando 
em dermatologia com J. Unna, em Hamburgo. Voltou ao Brasil em 1881, tendo seu diploma 
validado pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro, e comecou a trabalhar como medico. 
Trabalhou com leprosos em Limeira, uma pequena cidade do interior de Sao Paulo, e publicou 
varios artigos sobre o tema no Zeitschrift fur Dermatol ogie. Supoe-se que tenha sido o primeiro 
pesquisador a fazer uma descricao completa do bacilo da lepra, primazia mais tarde obscureci da 
pelo trabalho de outros autores, mais conhecidos. Em 1889 foi convidado por J. Unna para 
trabalhar em um leprosario no Havaf. Regressando ao Brasil em 1893, foi convidado para 
substituir Le Dantec como Vice-Diretor do Instituto Bacteriologico, tornando-se formalmente 
seu diretor dois anos depois (Campos 1954:518; M artins 1955:222; Stepan 1976:139-40). 

"Stepan 1976:140. 

38 Quando Adolfo Lutz identificou como tifoide a febre que atingiu Sao Paulo em 1895, 
precisou enfrentar a oposicao da Sociedade M edica e Cirurgica de Sao Paulo, recentemente 
criada, que se recusou a aceitar uma metodologia diagnostica baseada na identificacao do 
organismo causador, insistindo na visao tradicional de que as epidemias eram provocadas por 
condicoes ambientais como o clima, ideia que tinha levado ao conceito de "doencas tropicais". 
O impasse foi quebrado democraticamente, mediante uma votacao em que Lutz saiu perdendo. 
Segundo ele, nessa epoca os medicos se opunham si stemati camente a todo progresso, 
"baseando suas ideias nas obras de autores que ou nao sao competentes ou estao ultrapassados" 
(citado em Stepan 1976:141). 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 15 

orcamento nao aumentou de forma significativa, e Lutz precisava passar boa parte do 
seu tempo cumprindo obrigacoes burocraticas. Em 1908 ele aceitou um convite de 
Oswaldo Cruz para juntar-se a uma equipe de pesquisadores no Institute de 
Manguinhos, no Rio de Janeiro. Vital Brasil ja tinha deixado o Institute 
Bacterid ogico, em 1899, para dirigir a producao de soro anti-bubonico no Butanta, 
nos arredores de Sao Paulo, e quando Adolfo Lutz saiu nao havia mais ninguem 
habilitado a continuar o trabalho de pesquisa cientffica. Embora formalmente Lutz 
continuasse a dirigir o Institute ate 1913, a instituicao gradualmente perdeu sentido 
como um orgao autonomo, e em 1925 foi absorvida pelo Institute Butanta, embora em 
1931 tenha sido revivida e reorganizada como Institute Adolfo Lutz. 

A nova visao do papel da medicina tropical levaria quase dez anos para se 
deslocar de Sao Paulo ate o Rio de Janeiro. Em 1897, o Diretor da Saude Publica, 
Nuno de Andrade, dirigiu um memorando a Academia de Medicina indagando sobre 
as vantagens de "promover a criacao de institutes tecnicos oficiais para preparar soros 
curativos e anti-toxicos." Indagava tambem sobre as vantagens de criar institutes 
oficiais incumbidos de preparar soro fisiologico e vacinas; sobre a validade da 
pesquisa bacterid ogica realizada no Brasil e sobre as vantagens de restringir esses 
institutes a cidadaos brasileiros. Em resposta, obteve o apoio da Academia a esse 
empreendimento. 39 

O projeto foi implantado em 1889. Ameacado pela peste bubonica de Sao 
Paulo e enfrentando problemas na importacao de soro da Europa, o Prefeito do Rio de 
J aneiro, Cesario Alvim, fundou o Institute Soroterapico M unicipal. O controle tecnico 
foi cedido a Oswaldo Cruz, que depois de tres anos de estudo especializado no 
Institute Pasteur de Paris, ajudara a diagnosticar a epidemia de peste bubonica em 
Santos, juntamente com Adolfo Lutz e Vital Brasil. 

Em maio de 1900, menos de um ano depois, o Institute passou para o controle 
federal, mas manteve seu pessoal tecnico e ad mini strati vo. Em fevereiro de 1901 
estavam prontas as primeiras cem unidades de soro. Essa tarefa inicial implicou mais 
do que a simples reproducao de formulas ja conhecidas, pois a tecnica utilizada para a 
producao do soro na Europa ainda nao era de domfnio publico, ao contrario do que 



39 Nuno de Andrade foi um fundador da Policl fnica Geral, que era entao o hospital geral 
mais importante do Rio de Janeiro, pioneiro da bacteriologia no Brasil. Ele precisava do apoio 
da Academia de M edicina, que tinha a tradicao de aconselhar o governo a respeito de questoes 
controvertidas, relacionadas com a saude publica ou privada. A Academia expressou seu apoio, 
avaliando favoravelmente a qualidade dos estudos feitos e dos proprios bacteriologistas, alguns 
dos quais ja tinham acumulado uma experiencia significativa: Francisco Fajardo, Adolfo Lutz, 
Chapot-Prevost, Virgflio Otoni, Oswaldo Cruz, Batista Lacerda, Ismael da Rocha, Pinto Portela 
e Clemente Ferreira (Anais da Academia de M edicina 1897:71,77). 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 16 

acontecia com a vacina contra a varfola. Coube a Oswaldo Cruz mudar ou padronizar 
varios procedimentos para chegar a um produto que fosse mais eficiente, estavel e 
adequado as condicoes brasileiras. 

Em 1902 Oswaldo Cruz substituiu a Pedro Afonso como diretor. De sua 
funcao original como fabrica de soro e vacinas, o Institute se expandiu rapidamente, 
transformando-se em um centra de pesquisa bacterid ogica e de treinamento de 
pessoal, assim como um centra da nova geracao de medicos sintonizados com a 
revolucao introduzida na medicina por Louis Pasteur: M iguel Couto, Carlos Chagas, 
Eduardo Rabelo, M arques Lisboa, Cardoso Fontes, Ezequiel Dias e Artur Neiva. Sob 
a orientacao de Oswaldo Cruz, esses cientistas alcancaram excelentes resultados nos 
campos da hematologia, malaria, profilaxia, zoologia medica, contaminacao por 
insetos e verm i noses. 40 

Com o surgimento da febre amarela no Rio de Janeiro, em 1903, a cidade 
precisou enfrentar um novo desafio, e o Presidente Francisco Rodrigues A Ives 
nomeou Oswaldo Cruz para substituir Nuno de Andrade na Diretoria Geral de Saude 
Publica. Cruz manteve porem sua posicao como diretor do Institute Soroterapico. 
Assim, o controle sanitario do Rio de J aneiro e de outras regioes brasileiras podia ser 
exercido por meio dos esforcos integrados da atividade cientffica pura e aplicada. 

A nomeacao de Oswaldo Cruz para a Diretoria Geral de Saude Publica marcou 
o infcio de uma fase muito produtiva do Institute. Os problemas que estavam 
absorvendo as energias de cientistas em Paris, Berlim e nos Estados Unidos 
coincidiam com as necessidades do Brasil em termos de saude publica. Depois de que 
experiencias realizadas em Cuba tinham comprovado a teoria de Carlos Juan Finlay 
de que um unico tipo de mosquito, o Aedes aegypti, podia transmitir a febre amarela, 
o Brasil passou a ser o primeiro pafs importante a testar essa e outras teorias sanitarias 
modernas. Como no caso da peste bubonica, os procedimentos desenvolvidos no 
exterior nao podiam ser aplicados diretamente sem uma adaptacao as condicoes 
especificas do Brasil. Alem disso, para implantar esses novos metedos seria preciso 
uma equipe bem treinada e convicta da necessidade de resistir a oposicao ativa dos 
que contestavam a validade cientffica da explicacao de Finlay. 

Durante o mandate do Presidente Rodrigues A Ives as reacoes contra as 
campanhas sanitarias foram intensas, e culminaram na revolta popular de 1904 contra 
a vacinacao anti-variolica obrigatoria. Essas reacoes nao eram apenas uma 
consequencia da ignorancia ou do preconceito, mas se dirigiam tambem contra os 



'Guerra 1940:70; Neiva 1941:70. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 17 

pianos do Prefeito Pereira Passos, que pretendia modemizar a cidade do Rio de 
Janeiro "sacrificando e deslocando a populacao das areas pobres do centra, com a 
intencao de transformar a cidade colonial, com suas ruas estreitas, totalmente sem 
higiene, em uma metropole com todas as caracterfsticas de um moderno centra 
urbano." 41 Os pobres eram os mais prejudicados: 

"Seus pertences eram atirados fora, suas casas demolidas, os alugueis subiram, e eles 
foram removidos para longe do local de trabalho. Em outras palavras, seu si sterna de 
vida foi completamente alterado. Desta perspectiva, nao se deve considerar as relacoes 
contra a vacinacao obrigatoria e contra o proprio Oswaldo Cruz como uma reacao anti- 
cientffica das classes humildes, diante de um elemento cultural que Ihes era estranho, 

embora este possa ter si do em parte o motivo." 

Essas reacoes receberam amplo espaco nos jornais, e chegaram ate o 
Congresso, servindo em boa parte como um pretexto para os opositores do Presidente 
Rodrigues A Ives. Os intelectuais positivistas fomeciam a justificativa para essa 
reacao, contestando a validade das teorias cientfficas modemas e a utilidade dos 
procedimentos nelas baseados. Lutavam contra o que chamavam de "despotismo 
sanitario" e o poder crescente da prof issao medica, em todas as suas manifestacoes. 

"N ao somos contrarios apenas a vacinacao obrigatoria, mas somos contra a desinfeccao 
mandatoria, essa comedia que obriga os cidadaos a inalar gases nocivos e a prejudicar a 
sua saude; somos contra o isolamento obrigatorio e o modo como as pessoas sao 
retiradas com violencia das suas famflias e levadas a morrer pelas acoes morais contra 
o seu corpo ... Somos contra a notifi cacao obrigatoria de doencas as autoridades 
sanitarias, que viola os votos de segredo profissional dos medicos, ofende a sua 
dignidade e os forca a aceitar a nosografia e os diagnosticos oficiais, agredindo 

43 

claramentesua liberdade de pensar eseu trabalho profissional." 

No fim, Oswaldo Cruz tomou-se de certo modo uma figura mftica. A 
populacao se impressionava com o fato de que um sanitarista brasileiro, dirigindo 
uma equipe de brasileiros, tivesse conseguido controlar uma doenca que era 
considerada um obstaculo importante ao progresso da nacao. Essa equipe ganhou um 
prestfgio ainda maior depois de receber o primeiro premio da Exposicao Intemacional 
de H igiene de 1907, em Berlim, quefirmou a sua reputacao intemacional. No mesmo 
ano, o Instituto Soroterapico Federal transformou-se no Instituto de Patologia 
Experimental de M anguinhos. Incumbido original mente so da producao de soro e de 
vacinas, o instituto passava a atuar como um centra de pesquisas. Sob os novos 
estatutos, gozava de "completa autonomia nas suas investigates tecnicas e 
cientfficas", podendo solicitar ao governo o envio dos seus especialistas a qualquer 



41 Carone 1971:197. 

42 Pena 1977. 

43 Trecho de carta dirigida a O Pais, jornal do Rio de Janeiro, citada por Porto 1987:57. 
Videtambem Nachman 1977; J . M. Carvalho 1987. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 18 

lugar para estudar questoes cientfficas relevantes. O Institute teria tambem a sua 
propria revista, Memorias, distribufda pelas escolas medicas, veterinarias e agrfcolas 
do pafs, e mantendo intercambio com revistas cientfficas estrangeiras. 44 

A nomeacao do pessoal responsavel pelo Institute, uma vez reformado, 
confirmou a equipe que vinha trabalhando la desde 1901: alem de Oswaldo Cruz e 
Henrique Figueiredo Vasconcelos havia Henrique Rocha Lima, Alcides Godoi, 
Antonio Cardoso Fontes, Carlos Chagas, Artur Neiva, Ezequiel Dias, Henrique 
Aragao e Jose Gomes de Faria --- medicos treinados no proprio Institute. Assim, o 
Brasil podia orgulhar-se de uma "escola" de medicina experimental comparavel a 
qualquer um dos melhores centros europeus. No Institute Oswaldo Cruz as tradicoes 
francesa e alema se fundiam para fortalecer a luta destinada a desacreditar o ponto de 
vista de que a natureza tropical do Brasil o condenava como pafs. 

Com a febre amarela final mente control ada, o Brasil enfrentava agora um 
novo desafio: a malaria. Em certos lugares muitas obras publicas e particulares 
precisavam ser interrompidas diante dos riscos a saude dos trabalhadores. Institute 
foi solicitado a avaliar as condicoes sanitarias desses lugares e a propor uma estrategia 
para implantar as medidas saneadoras necessarias. Alguns pesquisadores eram 
enviados para estudar a ecologia das regioes envolvidas, enquanto outros 
permaneciam no Institute trabalhando nas investigates que nao podiam ser feitas in 
loco. Todos os especialistas precisavam adquirir experiencia em todas as areas 
relevantes, para evitar o conflito entre os cientistas de laboratorio e os especialistas de 
campo. 45 As observacoes de Carlos Chagas sobre as condicoes tanto dos mosquitos 
como das pessoas vitimadas o levou a formular sua doutrina da infeccao domestica, 
que provocou a mudanca dos procedimentos usados no combate a doenca. Deixou-se 
de considerar importante a destruicao das nuvens de mosquitos que invadiam as 
florestas e os pantanos; os esforcos foram dirigidos para a erradicacao dos insetos 
imediatamente depois de picarem as pessoas infectadas --- ou seja, dos mosquitos 
encontrados nas casas. Deste modo a nova medicina restabeleceu seu vfnculo com a 
preocupacao tradicional a respeito do ambiente. 



44 De acordo com as novas normas fixadas por Decreto de 12 de dezembro de 1907, o 
Instituto reformado deveria estudar as doencas parasitarias e infecciosas que atacam os seres 
humanos, animais e plantas, assim como as questoes relativas a higiene e a zoologia; devia 
tambem preparar soros terapeuticos e produtos similares a serem utilizados no tratamento e 
prevencao das doencas. Se o seu trabalho cientffico permitisse, o Instituto se tornaria tambem 
uma escola de veterinaria, cobrindo os campos da patologia, higiene e terapia animal. Vide 
Barbosa e Barbosa 1909:155-6. 

45 A necessidade de obter uma melhor compreensao do mosquito transmissor da 
malaria deu ao Brasil seus primeiros entomologistas: Carlos Chagas, Artur Neiva, Costa Lima, 
Cesar Pinho, Gomes de Faria e Antonio Peryassa. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 19 

M uitos postos foram instalados no interior para inspecionar as condicoes 
sanitarias ou entao algum problema especffico. Um deles estava local izado em M inas 
Gerais, no fim da principal estrada de ferro brasileira, onde a construcao de uma 
extensao ferroviaria tinha sido suspensa devido as condicoes sanitarias desfavoraveis. 
AM, em 1907, Carlos Chagas conseguiu o que ainda hoje se considera um importante 
feito cientffico: atraves do seu agente causador identificou uma nova doenca, a 
tripanossomlase americana, que mais tarde ficou conhecida como Doenca de Chagas. 
Essa descoberta contribuiu para marcar a identidade cientffica do Institute porque 
abriu suas portas para muitas novas areas de estudo: a morfologia e biologia do 
Trypanosoma cruzi; seu ciclo de desenvolvimento nos vertebrados e nos portadores 
da infeccao; os mecanismos de transmissao da doenca; os processos patogenicos, 
sintomas e a anatomia patologica dos pacientes; a epidemiologia; o habitat dos 
portadores e as condicoes da sua contaminacao; e a definicao de normas preventivas e 
terapeuticas. 46 

A qualidade do trabalho desenvolvido no Institute atraiu ao Brasil tres 
cientistas alemaes --- Stanilas von Prowasek, Gustav Giemsa e Johannes Franz 
Hartmann --- que durante 1908 e 1909 trabalharam em estreita colaboracao com os 
pesquisadores do Institute Sua vinda era um sinal de que a ciencia brasileira atingira 
um nfvel elevado, e durante algum tempo a mfstica do Institute foi sustentada pela 
excel encia da sua producao. Em 1910, quando pesquisava a malaria, Artur Neiva 
demonstrou a existencia de um tipo de plasmodio resistente a quinina. Em 1911 
Gaspar Viana identificou o Leishmania brasiliensis e no ano seguinte descobriu uma 
forma de tratamento usando tartaro emetico. Com Henrique Beaurepaire Aragao 
publicou dois trabalhos importantes --- uma descricao da transmissao da doenca pelo 
Hematophagos dipteros (phlebotomus) e um estudo complete do granuloma venereo, 
com a descricao clfnica, histopatologia, estudo e tratamento com tartaro emetico. A 
pesquisa em protozoologia e entomologia prosseguia intensivamente, sendo feitos 
tambem estudos de micologia e helmintologia, tornando-se umas das contribuicoes 
mais relevantes do I nstituto. 

Os recursos para financiar boa parte dessas pesquisas vinham nao do custeio 
do Institute pelo governo federal, mas do que ficou conhecido como a "verba da 
manqueira". Em 1908 Alcides Godoi e Jose Gomes de Faria desenvolveram uma 
vacina muito eficaz contra a "manqueira", uma doenca que afetava o gado brasileira. 
Doaram ao Institute a patente dessa vacina, e os lucros com a venda da vacina 
serviam agora para equipar laboratories, pagar novos pesquisadores e financiar as 



46 FonsecaFilho 1974:46. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 20 

viagens dos tecnicos pelo Brasil ou aos paises vizinhos, em busca de novos problemas 
e novas solucoes. 47 

A doacao dessa patente nos diz algo sobre o clima que prevalecia no Institute 
Encerrados em uma fazenda, no que na epoca era um local afastado da cidade, os 
cientistas do Instituto se consideravam um grupo de pessoas muito especiais, 
dedicadas a uma causa nobre. Por essa mesma razao era muito diffcil introduzir-se no 
grupo. Quern quisesse ser aceito precisava antes fazer um curso pratico muito diffcil, 
depois de completar os primeiros anos da escola de medicina. Para ter o direito de 
trabalhar depois como internos do Instituto, os candidates precisavam ter uma 
presenca perfeita no curso de dois anos. E como internos estavam ainda em regime de 
experiencia, trabalhando sem ganhar para os pesquisadores titulares que os 
aceitassem, ate que surgisse uma oportunidade de integrar o grupo permanente. Os 
proprios candidates consideravam esses testes necessarios para serem admitidos a 
instituicao que era considerada a unica no Brasil onde se praticava a ciencia genufna. 
Alem do ambiente estimulante, o Instituto dispunha de uma excelente biblioteca, uma 
boa infra-estrutura e excelentes tecnicos --- inclusive sopradores de vidro, eletricistas 
e mecanicos, todos treinados pelos proprios pesquisadores mais graduados. Uma vez 
admitidos, os candidates podiam esperar que seu trabalho fosse nao so reconhecido 
mais usado nas muitas campanhas promovidas pelas autoridades sanitarias com as 
quais o Instituto estava ligado. 

A pesquisa geologica eo nacionalismo economico 

A terceira area de pesquisa aplicada iniciada no comeco do seculo cobria a 
geologia e a mineralogia. Uma serie de comissoes geologicas e geograficas de curta 
existencia vinham sendo criadas desde 1875, chefiadas por geologos norte-americanos 
e mais tarde por graduados da Escola de M inas de Ouro Preto. A primeira delas, a 
velha Comissao Geologica do Imperio, foi resuscitada em 1907 como Servico 
Geologico e M ineralogico, uma reparticao federal cuja direcao foi oferecida a Orville 
A. Derby. 48 



47 Neiva 1941:64. 

48 A Comissao Geologica do Imperio funcionou de 1875 ate 1877. Era presidida por 
Charles F. Hartt, que tinha estado no Brasil com a expedicao Thayer de 1865-6, chefiada por 
Louis Agassiz, e que em 1871 dirigira a expedicao M organ, da universidade Cornell. Em 1870 
Hartt publicou Geology and Physical Geography of Brazil, livro baseado nas suas viagens 
anteriores. Os membros da Comissao inclufam os americanos Orville A. Derby, John Caspar 
Branner e Richard Rathburn, e os brasileiros Pacheco Jordao e Francisco J . de Freitas. Em 1886 
Derby foi convidado para organizar a Comissao Geografica e Geologica de Sao Paulo, onde 
trabalhou com E. Hussak e dois graduados da Escola de Minas de Ouro Preto: Luis Felipe 
Gonzaga Campos e Francisco P. Oliveira. Foi o primeiro diretor do Servico Geologico e 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 21 

Como diretor, Derby contava com a colaboracao de dois antigos 
companheiros, Eugene Hussak e Gonzaga Campos, e procurou montar a agenda 
dentro da mesma tradicao de pesquisa com que ja tinha beneficiado outras 
instituicoes. A despeito das realizacoes cientfficas desse grupo, contudo, a nova 
agenda nao se desenvolveu bem, e em 1915 Derby cometeu suicfdio, gesto que 
alguns autores atribuem ao desinteresse do governo pelo Servico Geologico. Depois 
da sua morte, a pesquisa aplicada recebeu uma maior enfase: "Nessa fase da geologia 
aplicada da-se preferencia aos temas economicos --- petroleo, energia hidraulica, 
ferro, carvao e ate mesmo o solo agrfcola --- alem do levantamento geografico da 
bacia amazonica e a publicacao de muitos mapas de diferentes regioes do pafs." 49 O 
sucessor de Derby foi Gonzaga Campos, que se formara na Escola de M inas de Ouro 
Preto e que ficou no cargo ate 1924, quando foi substitufdo por outro graduado da 
Escola, Eusebio Paulo de Oliveira. 50 

Servico Geologico cresceu sob a jurisdicao do Ministerio da Agricultura, 
Industria e Comercio. Jesus Soares Pereira, servidor publico que teria um papel 
importante na polftica economica nacionalista das decadas seguintes, descreveu o 
Servico como uma instituicao muito especial, movida pelo espfrito publico e a 
dedicacao dos seus integrantes, 51 impressao que e compartilhada por outros 
observadores. 



M ineralogico do Brasil, de 1906 ate o seu suicfdio, em 1915. Duas outras instituicoes de curta 
vida foram criadas em 1891 — a Comissao de Exploracao Geografica e Geologica de M inas 
Gerais e a Comissao Especial do Planalto Central do Brasil, que fez os primeiros estudos para 
determinar a localizacao de Brasflia, a futura capital brasileira. Esse perfodo foi marcado 
tambem pelas pesquisas de carvao mineral da Comissao dos Estudos do Carvao, chefiada pelo 
geologo norte-americano I. C. White, que fez levantamentos estratigraficos do Brasil 
meridional em 1904 e 1905 (Leonardos 1955; Leinz 1955; Pereira 1955). 

49 Pereira 1955:369. 

50 A parti r dessa epoca os graduados da Escola de M inas de Ouro Preto passaram a 
dominar as geociencias: Pandia Calogeras, o estadista, autor do classico As Minas do Brasil: 
Sua Legislagao (1905); M iguel Arrojado Lisboa, considerado o geologo mais importante do seu 
tempo; e numerosos pesquisadores do Servico Geologico, inclusive Fleury da Rocha, Alberto 
Betim Paes Leme, Avelino Inacio de Oliveira, Paulino Franco de Carvalho, Jose Ferreira de 
AndradeJ r., Pedro de M oura, Glycon de Paiva Teixeira, Irnack Carvalho do Amaral, Alvaro de 
Paiva Abreu e muitos outros. Os formados pela Escola Politecnica do Rio de Janeiro deram 
tambem uma contribuicao importante as geociencias: Othon Leonardos, Ferdinand Laboriau 
Filho, Sflvio Froes Abreu e Mario da Silva Pinto, entre outros. Em Leonardos 1955:270-86 
encontramos biografias desses geologos. M ario da Silva Pinto lembra de Eusebio de Oliveira 
em 1927 como o homem que treinou muitos dos geologos e mineralogistas brasileiros. Nessa 
epoca M ario era ainda um jovem estudante de engenharia, e sob a direcao de Eusebio serviu em 
todas as secoes do Servico — qufmica, ffsico-qufmica, topografia, escavacao, geologia 
adquirindo um amplo conhecimento geral (entrevista de Pinto). 

51 "Dentro do M inisterio da Agricultura — especialmente no antigo Servico Geologico 
e M ineralogico, que mais tarde se transformou no Departamento Nacional da Producao 
Mineral, havia um nucleo ativo e muito esclarecido de nacional istas. Trabalhei ao lado de 



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Quando Gonzaga Campos ainda era o chefe do Servico Geologico, havia 
reunioes toda tarde na sala do diretor para discutir os principals problemas 
relacionados com o transporte marftimo, os portos, as ferrovias e rodovias (ja 
comecara a execucao de grandes obras publicas no Nordeste), combustfveis, a agua, 
energia eletrica, represas, os minerios e as industrias do pafs. 52 As vezes o proprio 
M inistro, Hildefonso Simoes Lopes, comparecia a essas reunioes para participar dos 
debates. 

Os dois assuntos mais importantes eram o aco e o petroleo. O governo 
brasileiro tinha assinado um contrato com o empresario norte-americano Percival 
Farquhar, concedendo-lhe o monopolio da exportacao de minerios em troca da 
construcao de uma usina siderurgica no Brasil. Desde a sua assinatura, em 1920, o 
contrato vinha provocando uma grande discussao, dramatizando um debate que 
estaria presente na vida economica do pafs nas decadas seguintes. Os liberais 
defendiam a abertura do pafs a empreendimentos estrangei ros, e aceitavam o papel de 
supridor de produtos agrfcolas e materias primas para os centros industrializados, 
enquanto os nacionalistas procuravam estimular a industrializacao por meio de 
incentivos concedidos pelo governo e o controle das riqueza naturais pelo estado. 53 
Havia assim um choque de ideias mas tambem de regioes e de grupos. Entre os 
cientistas e os tecnicos havia opinioes divergentes sobre o papel que deviam ter no 
futuro crescimento economico do Brasil. Os nacionalistas, principalmente os ex- 
alunos da Escola de Ouro Preto, tendiam a considerar-se servidores publicos, 
responsaveis pela conducao do pafs pela rota do progresso, enquanto os liberais, 
principalmente os formados pela Escola Politecnica do Rio de Janeiro, muitas vezes 
combinavam uma funcao tecnica com atividades empresariais, executando trabalhos 
para o estado ou associando-se a grandes grupos economicos brasileiros ou 
intemacionais. 



homens como Adosindo M agalhaes de Oliveira, um engenheiro sobre quern nao se ouve falar 
muito mas tinha elevada estatura moral ; era Neto de Benjamin Constant, e foi um dos 
pioneiros na aplicacao das ideias nacionalistas ao campo da energia eletrica e dos recursos 
naturais. M uitos anos depois foi um dos diretores da Companhia Hidroeletrica de Sao 
Francisco." Outra figura notavel foi M ario Barbosa Carneiro: "Considerado o mais importante 
servidor publico civil brasileiro da sua epoca, era um homem da melhor conduta moral, e 
extremamente dedicado. Deixou o Ministerio da Marinha para organizar o Ministerio da 
Agricultural Foi gracas a Barbosa Carneiro que Jesus Soares Pereira ingressou no M inisterio, 
tornando-se mais tarde funcionario do Departamento Nacional de Producao Mineral, quando 
este foi criado, em 1934. Tanto Carneiro como M agalhaes de Oliveira eram positivistas 
confessos (Pereira 1975:38,58). 

52 Rosa 1974:2. 

53 Wirth 1970: segunda parte. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 23 

Em 1921 o M inisterio da Agricultura criou no Rio de Janeiro a Estacao 
Experimental de Combustfveis e M inerios, que deveria tornar-se a primeira instituicao 
brasileira de pesquisa tecnologica, no sentido moderno, com o objetivo de manter e 
ampliar os estudos sobre o potencial energetico dos depositos de carvao do Sul do 
Brasil. Em seguida outros combustfveis e recursos minerais foram tambem inclufdos 
nesses estudos. 54 O primeiro diretor da Estacao Experimental, Ernesto Lufs da 
Fonseca Costa, procurou atrair para a sua equipe os especialistas mais qualificados, 
dentre eles Sflvio Froes Abreu, seu discfpulo predileto, que o sucederia na chefia. 55 A 
preocupacao com os recursos energeticos do pais nao tardaria a promover a pesquisa 
tecnologica no uso do alcool em motores de combustao. Em 1931, reagindo ao 
excesso de producao de acucar e a queda da competitividade desse produto no 
mercado internacional, o governo brasileiro decretou que o alcool seria misturado a 
gasol i na nos postos de servi co, com uma concentracao de ci nco por cento. 56 

Com o tempo a Estacao Experimental ampliou a gama das suas atividades, 
atraindo um numero crescente de pesqui sad ores, especialmente da Escola Politecnica 
do Rio de Janeiro. Em 1933 a Estacao passou para a jurisdicao da Diretoria Geral de 
Pesquisas Cientfficas do M inisterio da Agricultura, chefiada por Juarez Tavora --- 
uma reparticao que teve vida curta. Um ano depois ela passou a ser controlada pelo 
M inisterio do Trabalho, Industria e Comercio, e recebeu um novo nome, que foi 
mantido ate hoje: Institute Nacional de Tecnologia. Institute manteve a rotina e os 
objetivos da Estacao Experimental, acrescentando novos campos de interesse: 
fabricacao de metais, materials de construcao, ffsica e qufmica, eletricidade, 
fermentacao, etc. Equipado com laboratories excelentes para a epoca, o Institute 
Nacional de Tecnologia tornou-se durante algum tempo o principal centra de pesquisa 
tecnologica do Brasil, exclufdas as ciencias biomedicas. Em 1934, quando ainda era 
diretor do Institute, Fonseca Costa admitiu um jovem engenheiro e pesquisador 



54 Schwartzman 1983; Schwartzman e M . H . M . Castro 1984. 

55 Outros membros da equipe inclufam os engenheiros Paulo Accioly de Sa; Anfbal 
Pinto de Souza; o ingles Thomas Legall, um especialista em fornos e combustao do carvao; e 
H eraldo de Souza M atos, que supervisionava a pesquisa sobre o emprego do etanol nos motores 
de combustao espontanea, e mais tarde foi incumbido da divisao de motores e combustfveis 
termicos. Integravam tambem a equipe os qufmicos industrials Joaquim Correia de Seixas e 
Rubem deCarvalho Roquete. 

56 Isso so foi possfvel devido aos resultados bem sucedidos das investigates feitas. 
Para demonstrar que essa mistura era possfvel, um automovel movido a alcool fez viagens 
experimentais entre o Rio de Janeiro e Sao Paulo, e entre o Rio de Janeiro e Petropolis, e em 
1925 um grupo da Estacao Experimental participou com sucesso em uma competicao 
automobilfstica, para demonstrar a viabilidade tecnica da sua proposta. Nos anos 1970, como 
resposta a crise do petroleo, o Brasil se empenhou em um programa de larga escala para 
substituir a gasolina pelo alcool, projeto que contou com a participacao tecnica da mesma 
instituicao, que passara a ser o Instituto Nacional deTecnologia. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 24 

alemao, Bernard Gross, que deveria tomar-se o principal cientista residente da 
instituicao. 57 

O que explica a passagem do INT do M inisterio da Agricultura para o 
M inisterio do Trabalho, Comercio e Industria foi a oposicao de seus dirigentes 
lideranca a orientacao nacionalista de Juarez Tavora. Fonseca Costa era uma 
personalidade suficientemente forte para manter a instituicao funcionando em seus 
proprios termos, e chegou a expandir as atividades e o papel do Institute durante a 
Segunda Guerra Mundial. O mesmo nao aconteceu porem com Sflvio Froes Abreu, 
que o substituiu depois da sua morte, em 1947. 

O velho Servico Geologico estava do outro lado da cerca. Em 1934 foi 
transformado no Departamento Nacional de Producao Mineral, e a nova estrutura 
inclufa um servico de recursos hfdricos, uma secao de estfmulo a producao mineral e 
um laboratorio central, alem do servico geologico propriamente, responsavel pel as 
pesquisas em geologia e paleontologia. Alem dessas funcoes de investigacao, o 
Departamento deveria criar normas para a aplicacao das polfticas de minerios e de 
petrol eo quetomavam forma. 

A criacao do Departamento foi sincronizada com a promulgacao do Codigo de 
Minas, que pela primeira vez na historia do Brasil determinou que as riquezas do 
subsolo pertenciam a nacao, e nao aos proprietaries das terras onde se encontravam, e 
que sua exploracao dependia de aprovacao governamental. O novo Departamento foi 
criado em um clima tenso, com as crfticas feitas pelo Servico Geologico, e foi com 
esse pano de fundo que assumiu a sua direcao um graduado da Escola de M inas de 

CO 

Ouro preto, Fleury da Rocha. 



57 Bernard Gross tinha chegado ao Rio de Janeiro um ano antes, sem um objetivo 
profissional preciso. Como pesquisador recem treinado na Alemanha, participara da medicao 
dos raios cosmicos, e durante seu primeiro ano no Brasil apresentou estudos em conferencias e 
publicou artigos sobre esse tema, incluindo um artigo na revista de engenharia da Escola 
Politecnica. A despeito da qualidade do seu trabalho, depois da Segunda Guerra Mundial o 
Instituto entraria em um perfodo de profunda deterioracao, da qual nunca se recuperaria 
completamente. 

58 Essa situacao foi assim descrita por Sflvio Froes Abreu: "As empresas privadas 
interessadas na industria da mineracao, especialmente os empresarios privados estrangeiros, 
nao tinham essa reparticao federal em alta conta; os pesquisadores desconfiavam dos seus 
servicos e, gracas as ideas implantadas por Clodomiro de Oliveira, era possfvel perceber uma 
certa xenofobia entre os geologos oficiais; o desagrado com o seu diretor, Eusebio de Oliveira, 
se espalhou em consequencia de campanha lancada por empresas petrolfferas de Sao Paulo e 
Alagoas" (Abreu 1975:27). O proprio Froes estava longe de ser um observador neutro: quando 
trabalhava associado com o grupo Guinle, tinha pesquisado a existencia de petroleo no estado 
da Bahia, e planejava criar sua propria empresa petrol ff era, projeto que foi frustrado pelo 
Codigo de M inas de 1934. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 25 

torn desse debate pode ser sentido no papel desempenhado por Monteiro 
Lobato. Alem de reputado escritor de livros infantis, Lobato foi um empresario 
frustado, que reagia com indignacao aos obstaculos criados pelas agendas 
govemamentais a seus esforcos para local izar jazidas de petrol eo com uma empresa 
privada. Estava convencido de que o Departamento estava associado com as grandes 
empresas petrolfferas norte-americanas para impedir que o Brasil se tornasse um 
produtor de petroleo, e buscou socios alemaes. Jesus Soares Pereira, um antigo 
defensor das polfticas nacionalistas do Departamento, concordava com Lobato em 
muitos pontos, mas defendia a posicao assumida pelo Departamento como uma defesa 
dos recursos nacionais, visando protege-los da exploracao predatoria estrangeira. 59 

tema tinha uma dimensao cientffica inevitavel. Havia ou nao petroleo no 
Brasil? O Departamento respondia que nao, com base na opiniao de dois especialistas 
contratados nos Estados Unidos, Victor Oppenheim e Mark C. M alamphy. 60 
Finalmente, o petroleo foi encontrado, mas nao na quantidade imaginada por 
M onteiro Lobato. 

debate se tornou mais diffcil porque o treinamento cientffico, como o 
proporcionado pela Escola de Minas de Ouro Preto, nao habilitava os geologos do 
novo Departamento a empreender uma pesquisa geologica de alta qualidade. Quando 
Viktor Leinz chegou da Alemanha, em 1934, para trabalhar na secao de petrografia do 
Departamento, que acabara de ser criada, a convite de Djalma Guimaraes, o clima que 
ele encontrou era estimulante, mas nao muito profissional. A biblioteca da Escola era 
deficiente, e dedicada exclusivamente a livros franceses, ignorando os textos alemaes 
e ingleses. Leinz caracteriza a Escola deOuro Preto na epoca como "polivalente": 

"Treinava engenheiros de todos os tipos. A geologia representava, natural mente, so 
uma pequena faceta do ensino, e por isso o tratamento geologico era limitado. Havia ali 



59 Monteiro Lobato "acusava o governo de nao ser capaz de descobrir petroleo. Ate 
certo ponto isso nao era surpreendente, pois o equipamento disponfvel no Ministerio da 
Agricultura era deficiente. O problema nao consistia apenas em falta de recursos mas na forma 
de administrar esses recursos, e esse tipo de crftica era perfeitamente justificavel." M as o 
governo nao concordava com a solucao proposta por Lobato, que consistia em abrir os recursos 
do pafs aos interesses privados. O pensamento predominante no Departamento era que "o 
governo precisava enfrentar o problema do petroleo no Brasil em uma escala adequada aos 
meios disponfveis no pafs" (Pereira 1975:35), o que significava que se o governo nao podia 
extrair o petroleo e controlar essa industria, ninguem mais deveria faze-lo. 

60 M onteiro Lobato questionava as qualificacoes de Oppenheim e M alamphy em termos 
eticos (supostamente eles teriam oferecido servicos de consultoria internacional sobre o 
petroleo brasileiro durante a vigencia do seu contrato com o Departamento), mas 
principal mente em termos profissionais. Lobato contestou as teses de Oppenheim mencionando 
o trabalho de outro geologo, Chester Washburne, contratado anteriormente pelo estado de Sao 
Paulo, que levantara serias duvidas sobre a validade cientffica da avaliacao de Oppenheim 
(Lobato 1936). 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 26 

engenheiros civis, de minas, metalurgicos. Era evidente que eles tinham pouco a 
oferecer no campo da geologia. So uns poucos podiam superar esse problema, 
amadoristicamente, ou seja, estudando por conta propria. Faltava a seus colegas uma 
base adequada de geologia ... Eles conheciam o Brasil mas nao sabiam muito sobre os 

problemas geologicos em geral. E possfvel que hoje a situacao seja melhor." 

Uma forma de melhorar o nfvel cientffico do Departamento era contratar 
cientistas estrangei ros, e Viktor Leinz pode ser considerado um exemplo notavel. A 
guerra na Europa forneceu muitos outros, inclusive o qufmico Fritz Feigl, de renome 
mundial, e o ffsico-qufmico Hans Zocker. "A certa altura so no laboratorio 
trabalhavam doze especialistas estrangeiros de alto nfvel", lembra Mario da Silva 
Pinto em sua entrevista: "Eram homens --- professores de universidades da Austria, 
Checoslovaquia, lugoslavia e Alemanha -- quetiveram muitos discfpulos e deixaram 
atras de si duzias, se nao centenas de contribuicoes, inclusive algumas de utilidade 
pratica". M as esse influxo de talento estrangei ro nao era suficiente para transformar o 
Departamento em base para uma tradicao autonoma deatividade cientffica. 62 

Sao Paulo assume a lideranca 

sucesso na ciencia aplicada foi em larga medida responsavel pela crise que 
atingiu a maior parte das instituicoes cientfficas e tecnologicas na capital brasileira 
nos anos 1920 e 1930, levando a concentracao progressiva da competencia nesses 
setores no estado de Sao Paulo, e mais tarde a criacao das primeiras instituicoes 
educacionais com uma atividade importante de pesquisa naquele estado. A ciencia 
aplicada passou a ser sustentada devido as suas realizacoes extraordinarias, mas o 
preco desse apoio era uma imagem diffcil de manter: a de que quase tudo podia ser 
resolvido com a ciencia, e que por isso os cientistas mereciam ter pleno apoio da 
sociedade. Era uma imagem diffcil de conciliar com a sustentacao das pesquisas 
cientfficas por longos perfodos, so esporadicamente produzindo resultados com 
aplicacoes sociais e economicas mais evidentes, ou entao levando a crenca de que so 
os proprios cientistas podiam avaliar a importancia do trabalho quefaziam. 



61 E ntrevi sta de V i ktor L ei nz. 

62 Durante a Segunda Guerra M undial foi assinado um acordo entre o Departamento, o 
US Bureau of Minas e o US Geological Survey pelo qual geologos norte-americanos vieram 
cartografar os recursos naturais estrategicos existentes no Brasil, repetindo assim o trabalho da 
velha Comissao Geologica Imperial. Esse regime de cooperacao durou cerca de vinte anos. Em 
1953, com Getulio Vargas novamente no poder, foi aprovada a lei da Petrobras, criando o 
monopolio estatal da producao e do refino do petroleo — consequencia direta das ideias 
geradas no departamento de Producao M ineral na decada de 1930. Com o tempo a Petrobras 
criou seus proprios sistemas de treinamento e pesquisa, e influenciou a instituicao de um 
programa de graduacao em engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mais 
importante do pafs, conhecido pela sigla COPPE (Nunes, Souza e Schwartzman 1982). 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 27 

Institute Oswaldo Cruz, em Manguinhos, etalvez o melhor exemplo do que 
acontecia em outras instituicoes, em maior ou menor escala. Depois do impacto inicial 
que provocou, o Institute de M anguinhos conseguiu manter uma posicao de prestfgio 
gracas a um corpo tecnico muito talentoso, a seus vfnculos com a comunidade 
cientffica internacional e a autonomia administrativa e financeira garantida pelo seu 
regulamento e pela venda de vacinas. Depois do seu impulso inicial, contudo, 
M anguinhos deixou de crescer e de renovar-se, e nao conseguiu preservar os padroes 
precedentes no trabalho cientffico realizado. Os salarios eram baixos, sua autonomia 
financeira foi limitada pela centralizacao burocratica e o criterio de estrita 
competencia usado para a admissao de pessoal comecou a ser abandonado. A medida 
que o Institute perdia sua grande visibilidade, deixando de se renovar, cresciam as 
disputas intemas, algumas de carater doutrinario. Cardoso Fontes, um positivista 
declarado, tinha um ponto de vista divergente sobre a natureza das doencas 
transmissfveis, e nesse ponto confrontava o grupo liderado por Oswaldo Cruz e Carlos 
Chagas. 63 

A lei de desacumulacao, que proibiu os servidores publicos de ter mais de um 
cargo, levou varios dos colaboradores mais importantes de M anguinhos a se demitir. 
Acrescentando a essas dificuldades havia a perda de autonomia financeira. No fim da 
decada de 1930 todo o Servico Publico Federal recai sob a autoridade central izada do 
DASP --- o Departamento Administrative do Servico Publico --- e o Institute passou 
a ser tratado como mais um orgao burocratico. Assim, Manguinhos deixou de 
acompanhar as novas formas detratamento das epidemias introduzidas nos anos 1930 
pela quimioterapia, e logo perdeu sua posicao de mais brilhante centra brasileiro de 
medicina sanitaria. 

Sao Paulo, que se estava tomando rapidamente o mais importante centra 
economico do pafs, conseguia atrair mais indivfduos talentosos do que o Rio de 



63 "Durante os ultimos anos de Chagas como diretor, e os primeiros anos do seu 
sucessor, Cardoso Fontes, foram admitidos em Manguinhos alguns cientistas que nao eram 
muito qualificados. Eram admissoes resultantes de lacos pessoais. Eu [Herman Lent] fui 
testemunha do infcio de um confronto, da construcao de um muro separando dois grupos: de 
um lado estavam os que nada faziam, embora houvesse muito para ser feito; de outro os que 
produziam, publicavam, trabalhavam, e lutavam duramente para conseguir os fundos que 
queriam. ... Creio que esse foi o infcio de uma luta interna e dos problemas que mais tarde se 
tornaram mais complexos, pela mesma razao: de um lado, pessoas com necessidade cada vez 
maior de recursos, enfrentando dificuldades crescentes; enquanto outras pessoas, que podiam 
estar trabalhando, nao o faziam com a intensidade necessaria, com a intensidade do primeiro 
grupo — e eram justamente os que tinham acesso a fundos, viagens, conveniencias e outras 
oportunidades, e ate mesmo a um segundo emprego fora do Instituto. Manguinhos tinha 
perdido seu antigo espfrito como um centra de trabalho de tempo integral" (entrevista de Lent). 
Outra fonte de antagonismo envolvia a distribuicao dos lucros da manqueira e de outras 
vacinas. O grupo chefiado informalmente por Cardoso Fontes defendia a distribuicao desses 
ganhos igualmente por todos os pesquisadores e cientistas, em vez de usa-los nas atividades do 
Instituto. 



Capftulo 4-0 auge e o declfnio da ciencia aplicada - 28 

J aneiro, e especial mente M anguinhos, conseguia reter. Tres instituicoes paulistas --- o 
Institute Biologico, o Institute Butanta e a Faculdade de M edicina --- suplementavam 
essa "fuga de cerebros" com polfticas destinadas a contratar especial istas estrangeiros 
ea utilizar outras formas de cooperacao intemacional. 

Otto Bier, Jose Reis, Martins Penha e outros, que tinham comecado em 
M anguinhos, foram recrutados pelo Institute Biologico de Sao Paulo por Artur Neiva 
e Rocha Lima, tambem naturais do Rio de Janeiro, e mais tarde juntou-se a eles 
M aurfcio Rocha e Silva. 64 Otto Bier confirma que 

" ... o Institute Biologico recrutava bacteriologistas e imunologistas mediante 
consultas com o Instituto Oswaldo Cruz, que no fim era a fonte dos cientistas ... que 
vinham preencher os primeiros postos no instituto irmao de Sao Paulo. O Instituto 
Oswaldo Cruz informava ao Instituto Biologico de Sao Paulo quais tinham sido os 
melhores estudantes do seu curso de treinamento nos ultimos tres anos. Foi assim que 
Adolfo M artins Penha, Jose Reis e eu fomos nomeados para cargos de bacteriologista e 

imunologista no Instituto Biologico de Sao Paulo." 

O mesmo sistema era seguido por outra instituicao paulista, o Instituto 
Butanta, que nasceu do laboratorio instalado por Adolfo Lutz para produzir uma 
vacina contra a peste bubonica. Dirigido por Vital Brasil desde 1901, o Butanta 
comecou a assumir a caracterfstica de um centra para pesquisas avancadas em areas 
pouco conhecidas como a difteria, o tetano e os antfdotos para venenos de cobra e 
escorpiao. 66 Afranio do Amaral, um jovem cientista treinado na Bahia com P i raj a da 
Silva, foi nomeado como o novo diretor, e nessa posicao passou um longo perfodo nos 
Estados U nidos em 1921. Amaral trabalhou na organizacao do Antiovenom Institute of 
America, nos Estados U nidos, e antes do seu regresso, em 1927, foi substitufdo no 
Butanta por Rudolph Klaus (ex-diretor do Instituto Bacteriologico de Buenos Aires) , 
e outra vez por V ital B rasi I . 



64 "Quando eu [Rocha e Silva] me graduei [1934-5], as coisas no Rio tinham parado ... 
A situacao para quern queria comecar uma carreira cientffica era muito diffcil. A unica 
possibilidade era ingressar em M anguinhos, com um salario de fome (caso se conseguisse 
algum salario) ou trabalhando sem receber pagamento. Os ricos podiam fazer isso, e ficavam" 
(entrevista de Silva). 

65 Entrevista deOtto Bier. 

66 Vital Brasil se formou no Brasil, e foram os seus estudos sobre antfdotos de venenos 
que o levaram a viajar ao exterior pela primeira vez em 1904, quando ja dirigia o Instituto 
Butanta. Tinha contatos estreitos com o grupo de M anguinhos, e sua permanencia como 
responsavel pelo Butanta pode ser vista como uma demonstracao de que as atividades 
cientfficas se tinham firmado em Sao Paulo, independentemente da obra pioneira de Adolfo 
Lutz. Vital Brasil continuou como diretor do Butanta ate 1919 , quando foi substitufdo 
brevemente por J oao Florencio Gomes, que tinha sido treinado no Instituto de M anguinhos. 
Depois de um conflito com o servico sanitario do estado de Sao Paulo, naquele mesmo ano, 
Vital Brasil e muitos dos cientistas do Butanta se transferiram para Niteroi, onde fundaram o 
que ehojeconhecido como Instituto Vital Brasil. 



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Ao retomar ao Instituto Butanta Afranio do Amaral criou uma nova area de 
especializacao: a bioqufmica dos venenos. Seu segundo termo como diretor (1927-38) 
foi marcado pelos esforcos feitos para transplantar a organizacao academica norte- 
americana e a tradicao cientffica alema. 67 Durante esse perfodo o Instituto abriu varias 
nova secoes, inclusive de fisico-qufmica experimental; qufmica experimental; 
genetica experimental e citoembriologia; fisiopatologia experimental com 
endocrinologia e farmacobiologia; imunologia experimental com terapia de soros; 
virologia e terapia viral; botanica medica com farmacognose (visando o cultivo e o 
estudo das plantas medicinais brasileiras); alem dos departamentos tradicionais de 
ofidiologia e zoologia medica, bacteriologia e bacterioterapia, imunologia; e terapia 
de soros, protozoologia e parasitologia. 68 Alem dos alemaes, outros cientistas vieram 
trabalhar no Instituto Butanta. Alguns deles, como Tales M artins e Lemos M onteiro, 
vieram diretamente de M anguinhos, ou pelo menos tinham passado algum tempo la. 
Quando foi criada a Universidade de Sao Paulo, em 1934, o Instituto foi vinculado a 
ela como uma instituicao associada. 69 

Desde a sua fundacao, em 1913, a Faculdade de M edicina de Sao Paulo contou 
com a participacao de professores estrangei ros, inclusive o parasitologista Emilio 
Brumpt e o anatomista italiano Alfonso Bovero. Arnaldo Vieira de Carvalho, 
fundador da Faculdade e seu primeiro diretor (cargo que ocupou ate morrer, em 1920) 
foi o promotor dessa dependencia de professores estrangei ros, preferencia que seria 
sentida de forma ainda mais intensa quando da criacao da Universidade de Sao 
Paulo. 70 JoseRibeiro do Vale recorda que nos anos 1920 tinha escolhido "a Faculdade 



67 Amaral tinha familiaridade com ambas. Eis como ele se refere a sua expert encia nos 
Estados Unidos: "O clima que encontrei em Harvard era muito semelhante — embora mais 
amplo, porque mais rico — ao que tinha deixado em Oxford, onde passara algum tempo antes 
... Podia ver que em Harvard tomaria contato com o que precisava estudar de perto com mais 
urgencia. ... Nos Estados Unidos a bioqufmica era desenvolvida por grandes especialistas 
norte-americanos que sabiam alemao e tinham estudado em livros alemaes, como eu. Tinham 
feito cursos de especializacao na Alemanha, onde ficara provado que a pesquisa e a base do 
progresso e que dela dependem as realizacoes economicas ... As nacoes que nao seguiram essa 
orientacao fracassaram repeti damente" (entrevista de Amaral). A presenca alema era evidente 
na lista de cientistas que Amaral trouxe do exterior para trabalhar no Instituto: Karl Heinrich 
Slotta, Gerhard Szyska, Klaus A. Neisser (um qufmico experiente), Gertrud von Ubisch 
(especialista em genetica experimental) e Dionisius von Klobusitzky e Paul Konig (fisico- 
qufmica experimental). 

68 Amaral 1958:387. 

69 As ambicoes de Amaral levariam muito tempo para serem realizadas. No fim da 
decada de 1930 aumentou a interferencia polftica no Instituto, e os cientistas estrangei ros foram 
afastados ou isolados; alguns decidiram partir, desestimulados pela falta de um clima propfcio a 
investigacao cientffica. Entre 1938 e 1954 houve muitas mudancas na direcao do Instituto, que 
teve mais de vinte diretores. 

70 Filho de uma famflia prestigiosa, Arnaldo Vieira de Carvalho tinha estudado na 
Faculdade de M edicina do Rio de J aneiro, onde se formou em 1889, e em 1897, aos trinta anos 



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de Sao Paulo, relativamente nova e nao muito preferida ... Os futuros medicos 
normalmente decidem formar-se no Rio de Janeiro, ate mesmo estudantes de Sao 
Paulo. Os estudantes de M inas Gerais, por exemplo, tendem a inscrever-se no Rio, ... 
porque querem ter a oportunidade de estudar com o ilustre M iguel Couto e outros 
grandes nomes da medicina brasileira." 71 

Assim, a ciencia brasileira se encontrou diante de um paradoxo. O Rio de 
Janeiro oferecia um ambiente cientffico limitado mas prestigioso, onde as grandes 
questoes filosoficas, economicas e polfticas eram ventiladas e debatidas. Sao Paulo, 
em contraste, era muito mais provinciana, um lugar onde as coisas estavam apenas 
comecando, e gozava de menos visibilidade e reconhecimento. No entanto, a riqueza 
do estado significava que as suas instituicoes ofereciam aos pesquisadores os 
melhores empregos. Por outro lado, o Rio de Janeiro testemunhava o nascimento de 
uma ideologia que valorizava muito a atividade cientffica na universidade, e da 
racionalidade do seculo vinte, que se desenvolvia independentemente de qualquer 
relacao direta com o trabalho cientffico profissional, no sentido estrito. Dentro desse 
novo clima o grupo de M anguinhos tinha um papel importante a desempenhar, porem 
ainda mais importante era a Escola Politecnica, fonte da forca motivadora por tras da 
cena intelectual e cultural do Brasil nos anos 1920 e 1930. Combinados, M anguinhos 
e Politecnica tiveram uma funcao crucial no amplo movimento em favor da criacao de 
uma universidade genufna --- projeto que surpreendentemente so se materializaria em 
Sao Paulo. 

A concentracao de recursos institucionais e financeiros em Sao Paulo e no Rio 
de Janeiro inibia projetos semelhantes em outras regioes. Os melhores estudantes da 
Bahia, do Nordeste, de M inas Gerais e do Rio Grande do Sul --- os que podiam faze- 
lo --- iam estudar naquelas duas cidades, e normalmente nao retornavam aos estados 
de origem. Mas essa concentracao nao foi absoluta, e ocorreu uma excecao em um 
polo regional importante: M inas Gerais. 

A tradicao intelectual de Minas Gerais remonta ao perfodo da producao de 
ouro no estado, no seculo dezoito, quando famflias afluentes enviavam seus filhos 
para estudar na Europa. 72 M esmo depois de terminado o ciclo do ouro, M inas Gerais 



de idade, se tornara diretor do quadro clfnico do hospital publico do Rio, a Santa Casa de 
M isericordia. M uito antes disso Carvalho havia obtido uma posicao de prestfgio e lideranca em 
Sao Paulo, devido especialmente ao seu trabalho como diretor do Instituto Vacinogenico, na 
epoca em que foi criado (1892). 

71 Entrevista de Vale. 

72 Frieiro 1982. 



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continuou a ser um centro demografico, cultural e polftico importante. Ate o fim do 
seculo dezoito o seu papel de lideranca so foi eclipsado pela presenca da corte 
portuguesa no Rio dej aneiro. 

Embora o declfnio da mineracao de ouro e a imposicao de uma economia de 
subsistencia forcasse um movimento rumo as zonas rurais, a populacao mineira era 
desde o princfpio em grande parte urbana, e a elite urbana fez o possfvel para 
desenvolver a cultura. A Escola de M inas de Ouro Preto foi instalada com a intencao 
original de formar especialistas em mineracao, mas durante o perfodo republicano 
tornou-se gradualmente uma escola de engenharia, sob a protecao do governo 
estadual. O infcio do perfodo republicano viu tambem a criacao de escolas de direito 
(1892), de medicina e engenharia (1911). Foram fundadas tambem algumas escolas 
secundarias prestigiosas, tanto catolicas (como o Colegio Arnaldo) como publicas (o 
Liceu de Ouro Preto, por exemplo, e mais tarde o Ginasio Mineiro, que seguiu o 
modelo do reputado Colegio Pedro II do Rio dej aneiro). 

A I em disso, Belo Horizonte atrafa os cariocas por uma razao aparentemente 
pouco plausfvel: o tratamento da tuberculose. Marques Lisboa, Borges da Costa, 
Almeida Cunha, Hugo Werneck, Ezequiel Dias --- todos eles medicos e graduados de 
Manguinhos --- eram tuberculosos, e trocaram o clima umido e pouco saudavel do 
Rio de Janeiro pelas montanhas de Minas Gerais, levando consigo seu acervo de 
educacao, sua experiencia de trabalho e os contatos pessoais. Ezequiel Dias, por 
exemplo, era aparentado com Oswaldo Cruz, e a abertura de uma filial do Institute de 
M anguinhos em M inas Gerais parece ter sido principalmente uma forma de prolongar 
a sua vida sem interromper a sua carreira de pesquisador. A Faculdade de M edicina 
de Belo Horizonte se beneficiaria com a experiencia trazida do Rio por esse grupo, 73 
que a fazia funcionar com a colaboracao de J. Baeta Viana, conhecido pelos seus 
estudos sobre o bocio, fundador de uma atividade local de pesquisa no campo da 
qufmica fisiologica. 74 



73 A Faculdade de Medicina tinha sido criada originalmente como uma instituicao 
privada, pelo medico Cfcero Ferreira, relacionado com a famflia de Carlos Chagas e originario 
da mesma cidade, Oliveira. 

74 Beneficiario de uma bolsa de estudo da Fundacao Rockefeller em 1924, Baeta Viana 
viajou para os Estados Unidos onde trabalhou em Yale e Harvard com Otto Folin e L. B. 
M endel, voltando para a Universidade de M inas Gerais como uma figura central no campo da 
pesquisa bioqufmica. Outro nome importante em Minas Gerais no campo da qufmica foi 
Francisco de Paula M agalhaes Gomes, que depois de completar o curso secundario no Liceu de 
Ouro Preto, estudou na Escola de Farmacia daquela cidade e graduou-seem medicina no Rio de 
J aneiro, tendo sido colega deturma de Oswaldo Cruz. De volta a Belo Horizonte, foi o primeiro 
professor de qufmica da Faculdade de Medicina, conhecida pelo seu padrao elevado. Outra 
personalidade muito conhecida em Minas Gerais era Carlos Pinheiro Chagas, o primeiro 



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Alem do seu trabalho notavel de desenvolver e produzir antfdotos contra 
veneno de escorpioes e serpentes, o Institute Ezequiel Dias era urn verdadeiro centra 
intelectual na vida academica de Belo Horizonte. Os pesquisadores do Institute 
mantinham contato estreito com Manguinhos, enviando muitos dos seus graduados 
para o Rio de Janeiro. 75 O Institute dispunha de uma boa biblioteca, e toda quinta- 
feira havia uma apresentacao de trabalhos de importancia, debatidos com a presenca 
de professores da Faculdade de M edicina nao ligados diretamente a entidade. No fim 
da decada de 1930 o Institute Ezequiel Dias foi assumido pelo governo estadual: a 
ideia era dar maior enfase aos aspectos industrials dos seus trabalhos, para ajudar a 
financiar a atividade de pesquisa. Alguns anos depois, porem, no regime de Getulio 
Vargas, com o governo do estado sob intervencao federal, Benedito Valadares, o 
govemador nomeado, decidiu transformar o Institute em um estabelecimento 
puramente industrial, para a producao de vacinas e antfdotos, e as atividades de 
pesquisa foram proibidas. 76 

Outra contribuicao importante foi a do Institute de Qufmica que havia na 
escola de Engenharia de M inas Gerais. 77 O Institute servia como base para as 
atividades dos servicos mineralogicos federal eestadual noterritorio mineiro. 



brasileiro a receber uma bolsa da Fundacao Rockefeller, em 1915. Nao deixa de ser 
significativo que ele era tambem um parentede Carlos Chagas. 

75 Os tecnicos do Institute inclufam Aurora Neves, bacteriologista e micologista; M elo 
Campos, especialista em cobras e escorpioes; Otavio M agalhaes, que sucedeu Ezequiel Dias na 
direcao do Instituto; e o jovem Amflcar Viana Martins, queingressou na organizacao em 1924, 
com apenas dezessete anos de idade. 

76 "Benedito Valadares nomeou um primo como diretor admini strati vo do Instituto, o 
Dr. Antonio Valadares Bahia, um medico completamente desconhecido de Papagaio do 
Pitangui, que tinha o costume de dizer que preferia cortar lenha a ler um livro. Em 
consequencia, Otavio M agalhaes pediu demissao e como centra de pesquisa o Instituto deixou 
de existir" (entrevista de M artins). 

77 O Instituto de Qufmica era dirigido por Alfred Schaeffer, nascido na Alemanha, que 
tinha um doutorado em qufmica pela Universidade de M unique, sob a orientacao de Adolph 
von Bayer. A despeito do predomfnio da influencia norte-americana na obra de Viana, Leal 
Prado acredita ser possfvel dizer, referindo-se a Schaeffer, que "embora remota, a influencia 
alema sobre Baeta Viana e ate mesmo alguns dos seus estudantes (Anfbal Teotonio Batista, 
Ageo Pinto Sobrinho e outros) ajudou a instalar no departamento uma atitude de precisao com 
respeito aos metodos e instrumentos utilizados" (L. Prado 1975). 

78 J untamente com os qufmicos, varios engenheiros de minas (a maioria deles formados 
em Ouro Preto) organizaram o que ficou conhecido como o "Laboratorio da rua Bahia 52". 
Esse grupo, que inclufa Djalma Guimaraes, Otavio Barbosa, Sebastiao Virgflio Ferreira, Olinto 
Vieira Pereira e Manuel Pimentel de Godoi, foi responsavel pela criacao do Instituto de 
Tecnologia Industrial de M inas Gerais, fundado em 1944 e mais tarde transformado no Centra 
deTecnologia do estado (Instituto de Tecnologia Industrial 1958). 



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Ex-alunos da Escola de M inas de Ouro Preto foram responsaveis tambem pelo 
surgimento de outras instituicoes educacionais importantes, como a Escola de 
Engenharia de Itajuba e o que e hoje a Universidade Federal de Vicosa, um 
importante centra de pesquisa e estudos agncolas. As escolas de direito, engenharia e 
medicina constitufram a base para a criacao da Universidade de M inas Gerais, em 
1927. 

Depois disso, M inas Gerais continuou a ser um lugar onde os estudantes 
podiam iniciar sua formacao, e manter contato com pessoas e instituicoes que 
procuravam manter os mesmos padroes da atividade cientffica que estava sendo 
realizada em Sao Paulo e no Rio dej aneiro. Em sua maioria esses estudantes vinham 
de uma pequena elite defamili as proprietarias de terras, e eimpossfvel destrincar suas 
ligacoes familiares, intelectuais e cientfficas. Eram enviados para estudar medicina ou 
engenharia em Belo Horizonte e muitas vezes suas carreiras prosseguiam no Rio de 
J aneiro ou em Sao Paulo. A capacidade que tinha M inas Gerais de mante-los na sua 
regiao ou de recrutar novos talentos em outros estados era muito limitada, e o mesmo 
se pode dizer de outros centros regionais como Recife ou o Rio Grande do Sul. Quase 
sempre as instituicoes academicas ou de pesquisa dos estados serviam principalmente 
como um campo de formacao eselecao para as principais cidades do pais. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 

Simon Schwartzman 



capitulo 10 

EPILOGO 

Pujanca e Decadencia 1 

Polftica: do Governo M ilitar ao Civil 3 

Educacao Superior de massas 6 

Tecnologia e Economia 10 

O Demonio 12 



Pujanca e Decadencia 

As cidades no Novo M undo, escreveu Claude Levi-Strauss, em suas 
memorias sobre Sao Paulo nos anos 30\ passam da pujanca a decadencia ser jamais 
ter amadurecido. Ele poderia ter retirado essa afirmacao quando de sua volta a cidade 
em 1985, por ocasiao do quinquagesimo aniversario da Universidade de Sao Paulo. 
Como uma das maiores e mais movimentadas cidades do mundo, Sao Paulo nao 
pareceter evolufdo como ele imaginara, quando veio para a inauguracao da Faculdade 
de Filosofia, projeto no qual nao parece ter posto muita fe. E, no entanto, ele tinha 
provavelmente razao, num sentido mais prof undo e inesperado. 

A criacao de novas universidades, a busca da excelencia, a organizacao de 
programas de pesquisa, o impulso pela independencia tecnologica, a preocupacao com 
a apli cacao pratica do conhecimento cientffico para satisfazer necessidades 
economicas e sociais --- tudo isso sugere um ambiente de vigor, juventude e 
dinamismo que sempre estiveram presentes na crescente comunidade cientffica no 
Brasil, desde Bonifacio de Andrada. A maturidade, contudo, nao decorre 



1 Le/i-Strauss 1955, capftulo inicial sobre Sao Paulo. 



Capftulo 10: Epflogo - 2 

natural mente da juventude, do mesmo modo como a realidade nao resulta facilmente 
de desejos e ideologia. 

Ha muito mais ciencia e tecnologia no Brasil de hoje do que ha apenas vinte 
anos; mas tambem e verdade que urn espaco para a ciencia, em termos de papeis 
cientfficos socialmente definidos, aceitos e institucionalizados, e ainda escasso. 
Quando muito, ha ilhas de competencia, nichos em que a ciencia pode desenvolver-se 
durante algum tempo, mas sempre de modo precario, e ameacada por um ambiente 
pouco amistoso. 2 Na vida social, uma institucionalizacao falha resulta com mais 
frequencia na decrepitude do que na maturidade. A decadencia acontece quando os 
fundadores de instituicoes cientfficas envelhecem e se revelam incapazes de abrir 
espaco para novas ideias, novas geracoes e novas liderancas; quando ambiciosos 
projetos de reforma social, como os movimentos cientfficos do passado, sao 
gradual mente transformados em mal disfarcadas ideologias voltadas para a protecao 
de interesses acanhados; quando a educacao perde o seu papel original de catalisador 
de oportunidades e de expansor de nfveis de competencia, para tornar-se um 
mecanismo perpetuador da desigualdade e dos privilegios sociais. A passagem da 
pujanca para a decadencia constitui um fenomeno ambfguo e geralmente diffcil de 
perceber, uma vez que nada muda — as pessoas, as instituicoes, os seus discursos --, 
exceto o seu contato com a realidade e seu envelhecimento prematura. 

A questao crucial no tocante a comunidade cientffica brasileira reside em saber 
se ela esta realmente voltada para a maturidade ou se, ao contrario, a desoladora 
predicao de Levi-Strauss vai tornar-se verdadeira. No momento em que sao escritas 
estas linhas, esta muito presente na sociedade brasileira o fantasma do ocaso 
prematura, num contexto de crise economica aguda e ordem institucional abalada, 
numa sociedade caracterizada pelo entrincheiramento de grupos de interesse e 
ausencia de consenso sobre valores basicos. Tal situacao afeta a comunidade 
cientffica, do mesmo modo como abala todos os setores organizados no pafs. Torna- 
se muito diffcil, embora necessario, tentar perceber se o presente mal-estar que afeta a 
comunidade cientffica e devido a fatores circunstanciais e extemos --- tais como a 
crise da dfvida publica e a instabilidade polftica gerada pela transicao para a 
democracia --- ou setem natureza mais estrutural e, portanto, menos possibilidades de 
desaparecer com o tempo. 

As incertezas do momento presente dramatizam o fato de que, em que pesem 
as realizacoes da ciencia brasileira nos ultimos cinquenta anos, o lugar da mesma na 
sociedade ainda esta muito longe de ser reconhecido. J a vimos como, no passado, a 



J. B. A. Oliveira 1984. 



Capftulo 10: Epflogo - 3 

ciencia somente floresceu quando esteve sob a protecao dos poderosos (fossem eles o 
Imperador Pedro II ou o M inistro do Planejamento, Reis Velloso) ou sendo exercida 
sob o manto de tecnologia aplicada, como no Instituto Manguinhos; ou em 
instituicoes atfpicas, como a Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Sao 
Paulo. De 1945 a 1964, ultimo perfodo em que o Brasil gozou de um sistema polftico 
aberto, a comunidade cientffica era demasiado pequena para ter uma presenca 
socialmente significativa, tanto assim que sua principal realizacao institucional da 
epoca, a criacao do Conselho Nacional de Pesquisas, constituiu na realidade o 
resultado de um projeto de desenvolvimento nuclear extremamente elitista e frustrado. 

Os cientistas brasileiros sempre perceberam que eram tenues os vfnculos que 
os ligavam a sociedade em geral, motivo por que muitas vezes recorreram a caminhos 
paralelos, nos campos da polftica, educacao e economia. Quase todos, inclusive 
muitos dos mais brilhantes, buscaram a participacao polftica fora de seus laboratories, 
ora tomando parte em movimentos pela reforma da universidade, ora buscando 
manter-se ocupados no exerefcio de temas aplicados. Num regime polftico aberto, e 
provavel que essas tendencias venham a reaparecer e intensificar-se. Para concluir 
este percurso atraves da formacao da comunidade cientfficas no Brasil, podemos 
examinar rapidamente esses contextos mais amplos, tais como se apresentam hoje. 

Polftica: do G overno M ilitar ao C ivil 

Os cientistas polfticos ainda discutem hoje os motivos pelos quais os militares 
deixaram o poder em 1985, em favor do governo civil, e continuam a especular sobre 
as consequencias mais amplas desse tipo peculiar de transicao. A transicao para o 
governo civil sempre fez parte, desde o comeco, dos propositos declarados da elite 
militar brasileira, o grupo de oficiais de alta patente que veio a ser conhecido como a 
"Sorbonne". Eles entendiam que tinham uma missao a cumprir, a modernizacao do 
pafs, apos o que deveria seguir-se um perfodo de "lenta, gradual e segura" transicao 
para a democracia. M as, o que na realidade aconteceu pode ser melhor definido como 
um exemplo de recuo estrategico em uma situacao de derrota. Alguns de seus 
ambiciosos projetos vieram a frutificar. Foi o caso, tipicamente, daqueles 
empreendimentos que se localizaram em sftios isolados, foram contemplados com 
fortes i nvesti mentos, baseados em tecnologias reconhecidas e muitas vezes ligados a 
poderosos grupos de interesse, tais como a usina hidreletrica de Itaipu, no Sul; o 
complexo mineral de Carajas, no Norte; o desenvolvimento de uma industria de 
equipamento militar, para exportacao; o programa do alcool, para motores de 
combustao interna; e o projeto militar de enriquecimento de uranio. Alguns desses 
projetos podem ser questionaveis — em termos dos seus custos, do impacto ambiental 
por eles exercido ou mera questao de moral idade --- mas, pelo menos, eles existem. 
De qualquer modo, constituem excecoes. A parti r de 1978 --- a medida que se 



Capftulo 10: Epflogo - 4 

reduzia a disponibilidade de emprestimos estrangeiros, que subia as alturas o preco do 
petroleo importado, e que se estreitava a base polftica do regime militar ---, entraram 
em colapso quase todos os grandes projetos dos anos anteriores, tais como o programa 
deenergia nuclear, a chamada estrada de aco em M inas Gerais, as grandes estradas de 
rodagem (transamazonica e Rio-Santos), os comecos de uma industria naval brasileira 
e, de modo particular, todas as promessas de renovacao urbana, assistencia social para 
os pobres, modernizacao e reforma rurais. 

V imos como a ciencia brasileira tambem cresceu na esteira da decada de 1970. 
Em termos de producao cientffica, tal como refletida no Science Citation Index, o 
Brasil ocupava em 1973 o trigesimo-primeiro lugar no globo, e o quarto, no Terceiro 
M undo, com cerca de 0,25 por cento dos artigos publicados em todo o mundo. Em 
1978, o Brasil ja havia atingido o segundo lugar no Terceiro M undo, apos a India, e o 
vigesimo-quinto, no ambito mundial. O numero de artigos publicados na literatura 
internacional se elevou de 812 (em 1973) para 1.060 (em 1978) e 1.551 (em 1980). 
Isso correspondeu a um aumento significativo em termos nacionais e regionais, mas 
pouco representa em termos de peso internacional. Reproduziu-se no Brasil o model o 
de concentracao da producao cientffica predominante no cenario internacional,. 
Somente cinco instituicoes --- Universidade de Sao Paulo, Universidade do Rio de 
J aneiro, U niversidade de Campinas, Universidade Estadual J ulio de M esquita (em Sao 
Paulo) e a Escola Paulista de M edicina --- produziram em 1982 cerca de 43 por cento 
de todos os artigos, livros e comunicacoes cientificas pesquisados pela capes; 43,6 
por cento de todos os artigos de brasileiros publicados em revistas especial izadas 
internacionais; e 70 por cento de todos os artigos brasileiros listados no Science 
Citation Index para o perfodo 1973-78. 3 Apos o perfodo de expansao, passou-se com 
a ciencia algo semelhante ao ocorrido no Brasil como um todo: muitas realizacoes 
significativas, muitos projetos e interrompidos e uma incerteza general izada sobre o 
future Tenta-se geralmente justificar a falencia do "grande salto para a frente" do 
regime militar mediante o recurso a uma serie de circunstancias infelizes. Segundo a 
explicacao tfpica, o Brasil teve azar mais uma vez, vftima que foi do aumento no 
preco do petroleo, das elevadas taxas de juros e da queda das cotacoes internacionais 
de seus produtos basicos de exportacao [commodities]. Costuma-se culpar ainda os 
militares, acusados de se terem mostrado toscos e autoritarios, e de nao terem acatado 
os conselhos e a direcao indicada pelos cientistas. A falta de um regime polftico 
aberto impediu o escrutfnio publico sobre o grau de eficiencia e a justeza de 
propositos com queeram despendidos os recursos publicos. 



3 C. de M . Castro 1986 a ; M orel e M orel 1977; Garfield 1983. 



Capftulo 10: Epflogo - 5 

A medida que crescia a oposicao ao regime militar, elevavam-se as esperancas 
com relacao ao futuro governo civil: o novo regime seria aberto e satisfaria as 
necessidades do povo, nao se submeteria aos caprichos do Fundo Monetario 
Internacional, liquidaria de imediato os projetos puramente militares e tec noc rati cos, 
colocaria os orgaos de ciencia e tecnologia sob o controle da comunidade cientffica, e 
criaria condicoes para uma reforma autentica das universidades brasileiras. Os 
cientistas brasileiras sempre aspiraram por um M inisterio de Ciencia e Tecnologia, 
razao por quefoi criado um tal ministerio. Aqueles engajados no teatro, no cinema ou 
nas artes dramaticas e musicais reclamavam da falta de apoio para as atividades 
culturais --- e tiveram tambem o seu ministro. Como todos criticavam os militares 
por haver deteriorado as universidades, criou-se uma comissao nacional para decidir 
sobre o que estava precisando ser reparado. O novo regime seria livre para todos, e 
ninguem seria exclufdo. 

Com a perspectiva do tempo, tornou-se claro que a criacao de um M inisterio 
de Ciencia e Tecnologia --- bem como declaracoes ocasionais de autoridades publicas 
sobre seus compromissos com a ciencia, tecnologia e educacao superior --- nao 
constitufram fatores suficientes para assegurar a comunidade cientffica brasileira todo 

espaco, reconhecimento e apoio que ela esperava receber do novo regime. O recem- 
criado M inisterio nao trouxe qualquer contribuicao que resultasse em mudanca 
significativa desse quadra. Em termos de orientacao, e no que diz respeito a muitas 
de sua principais figuras, o novo ministerio buscou atuar como o portador dos velhos 
ideais de planejamento da ciencia, nacionalismo tecnologico e auto-suficiencia. M as o 
fato e que ele nasceu muito fraco e se limitou a reunir sob sua egide somente 
entidades ja existentes, tais como o Conselho Nacional de Desenvolvimento 
Cientifico e Tecnologico e a finep, aos quais foi agregada a Secretaria Especial de 

1 nformatica. A maior parte de seus recursos foi destinada a atividades como pesquisa 
espacial, ciencia de computacao e biotecnologia. 4 Permaneceram fora de seu campo 
de acao a pesquisa nuclear, agricultura, tecnologia industrial, pesquisa militar e 
pesquisa em universidades. A criacao do ministerio foi vista como uma concessao 
polftica do governo a alguns setores do pmdb e a comunidade cientffica. Alem do 
mais, a cisao que existia no passado entre, de um lado, as polfticas ou decisoes 
tecnologicas e, de outro, as economicas, reproduzia-se agora, num contexto de maior 
isolamento e de menores recursos, se comparados aos do perfodo da gestao de Reis 
Velloso como M inistro de Planejamento. 

Os principais tracos do governo do Presidente J ose Sarney foram sua carencia 
total de quaisquer projetos ou compromissos de longo prazo (exceto no que diz 



M inisterio de Ciencia e Tecnologia 1985. 



Capftulo 10: Epflogo - 6 

respeito a sua propria sobrevi vend a, como resultado de acomodacoes polfticas), bem 
como sua extrema suscetibilidade a pressoes de grupos de interesses organizados e 
vocais. E, o que nos parece hoje mais relevante: vemos agora muito claramente que 
uma atmosfera de maior esclarecimento, inerente a um regime polftico aberto, nao 
conduz necessariamente a um enfoque igualmente progressista em materia de ciencia, 
tecnologia e educacao. A abertura em relacao a grupos de interesse e a opiniao 
publica e evidentemente um caracterfstica desejavel em qualquer democracia, mas o 
fato e que ela cria problemas especiais para uma comunidade cientffica nao afeita a 
lutar por seu proprio espaco. E natural portanto que, nas circunstancias acima 
descritas, os grupos cientfficos se tenham aproximado dos partidos polfticos e tentado 
inserir nos programas e projetos destes uma avaliacao e reconhecimento adequados de 
seu trabalho. Com isso, corre-se o risco de superpolitizacao da vida cientffica, com a 
predominancia de criterios polfticos e ideologicos em detrimento de julgamentos de 
competencia cientffica e intelectual na lideranca da comunidade cientffica. 

E ducagao Superior de massas 

J a vimos que a ciencia no Brasil se desenvolveu principalmente em torno de 
algumas poucas instituicoes academicas. A despeito da enfase dada a tecnologia nos 
ultimos vinte anos, a maioria dos trabalhos de pesquisa existentes hoje e realizada nas 
melhores universidades e centros academicos do Brasil. Recentes eventos, contudo, 
sugerem que esse espaco, conquistado com dificuldade ao longo de algumas decadas, 
ainda se revel a muito pouco seguro. 

Na decada de 1970, a educacao superior no Brasil afastou-se cada vez mais do 
"modelo unico" de pesquisa, ensino e extensao prescrito na reforma de 1968. Em 
1985, ela tornou-se um sistema muito amplo, complexo e altamente diferenciado, de 
acordo com as seguintes caracterfsticas principals: 5 

Uma pequena elite de cerca de 14.000 professores universitarios com grau de 
doutorado ou tftulos equivalentes (por vezes chamada de "alto clero" da educacao 
brasileira) e cerca de 40.000 estudantes inscritos em programas de mestrado ou 
doutorado nas melhores universidades publicas, a maior parte das quais na parte sul 
do pafs. Os professores contam com salarios razoaveis e podem complementar a sua 
remuneracao com bolsas, verbas para pesquisas e melhores condicoes de trabalho 
(apesar dos recursos declinantes na decada de 1980). Os estudantes sao selecionados 
dentre os melhores que se graduam nas universidades publicas, nao pagam o custo do 
ensino e recebem bolsas para dois ou mais anos. 



Schwartzman 1988a 



Capftulo 10: Epflogo - 7 

Cerca de 45.000 professores em tempo integral, com nfvel academica 
relativamente baixo (grupo por vezes chamado de "baixo clero"), atendendo a algo 
como 450.000 estudantes em universidades publicas e gratuitas, em todo o territorio 
nacional. Contratados inicialmente em base provisoria, com dispensa de 
procedimentos ou avaliacoes formais, muitos desses professores acabaram 
conseguindo estabilidade no cargo e podem ser promovidos por antiguidade ao nfvel 
de professor-assistente. Os cursos e instalacoes apresentam nfvel de qualidade muito 
irregular, estando os melhores localizados na regiao Centro-Sul, e concentrados nas 
profissoes tradicionais. Os piores constituem as universidades publicas no Nordeste. 
Os membros do corpo docente exercem suas atividades quase sempre em regime de 
tempo integral (ou pelo menos sao remunerados nessa base), e raramente contam com 
algo mais do que urn diploma de bacharel. Os estudantes tern acesso a restaurantes 
praticamente gratuitos e a algumas outras facilidades, embora so raramente Ihes seja 
fornecido o alojamento. Sao escassas as instalacoes ffsicas, materials de pesquisa, 
laboratories e material de ensino. Os alunos provem geralmente das melhores escolas 
secundarias particulares --- o que significa que eles se originam de famflias de classe 
media ou alta --- e frequentemente se submetem a cursos preparatories, intensivos e 
de pouca duracao, a fim de preparar-se para o exame de admissao a universidade, o 
chamado vestibular. Esses cursos sao mantidos por empresas educacionais privadas, 
voltadas para o lucro. Encontram-se fora de qualquer tipo de supervisao 
govemamental e tendem a ser muito eficientes relativamente a seus propositus. 
Gracas a emprestimos concedidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, 
muitas das universidades federais construfram novas instalacoes nas periferias das 
cidades em que estavam situadas. Foram limitadas as provisoes destinadas a 
habitacao, uma vez que o governo receava a concentracao excessiva de estudantes. 
De qualquer modo, o Brasil nao conta com a tradicao e os recursos necessarios para a 
transferencia de estudantes, em grande escala, para outras localidades. Hoje, a 
maioria desses campi sao objeto de manutencao deficiente e se mostram inadequados 
para o uso normal. Todos os que podem, buscam permanecer nas suas velhas sedes, 
em zonas urbanas centrais. Na medida em que se expandem as oportunidades de 
educacao, os estudantes passam a enfrentar problemas de desemprego cada vez mais 
serios, nao obstante a qualidade relativa desua educacao. 

Por volta de 60.000 professores que se responsabilizam por cerca 600.000 
estudantes em instituicoes particulares. Em sua grande maioria, esses professores 
trabalham em regime de tempo parcial; nao se acham bem qualificados e, para 
sobreviver, tern de assumir uma pesada carga de aulas em varias entidades, ou uma 
combinacao de empregos. Alguns sao nomeados para cargos de tempo integral em 
universidades publicas, mas tern tambem um segundo emprego em escolas 
particulares, onde as aulas sao dadas normal mente a noite. Estes professores nao sao 
organizados como os do setor publico. As mensalidades das faculdades privadas sao 



Capftulo 10: Epflogo - 8 

baixas e controladas pelo govemo, embora os estudam mal possam paga-las. Sao 
mfnimas ou nao existentes as instalacoes e materials de ensino. Os estudantes tendem 
a ser mais pobres e mais velhos que nas entidades publicas; e os cursos se dao 
sobretudo nas areas nao tecnicas. A maioria dos estudantes ja tern uma ocupacao, 
geralmente um emprego de escritorio ou de classe media, e consideram a educacao 
como um meio de melhorar sua colocacao ou alcancar uma promocao no trabalho, 
motivo por que estao geralmente mais interessados nas credenciais do que na 
aquisicao de conhecimento ou novas aptidoes. 

Existe um profundo desequilfbrio regional que estabelece um contraste entre 
os estados sulinos, e mais especificamente o estado de Sao Paulo, e o resto do pais. 
Sao Paulo eo estado mais importantee mais industrializado, compreendendo cerca de 
um quinto da populacao nacional e um terco do total de matrfculas do pafs em nfvel 
de graduacao. Esta e tambem a regiao onde se desenvolveu mais plenamente a 
natureza dupla da educacao superior no Brasil. Proporcionalmente, ha menos 
matrfculas em universidades publicas do que em outras regioes, mas as universidades 
estaduais sao melhores do que no resto do pafs, ao mesmo tempo que o setor privado 
e muito mais complexo e diferenciado do que em qualquer outra parte. Ha somente 
tres instituicoes federais em Sao Paulo, a saber, uma pequena universidade na cidade 
de Sao Carlos, a Escola Paulista de Medicina e o Institute Tecnologico da 
Aeronautica, em Sao J ose dos Campos. E grande o contraste entre isto e a regiao mais 
pobre do pafs, o Nordeste, onde mais de 70 por cento dos estudantes sao matriculados 
em universidades federais, cujos padroes academicos sao geralmente mais baixos do 
que os do Sul. 

Em 1985, o novo govemo criou uma comissao nacional com a incumbencia de 
tracar recomendacoes para uma nova reforma das instituicoes de ensino superior. As 
sugestoes da comissao inclufam o estabelecimento de nfveis mais elevados de 
diferenciacao, autonomia e sentimento de responsabilidade entre as instituicoes 
publicas; apoio publico a escolas e universidades particulares de alta qualidade; 
introducao de novas modalidades de educacao publica para estudantes mais velhos ou 
ja empregados; amparo mais decidido a pesquisa cientffica, numa base competitiva, 
parti ndo do M inisterio da Educacao. 

Essas recomendacoes jamais foram postas em vigor, sobretudo devido a 
oposicao das associates de professores. A preocupacao com a autonomia efetiva 
para as universidades, associada a responsabilidade pelos resultados e maior 
qualidade, e compartida pelos segmentos mais academicos das instituicoes de 
educacao superior, que sentem estar perdendo terreno num ambiente universitario 
cada vez mais sindicalizado e politizado. Contudo, esses grupos tambem podem 
buscar apoio em outras areas --- em orgaos de apoio financeiro a pesquisas ou no 



Capftulo 10: Epflogo - 9 

setor privado ---, motivo por que nao consumam levar longe demais sua demanda por 
melhoria academica. Em contraste, o chamado "baixo clero" e funcionarios nas 
instituicoes publicas nao tern como buscar apoio e recursos em outras partes. Suas 
qualificacoes profissionais nao sao de modo geral suficientes para permitir-lhes 
transf eri r-se com facilidade para empregos similares no setor privado; eles nao tern 
como angariar recursos adicionais mediante projetos de pesquisas; e frequentemente 
se encontram em regioes onde ha poucas oportunidades de conseguir empregos de 
classe media. Bern organizados e politizados, estes setores tern conseguido fazer com 
que o governo I he assegure estabilidade no trabalho, promocoes baseadas no criterio 
de antiguidade e escalas de salario fixas e homogeneas. 

Este cenario sinaliza a ameaca de uma "latinoamericanizacao" das 
universidades federais brasileiras, com a consequente alienacao de seus setores mais 
competentes e a progressiva politizacao de sua vida cotidiana. Pode haver uma 
tendencia no sentido de uma baixa contfnua nos criterios de admissao e disseminacao 
de cursos noturnos nas instituicoes publicas, seguida pela migracao da populacao mais 
rica e melhor educada em direcao as entidades privadas. O dinheiro destinado a 
pesquisa pode seguir o mesmo caminho ou manter-se concentrado em instituicoes 
governamentais nao ligadas a universidade. 

A expansao do ensino superior num sistema de massas altamente estratificado 
acarreta tensoes e dificuldades adicionais para a comunidade cientffica. Os salarios 
relativamente altos, as facilidades de viagens ao exterior, o uso do idioma ingles para 
publicacoes, a preferencia dada a pesquisa em detrimento do ensino, e a escolha de 
temas de pesquisa que sejam intelectualmente atraentes e prestigiosos (e nao, uteis e 
praticos) — todos esses aspectos sao vistos pelos proprios interessados como 
privilegios injustificaveis que reforcam a imagem de elitismo dos cientistas, ajudando 
a manter os atuais modelos de desequilfbrio regional, subdesenvolvimento e 
dependencia economica. Estes sentimentos de inadequacao e desigualdade social 
somam-se as dificuldades de manter uma vida cientffica de exito profissional num 
meio ambiente tao desfavoravel. Esta combinacao de fatores, como seria de esperar, 
leva muitas vezes a tentativas frustradas de abandonar de todo o cometimento a 
ciencia moderna e rumar em direcao a caminhos diferentes. Nao seria possfvel 
encontrar uma ciencia que esteja mais proxima dos pobres, expressa de modo e numa 
linguagem que todos possam compreender? Nao deverfamos estar distribuindo os 
recursos destinados a pesquisa de um modo mais equanime e equilibrado 
regional mente, ao inves de estarmos seguindo os sempre questionaveis padroes de 
merito? N ao deveriam os cientistas abandonar os jogos intelectuais dos ricos e buscar 
conhecimentos quesejas obviamente uteis e praticos? 



Capftulo 10: Epflogo - 10 

Tecnologia e E conomia 

Nos pafses desenvolvidos, a maior parte dos recursos destinados a pesquisa 
cientffica e tecnologica e gasta em atividades aplicadas. Nos pafses em 
desenvolvimento, parece dar-se o oposto. 6 Os pianos brasileiros para ciencia e 
tecnologia, bem como o comportamento das agendas de ciencia e tecnologia no 
correr do tempo, revelam uma tentativa de aproximar-se dos padroes de gastos dos 
pafses desenvolvidos. Ate o momento, nao existe qualquer evidencia clara de que 
tenham trazido beneffcios substanciais esses esforcos para criar conhecimento 
aplicado e leva-lo a industria. As empresas industrials brasileiras, tanto publicas 
como privadas, tern mostrado muito pouco interesse em pesquisa original e 
desenvolvimento. O padrao brasileiro de crescimento economico tern sempre 
enfatizado a liberdade para a entrada de capital, de empresas e tecnologias 
estrangei ras. Em vista dessa situacao, parece-nos razoavel questionar se nao estao 
sendo desperdicados todos esses esforcos para desenvolver uma tecnologia indigena. 

Um dos pressupostos implfcitos em muitos i nvesti mentos em areas de 
tecnologia nos assegura que, se e possfvel obter bons produtos ou processos, estes 
deverao, de algum modo, revelar-se beneficos social ou economicamente. Ora, a 
experiencia parece mostrar-nos que nem sempre e isso o que acontece. A pesquisa 
tecnologica, quando realizada nos confins de uma universidade ou instituto de 
pesquisa, consiste numa operacao relativamente barata e sem maiores consequencias. 
J a a adocao de um produto no mercado constitui algo muitfssimo diferente, que requer 
investimentos bem mais elevados e consideracao atenta das condicoes do mercado, 
subjacentes ou previsfveis. Contudo, a presenca de tecnicos competentes e um arsenal 
de equipamentos adequados podem abrir alternativas que talvez, sem eles, nao 
existissem. O reforco dos quadras de pessoal cientifico e tecnologico nas 
universidades poderia levar a criacao de pontes institucionais entre a industria e os 
centres academicos de pesquisa, os quais sempre podem melhorar as reservas de um 
pais em materia de trabalhadores educados, o que constitui de per si um ativo bem 
importante. 

As razoes por tras dos esforcos em busca de uma tecnologia autoctone sao 
muito mais do que simplesmente economicas, pois incluem consideracoes como o 
orgulho nacional, a geracao de empregos para tecnologos, desenvolvimento de 
habilidades e de confianca tecnologica, criacao de demanda para fomecedores de 
pecas, e o reforco de setores na burocracia publica. 7 Motivos polfticos aumentam o 



6 Moravcsik 1975:108. 

7 Erber 1977. 



Capftulo 10: Epflogo - 11 

desejo de manter dentro das fronteiras do pais todos os aspectos da tecnologia que sao 
importantes para a seguranca e independencia nacional --- inclusive comunicacoes, 
energia, producao de computadores e equipamento militar. As consideracoes de 
ordem economicas sao geralmente indiretas e de longo prazo: baseiam-se na 
expectativa de que, no final das contas, os custos com o licenciamento tecnologico 
serao mais elevados do que os gastos para assegurar a auto-suficiencia tecnologica. 

Essas consideracoes sociais e polfticas tern como base a visao de que os 
mecanismos do mercado nao podem levar um pafs subdesenvolvido a um estado de 
desenvolvimento economico satisfatorio e de justica social. As empresas estrangeiras 
que operam em economias subdesenvolvidas geralmente chegam com as suas 
tecnologias ja completamente desenvolvidas e treinam seus operarios somente em 
procedimentos rotineiros de operacao e manutencao. As firmas locais preferem 
comprar fora maquinas e procedimentos bem testados, que de modo geral incluem 
contratos prevendo substituicao de pecas e assistencia tecnica. A tecnologia 
importada tambem e geralmente poupadora de mao de obra, alem do que pode 
produzir bens sofisticados para as classes mais abastadas, deixando grandes setores da 
populacao desabastecidos. 

Nao ha solucoes obvias para esses problemas. Polfticas que visam a auto- 
suficiencia tecnologica podem facilmente provocar um ou mais dos seguintes 
resultados: surgimento de industrias ineficientes; manutencao de atividades de 
pesquisas caras, improdutivas e de baixa qualidade; crescimento de burocracias 
onerosas e lentas. 8 A ineficiencia do estado, em contraste com a racionalidade 
economica das empresas privadas, e frequentemente citada como a principal 
causadora das dificuldades inerentes a projetos de auto-suficiencia tecnologica em 
pafses como o Brasil e a India, em oposicao aos exitos obtidos em economias 
orientadas para o mercado, como e o caso da Coreia do Sul ou Formosa. Estes, 
contudo, sao exemplos nftidos de estados fortes, altamente central izados, que dispoem 
de poderes muito mais amplos do que as extensas, amorfas e contraditorias 
burocracias estatais dos primeiros, e que criaram polfticas abrangentes, nas quais a 
tecnologia e promovida, nao se orientando por um mercado livre, mas tendo em plena 
consideracao suas implicates de mercado e de longo prazo. 9 Alem do mais, esses 
pafses puderam contar com uma reserva de operarios educados e disci pi inados, que 
nao existe naquelas outras sociedades. 



8 Wade 1985; Bauer 1977. 

9 Nau 1986:14. 



Capftulo 10: Epflogo - 12 

O Demonio 

Esta conclusao incerta, ao final de um longo panorama dos esforcos para 
construir um espaco efetivo para a ciencia no Brasil, faz-nos questionar o valor 
efetivo de todo este impulse E, nao obstante, e a propria existencia deste esforgo e 
sua constante renovacao, no correr dos anos --- mais do que um esporadico sucesso ou 
fracasso de projetos e empreendimentos espeefficos — que cria o espaco para a 
esperanca. 

Iniciei este trabal ho com o mito de Sfsifo e bem poderia termina-lo recorrendo 
a uma imagem semelhante. A fim de conquistar seu espaco, a pesquisa cientffica tern 
que fazer valer seu merito proprio, independentemente de suas implicates e 
consequencias mais amplas para as instituicoes educacionais, tecnologicas e 
economicas do Brasil. Este merito e de natureza etica, moral, e esta associado a um 
valor central condicao humana nas sociedades contemporaneas, que e o do 
conhecimento. Em ultima anal ise, nao se trata de saber se a ciencia eacessfvel ou nao 
acessfvel ao povo, se e util ou nao para a tecnologia, se pertinente ou nao para o 
orgulho e sentimento de grandeza nacionais. O que importa e construir um consenso, 
pelo menos entre um numero significativo de pessoas, de que o Brasil deve tornar-se 
um pafs moderno e participar dos destinos comuns de nosso tempo, a parti r de esforco 
sistematico de auto-esclarecimento e auto-conhecimento, em um mundo cada vez 
mais racionalizado. Toda a historia da comunidade cientffica no Brasil nos mostra 
que, a despeito de todas as dificuldades, existe hoje no pais um grupo crescente e 
consideravel de pessoas comprometidas com esses valores, o que constitui razao para 
otimismo. 

compromisso com a expansao do conhecimento e da competencia humana e 
em ultima anal ise uma escolha por encarar o mundo de f rente, a parti r de um 
julgamento de valor que nao pode ser demonstrado ou refutado pela sua utilidade 
pratica ou consequencias de curto prazo --- mesmo que acreditemos, como eo nosso 
caso, que essas consequencias podem ter grande importancia para todos nos. Na 
conclusao de sua celebre conferencia sobre a "Ciencia como Vocacao", de 1918, 
M ax Weber nos diz que o destino de nossos tempos se caracteriza pela racionalizacao, 
intelectualizacao e, sobretudo, pelo "desencantamento do mundo". Este 
desencantamento e descrito como o fim das grandes profecias, da arte monumental, 
das grandes religioes - aquilo que, muitos anos depois, seria referido como o "fim da 
ideologia". Nao e uma opcao facil, diz ele, e, para as pessoas que nao conseguem 
suportar o destino dos tempos como um homem, resta sempre o consolo e a 
compaixao das antigas religioes. Estas religioes sao moralmente superiores, 
prossegue, a profecia academica e cientffica, que ignora que a unica virtude que conta 
no mundo academico e, simplesmente, a integridade intelectual. E e esta integridade 



Capftulo 10: Epflogo - 13 

que o leva a afirmar que, para os que ainda buscam a ilusao de novos profetas e 
salvadores, cabe lembrar a passagem bfblica do vigia notumo dos tempos do exflio, 
do livro de Isafas: 

Alguem me chama do pafs de Edon e diz: guarda, quanta falta para terminar a noite? O 
guarda responde: a manna vai chegar, mas a noite voltara outra vez. Se quiser 
perguntar de novo, volte e pergunte. 1 

As pessoas para as quais isto foi dito, conclui Weber, tinham perguntado e 
ansiado por uma resposta por mais de dois mil anos, e ficamos chocados quando 
entendemos seu destine A I igao que tiramos disto e que nada podemos ganhar 
somente por desejar e ansiar, e, por isto, devemos agir de outra forma. Devemos 
trabalhar e enfrentar as demandas de cada dia, nas relacoes humanas e no exerefcio 
de nossa vocacao. Isto nao etao diffcil assim, no entanto, se conseguimos encontrar e 
obedecer ao demonio que sustem as fibras de nossa vida. 10 



1 Isafas 21:10 A Bfblia Sagrada, Traducao na linguagem de Hoje, Sociedade Bfblica do 
Brasil, Sao Paulo, p. 787. 

10 Weber 1958:156. 



UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



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UM ESPACO PARA A CIENCIA 

formacao da comunidade clentjfica no brasil 
Simon Schwartzman 



Apendice 
Lista de Entrevistas 

Os cientistas listados neste anexo foram entrevistados para o projeto da FINEP sobre a 
historia social da ciencia no Brasil, que foi a base para este livro. A maioria dos textos das 
entrevistas esta disponfvel no Centra de Pesquisa e Documentagao em H istoria Contemporanea 
do Brasil da Fundagao Getulio Vargas no Rio de Janeiro. As entrevistas nao relacionadas ao 
projeto da FIN EP estao listadas no fim desta apendice como "Outras Entrevistas". 

Ab'Saber, Aziz Nacib. Geografo. Graduado da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras, da 
U niversidade de Sao Paulo, Professor de geografia ffsica na mesma universidade. 

Amaral, Afranio. (1894-1982). Especialista em saude publica e medicina tropical. Diretor do 
Instituto Butanta no perfodo de 1928 a 1935. 

Beck, Guido (1903-1989). Ffsico. Nascido na Austria, trabalhou em Viena, Leipzig, e na 
Inglaterra no Cavandish Laboratory na Cambridge University, dentre outros pafses. 
Trabalhou no National Astronomic Observatory em Cordoba, Argentina, entre 1943 e 
1951, e desde entao no Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas no Rio dej aneiro. 

Bier, Otto G. (1906). M icrobiologista. Trabalhou no Instituto Biologico, no Instituto Butanta e 
na Escola Paulista de M edicina. 

Braga, Ernani (1913-1984). Especialista em medicina sanitaria pelo o Instituto Oswaldo Cruz. 
Medico Doutor pela Universidade do Brasil (1935). Diretor Geral do Departamento 
Nacional de Saude em 1954. Diretor da Divisao de Recursos Humanos da Organizagao 
M undial de Saude (1967-1973). Professor e treinador em varias atividades no campo da 
saude publica. 

Brieger, Friedrich Gustav (1900). Geneticista. Nascido na Alemanha, detem o tftulo de doutor 
pela University of Breslau. Veio para o Brasil em 1936 para ensinar genetica na Escola 
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em Piracicaba. 

Castro, Almir (1910). Especialista em saude publica. Diretor da Campanha de A perf ei coamento 
de Pessoal de N fvel Superior (CAPES) entre 1954 e 1964. Vice-reitor da Universidade 
de Brasflia com Anfsio Teixeira. 

Chagas Filho, Carlos (1910). Bioffsico. Pesquisador no Instituto Oswaldo Cruz desde 1935. 
Fundador do Instituto de Bioffsica da Universidade Federal do Rio dej aneiro. 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 2 

Coimbra, Alberto Lufs (1923). Engenheiro Qufmico. Fundador e primeiro diretor da 
Coordenagao de Programas de Pos-Graduagao em Engenharia (COPPE), Rio dej aneiro. 

Cordeiro, Antonio (1923). Geneticista. Estudou com Dobzhansky na Columbia University. 
Trabalhou na Universidade de Brasflia, Universidade do Rio Grande do Sul emaistarde 
na Universidade Federal do Rio de J aneiro. 

Costa Neto, Claudio. Engenheiro Qufmico. Trabalhou na Universidade Federal do Rio de 
Janeiro. Foi assistente de Fritz Feigl no Laboratorio da Produgao Mineral no Rio de 
Janeiro. 

D amy de Souza Santos, M arcelo (1914). Ffsico. Foi diretor do Instituto de Energia Atomica em 
Sao Paulo e presidenteda Comissao Nacional de Energia Nuclear. 

Danon, Jacques (1924-1989). Ffsico. Estudou com Irene J oliot-Curie no Radium Institute em 
Paris. Pesquisador no Centra Brasileiro de Pesquisas Ffsicas no Rio dej aneiro. 

Dias, Mario Ulysses Viana (1914). Fisiologista. Trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz com 
Miguel Osorio de Almeida. Professor da Universidade Federal Fluminense no Rio de 
Janeiro. 

Djerassi, Carl (1923). Especialista em qufmica de produtos naturais pela Universidade de 
Stanford. Nos anos 50 desenvolveu uma serie de projetos integrados com o Instituto de 
Qufmica Agrfcola no Rio de Janeiro. Entre 1969 e 1976 presidiu o programa de 
cooperagao cientffica entre a American Academy of Sciences e o Conselho Nacional de 
Pesquisas. 

Duarte, Paulo (1899-1984). Advogado e Escritor. Parti cipou da criagao da U niversidade de Sao 
Paulo. 

Ferreira, Jorge Leal (1928). Ffsico. Graduado pela Universidade de Sao Paulo. M embro do 
Instituto de FfsicaTeorica. 

Ferreira, Paulo Leal (1925). Ffsico. Graduado pela Universidade de Sao Paulo. Fundador do 
Instituto de FfsicaTeorica. 

Ferreira, Ricardo de Carvalho (1928). Professor de qufmica na Universidade Federal de 
Pernambuco. 

Fonseca, Olfmpio Ribeiro da (1895-1978). Parasitologista do Instituto Oswaldo Cruz, e seu 
diretor entre 1949 e 1953. Trabalhou com as campanhas sanitarias da Fundagao 
Rockefeller no Brasil nos anos 10. 

Gama, Lelio (1892-1981). Astronomo e Matematico. Trabalhou no Observatorio do Rio de 
Janeiro desde 1917 e foi seu diretor em 1951. Dirigiu o Instituto de M atematica Pura e 
Aplicada do Rio dej aneiro. 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 3 

Giesbrecht, Ernesto (1921). Nascido no Parana. Estudou na Universidade de Sao Paulo e foi 
assistente de Heinrich Rheinboldt. Foi vice-diretor e diretor do departamento de qufmica 
da U niversidade de Sao Paulo de 1970 a 1978. 

Goldemberg, Jose (1928). Ffsico Nuclear. Graduado pela Universidade de Sao Paulo. 
Trabalhou com Marcelo Damy. Professor da USP. Reitor da Universidade entre 1986 e 
1989. Secretario de Educacao do Estado de Sao Paulo em 1990, M inistro da Ciencia e 
Tecnologia desde marco de 1990. 

Gomes, Francisco Magalhaes (1906). Engenheiro. Nascido em Ouro Preto e graduado pela 
Escola de M inas. Tornou-se o primeiro diretor do Instituto de Pesquisas Radioativas de 
Belo Horizonteem 1954. 

Gottlieb, Otto (1920). Pesquisador na qufmica de produtos naturais. Trabalhou no Instituto de 
Qufmica Agrfcola do Rio de Janeiro entre 1955 e 1963 e em varias universidades do 
B rasi I . 

Gross, Bernhard (1905). Nasceu em Stuttgart, chegou ao Brasil em 1933. Trabalhou no 
Instituto nacional de Tecnologia no Rio dej aneiro e mais tarde na Universidade de Sao 
Carlos. 

Jacob, Gerhard (1930). Ffsico. Nasceu em Hanover, Alemanha. Estudou ffsica ematematica na 
Universidade do Rio Grande do Sul. Em 1956 trabalhou no Instituto de Energia Atomica 
da Universidade de Sao Paulo. Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
desde 1988, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientffico e 
Tecnologico desde marco de 1990. 

Kerr, Warwick Estevam (1922). Agronomo e geneticista. Graduado pela Escola Superior de 
Agronomia Luiz de Queiroz. Diretor do Instituto de Pesquisas da Amazonia de 1975 a 
1977. 

Lattes, Cesare (1924). Ffsico. Estudante e assistente de Gleb Wataghin em Sao Paulo. 
Trabalhou com Cecil Powell e Giuseppe Occhialini na University of Bristol na Inglaterra 
em 1946. Trabalhou no Lawrence Radiation Laboratory em Berkeley. Fundou o Centra 
Brasileiro de Pesquisas Ffsicas no Rio dej aneiro em 1949. 

Leinz, Viktor (1924). Geologo. Nascido na Alemanha. Veio para o Brasil em 1935 para 
trabalhar no Departamento Nacional da Producao M ineral no Rio dej aneiro. 

Leite, Rogerio Cerqueira (1931). Ffsico. Graduado pelo Instituto Tecnologico da Aeronautica. 
Pesquisador da Bell Laboratories. Diretor do departamento de ffsica da Universidade de 
Campinas entre 1970 e 1975. 

Lent, Herman (1911). M edico, helmintologista. Trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz de 1932 
ateser exilado politicamente entre 1970 e 1976. Retornou ao Brasil em 1976. 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 4 

Leonardos, Othon Henry (1899-1977). Geologo. Graduado pela Escola Politecnica do Rio de 
Janeiro. Fundador e diretor da Escola Nacional de Geologia no Rio dej aneiro de 1958 a 
1963. 

Lopes, Hugo de Souza (1909-1991). Entomologista. Estudou com Lauro Travassos. Trabalhou 
no Institute Oswaldo Cruz entre 1938 e 1970, quando foi forcado a deixar o governo 
militar. Depois foi professor na Escola Superior de Agricultura e M edicina Veterinaria 
no Rio de J aneiro. 

Lopes, J oseLeite (1918). Ffsico. Estudou com Lufs Freire e mais tarde na Universidade de Sao 
Paulo. Fez seu doutorado com Pauli em Princeton. Fundador do Centro Brasileiro de 
Pesquisas Ffsicas no Rio de Janeiro. Comandou o Departament of Nuclear Physics em 
Strasbourg enquanto estava no exflio ate 1979. 

M artins, Amflcar Viana (1907-1990). Parasitologista. Dirigiu o Institute Nacional deEndemias 
Rurais entre 1956 e 1958. Organizou o Institute deCiencias Biologicas da Universidade 
de M inas Gerais. 

M ascarenhas, Sergio. Ffsico. Estudou com Joaquim Costa Ribeiro no Rio de J aneiro. Trabalha 
no Institute de Ffsica eQufmica de Sao Carlos, Universidade de Sao Paulo. 

Mathias, Simao (1908). Qufmico. Foi assistente de Heinrich Rheinboldt. Fez carreira na 
UniversidadedeSao Paulo. 

M eyer, J oao Alberto (1925). Nasceu na Polonia, chegou no Brasil depois da 2 § Guerra M undial. 
Trabalhou a maior parte de sua carreira na Europa, vindo para a Universidade de Sao 
Paulo e Campinas, periodicamente. 

Miller, Harry, Jr. (1895). Parasitologista. Nascido nos Estados Unidos. Trabalhou para a 
Fundagao Rockefeller na Europa entre 1932 e 1941. De 1941 a 1956 coordenou o 
programa da fundagao medica e de ciencia natural na America Latina. 

M ingoia, Quintino (1902). Farmacologista. Nascido na Italia, veio para o Brasil em 1934 para 
trabalhar em um laboraterio particular. Depois de 1945, ensinou na Faculdade de 
Farmacia e Odontologia da U niversidade de Sao Paulo. 

M iranda, M aury (1930). Biologista M olecular, Institute de Bioffsica do Rio dej aneiro. 

Monteiro, Hugo Jorge (1938). Farmacologista. Estudou com Carl Djerassi na Stanford 
University. Trabalhou no Centro de Pesquisa de Produtos Naturais, Universidade Federal 
do Rio dej aneiro. 

Moreira, Manuel Frota. Fisiologista. Trabalhou no Institute de Bioffsica no Rio de Janeiro. 
Diretor cientffi co do Consel ho Nacional de Pesquisas ate 1975. 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 5 

M ors, Walter Baptista (1920). Qufmico. Estudou na Universidade de Sao Paulo. Trabalhou no 
Instituto Agronomico do Norte em 1943 e no Institute de Qufmica Agrfcola de 1948 a 
1964. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Paraense, Wladimir Lobato (1914). Biologo. Organizou o Servico Especial de Grandes 
Endemias do Instituto Oswaldo Cruz em 1939. Biologo do Instituto entre 1945 e 1972. 

Pavan, Crodovaldo (1919). Geneticista. Foi assistente de Rene Dreyfus e trabalhou com 
Dobzhansky em Sao Paulo e na Columbia University. Foi presidente da Sociedade 
Brasileira para o Progresso da Ciencia, Fundagao de Amparo a Pesquisa de Sao Paulo, e 
do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientffico eTecnologico de 1986 a 1990. 

Penha, Adolfo Martins (1904-1980). Biologo animal. Trabalhou no Instituto Biologico deSao 
Paulo. 

Pimenta, Alufsio (1923). Farmacologista. Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais de 
1964 a 1967. 

Pinto, M ario da Silva (1907). Engenheiro e geologo. Trabalhou no Departamento Nacional da 
Produgao M ineral no Rio dej aneiro entre 1933 e 1951. 

Pompeia, Paulus A. (1911). Ffsico. Universidade de Sao Paulo. Organizou o departamento de 
ffsica do Instituto Tecnologico da Aeronautica. 

Porto, Sergio (1926-1977). Ffsico. Ensinou no Instituto Tecnologico da Aeronautica. Trabalhou 
no Bell Laboratories. Coordenou os institutos de pesquisa da Universidade de Campinas. 

Reis, Jose (1907). Bacteriologi sta. Trabalhou no Instituto Biologico de Sao Paulo. Fundadorda 
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciencia e editor de Ciencia eCultura. 

Rezende, Sergio M achado (1940). Ffsico. Ph.D. pelo Massachusetts Institute of Technology. 
Fundador da Universidade Federal de Sao Carlos. 

Ribeiro, Darcy (1922). Antropologo. Graduado pela Escola de Sociologia e Polftica de Sao 
Paulo. Fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasflia. 

Sala, Oscar (1922). Ffsico. Foi assistente de Gleb Wataghin. Diretor do acelerador eletrostatico 
da Universidade de Sao Paulo. Presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da 
Ciencia. 

Salmeron, Roberto. Ffsico. Graduado em engenharia pela Escola Politecnica de Sao Paulo. 
Coordenador dos institutos cientfficos da Universidade de Brasflia entre 1961 e 1965. 

Salzano, Francisco M auro (1928). Geneticista. Estudou com Antonio Cordeiro no Rio Grande 
do Sul. M ais tarde trabalhou com Dobzhansky e Pavan. 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 6 

Sawaya, Paulo (1904). Zoologo. Estudou com Alfonso Bovero. Fez carreira na Universidade de 
Sao Paulo. 

Schenberg, Mario (1914-1990). Ffsico. Estudou com Gleb Wataghin e trabalhou com Fermi, 
Pauli, e Gamov. Diretor do departamento de ffsica da Universidade de Sao Paulo entre 
1953 e 1961. 

Senise, Pascoal Americo (1917). Graduado em qufmica pela Universidade de Sao Paulo em 
1942. Diretor do Instituto de Qufmica daquela Universidade ate 1970. 

Silva, Maurfcio Rocha e (1910-1983). Farmacologista. Trabalhou no Instituto Biologico de 
1943 a 1957. Fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciencia. 

Tiomno, J ayme (1920). Ffsico. Estudou com Gleb Wataghin e Mario Schenberg na 
Universidade de Sao Paulo e mais tarde em Princeton. Trabalhou na Universidade de 
Brasflia e na Universidade Catolica do Rio de J aneiro. 

Vale, Jose Ribeiro do. Farmacologista. Graduado pela Faculdade de Medicina em Sao Paulo. 
Trabalhou na Escola Paulista de M edicina ate sua aposentadoria, e organizou e dirigiu o 
departamento de bioqufmica e farmacologia. 

Vanzolini, Paulo Emflio (1923). Biologo. Ph.D. em Harvard University, Diretor do M useu de 
Zoologia da U niversidade de Sao Paulo. 

Vargas, Jose Israel (1928). Ffsico. Estudou na Universidade de Sao Paulo. Fez seu doutorado 
em Cambridge. Trabalhou entre 1965 e 1972 na University of Grenoblee depois disso na 
U niversidade Federal de M inas Gerais. 

Vaz, Zeferino (1908-1981). Parasitologista. Estudou com Lauro Travassos. Fundou e dirigiu a 
Escola de M edicina de Ribeirao Preto ea U niversidade de Campinas. 

Wladislaw, Blanka. Nascido na Polonia. Graduado em qufmica pela Universidade de Sao 
Paulo. Em 1971 tornou-se chefe do departamento de qufmica fundamental no instituto de 
qufmica da U niversidade de Sao Paulo. 



O utras entrevistas 

B evil aqua, Lufs, eGiulo Massarani, Sergio Neves Monteiro, Carlos A ugusto Perlingero, eLufs 
Pinguelli Rosa. Engenheiros. E ntrevi stados por M arcia B. de Melo Nunes e Nadja X. 
Souza para o estudo do programa de engenharia da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (COPPE), 1978 (Nunes, Souza & Schwartzman 1982). 

Montenegro, Casimiro. General Brigadeiro. Entrevistado para o Centra de Pesquisa e 
Documentacao em Historia Contemporanea do Brasil da Fundacao Getulio Vargas 



A pendi ce: L i sta de E ntrevi stas - 7 

(CPDOC) por Simon Schwartzman e Claudia Guimaraes, com a participacao de J ose 
Pelucio F errei ra, J ose I srael Vargas, eTecio Pacciti, 1988. 

Peixoto, Maurfcio M attos, e Elon Lages de Lima. Matematicos. Entrevistados porjoao Batista 
deOliveira em seu projeto sobrecarreiras cientfficas (J . B. A. Oliveira 1984). 

Wataghin, Gleb. Ffsico. Entrevistado por Cylon T. Goncalves, Instituto de Ffsica, Universidade 
de Campinas, 1976.